Saturday, December 30, 2006

VOLVER














Penélope Cruz - VOLVER (Almodóvar)



2.006 - uma música... um filme - duas trilhas sonoras
de um ano estranho...


Filme:
Volver (Almodóvar)

" os fantasmas não choram"


Música:

The Blower's Daughter

Damien Rice

and so it is
just like you said it would be
life goes easy on me
most of the time
and so it is
the shorter story
no
love no glory
no hero in her skies
i can't take my eyes off of you
and so it is
just like you said it should be
we'll both forget the breeze
most of the time
and so it is
the colder
water
the blower's daughter
the pupil in denial
i can't take my eyes off of you
did I say that I loathe you?
did I say that I want to
leave it all behind?
i can't take my mind off of you
my mind
'til I find somebody new



até 2.007...

Thursday, December 28, 2006

BEETHOVEN









































A força de uma mulher que encara o gênio de frente.
Beethoven em um bosque de Viena a ouvir Deus...
e a cena onde ele rege a Nona Sinfonia...
O silêncio. O silêncio. O silêncio.

Segredo de Beethoven, O
(Copying Beethoven, 2006)
Direção:
Agnieszka Holland - Roteiro: Christopher Wilkinson, Stephen J. Rivele - com Ed Harris/ Diane Kruger
Uma poesia que escrevi para Beethoven - "Também os bosques são sinfonias"... E na cena do bosque eu lembrei deste soneto
... Primavera para Beethoven...
escrevi ouvindo Sonata ao Luar:

Saturday, December 23, 2006

O ANO LITERÁRIO











Um depoimento sobre meu ano literário, está no site Cronópios, no endereço abaixo, também um balanço do ano na coluna semanal do Site Vejo São José.
Já havia feito o meu balanço aqui alguns dias atrás, foi um ano intenso e a chuva de 2.006 ainda não secou.
Um 2.007 com chuva mansa de poesia, brilho de mínimas gotas nas vidraças, e dentro menos agonia na alma, mesmo de quem é poeta, se a gente gritar que seja só excesso de liberdade.

Cronópios Literatura e Arte no Plural:
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2037

Vejo São José:
http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm

Friday, December 22, 2006

COLARES DE FRIDA























Llorona - Chavella Vargas

Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.

Ay de mí, Llorona Llorona,
Llorona, llévame al río
Tápame con tu rebozo, Llorona
Porque me muero de frió
Si porque te quiero quieres, Llorona
Quieres que te quieres más
Si ya te he dado la vida, Llorona

¿Qué mas quieres?
¿Quieres más?


COLARES DE FRIDA
Ontem no Mafalda Café Bar Bistrô, Rua Tibagi, 75, bem atrás do Teatro Guaira, o novo endereço do Café Mafalda, aconteceu o desfile - Colares de Frida -
Foi fundamental para relembrar Frida, a força dela, o impacto que me causou conhecer esta mulher. Ser ela vez por outra dentro, dentro da alma entranhada em uma ressonância que me apavora... Quando li a biografia de Frida em 92, eu pensava - esta sou eu.
Dos modelos que exibiram os colares, só sei o nome do Anderson Faganello, as moças de branco, flores nos cabelos, colares de Frida. O ponto alto da festa, e o meu desejo de estar ali, ouvir a Melina Mulazani cantar. Vestida de verde como Frida no dia de seu casamento, ela cantou as músicas do filme Frida. Em uma roda de amigos, uma noite, a Melina cantou uma música catalã, mais tarde, no palco do Wonka recitou - Cecília roendo unhas - do Leprevost, então a convidei para dizer meus poemas no projeto Porão Loquax.
Màrio da Silva acompanhou ao violão, foi uma bela apresentação da música do filme Frida, e dos colares de Danielle Santiago - www.colaresdefrida.com.br


À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR
(para Frida Kahlo)

(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crucis
expiação)

Pinto em palavras
A tua dor.
Sonho teus sonhos.
Vivo os maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.


Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)
BÁRBARA LIA
(O sal das rosas - Lumme editor, 2.006)

Wednesday, December 20, 2006

STRANGER


















Saido de um navio
de guerra,
boné de soldado russo.
Nas mãos, flores graúdas
psicodélicas,
caleidoscópio gritante,
embrulhadas em jornal
a ruborizar a cara do último banqueiro
algemado
de rosto pálido sangrando botox,
o mecenas mercenário.

