Saturday, September 30, 2006

um sonho



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. andy warhol

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Todas as mulheres queriam ser Bárbara, foi o que me segredou a mais próxima de mim, caminhando ao meu lado pela areia... eu disse a ela que estava muito difícil encontrar azeitonas na praia, durante o percurso inteiro, vi apenas uma encravada na areia suja. No mais, era uma sujeira que a onda atirava, restos de redes de pescadores e sargaços. Não havia sol e era em algum lugar da Bahia, e todo mundo queria ser Bárbara e eu era Bárbara, tinha certeza disto. Na casa o perfume de plantas e ervas tornava o ar quase sólido, e as pessoas preparavam uma festa. E crianças corriam e se divertiam, menos o menino quieto, pequeno, de cabelos longos, vestido como um garoto do século XIX, de suspensórios e calça nos joelhos. Encantei-me com ele, e não deixaram que eu o tirasse do quarto, era uma cama antiga e um menino que queria brincar, proibido de brincar. Entre as cenas de ciúmes de um casal, deixo a casa, pensando em onde estaria Calabar? No caminho conchas violáceas, finas e transparentes estão espalhadas pela areia, coloco em uma pequena cesta de vime, e sigo me encantando com a cor das conchas, suas formas estranhas...
(Sonho da noite passada, meio à Jack Kerouac registro. Calabar era de Pernambuco, não da Bahia. Bárbara era sua amada... Outro dia falei com a Lindsey Rocha sobre peças de Teatro, e falamos desta peça. Das músicas da peça que cantam a Bárbara, a que me enjoa um pouco, por se tornar um refrão que todo mundo repetia, quando me conhecia... - Bárbara, Bárbara, nunca é tarde, nunca é demais - e tem a outra... Cala a boca, Bárbara! que me significa...)
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Cala a Boca, Bárbara
Chico Buarque / Rui Guerra

Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer,
em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai
Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

Friday, September 29, 2006

michel sleiman





















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Céu apacentando estrelas

Leve a mão do olho à direita, veja
erguer a constelação:

Ouverture.
Madrigal
indo acabar
no bocal
da aurora.

E clarinete
a mover
no ar anil
o hemisfério sul:

Canto
menos luminoso,
mais a chão,
da fotografia:

Ângulo
hipernegro:

Hipertexto:

Leve a mão do olho
à esquerda
e olhe o giro de lençóis:

Via láctea
à espreita, piso néveo
crivado de boreal:

Flores roxas.
Algodão.
Pororocas.
Piracemas:

Marte em Vênus:

Líquens. Sêmens.
Filamentos. Filigranas.

O sexo,
um quarto.

A cama,
um céu.

MICHEL SLEIMAN
São Paulo-SP

Thursday, September 28, 2006

andréa motta

Revelação
ecos desta cidadã
sem nome e sobrenome
à sombra dum flamboiant.

Andréa Motta


Jayalakshmi Satyendra

Friday, September 22, 2006

ho chi min



HO CHI MIN

O homem se inicia na pele nua.
A pele nua cobre a máquina perfeita
e a alma perfeita em Ho.

Amo a oriental certeza
de que a beleza mora dentro
da pele tecida
curtida de sol e neve.

Foi assim — Ho Chi Min.
Tecido rústico, túnica leve.
Sandálias de borracha percorrendo trilhas.
Doze tigres guardados no itinerário único
de seus passos altruístas.

Foi assim, simples como a rota de um pássaro,
que, Ho Chi Min, vestido de arrozais serenos,
descortinado de coragem, força, sabedoria,
reinventou a vitória do espírito forte,
contra frios fuzis e helicópteros ianques.

BÁRBARA LIA


Ho Chi Min foi um importante líder nacionalista do Vietnã. Foi presidente da República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte), lutou pela independência do Vietnã e posteriormente pela unificação do país. Morreu antes da derrota norte-americana na guerra do Vietnã.

Friday, September 15, 2006

os loucos que eu amo



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paul klee


OS LOUCOS QUE EU AMO


Os loucos que eu amo
roubam segredos de estrelas
soprando um vento anis
até desfolhá-la inteira
revelando o papiro de sua alma.

