Saturday, March 18, 2006

Ñe'epapara























Ñe'epapara

Céu lápis-lazúli, tambores, cachoeira
tocando a pedra clara, silêncio
na clareira incendiada
em luzes, raios de tochas

ao redor da taba
- nasceu um índio.
Ainda nascem
os que cultuam a vida.

Sopro de ancestrais. Lua clara.
A cascata em acordes suaves
conta à margem, que segreda

ao pássaro, que alça vôo.
Ñe'e - canta o índio, sonhos
flanam em asas - Ayvu.

Bárbara Lia

Estar presente por alguns dias no evento da ONU sobre biossegurança, resgatou dentro da Bárbara alguns itinerários, mapa antigo estendido novamente à frente. No segundo dia quando voltava no ônibus decorado com borboletas tive um desejo fecundo de deitar nua na terra e abraçar sua pele judiada, cansada, ultrajada. Ouvir seu lamento de rios e fontes, seu respirar ofegante, o pulsar do coração, fraco, talvez. Encontrei este poema de 2.002. Li em um dicionário Guarani na Biblioteca Pública que Ñe'epapara significa trovador. O que poderia equivaler a poeta, e depois, através de um amigo soube que Ñe'e significa alma - e Ayvu - palavra. O poeta é quem dá alma à palavra, e o índio é quem respeita a alma do planeta. São divagações poéticas em uma manhã de sol.