O homem bonito
pele de sol das estepes,
coração tal qual
aquelas bonecas
russas
– cada camada
traz a gravura da mesma
amada.
Cada flor & raiz
dirá de amor bem mais
que rosas padronizadas...

O moço bonito
rasgou a XV
- uma poesia do paraíso –
aniquilou
toda a orla pobre de vida
seres perdidos
mais empacotados
que seus pacotes...
as lojas 1,99
os camelôs
as vitrines
tolos Noéis...

...e aquela colagem serena...
O homem bonito
e seu boné
de soldado russo.
BÁRBARA LIA

- a um passante que lembrou Jude Law em "Círculo de fogo"

Monday, December 18, 2006

DEZ ANOTAÇÕES PARA NÃO MORRER DE AMOR.





















. Procuro um sábio antigo, tradutor de silêncios.
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Te ouço como alguém que coloca um estetoscópio em nuvens.. Você é o pintor silencioso, ama com aquele olhar do pintor holandês Vermeer.. Você é uma tempestade silenciosa, que me molha noite e dia, dia e noite.. Ando perguntando ao pó... das estrelas, qual caminho seguir para não te ferir.. Curar minha síndrome de Raskólnikov de saias: perdoar meus grandes crimes e dizer que os castigos foram merecidos.
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Só você mesmo para virar o disco, e lembrar meu nome com outra canção.... As mulheres sempre sabem pra qual corpo se perfumam.. E foram “felizes” para sempre - a gente raramente encontra na Literatura, só na vida real e na pasteurizada rotina.. Aprendi a te olhar com olhos de brisa.
BÁRBARA LIA
NOIR (ed. autor - 52 p.)

Friday, December 15, 2006

MARCOS PRADO

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.Marcos Prado e a filha Araiê
.FOREVER.
Um bêbado estendido no alto da escada que dá acesso à pequena galeria subterrânea onde fica o TUC. Já no túnel, uma das pequenas esculturas do Hélio Leites na vitrine do Teatro, azul, olho a escultura e ouço a pergunta do cara aos passantes:
- Alguém sabe o que é forever?
Pensei em voltar e dizer, então lembrei que -para sempre- não existe. Não quis traduzir a enganação, fui adiante, já saindo da mini-galeria ouvi a bronca dele, irritado, a perguntar para a cidade e as nuvens, já que ele estava deitado de costas olhando o céu.
- Ninguém sabe inglês nesta cidade?
Para sempre só Marcos Prado, comprovo no vídeo o carisma, este é o cara, que eu só via em fotografia e poesia e vida viva que me persegue. O vídeo Tridimensional, o material escolhido pela filha do poeta Araiê Prado Berger de Oliveira e Antonio Thadeu Wojciechowski. Roteiro, adaptação e edição: Rafael Lopes, para mim, ao menos, foi a hora exata da comemoração. Todo mundo em silêncio vendo/ouvindo o aniversariante. Adriano Smaniotto abriu a noite com a palestra das livres adaptações feitas por Marcos Prado e seus parceiros poetas "OS CATALÉPTICOS" O Palacete Wolf foi pequeno para tanta gente, e não dá para enumerar todo mundo que apareceu. Foi uma noite muito linda, e eu, só não tive a presença de espírito de responder ao cara estirado na calçada, enquanto me dirigia para o local do evento:
- Alguém sabe o que é Forever?
- Marcos Prado.
fotografia do blog Astrália - de Marcos Prado - link ao lado.

VOLVER


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Carmen Maura/Penélope Cruz
VOLVER (Almodóvar, Espanha)


