Sunday, July 24, 2005

NA VARANDA DE FLORBELA




Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planicie, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

(Eugénio de Andrade)
Portugal.


Sunday, July 17, 2005

SEGUNDA MORTE



O pelotão avança, cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.

Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.

Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.
Bárbara Lia


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Em janeiro vivi uma emoção muito bela quando estive na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Agora o Sidnei Schneider, poeta de Porto Alegre, me conta que vai ler três poemas meus e três dele no Recital da Casa de Cultura Mário Quintana neste domingo. O poema acima, Transparência e Concha Rossa. Estas horas de cálida ternura é que ponteiam a minha estrada, a rota, a travessia. Meus poemas lidos no sul, ter os filhos mais tempo em casa por causa das férias. A felicidade é feita de milionésimos de segundos. Mano Melo terminou o poema - A moreninha- que escreveu para mim com uma frase tal qual esta...
"...a eternidade é feita de milionésimos de segundos"
Esta feliz eternidade destes milionésimos de segundos, que são a notícia do recital, os beijos a mais que tenho nas manhãs, já que o Thomas está de férias e a Tahiana acorda com cara de gatinha dengosa, e na noite eu tenho a companhia da Paula, que ri muito vendo tv e eu fico aqui do quarto ouvindo a gargalhada dela e pensando, em milionésimos de segundos que tenho desta eterna felicidade. De ser poeta - mãe e amiga de pessoas eternamente belas...


photo by Hartmuth Tobies

Friday, July 15, 2005

cinéfila - bom dia noite





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BOM DIA NOITE

Há alguns anos fui em uma tarde de domingo ao Cine Luz. Gratas surpresas e emoções vividas ali, e uma delas foi Juliette Binoche no filme – A Liberdade é Azul, de Kyalowski. Eu sai do cinema sob o impacto da arte de Juliette e ela passou a ser admirada por mim, bem antes do Oscar. Ontem eu sofri o mesmo impacto, no mesmo cine, diante de Maya Sansa. A atriz italiana que interpreta a guerrilheira Chiara do filme “ Bom dia noite”. Esquecendo o julgamento histórico e o drama do sequestro de Aldo Moro, o filme revela a arte de Maya, e a bela trama dirigida por Marco Bellocchio, choca. A semelhança do ator Roberto Herlitzka com Aldo Moro e a condução da história conseguem transformar a maratona densa de seqüestradores confinados, em um filme que merece ser visto. Acreditando ser recurso de cinema terem colocado uma tão bela atriz para interpretar Chiara, fui buscar os fatos, os mesmos que prendiam minha atenção diante do noticiário quando ocorreu o seqüestro de Aldo Moro. A militante mulher que era integrante da Brigada Vermelha – Ana Laura Braghetti – é o retrato de Maya Sansa. Foi ela que forneceu, na história real, a própria casa – via Montalcini 8 – para a prisão de Aldo Moro. O filme conta os 55 dias de confinamento de Aldo Moro, pela visão de Chiara (Anna Laura), baseado em depoimentos de Anna Laura, que conseguiu liberdade condicional em 2.002. Uma pequena burguesa, uma funcionária que saia ao trabalho, enquanto seus companheiros ficavam em casa com presidente da Democracia Cristã da Itália. Assassinado pelo grupo ao final de uma história que incluiu o Papa Paulo VI se propondo a se por de joelhos diante dos seqüestradores. Nenhuma reivindicação do grupo foi atendida, Aldo Moro - executado. Anna Laura Braghetti, uma mulher nascida em Roma, que tem apenas dois anos a mais que esta poeta, acreditava na luta do movimento que se envolveu – Brigate Rosse – Brigada Vermelha, que por um erro de tradução aparecia na legenda ora como BV, ora como BR. Como demonstra o filme, o livro que foi escrito por ela narra exatamente o que as telas tentaram mostrar - a passagem para o arrependimento diante da morte de Aldo Moro - Para mim revelou uma interpretação que relembrou Juliette Binoche, um olhar onde se pode ler inúmeras mensagens. Interpretar, sem dizer.
Bom Dia Noite, o título do filme faz referência a poema homônimo de Emily Dickinson :
Bom dia noite/Estou voltando a casa/O dia se cansou de mim/Como poderia eu dele.
- o livro - Il Prigioniero - escrito por Anna Laura Braghetti e a jornalista Paola Tavella, deu origem ao filme.

sereia alada




A gralha azul lava as asas no tanque de açucenas. O marajá de Yankipur espia os gestos da ave. Possui reinos, mas não possui o vôo. Só o ouro pesa nas mãos - ópio que engana. Admira as asas abertas azuis e pensa:
- Quero teu vôo!
A sereia na pedra sonha serem os negros cabelos - asas, e reclama:
- Não quero a úmida pedra e este canto que enfeitiça os habitantes das naus. Não quero raptá-los à lua, enamorados. - Quero asas!
Entre o marajá e a sereia, a gralha azul voeja e batiza o sonho de um deles com espumas de prata. O marajá olha insolente, mas, volta as costas ao milagre, preso ao peso do ouro, reclama:
- Quero asas!
Sonha raptar a sereia, adornar seu tanque de vidro e águas perfumadas. A sereia sorri e voa para longe das mãos ferinas, feliz por ter, no ritual da tarde, recebido asas azuis de vidro.

Bárbara Lia.
Ilustrado por Ane Fiuza

Thursday, July 14, 2005

Thomas Gabriel




A janela se fecha no coração
Magnético
Em que olhos puxam vitrais.

Olhos se fecham
Viúvas se matam
Caixas de música

Não tocam mais música
Apenas se fecham.


(Thomas Gabriel)

Thomas Gabriel - meu filho de 16 anos - escreveu este poema em
2.002 com 13 anos.

photo bu Milada Vigerova

Wednesday, July 13, 2005

Álvaro Alves de Farias




A primeira vez que Sylvia Plath
Se aproximou de mim
Trazia nas mãos um poema sem palavras
Com um beijo morto na boca
Ela beijou meus dentes
E se deitou comigo
Num beco sem saída.



(Álvaro Alves de Farias)
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Poeta paulista que me seduziu para sempre,
depois que li "O sermão do viaduto" e "lindas
mulheres mortas".


photo by Austin Ban


Friday, July 08, 2005

blocos portal de literatura e cultura




TRANSPARÊNCIA 
No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.
Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.
Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.
                                              Bárbara Lia
Do livro: “O sorriso de Leonardo”, Kafka edições baratas, 2004, PR


Há algumas semanas recebi um e-mail de Leila Míccolis dizendo
que eu estava entrando na lista dos mais de oito mil poetas que
tem lá no Blocos Online... ela solicitou poemas e estão lá no blocos
online, no endereço abaixo.


http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=2823&flag=nacional


Thursday, July 07, 2005

guizoz ao sol




Escaravelho solar. Tua presença
ilumina – bonsais sorriem.
Manhãs desgarradas seguem
antigas rotas.


Coiote silencioso
sussurrando segredos aos grãos de areia.
No futuro todo o Universo saberá
das belezas – Guizos ao sol.


Sonho ser Castor; Tu Pollux.
Constelação eterna num fictício céu
dos amantes untados de fogo.


Sonho ser a musa de um poeta
suave, esquivo, terno. Sonho
– Astros se curvando ao que nasceu em nós.


Bárbara Lia

photo by Luke Parner