Monday, July 31, 2006

vinícius



















"A arte não ama os covardes"


"Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?"


Vinícius - simples assim - Vinícius apenas, o corpo todo que ri a alma toda que voa o coração que não cessa de amar, infinito sempre, olhar que acende lá no fundo do poeta a luz-farol da busca, pescando musas pela vida, amando-as enquanto há amor para dar, procurando - a eterna primavera prá só depois morrer - foi feliz? como chico diz no documentário, a felicidade... se o fosse não buscaria em ânsia embebida em uisque o amor. O que se tem ao final do filme VINÍCIUS é um desejo de VIVER, de viver a poesia, mais que escrevê-la viver na noite na boêmia na indignação na partilha, quem disse que um boêmio não pode escrever em refinada dor uma rosa de hiroshima, um orfeu negro, um canto de beleza aos orixás, quem diz que um boêmio não sabe que o homem é acima de tudo quem olha e fica indignado, que se magoa, que chora de saudade do primeiro amor, que na velhice ainda diz de quantas vezes teve vontade de bater à porta daquela que foi entre todas as amadas a mais amada e pedir um colo - orgulho de dois lados pode destruir mesmo um paraíso - e o medo, ele teve medo, ele disse. Lindo Vinícius, me fêz ter vontade de balançar na lua, aquela lua em formato de rede de luz, aquela lua que por vezes me acena como se valsar no universo infinito fosse possível, dormir ao som do bandolim das estrelas, lembrar o tempo em que tínhamos um violão uma saudade e uma garota de ipanema, e um poeta, sem frescura, um poeta na carne, na alma, na ânsia de vida que vida sem ânsia não é nada.
*
Medo de amarVire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor
Vinícius de Moraes
in
Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"

Direção: Miguel Faria Jr. Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos, com colaboração de Eucanaã Ferraz Produção: Miguel Faria Jr. e Susana Moraes
Elenco
Camila Morgado/Ricardo Blat/Renato Braz/Yamandú Costa/Adriana Calcanhoto/Olívia Byington/Mônica Salmaso/Mariana de Moraes/Zeca Pagodinho/Mart'NáliaMS/ BomNego JeffLerov/Antônio Cândido/Caetano Veloso/Carlos Lyra/Carlinhos Vergueiro/Chico Buarque/Ferreira Gullar/Edu Lobo/Francis Hime/Georgiana de Moraes/Gilberto Gil/Luciana de Moraes/Maria Bethânia/Maria de Moraes/Miúcha/Susana Moraes/Tônia Carrero/Toquinho
O elenco e Chico Buarque lindo e descontraído e recordar Vinícius, só isto já faria valer a pena, no entanto, todo o resto é mesmo um banho de desejo, de viver... VIVER! Saravá, Vinícius!



Friday, July 28, 2006

memórias de uma gueixa































Memórias de uma gueixa - baseado no livro de Artur Golden.
"uma gueixa é uma obra de arte em movimento"
O jardim oriental e as cerejeiras. Aléia de bambus. Os vapores do chá. O amor contido, guardado entre a seda do quimono por uma vida. A guerra que destrói a beleza. A sutileza inteligente provando que a beleza é papel de arroz e estraçalha e deve ser apenas o complemento daquela banhada na sabedoria adquirida, roubada da dor, rasgada por entre as frinchas dos sonhos. Uma poesia o cenário, os gestos e a música oriental, uma história que deve me ensinar a amar silenciosamente.
Memórias de uma gueixa ganhou 3 Oscars, nas categorias de Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Figurino. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Edição de Som. Ganhou Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado na categoria de Melhor Atriz - Drama (Zhang Ziyi)

Thursday, July 27, 2006

livro do desassossego


"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."
"Eu não sou pessimista, sou triste."
"Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos."