Os loucos que eu amo
esperam, ouvido colado às colméias,
pelo cio das abelhas
e rezam
para que haja mel
daqui 5 milhões de anos.

Os loucos que eu amo
amam
mais que o visível amor
e vestem a invisível pele
de pétalas desfibradas
das rosas desprezadas.

BÁRBARA LIA

Thursday, September 14, 2006

dragonfly




onde vai você?

demoiselle bleu
asas de seda entre
árvores negras
abaixo a água pura e
folhas do bosque
raiadas de sol.

onde vai você?
demoiselle feu
estrelinhas azuis
em suas orelhas
a comandar o futuro:

- “voa! voa!
dragonfly!
não espere o dia
nem as mariposas
nem as raposas”

- “voa! voa!
dragonfly!
não há mais lendas
tendas
vestidos de rendas
apenas o vôo
- dragonfly -
apenas o vôo,
nada mais”

BÁRBARA LIA

p/minha aluna Jacqueline, apaixonada por libélulas.

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (III)



O SONO DE GOYA

"Que ninguém possa jamais esquecer esta noite.
Hoje, tocarei a flauta de minha própria coluna vertebral"

(Maiakóvski)

Sonhei com serpentes mortas
dentes cerrados, ventos distantes,
touros,
festins negros
e maré alta -

Quem soprou esses ventos
nas flautas das vértebras
e verteu febre nos dedos
para que compusésemos vendavais
e folheássemos o diário de ouro
que o Deus tocou
que só nos fez chorar?

Quem varreu os cílios
Com o zoom sorrateiro
Da visão do sem nome?

Quem disse:
- Quem beber dessa água lembrará -
essa é a fonte da memória

Quem disse que era Deus?
MÁRCIO DAVIE CLAUDINO DA CRUZ

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (II) Luciana Cañete

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (II)

Será que é demasiado verde a fruta da tua alma?
Será que é demasiado doce a romã do meu ventre?
Descompasso cítrico que
soa como mentira
em minhas pupilas.

LUCIANA CAÑETE

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR (I)















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Rodrigo Madeira





UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR (I)


FOTOGRAFIA


onde viridiana, lisandra, babi?
e os filhos que sonhamos antes
da primeira menstruação?
onde elas todas?

o amigo que mudou de cidade?
a vira-lata prenhe no muro de casa acostada?
onde a casa?

onde as antífonas da capelinha?

onde o sol foz-iguaçuense?
que me escarnou a pele
e me tisnou o rosto:
pequeno caçador etíope.

onde as amoreiras?
que eram árvores sem nome
e davam amoras
(dói saber que as árvores têm nomes,
que as amoreiras dão amoras, dói saber).

onde tudo isso?

em mim é que não permanecem.
talvez o passado exista sem ser memória
na dispersão da aura,
na concentração das pedras.

mesmo a lembrança, existe?

talvez apenas borrifou-se-me
um perfume antigo nos olhos
e eles ardem um sol nascente
e eles choram o orvalho do capim.

talvez apenas
o menino se esqueceu de mim
RODRIGO MADEIRA


poesia do site po&teias:
http://br.geocities.com/poeteias/index.htm

Wednesday, September 13, 2006

o aleph azul de borges

O poema/declaração de amor a Jorge Luis Borges, foi publicado no site cronópios. Os meus poemas mais longos rompem, foi assim com o meu poema mais longo - Uma lua em teu ventre - que escrevi em uma única manhã, e com este que escrevi no tempo exato em que ouvia - Milonga del Ángel - de Astor Piazzola, e no espaço/tempo da lágrima-música eu disse a Borges - Eu te amo!



O ALEPH AZUL DE BORGES


Deixastes aqui teu coração
- Aleph azul
povoado de tigres brancos
e miragens,
que pulsa como esta Milonga Del Angel,
nesta primavera desprotegida
- acordes de Piazzola –


Nuvens brancas a acenar certezas:
teu coração Aleph azul
permanece – no suave ritmo del sul.
Deixastes um Livro de Areia
- tu’alma -
nós todos virando páginas
deste deserto metafísico - noturno e trágico -
que leva à aurora nítida do reino da poesia.


