Monday, October 31, 2005


















Luar - acrilico sobre tela - Enice Rosado


CIRANDA COM FERNANDO JOSÉ KARL.

O CEGO

- Fernando José Karl

O cego Paul Klee rodava a bengala para a direita e a cidade parava. Para a esquerda, se movia. Para cima, escurecia o sol. Para baixo, chovia.
Quando foi assassinado, naquela tarde, encontraram em seu bolso todos os movimentos da cidade.


( do livro - Caderno de Mistérios - Letra D'água editora)



EPÍSTOLA SEGUNDO SAINT-ANGE


Segundo Saint-Ange, somos garrafas
de água flutuando no oceano.

Saint-Ange - seu cadáver boiando
ao lado da garrafa d'água.

Antes da flecha varar sua nuca,
ainda bebeu no arco da madrugada

a geometria do abandono de uma lua:
imenso nenúfar sobre o bambual.

Imitava Saint-Ange o poeta Li Tai Po,
que, na primavera de 425 a.C.,

morreu ao tentar abraçar a lua sobre o rio Chin.
Ou quis apenas imitar o seu aforismo

de que somos garrafa de água de rio
flutuada na água grande?


(do livro - Brisa em Bizâncio - Travessa dos editores)


LI PO & LUA

Bárbara Lia.


Sonhei com o abraço de Li Po
& lua.
Pálpebras pós-sonho são serestas
de bambus ao vento.

Pressinto o joio e o trigo e convivo
com as ervas todas.
Mas quando são águas
-Cristalizo.

Sei que algo imortal acontece,
nasce em solidão no útero divino.
Lua negra-olhar-que-abraça.

Tenho razões para amar Li Po
Fechar a meia-noite negra com uma cortinade lago.
Li Po braços abertos,
luas todas em estações e séculos
à espera deste abraço.

Friday, October 28, 2005

(MAGRITT)

RÉQUIEM


-Bárbara Lia-

Creía que eran señalados.
Alas invisibles,
halos transparentes de translúcida luz.
La espada – lápiz mina número cinco.
En muros escribían de formar arcaica.
Redondas letras apiñadas en versos.
Filósofos, dioses, ángeles perdidos.
Caminaban en veredas escarpadas.
Corazón en huidizas nubes.
Extraviada del pasado,
Seguía a los poetas.
Anteviéndolos ángeles.
Anteviéndolos dioses.
No reconocí la porción humana.
De carne y amargura.
Ni el aura triste
Del siglo de las hecatombes.
Cada pasión – piedra.
Decepciones apiladas – en una tumba.
La lápida – un manual de sepultar el corazón.
Mi libro sería de sal
Si narrara los pesares
Puñales en el pecho
Clavados por ángeles.
De ojos grises,
Verdes y negros.
“color té”, como diría Neruda.
“color de adiós”
Ya no cantaba a
Las violetas en la tarde,
Rubros amaneceres.
La aproximación de Marte.
Risa - sol de niños.
Desnuda de sueños y sandalias
Crucé valles, desiertos y puentes.
Anclé en la playa
Con arena de mármol.
Tarde gris.
¡Mar!
Certidumbre azul:
¡El poeta es mar!
Reflejo de los cielos.
Inconstante.
No sabe si va o si se queda
Es violenta la arena
En eternas olas.
Esconde su belleza
En un verde colérico.
En maremotos.
Extensión serena o triste.
Plácido o rencoroso.
La música y el ardor de sal
Todo esconde...
Abismos de luz.
Algas y perlas.
Ante sol y sal.
Abracé cada antiguo amante,
Sus almas-abismos-de-colores.
Y sepulté, en la arena, los dolores.
Abrí alas – fénix.
Todo poeta-mar
Necesita de un ave
Que deslice sus alas erguidas
Y el toque con ternura de espumas.
La canción retumba, ruge, alza nubes.
Alcanza la poetiza con alas
En libertad en el azul sereno.
Así nacen los poemas
En la abstracción
En la ausencia
En la dulzura de alas rozando espumas.
Al poeta-mar inquieto
Nadie lo domina
Pero, su alma sueña
Mujeres con alas
Sueltas en la corriente
Del viento,
Flaneando libres
Entre las nubes.
publicada na revista número nada - Ontem choveu no futuro.(em português)



RÉQUIEM
(Bárbara Lia)

