O CHAFARIZ
- Para Fernando César de Aquino
Ontem entrei na praça Ozório pela lateral, e as árvores me banharam em leveza. Clarice Lispector escreveu que devemos procurar outros caminhos, andar por outras ruas. Mudar os hábitos. Mesmo uma praça pode ser outra se a gente procura outro ângulo. Como Deus a me abraçar, o frescor das árvores de primavera fez com que a aridez, súbito, dissipasse. Como se as folhas fossem gazes medicinais. Só sabe Deus o quanto necessito de fármaco, alguma droga, e ventos curativos para estancar a fenda aberta na alma. Pode que vaze o anjo, ou pode que nunca. Anjos nunca vazam. Ficam na alma como estes adesivos nas vidraças – estampa que grita mais que o vidro. Naquela praça, nos olhos das estátuas do chafariz, está espelhada a imagem de Fernando.
Era verão, um dia claro, o sorriso dele à minha frente, o rosto lírio de beleza. Um Kevin Costner jovem e moreno. Já cresciam seus cabelos negros, e o eco da voz ressoa...
- Tive alta! Já estou até trabalhando...
Fluía alegria enquanto ele dizia, segui acreditando que ele havia cruzado a ponte sobre a leucemia. Era fevereiro.
Fernando morreu em maio. Glóbulos assassinos voltaram em fúria galopante. Não vi seu corpo morto na ternura de seus trinta e poucos anos. Ele vive para sempre ao lado do chafariz, me abraçando e sorrindo. Exatamente como quando tínhamos vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco anos... Amar faz você desenterrar anjos, repensar a vida. Pisar saudades. Eu também tive vinte e três anos e uma ciranda de olhares. Eu tinha um sol tão absoluto de esperança. Ele ainda arde em calor dos dias em que o escolhido da minha mãe me acenava, na nossa antiga cidade, sempre que passava diante do meu portão, dentro daquele Fiat 147 azul escuro. Ele morava na minha rua, vivia no banco onde eu trabalhava, pois era um lugar agrícola e ele era técnico agrícola e nossa vida vivia entrelaçada. À noite, não obstante tantos encontros, ele chegava na Faculdade, com aquela malha vinho, e conversava comigo no intervalo das aulas, recostados na mureta diante da cantina. Era um rito. Como era um rito dançarmos de rosto colado nos bailes do clube social da cidade. Uma noite ele chegou com um terno ouro antigo, sem gravata, de camisa branca e minha amiga me cutucou e disse – Por que você não namora o Fernando, ele gosta de você... Não tive tempo de dizer nada, ele tomou minha mão e me levou para a pista, era em nós um silêncio consagrado, no tempo em que as meninas eram virgens e os meninos de ternos nos bailes eram príncipes encantados. Fernando era encantado. Tive um ciúme doentio do Fernando, em uma excursão da Faculdade eu o convidei e uma loira de olhos celestes roubou o guri, eu não queria admitir o ciúme. Na praia havia um frio estranho, e um ciúme dele que eu não admitia. Na viagem quando paramos em um posto e ele desceu na calçada, eu me aproximei e disse – nunca me deixe! E ele me abraçou tão forte, e tinha sol naquele abraço longo e quente, tão longo que arde, ainda arde o amor dele em minha pele.
Do nada – eu ia casar. Com alguém que mal conhecia. Seduzida pelo árabe, que mandava flores e na primeira vez que me levou a passear, emprestou a chave do conservatório e tocou piano para mim a tarde inteira. Era um inverno, era dia dos namorados, era talvez a sura divina que assinalara, que com ele eu teria três filhos lindos, e que viveria uma história que se diluiu por ele não entender que a vida pode ser mais e pode ser além além além...
Na varanda dos fundos da minha casa minha mãe revelou a preferência, rompeu seu costumeiro silêncio, sem botar fé na filha que ela admirava. Devia ter ouvido minha melhor amiga, ela disse com todas as letras. Você devia ter escolhido o Fernando. Ele é meu amigo, eu dizia, sem no entanto conseguir explicar nosso açucarado grude, nossa amalgama de ternura.
Meu noivo sumiu com meu carro, anoitecia e eu na porta do trabalho, o Fiat diminuiu a marcha, Fernando me deu carona. Parou o carro ao lado da árvore pálida banhada pela luz do poste, folhas balançando em uma dança triste. Eufórica e inconseqüente, eu dei a notícia – Vou me casar! Eu disse, mostrando na mão direita, a aliança pequena, minhas mãos ainda meninas, desconheciam tanto e tudo aquelas mãos, desconheciam que um dia lembrariam Fernando em um mar de pranto, escrevendo o encanto. Minhas palavras flanando em euforia, ele buscando palavras para dizer que desejava me ver feliz. Foi então à meia-luz da noite com um banho de verde mágoa de folhas que eu vi as lágrimas. Beijei seu rosto molhado, sem jeito, acenei na noite, com um espanto estranho. Garotos não dizem - eu te amo. Lágrimas de cristal disseram.
Foi uma amiga comum que me telefonou e contou muitos anos depois. Eu estava já em Curitiba, um casamento falido, meu filho caçula pequenino. Um marido árabe ciumento. Anotei o endereço, tirei a resoluta força que precisava para ver meu amigo, coloquei a cadeirinha de bebê no assento traseiro, e comuniquei que ia levar meu filho ao parque.
Toquei a campainha do apartamento. Ele surgiu depois de tantos anos - o anjo. A mãe dele foi comprar pão com o bebê. Como esses instantes em que ninguém diz, mas a gente sabe, nós nos despedimos de nosso tempo mágico, debruçados na janela. O parque Barigui diante de nós, um contraste de um verde resoluto com um céu intenso. O nosso azul estupendo. Silêncio de adeus partilhado, azul insultando a dor dele, dele pálido, de boné, magro e triste, em silêncio ao meu lado olhando a luz, em silêncio sempre. Adeus que se concretizou naquele último abraço diante do chafariz, ele de novo de cabelos negros e aquela covinha no queixo, lindo como sempre.
Ele morreu no mês que desfiz meu casamento. A mesma amiga me telefonou em uma tarde, não havia azul nem sol, era um cinza de chuva que chovia fora e chovia dentro, naquele sofá onde eu abracei o vazio uma tarde inteira, chuva cinza e lágrimas e ausência.
Enquanto viver, toda vez que eu atravessar a Ozório, os olhos de pedras vão lembrar a imagem dele, o quanto ele foi céu no meu mundo tão pequeno, o quanto nossa encantada história nunca sofreu um arranhão, o quanto às vezes e sempre é melhor amar em silêncio.
Bárbara Lia