Deixastes aqui teu coração,
Aleph onde trafegam signos vários,
e mesmo que tenhas imprimido sonhos
em grego, sânscrito ou aramaico,
deciframos – em alfa –
tuas mensagens de estrelas.
És um vaso vazio de segredos,
pleno de sóis & luas & signos da nobreza,
em uma azul sinfonia que teces
entre seus dedos, enquanto apontas:

A eterna água,
o ar eterno,
flanando em um vale de sombras
e a inscrição brilhante
em fios de ouro
- não existe tempo –
Guardiões do impossível
levamos ao pescoço a ampulheta
como homens-bombas
explodindo a vida,
sem seguir teus passos-acordes.


Cegos, não percebemos,
a inutilidade da areia que cai em conta-gota,
teu coração quer nos gritar isto -
Aleph azul que guarda segredos rojos.
Alguns o folheiam em prece, como anjos.
Eu o folheio, deslumbrada,
com a mesma cálida e reverente ternura
com que olhava abismada a estrela Vésper.


Azul como teu Aleph coração.
Seta e sinal em meu caminho:
A estrela Vésper
e o Aleph azul de Borges.


BÁRBARA LIA

Saturday, September 09, 2006

capote






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Truman Capote - 1947 -
foto: Henri Cartier-Bresson
Ver o filme - Capote - dirigido por Benett Miller, ressuscitou as leituras da infância, quando eu me atirava na cama e devorava a revista X-9. A revista era macabra, até hoje não compreendo como meu pai permitia que uma menina de nove ou dez anos embrenhasse por uma sucessão de assassinatos desvendados pelo FBI, que permeavam as páginas amarelas da revista. Era a minha parte preferida da revista, como uma detetive colada à pele dos legistas eu permitia que minha intuição, mente e anseio transmigrasse para cenas de crimes hediondos, arrepiantes e até mesmo fantasmagóricos. Na maioria, crimes cometidos nos anos cinquenta, quando não havia exame de DNA, mas, havia uma investigação capaz de se ater a detalhes preciosos que permitiam chegar ao assassino. Aquilo devia ser mesmo minha veia de escritora, escrutinadora, devassando a mente humana. Truman Capote ficou visivelmente abalado com o episódio mostrado no filme. Quem não ficaria? Não é uma revista, ou uma reportagem televisiva. Ele sentou ao lado do assassino, envolveu-se com ele. Ele viu os mortos e suas feridas, ele sentiu o respirar da absurda falta de sentido que norteia a alma humana. Até que ponto somos anjos ou demônios? Até que ponto este fio tênue pode se romper? O ator Philip Seymour Hoffman foi crucial para este filme, de alguma forma, foi a figura que eu recolheria dentre as páginas amarelas do passado. Ele e sua amiga escritora, entraram no túnel do tempo e se tornaram personagens perfeitos do drama. Aquela casa branca entre árvores de inverno, o rumo que ele deu à sua vida após aquela idéia. Escrever o romance que muda uma vida, e que faz parte da história tem um preço. Truman Capote pagou este preço, a sangue frio. Não me lembro quem escrevia aquelas narrativas da X-9, eram mais que filmes arrepiantes de suspense, era a grama fria e molhada ainda com as pegadas do assassino, o bafo da morte escorrendo das paredes, era mesmo dilacerante como faca de gelo nas artérias, e eu sempre busquei as emoções fortes na vida, no amor e em tudo. Afinal, existe um leque de caminhos, e ficar escondido no escuro é a parte mais chata de toda a história.

Friday, September 08, 2006

ask the dust





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ASK THE DUST (2.006)Colin Farrell (Arturo Bandini), Salma Hayek (Camilla)

"Para uma princesa maia, de um gringo imprestável", a primeira dedicatória de Bandini para Camilla, na revista "The American Mercury".
Confissões de Bandini, para alguém que não é Camilla:
"Ela é perfeita como o tempo, o ar, a neblina e o eucalipto... a empoeirada luz solar. O lugar perfeito para se viver"
"Por que eu me daria ao trabalho de machucar você? Eu nem a amo."

