Wednesday, October 24, 2007

SOLIDÃO CALCINADA

2.008 vai ser o ano da minha estréia com uma publicação em prosa. O Conselho de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura aprovou a publicação do meu romance, que em 2.005 foi um dos finalistas do Prêmio Nacional do Sesc: Solidão Calcinada.
O universo das personagens femininas do meu livro: Pietra, Esperança, Serena e Bárbara ainda é desconhecido. Vai estar acessível em breve - até o final do próximo semestre.
E vamos em frente, nesta solidão iluminada.

Sunday, October 21, 2007

SYLVIA E O FALCÃO - DIA 30 NO PORÃO


















Se as pessoas olhassem mais para a poesia
de Sylvia Plath e menos para o fevereiro
de 1.963: Londres, duas jarras de leite para os filhos,
neve, água congelada na torneira...
Veriam o quanto é intensa e rica sua obra...
Todos os dias pessoas se matam.
Mas, quem escreveu poemas como Sylvia Plath?
Que importa alguns tentarem levar adiante a sua obra,
se há um exército inteiro na platéia esperando
o instante em que ela vai colocar a cabeça no forno?
Ela sabia disto quando escreveu Lady Lazarus.
Incomoda-me um pouco esta fixação na pessoa
e não na sua obra. Foi assim com Orides Fontela.
Cada pessoa que fala de Orides Fontela não diz
apenas que era a poeta da síntese,
que conseguia concentrar em versos mínimos
um universo metafísico e filosófico.
Sempre evocam o gênio rude dela,
sua pobreza.
Sem lembrar que a Arte é exatamente isto,
uma espécie de alquimia onde é preciso saber
a fórmula secreta e transformar o cascalho em ouro,
ou no caso dos poetas, palavras em vida, espanto,
grito, aleluias, protesto, tudo isto com fogo dentro
e água e ar, pois existe também a palavra morta,
construida em cima do nada, este tipo de "poesia"
que alguém lê e pensa - e daí?
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30 de OUTUBRO - Porão Loquax - Sylvia Plath
Dia 27 de outubro Sylvia completaria 75 anos.
No porão do Wonka Bar, os atores Andrew Knoll
e Carolina Maia - do Grupo Processo Artes
Mundiais - vão dar vida a um roteiro que estamos
compondo juntos, um roteiro com fragmentos
de poesias, uma mini-peça teatral.
Sylvia e o Falcão é o título de um texto
que escrevi depois de ler os livros de Sylvia,
o livro de Ted Hughes, a biografia de Sylvia
e seu romance - A Redoma de Vidro...
Desde já o convite para a homenagem à Poeta.

Thursday, October 18, 2007

ROSA CHÁ AZUL ANIL

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Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.

Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:

Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.

Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.

Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:

rosa chá + azul anil

Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.

E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.


- meu azul demorado!

BÁRBARA LIA

Wednesday, October 17, 2007

LA JAULA















Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.


Yo no sé del sol.
Yo sé la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.

Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.

ALEJANDRA PIZARNIK -
(1939-1972)
- Las aventuras perdidas, 1958

Sunday, October 14, 2007

AROMA DE ANIS








http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=2794

(Meu conto - AROMA DE ANIS - publicado no site
Literatura e Arte - Cronópios)

SYLVIA PLATH - 75 ANOS



















Vejo você ao luar
Andando pelo cais vazio de Alicante
Como uma alma aguardando a barca
Uma alma nova ainda sem compreender
Pensando que ainda é lua de mel
No mundo feliz a vida toda à sua espera
Feliz, os poemas ainda por achar...



TED HUGHES


tradução Paulo Henriques Brito


Em 27 de outubro Sylvia Plath completaria 75 anos. O fragmento acima é do livro - Cartas de aniversário - publicado pela Ed. Record.

PORÃO LOQUAX


Wednesday, October 10, 2007

ADAMARE






















Dante bebendo água do Lethes
Jean Delville


Yo sin ti:
Catedral de arcilla. Campo segado.
Esperanza de brisa. Ángel despistado.
Desnuda de luz y vida.