Acreditava que eram assinalados.
Asas invisíveis.
Halos transparentes de translúcida luz.
A espada – lapiseira grafite número cinco.
Em muros escreviam de formar arcaica,
Redondas letras apinhadas em versos.
Filósofos, deuses, anjos perdidos.
Caminhavam em calçadas íngremes.
Coração em sorrateiras nuvens.
Extraviada do passado,
Seguia os poetas.
Prevendo-os anjos.
Prevendo-os deuses.
Não reconheci a porção humana.
De carne e mágoa.
Nem a aura triste
Do século das hecatombes.
Cada paixão – pedra.
Decepções empilhadas – um túmulo.
A lápide – um manual de sepultar o coração.
Meu livro seria sal
Se narrasse as mágoas
Punhais no peito
Cravados por anjos.
De olhos cinzas,
Verdes e negros.
“color de té”, como diria Neruda.
“color de adiós”
Já não cantava
As violetas na tarde,
Rubros amanheceres.
A aproximação de Marte.
Riso-sol de meninos.
Despida de sonhos e sandálias
Cruzei vales, desertos e pontes.
Ancorei na praia
Com areia de mármore.
Tarde cinza.
Mar!
Certeza azul:
O poeta é mar!
Reflexo dos céus.
Inconstante.
Não sabe se vai ou fica
E violenta a areia
Em eternas ondas.
Esconde sua beleza
Em um verde colérico.
Em maremotos.
Extensão serena ou triste.
Plácido ou rancoroso.
A música e a ardência de sal
Tudo esconde...
Abismos de luz.
Algas e pérolas.
Diante do sol e sal.
Abracei cada amante antigo,
Suas almas-abismos-de-cores.
E sepultei, na areia, as dores.
Abri asas – fênix.
Todo poeta-mar
Necessita de uma ave
Que deslize suas asas em riste
E o toque com ternura de espumas.
A canção ecoa, ruge, alça nuvens.
Alcança a alada poeta
Em liberdade no azul sereno.
Assim nascem os poemas
Na abstração
Na ausência
Na doçura de asas roçando espumas.
O poeta-mar inquieto
Ninguém domina
Mas, sua alma sonha
Mulheres aladas
Soltas na correnteza
Do vento,
Flanando livres
Entre as nuvens

Saturday, October 22, 2005

A crônica da semana "Sigma de saudade" já está no site Vejo São José -

http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm


Qualquer dia vou a Sampa em uma dessas festas do Fanzine Pnob - da jornalista Suzana Jardim:
www.pnob.com.br
Comemoração de 3 anos do Fanzine PNOB, 26ª edição Número 25 - Uma Brincadeira de ser sério, mesmo sendo louco!
Na nossa segunda casa, no PRESTÍSSIMO PizzaBar ,
Rua Joaquim Eugênio de Lima, 1.135
esq com Saint Hilaire tel: 3885-4956
www.prestissimo.com.br
das 19 horas até o sono chegar!
COMPAREÇA!!!


• Show de Marquinho Dikuã no pré-lançamento de seu CD "Aprendiz" um show de samba tradicional acústico, inédito!!!• Performance da Cia de Idéias ILDTA. com Cássio Manga, Marcelo Pessoa e Georgi Rossi. - Algo Sobre-Humano!
• Exposição das Pinturas Luminosas de Elisabeth Taruhn www.pinturasluminosas.com.br
• Roberto Sousa nos presenteia com uma espetacular exposição de fotos www.rsousa.fot.br
• Lançamento do livro " Transroca o navio proibido" inédito e cheio de peripércias de Rodrigo Capella
• Cecília Borelli apresentará suas bijous especiais
• Sarau poético – traga sua poesia
• Vc!

COLUNISTAS::Elisabeth Taruhn, Rodrigo Capella, Cassio Scavone Manga, Marcelo Pessoa, Gergi Rossi, Marquinho Dikuã, Bira Dantas, Isaac Sayeg, Cláudia Rosana Dias, Claevane Pessoa de Araújo, Mariana Kroker, Cecília Borelli, Gerson Grümblatt, Márcio Reiff, Moisés Miastkwosy, Silvia Candeias, Vidal Lannes, Jitka Muller, Odália, Roberto Recinella, Thiago Auarek, Mário Moraes Barros Filho, Tércio, Suzana Jardim, Vanessa Morelli, entre outros

Friday, October 21, 2005




CONTOS NO SITE CRONÓPIOS.