...
Pensei em não ver ao filme, não nublar a obra de arte, ia me tirar daquele cenário que eu compus e que sonhei muitas vezes, sendo um pouco Camilla, com uma sandália que atrai os olhos do amor... A minha era azul e de tanto que eu amava, eu a surrei por caminhos, até que ela esgarçou. Devo guardá-la, devo guardar qualquer objeto onde o amor tenha pousado o olhar, ou a voz, ou os lábios...
Realmente não delirei com o filme, mas, com as palavras de John Fante, de novo caindo como caiam naquele tempo que eu nem lembro se era inverno, verão, ou primavera, em que passei ao lado dele, por todos os lugares. Nem colocaram no filme a cena onde ela rasga os sonetos de amor que ele escrevia, dentro do café, e ele espiando, através do vidro, o escárnio dela. Não era o meu Bandini, nem a minha Camilla, mas, foi uma forma de recordar o livro e de ter desejos de ler outra vez...

Quando li o livro fixei cenas - as sandálias de Camilla, dormir nua abraçada com o amor, sem fazer amor, um olhar de desespero rastreando o Mojave, em busca de uma menina com seu cão. Do escritor que mostra a todo mundo o único conto publicado. Fixei um lugar, dois seres abandonados, ferindo-se até o final, tentando entender as mãos que moldam, as mãos que moldam o vidro, no fogo. Esta mão que nos tritura e gira e aquece, como vidro na fornalha ardente, e nos faz da forma que quer. A mão do amor.

Thursday, September 07, 2006

maria de lourdes jaude

SOMOS NÓS
- Maria de Lourdes Jaude

Sabe aquele homem,
todo de negro, em pleno deserto...
Ao pressentir um avião
ameaçando o solo sagrado.
Mesmo sem saber se é cargueiro
ou de bombardeio.
Desembainha a espada!
Feito uma águia e enfrenta
pisando a terra.
E defende, mesmo sem chance,
seu solo seu chão.
Somos nós imigrantes de outras
terras, diversas paragens.
Que trazemos nosso solo como se
plantado em nossas canções.
Mostrando nossa luta, nossa garra.
Famintos de um mesmo amor...
Mesmo que não haja mais guerras
ou mesmo ensaios
nos fazemos guardiões de supostas quimeras.
Como leões sempre atinados
mesmo se já enraizados em outras paragens ou terras...
Mesmo assim, ainda, nosso coração

andarilho ficou fincado em bosques,
vales, desertos, neves alpes e furacões.
É como se fizéssemos qual aborigenes
que ao menor sinal de fumaça se reúnem
buscando força em pajelanças
buscando nuvens que nos tragam lembranças.

Maria de Lourdes Jaude, poeta, pintora e advogada urbanista.

poema de beirute



Bárbara Lia - Diwan - 04.09.06


fragmento de - Poema de Beirute - de Mahmoud Darwich, o poeta que escolhi para a leitura na noite de poesia e música árabe, bem como leitura de um pequeno fragmento de Relato de um certo oriente, de Milton Hatoun. Michel Sleiman esteve duas vezes no palco, depois da leitura do alcorão em árabe, pelo Prof. Milani, ele leu traduções poéticas suas do alcorão e encerrou com a poesia de Adonis, após a elegia lida pelo sheik.


...Beirute, leito de ruínas
primeiro beijo. Elogio de eucaliptos. Cobertor de mar e mortos
teto sobre estrelas e tendas
poema da pedra. Colisão de andorinhas no peito
céu viúvo pensativo sentado sobre um rochedo
sonora flor, Beirute. Voz de demarcação entre a vítima e a clava
criança que inverteu toda as tábuas das leis
todos os espelhos
e que depois, adormeceu.


Mahmoud Darwich

michel e eu




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Bárbara Lia e Michel Sleiman os poetas que fizeram a ponte Curitiba - São Paulo para a realização da - Noite de poesia e música árabe em solidariedade aos civís do Líbano.

Wednesday, September 06, 2006

Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.