"Uns governam o mundo, outros são o mundo."
"O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade."
"Escrevo demorando-me nas palavras, como por montras onde não vejo, e são meios-sentidos, quase-expressões o que me fica, como cores de estofos que não vi o que são, harmonias exibidas compostas de não sei que objetos. Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto."
"Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio, que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas."

Fragmentos:
Livro do Desassossego
ÁTICA, LISBOA, 1982
BERNARDO SOARES
(um dos heterônimos de Fernando Pessoa)

Wednesday, July 26, 2006

libano
















SOB O CÉU DO LÍBANO
(Le Cerf Volant, de Randa Chahal Sabbag, LIB/FRA, 2003)
A atriz Flávia Bechara que interpretou Lamia no filme.
Vi recentemente este filme, e sonho, que as crianças do Libano
possam sair livres de casa para soltar pipas, é assim que se inicia o filme...


LIBANO
o dia nasceu vermelho, diferente daquele tom de luz que rompe o horizonte em todas as manhãs... vermelho da cor do sangue das crianças do Libano, foi de outro tom a manta de céu que se estendeu diante da minha janela, corri para apanhar a máquina fotográfica, mas, tive zelo de mãe e não acordei nenhuma das "crianças" para perguntar em que raio de lugar elas enfiaram as pilhas... me perdi no silêncio entorpecido das manhãs em que me ponho a ver o sol nascer, tomei um banho, e segui ao colégio. na esquina eu vi a placa de um carro e não pude deixar de pensar no apocalipse - 6666 - não lembro a cor do carro, não vi a cara do motorista, apenas gelei na manhã de presságios estranhos e pensei no número da besta, no sol que nasce sangrando.
... na escola, quando começaram a definir e distribuir os países para a - festa das nações- eu entendi o sol que sangra, o nº da placa do carro com gosto de extermínio e crueldade, e a minha decisão estava tomada - escolhi o Libano.
a cultura árabe e toda a poesia. o Libano que agora sangra, como o sol de hoje, vai ser para as crianças do Líbano o carinho da minha turma de meninos do Sul do Brasil, resgatar alguma esperança, quiçá, quiçá celebrar o fim da matança...

Monday, July 24, 2006

agenda


TERÇA 25 julho 2006:

Porão Loquax especial com Microfone Aberto
Traga seus textos ou de autores que você gosta e venha ler no Porão Loquax.
entrada R$1,99
WONKA BAR - Trajano Reis, 326




CARPINEJAR LANÇA LIVRO EM CURITIBA
Sessão de autógrafos de "O Amor Esquece de Começar" acontece na terça (25/7), a convite da Livrarias Curitiba. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar é o convidado especial de julho da Livrarias Curitiba, no dia do escritor (terça, 25/7). O autor fará leitura de textos e autografará seu novo livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35), às 19h, na Livrarias Curitiba, da Megastore do Sopping Estação (Shopping Estação - Loja 1108 - Centro Telefone: (41) 3330-5118).


NO CANAL FUTURA:- no dia do escritor 25/07:
- 20h30m -Todas as Letras (Monteiro Lobato)
- 21h30m - ao vivo, o Sala de Notícias em Debate, que discute a profissão de escritor no Brasil.
- 22h30m - Todas as Letras - segunda parte (Fernando Pessoa)
e encerra com umas palavras - Bia Correa do Lago entrevistando Jostein Gaarder, autor de - O livro de Sophia *
Durante a programação do dia do escritor uma série de interprogramas que homenageiam o escritor Mário Quintana. As peças foram produzidas pela UPF TV, a televisão da Universidade de Passo Fundo, parceira do Canal Futura.

http://www.futura.org.br/main.asp

Saturday, July 22, 2006

amigos

Saudades de Mano Melo, e me cai um poema na caixa de e-mails falando do Mano Melo. Então eu raptei o poema e mais um do Mário Pirata, para dizer que quando tem este sol e céu e tudo aquece, eu penso no meu doce amigo do Rio de Janeiro - Mano Melo - esta pessoa solar:

CAFÉ COM MELADO
o sábado acordou
com céu cor de caramelo
eu fui tomar café
e lembrei do Mano Melo
MÁRIO PIRATA

OFERENDAdia desses te dou uma estrela
pequena e maluca
daquelas que cirandam
nas saias das ciganas
e caem
penduradas da ponta dos cabelos
das mulheres apaixonadas e menstruadas
dia desses te dou uma estrela
maluca e pequena
MÁRIO PIRATA

site do Mário Pirata, poeta, artesão e brincadeiro, de Porto Alegre
http://www.ailha.com.br/mariopirata/

Monday, July 17, 2006

a colheita da beleza

A COLHEITA DA BELEZA


Cão fiel e bizarro
que esconde
estrelas no olhar.
A seguir teus passos,
bebendo esta tua distração:
Mão esquerda
no bolso do jeans;
Mão direita
segurando o cigarro.
Na memória a voz lavada
em leveza:
- Eu sou um cara mau!
Do que sei da vida, amor,
os 'bons' enterram belezas,
vestidos de branco-asco
e asas de plástico.
Os 'maus'?
Colhem a beleza em prantos.
Pés descalços na terra quente,
colhendo flores brancas
para o funeral da felicidade.

BÁRBARA LIA

- do livro inédito NOIR

Saturday, July 15, 2006

o aleph azul de borges





O Aleph azul de Borges - uma poesia que escrevi na primavera passada, ao som de piazzola - está no site cronópios.

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=1565

o rio da minha aldeia


O rio da minha aldeia
O Tejo nunca passou pela minha aldeia de terra vermelha e sol. O rio que me batizou ficava na rua da chácara do leiteiro. Gelou as magras pernas, revelou mistérios - riacho com gosto de Deus. Adulta, cruzei rios de dimensões imensas, que não lembraram Deus. Deus vive nas pequenas coisas. Os grandes rios são catedrais. Deus às vezes se exila, percorre milhas, para acariciar anjos em riachos tristes.
Bárbara Lia

Sunday, July 09, 2006

dia do poeta







Ando vestindo um estranhamento de mim
um estranhamento do mundo.
Eu tinha conseguido banir a aurora ardente,
eu tinha varrido as canções
das moças brancas de lábios vermelhos
que bailam no bosque sagrado de Upsala.
Todos os grandes cenários
onde eu expandia o sonho:
as caravanas do deserto,
os tuaregues,
a lua crescente que é meu totem,
o delírio das noites brancas.
Eu tinha conseguido
colocar a capa frígida de plástico na alma.
Até o anjo astuto rasgá-la inteira,
me atirou nua no cenário.
Aí está a mulher:
- nua –
Se esconde
e se esconde tanto
que até da poesia se esconde,
se assusta tanto
que não é mais Eva, agora é Lilith...
agora é Anaïs esperando Henry Miller...
agora é Frida rasgando a dor em telas...
agora trafega entre narcisos em Devon,
amando um poeta britânico
que vai deixá-la
e vai fazer sangrar a aurora
que Ariel quer alcançar,
e vai espantar a lua
que nunca se entristece,
e os estúpidos confetes...
agora apanha o casaco e segue ao Tâmisa.
Corre! Corre!
Não deixe que Leonard a alcance.
As passadas todas
das mulheres serenas de loucura.
Agora está no rochedo em Mar Del Plata
e vai viver em uma casa de vidro
em um oceano de translúcidas algas...
agora segue e atira ao vento
a tua dor consentida,
atira as palavras aos pés,
aos pés de quem nunca merece,
agora ensaboa este corpo
de musa divina,
agora cale a tua voz - catedral –
agora cesse tudo, e apanha
a luva de pelica,
a mala,
tua complacência feminina,
ensaboa este corpo de neblina
e te afasta
destes olhares túrgidos,
desta dor que avassala...
Lá está aquela esquina,
onde quase todas elas se perderam.
Eu me encontro em uma linha reta
e vou seguir em frente,
tem uma primavera no final
e eu sempre sonhei a primavera,
muito embora eu tenha que reconhecer,
que elas merecem
o meu respeito eterno,
todas elas...
Anais Nin, Frida Kahlo,
Virginia Wolff, Sylvia Plath,
Alfonsina Storni,
Ana Cristina.
Um brinde
com esta ternura e graça,
com esta ternura aflita,
aos que não ficam
construindo catedrais ocas,
os que viveram a poesia
até secar a fonte e calar o grito,
os eternos
que não se preocupavam
em teorizar,
mas,
em compor a beleza
com os rastros e restos
e sua verdade consentida,
que eu quero como água
mesmo ferindo um coração de vidro.
.
BÁRBARA LIA
04.10.2005 – dia do poeta.