Dé mármore, pétala e fogo:

http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=474

Sr. New York:
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=626

A maldição:

http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=341

Tuesday, October 18, 2005













Arco-íris

Arame é outro ar para respirar
Da aurora que entra com pés pequenos
Lusco-fusco claustrofóbico
Aliás
Esboça desfalque de leitura
Deleitável
Em contida indumentária
De falhas
Bolhas de sabão

Thiago Ponce
(Rio de Janeiro – RJ)
http://www.homerbrain.blogger.com.br/


Tá no blog da Camaleoa:

Parada Gay na Unaes
Nesta quarta-feira, 19 de outubro, às 20h, na Unaes, farei minha segunda exposição com fotos da Parada Gay deste ano. Sem convite, sem ingresso, nem alimento perecível, é só aparecer. Também estarão expostos trabalhos de vários fotógrafos, entre eles Vânia Jucá, Elis Regina, Aline Bachega e Alex Prappas.
UNAES - Centro Universitário de Campo Grande
Av. Fernando Corrêa da Costa, 1800
Bairro: Dr. João Rosa Pires
Campo Grande - MS
Telefone: (67) 316-6000
http://contosdacamaleoa.weblogger.terra.com.br/

goya











Aniversário da Loraine Thais, que nos levou ao bosque do Muma, do nosso bairro Portão, aqui em Curitiba, no sábado. Ela estendeu uma toalha lilás no chão, e colocou o bolo de chocolate em uma pedra, e quando chegamos o Márcio Claudino disse – Veja a Sociedade dos Poetas Vivos! – Veio a Carol Casagrande, a Luana, a doce Dani e sua irmã Angélica, junto veio a Lílian, vieram Vitor & Letícia e também Rodrigo. Toda a nossa aura sob essas árvores que já são para mim símbolo de felicidade – os eucaliptos - Nós no bosque dos impossíveis, sentados em folhas de eucalipto assistindo ao vídeo daquele recital da Federal, na filmadora da Loraine. Foi uma noite linda. Tem mil dias que eu os amo, e tem mil dias que nunca rasuraram em mim aquilo que eu considero que seja a poesia, tem mil dias que algumas pessoas não me fazem descrer da ternura e da delicadeza – rara matéria rarefeita – que a gente só encontra em bosques, à sombra dos eucaliptos. Loraine serviu coca-cola, mesmo. Hoje a Lora ganha de presente um poema de Márcio Claudino, que ela & Carol interpretaram no recital – O sono de Goya. Muitos bosques e poemas virão, para esta menina-atriz-poeta.

O SONO DE GOYA

“Que ninguém possa jamais esquecer esta noite.
Hoje, tocarei a flauta de minha própria coluna vertebral”
Vladimir Maiakóvski.



Sonhei com serpentes mortas
Dentes cerrados, ventos distantes
Touros,
Festins negros
E maré alta –


Quem soprou esses ventos
Nas flautas das vértebras
E verteu febre nos dedos
Para que compusessemos vendavais
E folheássemos o diário de ouro
Que o Deus tocou
Que só nos fez chorar?

Quem varreu os cílios
Com o zoom sorrateiro
Da visão do sem nome?

Quem disse:
. Quem beber desta água lembrará –
essa é a fonte da memória

Quem disse que era Deus?


Márcio Davie Claudino da Cruz
Curitiba - Pr.

Monday, October 17, 2005












Monet.



HOMEM-MONET


Homem-Monet
Jardins e lagos
Ocultam
A mágoa amarela
Que a musa maldita
Pintou em tua alma.


Homem-Monet
Veneza inédita
De cristalina
E etérea
Cortina azulada
Águas e gôndolas
Petrificadas.


Homem-Monet
Adocicado perfume
Em pétalas mortas
Sobre a mesa
Grito de amor
Que se nega ao adeus.


Amarelas pétalas em agonia
Rastro de teu calor em mim
Como um eco dos teus passos
Amarelas meias
Assassinando areias
Nas pedras de mármore.



Amarela toalha
Revela a beleza Monet
Do teu sexo de sol
Secam gotículas em seu corpo
Nega a nudez serena
Amarelo cruel
Sempre te esconde



Malha amarela
Esconde a seta
Que aponta o norte
Do coração sem senha
Chave atirada no lago
De Iago
E tuas mãos
A negar o ar
A esta nova Desdêmona.




Homem-Monet
Retirar com espátulas
De Van Gogh
A pintura embaçada,
Despetalar a angústia
Deste girassol
E inaugurar
A Noite Estrelada
Em nossos lençóis.

-Bárbara Lia.

(poema publicado no livro "O sorriso de Leonardo"
Kafka edições baratas - 2.004)






"Blocos é Gigante - um mapa literário".

Esta frase da Bárbara Lia é a frase da quinzena
no site blocosonline.
http://www.blocosonline.com.br

Blocos - Portal de Literatura e Cultura.
Vale conferir!

Saturday, October 15, 2005














No site Vejo São José, uma homenagem aos pernambucanos, com a crônica - LIRA PERNAMBUCANA - Lirinha e o fogo encantado na fotografia.
http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm
*
ÁRVORE INVISÍVEL


Como quem clareia sonhos
define vidamor em canções
com o fogo de deuses desgarrados
fecha-se em silêncio?