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Michel Sleiman, lendo fragmento do poema longo "Um túmulo por Nova York", do poeta Adonis. Ao fundo uma sala árabe, com tapetes, almofadas, o narguilé.

... mínimo fragmento da poesia - Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.

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Aqui
no lado musgoso do rochedo do mundo, o único a ver-me é um negro a ponto de ser morto ou um pássaro a ponto de morrer. Pensei:
planta em vaso vermelho em metamorfose enquanto me afasto do umbral, e li:
sobre ratos em Beirute e outras localidades pavoneando-se na seda da Casa Branca, a armar-se com folhas e a roer os humanos,
sobre porcos restantes no jardim do alfabeto a pisotear a poesia...

diwan



A platéia - o poeta Adriano Smaniotto em primeiro plano, o sheik de Curitiba, à caráter e o outro sheik - seu convidado.

diwan


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DIWAN - PAZ PARA A ROSA ENTRE TREVAS E POEIRA
04.09.06
Alaúde - Jorge, um mestre.

thomas

















abaixo do camarim
aquático
primavera seca
de plantas iluminadas
no pensamento
periscópio do sonhador.
THOMAS GABRIEL

Meu filho fez o primeiro poema aos oito anos - o nome do poema era Bárbara - ele dizia que eu era o pássaro, a lua, o sol, o homem, a mulher... encantada digitei a poesia, sentindo a musa mais amada do piá, e um belo dia ele pega a poesia e me diz - vou tirar este nome daqui e dar o poema prá Vivi... me trocou pela menininha de cachos dourados que estudava com ele. Tímido, colocou na carteira da garotinha que ficou pensando que era do coleguinha da frente, poetas são tímidos e lindos em sua timídez, usam a poesia para falar e se confundem na hora de falar de amor... passada a primeira certeza de que um dia ele vai rasgar o coração lindo dele ao meio, contentando-me com a minha parte inteira, espero que ele volte a fazer poesia, um dia, já que ele deu um tempo desde 2.002 quando escreveu muita poesia, na oficina onde fui para acompanhá-lo, depois que ele chegou em casa emburrado, pois o amigo o acusou de ter pedido para que eu fizesse a lição de Literatura. Fui ler o poema que ele escreveu baseado em um poema de Brecht, era tão lindo que me arrependo de não ter vigiado solenemente aquele caderno, onde ele dizia da luz da manhã que o acordava, junto com o meu beijo. Resumindo, se disserem que eu sou mãe coruja eu assino em baixo.

Tuesday, September 05, 2006

uma nuvem na minha mão

Rouca de aulas e recitais, sem voz, mas sabendo que poemas devem estar ainda valsando as paredes enormes do local do recital. Percebi esta noite de ontem em mim um horizonte aberto. Lembrei de aconchegantes concertos de palavras, as noites do porão, as poesias dos bares. Ontem, foi uma experiência diferente, miscigenada com outra cultura, com um enredo de areias e algumas lágrimas, com erotismo que valsa no sangue árabe, com poetas de várias idades e raças, com música de alaúde e com direito a uma elegia escrita pelo sheik para a primeira família assassinada no Libano, neste último confronto. Noite árabe, de quem se dispôs a enfrentar a fria noite e ouvir o som das cordas santas, dos poços com lua dentro, da poesia flanando entre trevas e poeira. Beirute - flor sonora.
Breve terei as fotos da noite de poesia e música árabe na gelada noite de quatro de setembro.





UMA NUVEM NA MINHA MÃO

... O lugar estava preparado para seu nascimento: um monte
feito com o manjericão dos avós, dando a leste e oeste. E uma oliveira
perto de outra nos livros sagrados, a elevar os limites da língua...
e fumaça lápis-lázuli a arrumar este dia por algo
que só interessa a Deus. Março é criança
mimada. Março espalha algodão nas
amendoeiras. Faz banquete da malvinha para o pátio das igrejas.
Março é terra para a noite das andorinhas, e para a mulher
prestes a dar o grito nas pradarias... e estender-se nos
carvalhos.
MAHMOUD DARWICH (fragmento de um dos poemas de ontem)