¡Adamare! ¡Adamare!
Mantra de medievales baladas.
¡Adamare! ¡Adamare!
Balcón de flores, manos con alas.

Velo en el balcón.
Cristales de lágrimas.
Estrellas que sigo callada.

Pájaro invisible - Pegaso.

¡Adamare!
Río que desagua en el adiós.


BÁRBARA LIA


Na aldeia de Montaillou - Sul da França - no final do século XII, a Inquisição prendeu metade da aldeia e os julgou por heresia. Nos arquivos da Inquisição o historiador Emmanuel Leroy Ladurie encontrou termos latinos utilizados pelos cátaros para definir o - querer bem: Quando alguém gostava apenas de outro utilizava-se a palavra - Amare. Quando gostava muito a palavra era Diligere. Para quem amava realmente a palavra era ADAMARE.

VIOLA NA VELA



Tuesday, October 09, 2007

LA NAVE VA...

- Depois do programa da Tv Cultura Roda Viva - José Padilha, diretor do filme Tropa de Elite na roda...
Ontem no programa Roda Viva o cineasta José Padilha demonstrou que é alguém que deseja ir além do entretenimento. Levantar um debate sobre a violência que assola não só Rio e São Paulo só pode ser positivo, e já passou da hora. Pode ser que alguns vejam o Capitão Nascimento como herói, eu o vejo como um fracassado, dentro de uma instituição fracassada. A violência é o primeiro sinal de fracasso do homem, e no final, somos mesmo uma sociedade fracassada. Uma sociedade soterrada e penso que sem saída. Tudo em uma sociedade fracassada tem um efeito contrário, então Tropa de Elite é mais um combustível para incendiar ainda mais as guerras das facções, a corrupção e o pior - a ausência total da lei. Consta que não há pena de morte no Brasil. Assim como constam muitas coisas na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos que são totalmente ignoradas. Vendo ontem o debate lembrei Gandhi - olho por olho e o mundo acabará cego.
As ações do Bope - no filme - demonstram que quem mora no morro já está devidamente condenado, julgado sumariamente, sem nenhuma dúvida. E neste instante sinto um gelo na alma - Como mudar este panorama? Dar aos moradores dos morros e das periferias o direito de ser gente, cidadãos, sem julgamento prévio?
Rousseau disse que a propriedade privada nasceu com o primeiro homem que colocou a primeira cerca ao redor de sua casa... Assim como os mandatários do morro nasceram com o primeiro traficante que se julgou dono do pedaço. Depois do primeiro passo, não há mais volta. E ao redor o consentimento institucionalizando o que poderia e deveria ser questionado... Mas, se um homem pré-histórico decidiu um dia tomar posse de um pedaço de terra, e um marginal olhou a redor e decidiu que ali ele seria a lei, o passo errado termina em uma procissão de erros. Mas, muitas teses e mestrados e doutorados vão dissecar de forma brilhante os motivos, sem resolver nunca o drama das favelas. Os policiais continuarão em suas noites de purgatório entre a cruz e a espada. Os viciados continuarão alimentando o tráfico... Uma roda viva, hecatombe de uma humanidade que esqueceu a felicidade pendurada atrás da porta e saiu a procurá-la em endereços que ela nunca visitou, em casas que ela nunca morou.

Monday, October 08, 2007

O NASCEDOR























Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam o traicionam,
mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso,
que segue sendo
tão extraordinário,
num mundo
em que as palavras
e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se reconhecem?


Eduardo Galeno (Uruguai)

- 1967, La Higuera, assassinaram Che, que ainda nasce,
a cada dia nasce.

