Thursday, November 24, 2005

frei betto

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paradise - birds - juan miguel giralt











Noite passada foi esta pequena estrofe que Frei Betto recitou durante o lançamento de seu livro "Treze contos diabólicos e um angélico" que ficou martelando minha cabecinha.
...

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Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais do que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

Ele estava falando sobre os místicos e comparou a paixão com o arrebatamento dos místicos como Santa Tereza D'Ávila e São João da Cruz. E da diferença - que na paixão, o objeto do arrebatamento está fora de nós, embora a gente sinta dentro, e no arrebatamento místico que leva os Santos a um colóquio com Deus, tudo está na mesma criatura. Encontrei o poema que ele citou, e achei muito belo, decidi copiar o poema inteiro.
Das duas vezes que encontrei Frei Betto foi puro acaso, se é que existe acaso. Eu me correspondia com ele, durante quase quatro anos, quando cheguei ao Fórum Social Mundial, em janeiro deste ano. Em meio à marcha de abertura, ao lado dos hare krishnas e de jovens da Venezuela, alguém me entregou um panfleto dizendo que no dia seguinte haveria um seminário com Frei Betto, em um Seminário no centro de Porto Alegre. Não estava na programação oficial. Se eu não apanhasse aquele papel, talvez não tivesse conhecido pessoalmente o Frei Dominicano e Escritor com quem eu me correspondia e que se tornou um amigo que guardo como um presente de Deus. Quando escrevi ao Frei Betto jamais imaginei que ele me responderia, mas, dá para saber se alguém é um escritor já nesta pequena experiência. Um escritor verdadeiro responde a uma carta. Frei Betto respondeu e iniciou a ponte, nem mesmo quando ele foi Assessor do Presidente Lula, ele deixou de encontrar uma brecha para me dizer olá, um dia ele me escreveu do avião entre Frankfurt e São Paulo, pois ele não tinha tempo na correria, nem para escrever seus livros, que foi a principal razão de sua saída do governo. Em Porto Alegre, foi como encontrar um velho amigo, conversar rapidamente com ele antes da palestra e ele me indicar os debates onde estaria, e acabei seguindo a trilha paralela da programação do Fórum Social. Voltei de Porto Alegre e virei a mais relapsa das amigas, nem mesmo um cartão de aniversário enviei ao Frei neste ano. Ele nasceu dia 25 de agosto, um dia depois de mim, quer dizer, onze anos antes, ele é do ano em que Deus estava inspirado – 1944 – ano em que nasceram Henfil, Leminski, Chico Buarque, Frei Betto...
Ontem eu liguei o meu rádio e ouvi – na 97,1 – rádio Educativa - que ele ia lançar seu novo livro no Teatro da Caixa Econômica. Fui lá, sem grana prá comprar o livro, mas, ele me presenteou com seu livro de capa vermelha. Um Frei que narra treze contos diabólicos - e um angélico. Comecei a ler, e estou amando. Maior mico pedir desculpas por nem ter mandado um cartão de aniversário, nem ter dado parabéns a ele pelo segundo lugar no Prêmio Jabuti deste ano com o livro de crônicas Típicos Tipos. Nem mesmo o poema que fiz para Frei Tito Alencar - Lamento do Álamo - que foi a primeira pessoa para quem eu pensei em mandar, e fiquei enrolando e não escrevi a carta, como se agora eu só soubesse usar o mouse, e como ando estranha e tão ligada neste mundo virtual a ponto de ler na embalagem do panetone, que eu adoro, mas, estava escrito lá – Chocottone Mousse- e eu li mouse, e depois reli e pensei que isto é grave, que estou vendo mouse até no supermercado.

Então, expliquei tudo para meu amigo e pensei em como tenho sido cruel com meus amigos, não respondi à carta iluminada que Pedro Carrano enviou de Chiapas, não dialogo mais com as pessoas sobre a luta que a gente acredita, a de um mundo melhor, e a poesia, por mais que eu ame estar mergulhada neste místico estado de amor com o poema, vai me desculpar, que meus amigos de hoje em diante vão ter um pouco mais da minha atenção.
Foi muito delicioso ouvir algumas coisas – que ainda não sabia – sobre como ele compôs alguns livros. Incluindo – Entre todos os homens – que é uma biografia de Jesus baseada nos Evangelhos, onde ele torna Deus realmente humano, um homem de vinte e oito anos que dança na festa de casamento onde ele fez o primeiro milagre, transformando a água em vinho, e, segundo Frei Betto, pela pesquisa minuciosa que realizou sobre todo o século I na Palestina, ele crê que Jesus e Maria Madalena viveram um amor afetuoso, mas, que não –transaram-
Ele crê no celibato de Cristo, diferente de Saramago e alguns cineastas. Penso que é possível que duas pessoas se unam em espírito apenas, por uma afinidade que pode se chamar amor. Foi uma noite especial, rever um amigo e me sentir muito especial com sua dedicatória.
“o diabo não merece a nossa fé, mas você merece a minha amizade”
Ando acreditando em demônios demais, e estão quase me convencendo que sou uma pessoa horrível. É preciso que um amigo distante chancele antigas palavras, que uma passeata por um mundo melhor ecoe, que as minhas dúvidas até mesmo sobre o amor que Frei Betto respondia, em cartões, me consolando, me fazendo acreditar que amar é mesmo uma coisa divina, incluindo este amor – homem/mulher –
como um arrebatamento qual aquele que nos une a Deus – A paixão:


NOITE ESCURA

São João da Cruz


Em uma Noite escura,
com ânsias em amores inflamada,
ó ditosa ventura!,
saí sem ser notada.

estando minha casa sossegada.
A ocultas, e segura,
pela secreta escada, disfarçada,
ó ditosa ventura!,
a ocultas, embuçada,
estando minha casa sossegada.


Em uma Noite ditosa,
tão em segredo que ninguém me via,
nem eu nenhuma cousa,
sem outra luz e guia
senão aquela que em meu seio ardia.
Só ela me guiava,
mais certa do que a luz do meio-dia,
adonde me esperava
quem eu mui bem sabia,
em parte onde ninguém aparecia.


Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais do que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

No meu peito florido,
que inteiro para ele se guardava,
quedou adormecido
do prazer que eu lhe dava,
e a brisa no alto cedro suspirava.


Da torre a brisa amena,
quando eu a seus cabelos revolvia,
com fina mão serena
a meu colo feria,
e todos meus sentidos suspendia.


Quedei-me e me olvidei,
E o rosto reclinei sobre o do Amado:
tudo cessou, me dei,
deixando meu cuidado
por entre as açucenas olvidado.
(tradução de Jorge de Sena)