Volver, o filme de Almodóvar é surpreendente, é a genialidade de fazer rir com as coisas que ferem mais que tudo. Eu temia ver um filme que falava da relação mãe-filha, e a atriz Carmen Maura lembrou a minha mãe, o rosto bonito embora envelhecido, e foi impossível não chorar ouvindo a personagem de Penélope Cruz cantando Volver e a mãe ouvindo, escondida a chorar. Volver é uma palavra impossível para mi madre. Eu segurei a mão dela na UTI. A mão fria, e a vida exilando é a coisa mais difícil de se enfrentar. Esperei que amanhecesse o dia na varanda de um Hospital em Maringá, quando fui chamada para a hora final, para onde a levaram e onde a vida dela foi parando devagar, como aqueles trens antigos até exilar o último acorde. Ela já não dizia nada com nada, e misturava tudo e guardava ainda aquilo que as pessoas guardam na alma, as confusões do viver, a vontade de estar ao lado de quem lhes dá a paz... Eu estava lá apenas para ficar dez minutos, era a despedida, todo mundo sabia, a família inteira na recepção pequena em estado de angústia e querendo entender e entender-se. Considero que aquela não foi a nossa última conversa, considero que mesmo sem deitar em seu colo, nossa despedida já tinha acontecido, com esta inexplicável ligação que há entre quem se ama, ela já havia dito o que necessitava me dizer, para se sentir melhor, para morrer em paz...
A cena era tão branca, espero jamais entrar em uma UTI e segurar a mão gelada de quem amo, nunca mais. A enfermeira me disse - dez minutos. O tempo passava e eu estava lá, e as recordações dela eram um conto estilo nonsense, que eu ouvia, calada, mão sua entre as minhas mãos. A enfermeira não me pedia para sair e fiquei ali, com ela pela última vez, sabendo que ela jamais iria volver... A enfermeira justificou a razão de ter "esquecido" de pedir para que eu saísse - Você é a única que a acalma, que conseguiu se manter calma diante dela... Sempre cismei com aquela mania dela, de me chamar de Lia... Talvez ela não me quisesse mesmo guerreira, incorporando este nome bárbaro... Que vê os amores morrendo, calma encobrindo o sangue coagulado dentro, o grito que escoa entre as rochas do nada, sempre o silêncio da minha dor valsando como dique dentro da montanha... A montanha protegendo, escondendo a dor que sangra líquida e incontida, segurando a mão da mãe que morre, de tudo que morre à revelia, sabendo que nada vai chegar para ocupar o lugar...
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Volver é um filme feminino, não feminista. É mais ou menos assim - mostrar como as mulheres conseguem tirar pétalas de pregos, ter aquela postura de peito erguido da personagem de Penélope. Cai o mundo, mas, não a coragem... estufar o peito, cantar a velha canção, tomar os filhos pelas mãos e o resto, o resto é o resto...

Wednesday, December 06, 2006

2.006 - UM ANO INFINITO

Vez por outra eu pensava postar apenas isto...
Este blog se desintegrará em dez segundos.
Este é o meu ano infinito. Posso viver cem anos e não terei vivido dois mil e seis, ainda o viverei pelos dias que virão e pela poesia que será escrita. Em uma alucinada rota, caiu sobre meus ombros um ano invencível, fui vencida por este ano infinito - oito.
No ano infinito a felicidade veio colada às lâminas, e não pude separá-las, era tão ansiada a felicidade que abençôo as feridas.
Paro um segundo, a tempestade lá fora, e a leve passagem pelas horas já sepultadas e vivas ainda, como bulbos da flor mais linda, nas mãos, sangradas, e dentro, sabe-se que há a flor divina, plena, viva, pulsando dentro da terra estranha, escura, pulsando no caule rijo, a flor - inesquecível... Eu vivo. E de tanto viver, ronda-me a morte e as despedidas... No entanto, eu descobri neste ano infinito, a impotência plena e a fagulha da potência divina, que resume o ser. Sou.
O meu livro 'O Sal das Rosas" - ouro e negro - está aí, mas, não será lançado neste ano. Tudo flui para festas e a gente dá uma trégua... Não vou desintegrar meu blog, nem nada. Mas, vou tirar férias e deixar para as dez - ou menos - pessoas que lêem este blog, o itinerário meu, em 2.006, o ano infinito...

MARÇO/2006


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Melina Mulazani



No projeto - Porão Loquax - do Wonka Bar, a atriz e cantora Melina Mulazani, do Grupo Mundaréu interpretou "Cantos Bárbaros". Dia 07 de Março, nos revezamos no palco do Wonka com a poesia da Bárbara Lia, uma delas, inédita ainda, que Melina interpretou, emprestando a voz que eu emprestei à Roxana, bárbara princesa dos confins da Ásia...