marcos prado



.


não escreve aqui quem sabe de tudo
o que você quer, o que sabe, para mim, nada
apenas quero daquele que é mudo
dizer o que acha dessa palhaçada
.

O ritmo vale mais que a métrica e a rima
a métrica é salão e rima cozinha
tudo que a inteligência dizima
é fato a mim e idéia de fato minha
.

você, que é devorador de comida alheia
que se serve do talendo de outro prato:
seu sangue não vai mudar de veia
se não criar pra você um novo braço
MARCOS PRADO (1.962-1996)

torquato neto

Cogito

eu sou como eu sou

pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

TORQUATO NETO - (1.944-1972)

do livro - Os Últimos Dias de Paupéria - Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973,

luvas de pelica


Tenho medo de perder este silêncio.Vamos sair? Vamos andar no jardim? Por que você me trouxe aqui para dentro deste quarto? Quando você morrer os caderninhos vão todos para a vitrine da exposição póstuma. Relíquias. Ele me diz com o ar um pouco mimado que a arte é aquilo que ajuda a escapar da inércia. Outra vez os olhos.Os dele produzem uma indiferença quando ele me conta o que é a arte.Estou te dizendo isso há oito dias. Aprendo a focar em pleno parque. Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus. Eu não sei focar ali no jardim, sobre a linha do seu rosto, mesmo que seja por displicência estudada, a mulher difícil que não se abandona para trás, para trás, palavras escapando, sem nada que volte e retoque e complete.Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.
Estou muito compenetrada no meu pânico.Lá de dentro tomando medidas preventivas.Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde e grita e não me deixa em paz mas você é meu único tesouro. Então escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto; dorme, dorme.Eu sou grande, fico acordada até mais tarde.
ANA CRISTINA CESAR (1.952-1983)
- do livro Luvas de Pelica - Inglaterra, Novembro 1.980

cacaso















Cacaso (1.944-1.987)

PSICOLOGIA DO ETERNO

Meu corpo visto no breu
não envelhece: tal a fúria
da gaivota devoradora de tempo.
Meu corpo, no tempo, é negro.

Existo na véspera. O que sou
não anuncia: se repete.
Assim a música prevê
sua intenção de estátua.

Longe da morte me lanço.
No crepúsculo congelado
meu suicídio se exala.

Fico na morte irrealizado:
Casta paisagem cria o olho
que apenas se constatou.

Rio, 1965

CACASO

do livro LERO - LERO (1.967-1985)
7 Letras e Cosac & Naify

héctor viel temperley

Mes de Marzo de 1986
Pabellón Rosetto, larga esquina de verano, armadura de mariposas: Mi madre vino al cielo a visitarme.
Tengo la cabeza vendada. Permanezco en el pecho de la Luz horas y horas. Soy feliz. Me han sacado del mundo.
Mi madre es la risa, la liberdad, el verano.
A viente cuadras de aquí yace muriéndose.
Aqui besa mi paz, ve a su hijo cambiado, se prepara - en tu llanto - para comenzar todo de nuevo.
Héctor Viel Temperley (1.933-1994)
Argentina
do livro Hospital Británico