Nobres nas sombras, preenchem
a partitura que incendeia
a noite das Bacantes
e os orgasmos das sereias.


Serão os poetas árvores filtrando
o cosmo e aquecendo a rosa
que se alimenta e cresce
no bosque dos invisíveis.


Pode que os poetas sejam
Arcanos do impossível.
Astros encarnados.
Pode que os poetas sejam,
dos seres, os mais desgraçados.

BÁRBARA LIA

Friday, October 14, 2005

O CHAFARIZ
- Para Fernando César de Aquino

Ontem entrei na praça Ozório pela lateral, e as árvores me banharam em leveza. Clarice Lispector escreveu que devemos procurar outros caminhos, andar por outras ruas. Mudar os hábitos. Mesmo uma praça pode ser outra se a gente procura outro ângulo. Como Deus a me abraçar, o frescor das árvores de primavera fez com que a aridez, súbito, dissipasse. Como se as folhas fossem gazes medicinais. Só sabe Deus o quanto necessito de fármaco, alguma droga, e ventos curativos para estancar a fenda aberta na alma. Pode que vaze o anjo, ou pode que nunca. Anjos nunca vazam. Ficam na alma como estes adesivos nas vidraças – estampa que grita mais que o vidro. Naquela praça, nos olhos das estátuas do chafariz, está espelhada a imagem de Fernando.
Era verão, um dia claro, o sorriso dele à minha frente, o rosto lírio de beleza. Um Kevin Costner jovem e moreno. Já cresciam seus cabelos negros, e o eco da voz ressoa...
- Tive alta! Já estou até trabalhando...
Fluía alegria enquanto ele dizia, segui acreditando que ele havia cruzado a ponte sobre a leucemia. Era fevereiro.
Fernando morreu em maio. Glóbulos assassinos voltaram em fúria galopante. Não vi seu corpo morto na ternura de seus trinta e poucos anos. Ele vive para sempre ao lado do chafariz, me abraçando e sorrindo. Exatamente como quando tínhamos vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco anos... Amar faz você desenterrar anjos, repensar a vida. Pisar saudades. Eu também tive vinte e três anos e uma ciranda de olhares. Eu tinha um sol tão absoluto de esperança. Ele ainda arde em calor dos dias em que o escolhido da minha mãe me acenava, na nossa antiga cidade, sempre que passava diante do meu portão, dentro daquele Fiat 147 azul escuro. Ele morava na minha rua, vivia no banco onde eu trabalhava, pois era um lugar agrícola e ele era técnico agrícola e nossa vida vivia entrelaçada. À noite, não obstante tantos encontros, ele chegava na Faculdade, com aquela malha vinho, e conversava comigo no intervalo das aulas, recostados na mureta diante da cantina. Era um rito. Como era um rito dançarmos de rosto colado nos bailes do clube social da cidade. Uma noite ele chegou com um terno ouro antigo, sem gravata, de camisa branca e minha amiga me cutucou e disse – Por que você não namora o Fernando, ele gosta de você... Não tive tempo de dizer nada, ele tomou minha mão e me levou para a pista, era em nós um silêncio consagrado, no tempo em que as meninas eram virgens e os meninos de ternos nos bailes eram príncipes encantados. Fernando era encantado. Tive um ciúme doentio do Fernando, em uma excursão da Faculdade eu o convidei e uma loira de olhos celestes roubou o guri, eu não queria admitir o ciúme. Na praia havia um frio estranho, e um ciúme dele que eu não admitia. Na viagem quando paramos em um posto e ele desceu na calçada, eu me aproximei e disse – nunca me deixe! E ele me abraçou tão forte, e tinha sol naquele abraço longo e quente, tão longo que arde, ainda arde o amor dele em minha pele.
Do nada – eu ia casar. Com alguém que mal conhecia. Seduzida pelo árabe, que mandava flores e na primeira vez que me levou a passear, emprestou a chave do conservatório e tocou piano para mim a tarde inteira. Era um inverno, era dia dos namorados, era talvez a sura divina que assinalara, que com ele eu teria três filhos lindos, e que viveria uma história que se diluiu por ele não entender que a vida pode ser mais e pode ser além além além...
Na varanda dos fundos da minha casa minha mãe revelou a preferência, rompeu seu costumeiro silêncio, sem botar fé na filha que ela admirava. Devia ter ouvido minha melhor amiga, ela disse com todas as letras. Você devia ter escolhido o Fernando. Ele é meu amigo, eu dizia, sem no entanto conseguir explicar nosso açucarado grude, nossa amalgama de ternura.
Meu noivo sumiu com meu carro, anoitecia e eu na porta do trabalho, o Fiat diminuiu a marcha, Fernando me deu carona. Parou o carro ao lado da árvore pálida banhada pela luz do poste, folhas balançando em uma dança triste. Eufórica e inconseqüente, eu dei a notícia – Vou me casar! Eu disse, mostrando na mão direita, a aliança pequena, minhas mãos ainda meninas, desconheciam tanto e tudo aquelas mãos, desconheciam que um dia lembrariam Fernando em um mar de pranto, escrevendo o encanto. Minhas palavras flanando em euforia, ele buscando palavras para dizer que desejava me ver feliz. Foi então à meia-luz da noite com um banho de verde mágoa de folhas que eu vi as lágrimas. Beijei seu rosto molhado, sem jeito, acenei na noite, com um espanto estranho. Garotos não dizem - eu te amo. Lágrimas de cristal disseram.
Foi uma amiga comum que me telefonou e contou muitos anos depois. Eu estava já em Curitiba, um casamento falido, meu filho caçula pequenino. Um marido árabe ciumento. Anotei o endereço, tirei a resoluta força que precisava para ver meu amigo, coloquei a cadeirinha de bebê no assento traseiro, e comuniquei que ia levar meu filho ao parque.
Toquei a campainha do apartamento. Ele surgiu depois de tantos anos - o anjo. A mãe dele foi comprar pão com o bebê. Como esses instantes em que ninguém diz, mas a gente sabe, nós nos despedimos de nosso tempo mágico, debruçados na janela. O parque Barigui diante de nós, um contraste de um verde resoluto com um céu intenso. O nosso azul estupendo. Silêncio de adeus partilhado, azul insultando a dor dele, dele pálido, de boné, magro e triste, em silêncio ao meu lado olhando a luz, em silêncio sempre. Adeus que se concretizou naquele último abraço diante do chafariz, ele de novo de cabelos negros e aquela covinha no queixo, lindo como sempre.
Ele morreu no mês que desfiz meu casamento. A mesma amiga me telefonou em uma tarde, não havia azul nem sol, era um cinza de chuva que chovia fora e chovia dentro, naquele sofá onde eu abracei o vazio uma tarde inteira, chuva cinza e lágrimas e ausência.
Enquanto viver, toda vez que eu atravessar a Ozório, os olhos de pedras vão lembrar a imagem dele, o quanto ele foi céu no meu mundo tão pequeno, o quanto nossa encantada história nunca sofreu um arranhão, o quanto às vezes e sempre é melhor amar em silêncio.