Sunday, September 03, 2006

diwan

TEMPO DE POESIA
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DIWAN
PAZ PARA A ROSA ENTRE TREVAS E POEIRA
POESIA E MÚSICA ÁRABE
DIA 04/09/2006- 20H
SOCIEDADE BENEFICENTE MUÇULMANA DO PARANÁ
Rua Kellers, 473 – Alto São Francisco - fone – 3222.4515
CURITIBA - PR
Adriano Smaniotto, Alexandre França, Bárbara Lia, Maria de Lourdes Jaude, Michel Sleiman lerão poesias de poetas e escritores árabes: Adonis, Mahmoud Darwich, Milton Hatoum, Nizar Qábanni, Waly Salomão, entre outros.
Raduan Nassar (em vídeo)
Música árabe (Alaúde)
informações- barbaralia@gmail.com / mesquitaimamali@yahoo.com.br

Saturday, September 02, 2006

darwich














Mahmoud Darwich - poeta palestino (1.942-)

- Na noite de poesia e música árabe, lerei poesias de Mahmoud Darwich, e o escasso tempo nestas semanas, deixou em suspenso a tradução de uma poesia - O inverno de Rita - Rita, a amada judia de Darwich, um longo e belo poema, com um fragmento abaixo. Esta poesia não irá ao recital, quem sabe em uma próxima noite.
O Diwan (lugar onde a poesia se reúne, ou recital - em árabe), será uma noite de revelação da cultura árabe, de poetas e escritores contemporâneos. Evento possível graças à disposição de Michel Sleiman em acessorar de longe os preparativos, e à boa vontade do jornalista Omar Nasser, e dos membros da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná, ao sim que me foi dado pelos convidados, mesmo os que não puderam aceitar meu convite por conta de seus trabalhos, me apoiaram de outras formas. Dia quatro, o evento, com o apoio da Sociedade Muçulmana, da Igreja Cristã Ortodoxa São Jorge de Curitiba, e do Instituto da Cultura Árabe de São Paulo.


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.www.icarabe.org
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O inverno de Rita (fragmento)
...minha linguagem é feita de fragmentos
semelhante ao pensamento de uma louca, e dos cavalos que se suicidam
no final do hipódromo.

Rita bebe o chá matutino
e a primeira maçã com seus dez lírios
Me diz:
Não leia agora os jornais, os tambores são os tambores
e a guerra não é meu ofício. Eu sou eu. Tu és tu?
Eu sou
o que te vê qual gazela atirando suas perólas
o que vê seu desejo correndo atrás de ti qual torrente,
o que nos vê perdidos em unicidade sobre a cama
e em divergência, como a despedida dos desconhecidos no porto. O exilio nos leva
em seu vento, como folhas, e nos atira em hotéis de estrangeiros
como cartas lidas depressa.
Me levarás contigo?
Serei o anel de teu coração despido? Me levarás contigo?
Serei teu traje em países que te criaram para derrubar-te
serei um cofre de boa erva que levarás em tua morte
e tu serás meu, vivo ou morto.
O guia está perdido, Rita,
E o amor, como a morte, é uma promessa sem devolução ou prazo de validade.

Rita me prepara o dia
qual perdiz que ondula acima em seus sapatos de salto alto.
Bom dia, Rita,
e nuvens azuis para os jasmins de tuas axilas.
Bom dia, Rita.
e frutas para a luz da manhã. Rita, bom dia.
Rita, retorna a meu corpo para que as agulhas
dos pinhos descansem um pouco em meu sangue abandonado. Sempre que
abraço a torre de marfim, fogem de minhas mãos as pombas.
Ela diz: Regressarei quando os dias e os sonhos mudarem. Rita. É longo
este inverno e nós somos o que somos.
Não tome palavras para dizer
eu sou,
essa que vendo-te pendurado em uma cerca, abaixou-se junto a ti e vedou tuas feridas.
Com sua lágrima te lavou, antes de cobrir-te de açucenas,
e passastes entre as espadas de seus irmãos e a maldição de sua mãe. Eu sou eu e ela.
Porém tu és tu?
...
Mahmoud Darwich
(tradução para o espanhol - Maria Luisa Prieto - para o português - Bárbara Lia)