Saturday, July 08, 2006

kerouac

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ESTAVA USANDO UMA ATADURA BRANCA na cabeça por causa de um ferimento. A polícia me persegue pelas escuras escadas de madeira perto do Victory Theater em Lowell. Consigo escapulir e chego no bulevar, onde crianças desfilando e entoando meu nome me escondem dos guardas que me procuram, enquanto despisto no meio das intermináveis fileiras, mantendo o corpo agachado. O desfile infantil não acaba mais. Com cânticos e hinos, entramos marchando na Mongólia, com minha cabeça atada na dianteira.
(sonhado no dia seguinte à publicação de On the Road)
JACK KEROUAC
O Livro dos Sonhos (L & PM Pocket)


O livro é compilação exata dos sonhos de Kerouac. Boa idéia para qualquer escritor.

Friday, July 07, 2006

kafka e milena II


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franz kafka
Cartas de Franz Kafka à Milena:
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"Não sei como, já não posso escrever-te de nada, salvo aquilo que está em relação conosco, apenas conosco, em meio do torvelinho do mundo. Tudo o restante é remoto. Injusto. Injusto! Mas os lábios balbuciam, e o rosto se funde em seu seio."
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"No fundo sempre escrevemos o mesmo. Pergunto-te se estás enferma, depois tu mo perguntas, digo que quero morrer, e tu também o dizes, quero chorar como uma criancinha diante de ti, e então tu queres chorar diante de mim como uma menininha. E uma e dez mil vêzes e sempre quero estar a teu lado, e tu me dizes o mesmo. Suficiente, suficiente. E continuo sem saber o que disse o médico, oh lenta, oh péssima correspondente, oh má, oh amada, oh tu... bem, que mais? Nada, silenciar em teu regaço."
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"Já vês, Milena, tão incontrolável se é, tão caprichosamente somos arrastados por um mar que apenas por malícia não nos afoga. Há pouco te pedi que não me escrevesses todos os dias, era sincero, tinha medo das cartas; quando por casualidade não chegava nenhuma me sentia mais calmo; quando via uma sobre a mesa tinha que pedir ajuda a todas minhas forças e de nenhum modo me alcançavam; e hoje teria sido infeliz, se não tivera recebido estes postais (apropriei-me deles, dos dois). Obrigado."
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"Acabo de passar duas horas deitado no sofá, pensando quase exclusivamente em ti."

Wednesday, July 05, 2006

kafka e milena










































.- Milena -


'Escrever cartas significa desnudar-se diante dos fantasmas, que esperam isso ávidamente. Os beijos por escrito não chegam a seu destino. Bebem-nos pelo caminho os fantasmas'
'Ninguém canta com tanta pureza como os que estão no mais profundo inferno; seu canto é o que acreditamos o canto dos anjos'
'...É tão formoso ter recebido sua carta, tenho que lhe responder, embora esteja enjoado de insônia. Não sei o que lhe escrever, apenas passeio entre as linhas à luz de seus olhos, sob o alento de sua boca como em um formoso dia feliz, que continua sendo formoso, e feliz apesar da cabeça enferma, e de que segunda-feira tenho que partir para Munique.'
'Sou o cúmulo da estupidez. Leio um livro sobre o Tibet; ao chegar à descrição de um povoado nas montanhas da fronteira aperta-me de súbito o coração, tão desolada e abandonada me parece a aldeia, tão afastada de Viena. Mas o que me parece estúpido é a idéia de que Tibet fica distante de Viena. Ficaria realmente distante?'
'... Muitas vêzes tenho a impressão de que estivéssemos em uma sala com duas portas opostas, e cada qual tivesse segura a maçaneta de uma porta, e mal um de nós move as pálpebras já está o outro atrás de sua porta, e agora basta que o primeiro diga uma única palavra para que o outro feche sua porta atrás de si e desapareça. Voltará a abrir a porta, certamente, já que talvez seja uma sala que não se pode abandonar. Se pelo menos o primeiro não se parecesse tão exatamente ao segundo, se permanecesse quieto, se pelo menos aparentasse não olhar para o segundo, se se dedicasse a por lentamente em ordem o quarto, como se fosse um quarto como todos os outros; mas, em troca faz exatamente o mesmo que o outro junto a sua porta, às vezes encontram-se ambos cada um atrás de sua porta, e a formosa sala fica vazia.'
'... Estamos jogando um jogo infantil, eu me arrasto pela sombra, de uma árvore à outra, estamos em pleno caminho, você me chama, aponta-me os perigos, quer dar-me ânimo, desespera-se por ver meu passo vacilante, recorda-me (a mim!) a seriedade do jogo... não posso, desfaleço, já caí. Não posso ouvir ao mesmo tempo as vozes terríveis de meu interior e a sua, mas em troca posso ouvir apenas a sua e confiar em você, em você, como em ninguém mais no mundo."
Seu, F