Bárbara Lia

Wednesday, October 12, 2005

A palavra é Deus, com ela constrói-se – o mundo. Só nela quero morar, beber suas seivas lácteas, todas, só dela o esperma bruto, com gosto de sal, vida, concha e pérola. Só da palavra, retirar o gozo tênue desses que seguem como o estrondo de uma castanhola, expandindo em ritmo com os passos da bailarina – aumenta, aumenta, aumenta, aumenta de forma angustiada, mas, não pára.
Como pensar que uma simples ordem altera um reino de mesmas palavras. Antes – Pedra de brisa – Mesmo sendo pedra, eram asas, solfejos, eram pura Babilônia no dia do recomeço. Agora – Brisa de pedra. Não dá para respirar como antes, lambendo o meu coração, agora arranha. Brisa de pedra. As pedras naquela caixa cibernética transparente inacessível. Em cada manhã eu colhi uma pedra de vidro colorido em uma areia branca, em cada manhã depositei em uma caixa diante das mãos de um menino de olhos invisíveis. O vidro transparente em aurora boreal luxuriante. Pedra de brisa, pedra de brisa, qual a magma da alma do anjo que alterou a ordem do universo em Brisa de pedra?
_Bárbara Lia.

PERNAMBUCO:


Lançamento do livro Ciao Cadáver
(Coleção Alguidar/Editora Landy)
de Delmo Montenegro
Domingo, 16 de outubro de 2005
às 17h no espaço
Café Continente
durante a V Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
Centro de Convenções de Pernambuco
Complexo Viário Vice Governador Barreto Guimarães, s/n
Salgadinho - CEP 53111-970
Olinda - PE
Na ocasião haverá debate e recital com a presença dos escritores
Amador Ribeiro Neto, Antônio Mariano Lima e Frederico Barbosa.