CANTO DE ROXANA


Heras brancas de paz
devoram meu coração
- basta sentar ao teu lado.
Vê a cortina etérea?
Os ancestrais,
Bucéfalo, conquistas,
Aristóteles, os Templos,
o sol que negastes
a Diógenes?


Naqueles tempos necessitavam oráculos,
sinais, presságios de sonhos,
sacrifícios a Amon.
Dispenso a magia das mulheres da Trácia,
suas danças e suas serpentes.
Meu oráculo-coração acende uma fogueira,
basta pronunciar teu nome.

BÁRBARA LIA

MARCO 2.006 - A BIODIVERSIDADE





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Ter a coluna semanal no site do jornalista Ricardo Faria "Vejo São José" foi a ponte para o evento da ONU COP 8- Convenção sobre Biodiversidade, que permitiu algo nunca sonhado, conhecer os bastidores das discussões sobre o Meio-Ambiente no Planeta, e o susto, e o útero da terra remexido e a dança das tribos na abertura do evento, e estar diante do aço de candura que é Marina Silva, e percorrer as trilhas da desumana rota, constatar que são os africanos as cobaias dos grandes países, em tecnologias contestadas por ONG's, cientistas e pessoas que lutam pelos Direitos Humanos. Ouvir Leonardo Boff e sua certeza que de tão simples ninguém ouve, que de tão humano foi banido pelo Vaticano. Certa vez em um programa da rede educativa, logo após a escolha do cardeal Joseph Ratzinger para ser o novo Papa, alguém comentou que Boff só não foi queimado em uma fogueira por Ratzinger, pois vivemos em tempos em que gritam pelas árvores, os ecologistas não permitiriam que se queimasse uma árvore para matar o Frei. O atual papa foi o responsável pela expulsão de Frei Leonardo Boff da Igreja Católica, por ser um dos religiosos da América Latina a trazer Deus para o chão, através da Teologia da Libertação. Naquela tarde, naquela tenda branca e rústica, ouvindo as palavras de Boff, a vida caiu nova em mim, semente de belezas que nem um poeta consegue escrever, que somos todos vindos do mesmo átomo e tão donos da mesma esperança e partilha, e que não há mesmo como ser feliz depois de ouví-lo e nem de ser infeliz depois disto. É como esta tarde e a tempestade, cada gota um ser, ali, caindo - gota de tempestade - tua vida. E você tivesse que colhê-la e cuidar dela, sabendo que só ela, sem trilhões de pingos ao redor, não seria esta vida líquida que cai. É sem alarde que as belezas nascem, rompem a terra, e crescem. A raíz aquecida dentro, como a parte-tesão-carne do homem dentro do delta-vulcão da mulher. Como a raíz no solo, como a vertente invisível das águas, o primordial existe, ninguém vê, ninguém sabe, no entanto, existe e é o que nutre, o que leva ao éden, o que nos coloca em cada amanhecer diante da realidade de ser um entre tantos e vários, pés pousados nesta Terrazul de estonteante beleza, ela que navega o infinito e nos leva, e carrega e nos acolhe, não tolhe, e é ela que está sendo sugada, toda inteira, às entranhas...

ABRIL/2006

O romance "Solidão Calcinada" foi um dos finalistas do "Prêmio Sesc de Literatura 2.005", o vencedor foi o escritor goiano - André Leones - O livro que alcança o primeiro lugar é editado pela Ed. Record. No evento do Sesc em Curitiba, no final de 2.006, tive a felicidade de conhecer André e a escritora que venceu a edição anterior - Eugênia Zerbini.

OUTUBRO/2006


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BÁRBARA LIA & NOIR
foto:
Rebbeca Loise - escritora, fotógrafa e futura jornalista
Lucca Café - Curitiba.



Lançamento do livro de poesias "Noir" (52 p. ed. do autor) em Curitiba e Osasco.
Em "Noir" o eu lírico da Bárbara dá lugar ao profano, e a poesia que as pessoas mais gostaram foi exatamente - Profana.
PROFANA


A cor do amor é branca,

e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.

Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.

Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus.
Deus ninguém come, mas,
será que beber
pode?
BÁRBARA LIA
(NOIR)

NOVEMBRO/2006


A minha poesia "Águas de Alexandria" foi a terceira colocada no Concurso de Poesias "Helena Kolody", da Secretaria do Estado da Cultura. Escrevi "Tristessa", a poesia que mais gostei de escrever em 2.006...
http://chaparaasborboletas.blogspot.com/2006/11/tristessa-pjack-kerouac-ame-quem-te.html

Tuesday, December 05, 2006

CARPE DIEM



Fluxo anêmico dos carros
(de luxo)
sol selado
de adesivos Mc Donald’s.
Arabescos eróticos
na fumaça cinza
da panificadora ao lado.
Semente masculina
perfumada
amaciando o tecido
da minha pele.
Água calêndula no ralo
revela a forma
exata do rosto estrangeiro
e o sexo formigueiro
de prostituta de Veneza....
Espie pela fresta do Zeppelin
dos sonhos...
Meu mundo:
Sem Florais de Bach
Feng Shui
Mantras.
Músculos da alma – expostos –
Cicatrizes mortas,
lâmina que corta
escaras
revela
o mármore de carrara
- Vivo -


BÁRBARA LIA

Monday, December 04, 2006

GRUPO FATO





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GRUPO FATO - Curitiba - Guairinha - Julho
show - Música Prageada
foto de Bárbara Lia (amadora até à medula)




FATO
(por Bárbara Lia)



Na infância meu pai falava de uma dança chamada catira, eu percebia que ele tinha vontade de saber aquela dança, conhecida também como cateretê. Mas todo filósofo tem alguma dificuldade com estas minúcias do corpo, uma certa carência nos gestos. São tão concentrados no cérebro e alma, que acabam sendo malabaristas do impossível, curvados sobre livros, ou tendo torcicolo ao perscrutar estrelas. Eu havia ouvido falar daquela dança típica dançada pelos vaqueiros. Meu pai havia sido peão quando era jovem, um peão de boiadeiro, um desses vaqueiros que nas noites acendem uma fogueira, e dançam catira à lua. Os catireiros, como são conhecidos, têm uma vestimenta típica: camisa xadrez _ de manga comprida _ e calças jeans. Usam botas, chapéu de aba larga e lenço no pescoço, lembrando os boiadeiros. Eles bailam ao som da moda de viola, que trata de questões do dia-a-dia, como o trabalho e o amor. Os dançarinos em duas fileiras, a sapatear e bater palmas, sempre ao ritmo das violas. Para mim catira era um movimento que tinha terra & luz, sapateado e homens da roça.
Um dia colei o olhar na Televisão, um grupo que tinha uma dança, assim, de bater os pés, ao som de uma música que continha poesia, não me lembro quando, só me lembro que gravei o nome do grupo: FATO. Depois eu soube que era Fandango, que não era catira aquela dança bela. Fandango é uma dança típica do litoral do Paraná, reunião de várias danças que encerram a autêntica poesia cabocla nos cantos que as acompanham. É um translado da Península Ibérica. A melodia e os versos entoados no fandango contém a imaginação e a sensibilidade do nosso caboclo. Sua coreografia exige técnica e agilidade de bailarino, calçados especiais desses que se usam para o sapateado. As mulheres valsam arrastando os pés, atentas às evoluções, enquanto os homens sapateiam num ritmo certo. Os cavalheiros ou folgadores batem o sapateado com tamancos de madeira de lei, que eles mesmos confeccionam. O acompanhamento é feito com duas violas de onze cordas, pandeiros e uma rabeca.
Lentamente fui conhecendo a trajetória do grupo Fato.
Neste ano, no dia do aniversário de Curitiba, liguei a TV e eram os integrantes deste grupo que se apresentavam em um palco na Praça Santos Andrade, junto com a Orquestra Sinfônica do Paraná. A voz de Alexandre Nero me seduziu _ voz-poesia _ esculpida na noite que ia caindo cobalto. Fui fatalmente e definitivamente seduzida por este grupo musical.Em uma das músicas do Fato, a letra de três versos de Sandro Fernandes, com música de Ulisses Galetto e Grace Torres, ao ritmo do Fandango, vira uma festa de acordes:


A noite foi
A noite é
Anoitecerá


Toda a coreografia, o ritmo, a poesia das letras, a voz única do vocalista, entrecortada da intervenção dos outros integrantes e o show do Fato se transforma em um acontecimento que contagia. Utilizando raízes paranaenses e músicas que são poemas, e com uma afinidade entre eles, este grupo que iniciou em 1.994, e em 1.995 lançou o primeiro CD _ Fato. Seguidos de _ Fogo mordido (1.997) – Oquelatá queteje (2.000), e se preparando para lançar no início do próximo ano mais um CD. Entre muitas apresentações do Fato, inclui o projeto “Balaio Brasil” _ SESC, que reuniu artistas de todo o país na capital paulista. Neste ano o Grupo Fato representou o Brasil em Paris no _ Ano do Brasil na França _ com sua peculiaridade musical única. Seduzidos pelo Fandango, em 1.996 foram às raízes, até A Ilha dos Valadares, antigo entreposto e cativeiro de escravos que ainda mantém a prática de rituais rurais como a feitura da farinha de mandioca, e é a sede do folclórico fandango. Ulisses Galetto compôs uma das músicas do Fato, com o título Valadares...
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No tempo em que seria feito
O que tivesse sido dito
Pelas vozes búlgaras
Trazidas pelo ar


E o som do oco
(chão batido na madeira)
fosse aqui de Valadares
com tamanco e agogô


De grão em grão
Toda rabeca de Gramani
Enchesse a vida
De carinho e algo mais


Caruaru trouxesse pífanos de luz
Pra roda viva
E aí, quem sabe,
Houvesse um mar, um sol e um blues


De toda a coisa do mundo
Do fim do fosso, do fundo
Francisco, o Santo ou o Mendes
O Rio ou outro qualquer
Um olho, um brilho, uma trilha
De um novo homem sem rumo
A candelária em Janeiro
E a gente cega de fé


Se após o começo
Houver um meio sem fim.
Que seja um ponto no escuro,
Um carma, um ato, um amor
Uma criança, um futuro
Um homem agora com rumo
O que faria nosso sonho
Trocar o não pelo sim?
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Trocar o não pelo sim, rasgar a fonte branca das possibilidades, ancorar em uma Ilha antiga e aprender com seu povo a antiga dança, andar sempre com a música e sua partitura colada à pele. Não sei se algum dia a música vai me deixar um pouco quieta. Tudo que escrevo, cada romance, cada conto, e cada FATO tem uma música de fundo como um balé na alma. Se toda a poesia e a beleza da voz do Nero, e das partituras e dança e coreografia do FATO e de tantos grupos musicais que tem essas peculiaridades de traduzir a beleza da música _ neste enlace perfeito de melodia, letra, voz e dança. Se todos esses exemplares raros que a gente vê pousassem na telinha e fossem difundidos como os outros ritmos pops, tão fracos em filosofia em suas letras, tão iguais em seus acordes. Se estes grandes Grupos tivessem o espaço que dão ao pop pobre nosso de cada dia, a poesia ia fecundar, eu sei, e sei que isto é sonho meu de poeta. Mas, eu não entendo o meu País, tanto ouro escondido nas grutas, que a gente felizmente vai cavando, vai bebendo, e vai desfrutando, sempre com uma emoção guardada. Querendo que todos conheçam, sem ser egoísta, querendo que todo mundo um dia sinta como pulsa o sangue no ritmo do fandango e como é delicioso ouvir uma música cuja letra é o poema lavrado em cordas. A rabeca, pandeiro, tamanco e a lua, que certamente veste seu vestido azul alvíssimo e também dança.

FATO:
Alexandre Nero – voz
Gilson Fukushima – guitarras
Grace Torres – teclados
Priscila Graciano – Percussão
Ulisses Galetto – Baixo
Zé Loureiro Neto – Bateria
www.fato.org

2.006 _ Um ano longo/louco _ dezembro no ritmo do encerramento de aulas e início de férias. Decidi publicar a escalada intensa de 2.006, textos e poesias, e vou retroceder a dezembro de 2.005, quando o site Vejo São José publicou este texto sobre o Grupo Fato, sem que eu soubesse naquela época que iria novamente entrar em transe poético no show _ Música Prageada _ quando Alexandre Nero cantou "Águas de Março". O novo CD é belíssimo... E segue a trajetória deste grupo genial...