Franz Kafka assinava todas as cartas para Milena, como - Seu, F -
Sou aquela que muda a cada dia, mudo o nome do blog a cada dia.
Entro em férias e deixo Franz Kafka em meu lugar por alguns dias...
Encontrei este livro na Biblioteca do Colégio onde dou aulas, uma raridade em uma biblioteca de um colégio de periferia. Uma vez eu li aquela frase onde os fantasmas bebem os beijos das cartas antes que cheguem ao destino... Arrepiada de fantasmas embriagados de beijos, eu ficava pensando neste nome - Milena - quem foi Milena na vida do Monumental Kafka - O cara cujo livro todo mundo sabe o início...
George Samsa - o personagem da Metamorfose.
Cartas a Milena, são as cartas de Kafka a uma jovem senhora, casada, que se torna sua amante.
Estou aqui esperando beber as páginas, e os beijos de Kafka e Milena pelo caminho, estou aqui lendo um livro sonhado, e ler um livro sonhado é alguma coisa como um adendo ao dia da bonança... Milena Jesenská nunca teve coragem de deixar o marido por Franz Kafka, e morreu confinada entre prostitutas e criminosas de Hamburgo no campo de concentração de Ravensbrück, vinte anos após a morte de Kafka, em 1.944, um mês antes da vitoriosa invasão das forças aliadas. Uma história de amor proibido - Franz & Milena.

Sunday, July 02, 2006

a esfinge na névoa







































"...e lui tornera´ ad Itaca"
Giuseppe Medagli


A ESFINGE NA NÉVOA


Quando a alma
fala
já não fala a alma.
Se o corpo é sua escada
a língua é por onde
ela escapa?

Jamais sairemos
desse labirinto
de falsos silêncios;
Então, por que não cantamos
enquanto afundamos?

Ou por que não nos calamos,
até o fim da névoa
do labirinto
e do silêncio torpe?...

Se a canção da Ursa Maior
não nos alcança,
afundar no canto ausente
das sereias de antes,

e apesar da vitória
deste abismo em nós
de nossa secreta Ítaca
não estamos tão distantes.

Ítaca dentro de nós:
A torre, a amada a fiar o manto,
o cão cego e fiel,
a mesa, o vinho...

Ítaca – a felicidade-
escondida no mar de abismos
e nos labirintos de sal
- nossa casa-alma:
Esfinge na névoa
que sempre encontramos
no final.

BÁRBARA LIA / MARCELO ARIEL




Escrevi este poema em parceria com Marcelo Ariel - escritor e filósofo que conheci quando ele me escreveu solicitando alguns poemas para o site da Livraria Pagu de Santos. Marcelo Ariel me propôs e eu aceitei, tenho dificuldade para escrever em dupla, mas, estou aprendendo.