Tuesday, October 11, 2005
















*



angelus novus - paul klee
O SILÊNCIO DOS INTELECTUAIS - CULTURA E PENSAMENTO EM TEMPOS DE INCERTEZAS - SESC DA ESQUINA.
Ontem à noite ouvi José Miguel Wisnik por três horas. Ouviria por mais três. O Ministério da Cultura está promovendo esta série de debates em algumas capitais brasileiras. Bem esclarecido pelo filósofo Adauto Novaes que está à frente deste projeto, não há nada a ver entre esta série de palestras e o atual quadro político. O evento já estava concebido e em gestação bem antes da crise. Esquecendo as mazelas, o grande momento é acompanhar o fio de ouro de Wisnik, clarear algumas pequenas vielas da nossa própria alma. "Sem palavra" foi o título de sua fala, que dentro do ciclo que vai até 21 de outubro e que contará ainda com Antonio Cícero, Marcelo Coelho, Haquira Osakabe, Franklin Leopoldo Silva, Francisco Oliveira, Newton Bignotto, José Raimundo Maia Neto. Para quem comparecer em 75% das palestras serão expedidos certificados de extensão universitária pela PUC. Os eventos são no Teatro do Sesc da Esquina - www.sescpr.com.br.
O enfoque do Wisnik foi sobre a gente, quer dizer, nós que estamos escrevendo, os que usam da palavra. Intelectual ou não, o escritor nunca sabe se ruge e brama suas dores e ideais, ou se cala tudo em sua dor noturna e versos. Considero este século, o século das hecatombes. Toda minha fúria contra os generais do Brasil e de tantos lugares, contra a barbárie humana está sendo diluida em asas de borboletas. Manoel de Barros disse em uma entrevista a Bianca Ramoneda, alguma coisa assim como o mundo só será melhor quando for governado pelas borboletas. Não vi este programa, mas, o Flávio de Almeida, do Rio, que é cartunista me disse. Disse que quando o Manoel de Barros falou, ele se lembrou de mim. O questionamento do José Miguel Wisnik sobre "o lugar da palavra" evocando Clarice e Drummond. O que ressoou em minha alma de poeta foi a leitura que ele fêz de uma crônica de Clarice, que ela escreveu quando eliminaram um bandido chamado mineirinho - com treze tiros. Lembro de ter lido esta crônica, de ter vivido com ela o espanto. Por que treze tiros, se um tiro basta? Para o poeta não existe a linha que separa a favela da chic zona sul. O poeta sabe que uma alma regada a pétalas e carinhos, comida farta, horizontes azuis, ela não vai se tornando escura e vaga, nunca ficará perdida, ou ficará talvez, dentro da complexidade do ser. Basta ler o histórico dos meninos do tráfico, basta se imaginar um segundo em sua alma, basta pensar que um dia um bandido pode matar minha mãe na minha frente, digamos que eu tenho sete anos e assisto. Digamos que alguém me ofende, explora meu sexo, me domina, me faz sentir que sou verme negro, vai que a sociedade fecha para mim todas as portas, que não posso usar o elevador social. E o poeta sabe que na alma, dentro, nada difere, que a criação dela, energia vertida por um Deus estranho, é da mesma matéria, que se perde no mundo da matéria e não resta mesmo ao poeta deste milênio nada mais que um exílio, um susto, uma dor que ninguém entende, por que este cara chora, por que este cara bebe nos bares, por que não entra neste mundo e não corre atrás de tudo que acaba desaguando no big mac...
Sexta e sábado vou mergulhar na cultura árabe, outra vez, no evento que vai acontecer em homenagem a Edward Said, o escritor palestino que junto com o poeta Darwich escreveu a constituição da Palestina.

Tributo a Edward Said
Dias 14 e 15 de outubro de 2005.
Local: Auditório do Setor de Ciências da Saúde (UFPR)
– Rua Padre Camargo, 280 - 1º andar (atrás do Hospital de Clínicas)
A Questão das Identidades Culturais:
Mitos, Conflitos e Violência na Palestina.
Programa
14-10- 2005 Sexta-feira
18:30 horas : Projeção do vídeo : E. Said, biografia e obra
19:15 horas: Abertura: Prof. Dr. Jamil Zugueib Neto
Said: A Pesquisa, Orientalismo, Cultura e Igualdade.
19:30 – 22:30 horas:
Mesa redonda
1 - Os estudos da cultura e das políticas do mundo árabe no Brasil
– O ICARAB
Prof. Dra. Soraya Smaili - coordenadora ( USP)
2 - A nákaba palestina – Memória social e resistência
Prof. Dr. José Arbex Jr. (PUC-SP e Rev. Caros Amigos)
3 - Os mitos fundadores do estado de Israel
Prof. Dra. Arlene Clemesha ( USP)
4 - Psicanálise e o estudo da violência
Prof. Dr. Joel Birman (UFRJ)
15 – 10 – 2005 Sábado
8:30 – 9:15 horas: Projeção do vídeo: Saramago e a visita
aos campos de refugiados palestinos
9:30 – 12:30 horas :
O Tributo
E. Said: História de vida, sofrimento identitário e
as escolhas na pesquisa. Dos fantasmas originais à prática política
Prof. Dr. Jamil Zugueib Neto (UFPR)
Conferência
E. Said e a questão das identidades culturais: Freud e os não-europeus
Prof. Dr. Joel Birman (UFRJ)
Coordenação: Prof. Dr. Jamil Zugueib Neto
Promoção:
Núcleo de Estudos dos Processos Identitários e das Crises.
Pça. Santos Andrade, 50 – 1º andar – sala 131
Fone: 3310-2703 e 3310-2625 – Inscrições: R$ 20,00
Departamento de Psicologia - UFPR

Monday, October 10, 2005

















crysalis - robson tuon


Ciranda com Emily e Hilda.


A bela de Amherst
E a obscena senhora H
Contam-me de seus dias de paz.
Puxam-me para a misantropia.
Nunca mais seguir guias que abandonam
no meio do caminho.

Nunca te vi de branco,
Emily!
Nunca entrei na Casa do Sol.
Mas estivemos juntas em ciranda
Alma-a-alma
Thalassa & Sêmen.
Atavios de fadas & Ave Nave.

Crisálida outra vez.
Ouvindo as notas de vidro do amor.
Coração vestido de branco.
Nos pés as sandálias do sol.

Bárbara Lia











Matisse - Odalisque

*

UM CERTO OLHAR


Negros! Negros! Respiração
De oceanos. Éden bordado.
Jóia rara! Talismã!
Guardião secreto do fogo.
Quando me fitas,
Me acaricias em pétalas.
Quando me vou
Ardente pássaro me segue.
Arca de sonhos, língua
De seda – anjo exilado
Em ilha de poemas.
Versos de tempestade
Inundando meu corpo e alma.


Bárbara Lia

Sunday, October 09, 2005















Seattle Art Museum



Todo, em el cielo inteligible, está em todas partes. Cualquier cosa es toda las cosas. El sol es todas las estrellas, y cada estrella es todas las estrellas, y cada estrella es todas las estrellas y el sol.
– Plotino.
*
Lendo Borges, again, and again and again. El Simurgh, concebido por Farid al-Din Attar, persa da seita sufi.
Por que estou dividida e estraçalhada, ando pensando na unidade, em el Simurgh, que Borges narra em Nueve ensayos dantescos. O remoto rei dos pássaros – O Simurgh – deixa cair no centro da China uma pluma esplêndida; os pássaros resolvem buscá-la...
... percorrem sete vales, mares. Muitos desertam, outros perecem, trinta, purificados pelo trabalho pisam a montanha do Simurgh, que se chama El Kaf. Ao contemplá-la percebem que eles são o Simurgh e que o Simurgh é cada um deles...


- ‘DIFERENTE DA CANÇÃO’
no site Vejo São José a crônica de hoje.
http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm

Saturday, October 08, 2005




















AQUI EM CURITIBA - DIA 11.10
Jiddu Saldanha Lança Livro em Curitiba"Do Crepúsculo ao Outro dia" livro de poemas de Jiddu Saldanha e Herbert Emanuel
DATA - 11 de outubro (terça-feira)
Hora - 20 horas
Local: ícaro Arte - Curitiba
O Ícaro Arte fica na rua Professor João Soares Barcelos, 893 - Vila Hauer. Tel. 41-3284-3935 e 3276-9023O
***
Dentro do projeto Porão Loquax
11/10: Fernando Koproski: poeta e tradutor. Koproski se apresentará acompanhado do poeta Alexandre França no violão, e lerá poemas de sua autoria e traduções de poemas de Charles Bukowski.
Serviço:
Wonka Bar – Trajano Reis, 326 – São Francisco
Curitiba – PR
Horário: 22h

Minha companhia destas semanas todas, ela e sua poesia de ardências e perfume raro - Hilda Hilst.



Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
(Hilda Hilst)
a foto de Hilda Hilst sacada do endereço abaixo:
www.lumiarte.com/ luardeoutono

Friday, October 07, 2005

Paul klee
- Em 2002 no Muma, aqui no meu bairro o poeta Fernando Karl reuniu - em uma oficina - uma turma especial. De lá até hoje estamos nos esbarrando e trocando idéias, projetos, sonhos e o espanto de ser poeta. Carol & Loraine & Márcio Claudino & Bárbara depois do recital, indo à vernissage de Fábio Follador, no Solar do Barão, nos lembramos do Karl. Ontem a vibrante poesia subiu no parapeito da janela e na mesa e rolou no chão. Linda a performance das meninas.
Curitiba é sempre este vinho vermelho com gosto de alguma mágoa, e também as pedras do centro antigo que a gente pisa, em bandos e celebra encontros re-encontros, a juventude ao lado, sempre.
O poeta Fernando Karl, que escreveu uma dedicatória-poema para mim em seu livro Cadernos de Mistérios, da Ed. Letra D'água.
*
No altar das estrelas
teu nome mais antigo
que o primeiro nome d'água
-Fernando Karl.
*

Thursday, October 06, 2005

desenho:
ane fiuza



















AZUL NOTURNO


O anjo louco do casario deserto.
Era invisível feito música.
De noite subia na árvore.
De dia descia ao poço.


A voz – imã de luz.
O perfume – avenca suave.
A sombra – azul noturno.
O olhar de mar – salgado.


Anjo sem céu.
Anjo da terra.
Enlouquecido
de som e luz.



(Bárbara Lia)



O conto Sr. New York foi publicado no cronopios.
www.cronopios.com.br

DIA 06 DE OUTUBRO – 18 HORAS
Prédio Dom Pedro II - Reitoria.
Rua General Carneiro, 460 6.º andar, sala 613
Curitiba - PR - Brasil CEP 80.060-150


Tem poesia hoje na Federal -
Márcio Claudino, Bárbara Lia, Fernando Koproski,
Adriano Smaniotto, Pagu - Patrícia Claudino da Cruz.
Alexandre França, Carol Casagrande, Loraine Thais,
os três vão colorir em alegoria e música - a palavra.

Wednesday, October 05, 2005

















la danza de los amantes - jacqueline klein

Seu corpo é a chama num retalho de treva.
- João Filho

- raptada do poema - História do corpo.
site do joão filho
http://www.cabezamarginal.org/joaofilho/
divino maravilhoso!

Sunday, October 02, 2005

O RECITAL DA FEDERAL - A COLUNA MENSAL - OS AMIGOS DE SEMPRE, LA NAVE VA...
Coluna semanal no site de são josé dos campos - vejo são josé - estreou hoje com a crônica - Carteiros de Neruda.
***
Item final do Manifesto Utópico-Ecológico em defesa da Poesia & do Delírio – Roberto Piva (http://www.secrel.com.br/jpoesia/piva01.html)
10 – Provocar o surgimento da
Bossa-Nova Metafísica
& do Pornosamba,
O Estado mantém as pessoas ocupadas
em tempo integral
para que elas NÃO pensem
eroticamente,
libertariamente. Novalis, o poeta
do romantismo
alemão que contemplou a Flor Azul,
afirmou: “Quem
é muito velho para delirar evite
reuniões juvenis. Agora
é tempo de saturnais literárias.
Quanto mais variada a
vida tanto melhor".

SEMANA DE LETRAS – UFPR
Recital – 05 poetas contemporâneos.

ADRIANO SMANIOTTO
Nasceu em Curitiba – 1975.
Livros – Arcano – Editora Ócios do Ofício
Vinte vozes de uma mesma veia – ed do autor 1.999
Versejar a voz do ser é ser de si algoz – Fund. Cultural de Curitiba-2.000
BÁRBARA LIA – poeta – Livro – O sorriso de Leonardo (Kafka – 2004)
FERNANDO KOPROSKI – toda a sua trajetória abaixo no post da KAFKA.
MARCIO CLAUDINO DA CRUZ – poeta inédito em livro.
PATRICIA “PAGU” CLAUDINO DA CRUZ – poeta inédita em livro.
(Convidados especiais – LORAINE THAIS e CAROL CASAGRANDE com performances da poesia de Bárbara Lia e Márcio Claudino da Cruz – ALEXANDRE FRANÇA com seu violão e sua poesia em acompanhamento aos poemas do Koproski).

QUINTA-FEIRA – DIA 06 DE OUTUBRO – 18 HORAS
Rua General Carneiro, 460 6.º andar, sala 613
Curitiba - PR - Brasil CEP 80.060-150


O poeta Mário Domingues está organizando um evento literário no Wonka Bar – neste mesmo Bar, as sextas a Mari Sanchez discoteca sua orquestra de plástico. A Mariana Sanchez é jornalista e trabalha com fotografia e cinema, além de ter rodado a América do Sul com mi hermano Pedro Carrano. Foi através dela que conheci a Susan Blum, que me encantou no ano passado na abertura de um curso sobre Cortázar. São pessoas que a poesia permite que a gente encontre. O lado bom da vida.
A nova proposta do poeta Màrio Domingues, os horários e participantes do evento estão todos no blog do França Boy –
www.alexandrefranca.blogspot.com. E no site aquele de quem lhe falei um texto da Mari Sanchez - sobre silêncio - coluna convidados - http://www.aquele.com.br