Friday, October 05, 2007

PORÃO LOQUAX


O Ano em que Meus Pais Sairam de Ferias

1.970


O ano era 1.970.
1.970 era o telefone dele.
Minha pasta do colégio era decorada com fotos em preto e branco.
Puro charme dos meus jogadores mais amados - Clodoaldo e Tostão.
Eu parava na banca de revistas do pai dele e ficava olhando a revista Placar para olhar entre uma página e outra o seu olhar.
Um artista, escultor.
Um menino de pele clara que eu nunca beijei.
O papel carbono e a primeira poesia escrita na máquina de escrever Olivetti.
Tudo preto no branco.
Até o ar era preto e branco.
As fotos do jornal.
As cenas que eu via na TV.
Eu era a índia Potira.
Tinha um amor e uma mina de diamantes...
Vez por outra no túnel do tempo um diamante brilha no interior da gruta.
Tudo colore súbito: a chuva caindo no meu uniforme bordô, ele sorrindo no meio de umas revistas coloridas, arco-íris me esperando no final da rua quando eu voltava do colégio... a gargalhada colorida de papai... os olhos mel de mamãe...
Depois, tudo volta a ser preto e branco, em 1.970.
1.970 era o telefone dele.
Os telefones eram antigos e negros como em um filme noir.
Bárbara Lia


- O ano em que meus pais sairam de férias foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2.008 - Particularmente voltei ao tema e ao ano colorido de um tempo que tudo era preto e branco. No filme o garoto é filho de um guerrilheiro. Eu sou filha de um partidário da direita, que chamava os revolucionários de terroristas, e que vibrou quando Petras - o jogador tcheco que fez o primeiro gol contra o Brasil se ajoelhou e fêz o sinal da cruz - Meu pai dizia que um jogador de um país socialista havia rezado diante do mundo... Nada mais seria como 1.970, que por coincidência, era o nº do telefone do menino que despertou meu primeiro olhar de encanto. Eu tinha 14, era goleira no time de futebol da rua, prá completar o time do meu irmão. Lia revista placar, e vivi minuto a minuto o nosso ano de ouro da nossa melhor copa, e nem sabia que era o mais rígido ano nos põrões da repressão...

Wednesday, October 03, 2007

TRANS/BORDAR!

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Cena do filme - O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway



Sinto desejo de desaparecer na aragem
Um rosto rima em viagem
Anagramas ao invés de alma ferida

A poesia era hipótese escondida
Vida - mais que vida -
que engendrou versos da mulher alada

Fluía em mim um rio uma enxurrada
Não me cortava guilhotina afiada
que ora me degola

Ando escondendo versos na gola
Querendo engolí-los com coca-cola
Para não dizer de mim e sem pudor
delatar meu mais sublime amor.
BÁRBARA LIA

Tuesday, October 02, 2007

A AMIGA CHORA

Tínhamos nossos papos secretos. Lembro quando ela começou a namorar o Sérgio e lembro da felicidade da segunda chance, para ambos. Lembro quando ela foi viver na Europa quando o Sérgio foi gerente do BB em Amsterdan, e de como nos encontramos na pracinha diante da Sec. da Cultura quando ela retornou e nos sentamos à sombra da árvore e ela me contou sobre Paris. Lembro que queria detalhes e queria inserir seus lugares nos meus escritos. Lembro do almoço marcado há muitos anos, quando eles começaram a namorar... no segundo andar da galeria onde existia o Cine Groff e foi através dela que descobri o melhor ganash da cidade e a Livraria Lilith, da Bebeth Gurgel. E quantas vezes voltei lá para comprar os livros em uma livraria feminista. Muito envolvidas com nossas próprias vidas convivi no dia-a-dia com ela apenas durante os anos em que trabalhamos juntas. Mas, existe um fio de ouro que une as pessoas e existe em mim uma sensibilidade extremada.
Na quinta-feira assassinaram o Sérgio, o marido dela, o nosso colega de trabalho que sempre foi tal qual na morte, decidido, intrépido. Um síndico irado com o morador que tenta desvendar as suas falcatruas. E morreu o ex-colega, casado com uma pessoa que eu quero bem. Não dormi na quinta, acordei sentindo um abraço forte, assustada com a despedida intrépida. Havia um grito naquele abraço que eu não entendi. Assustada fui dormir na sala. E os dias seguiram e eu concentrada nos meus escritos, sem saber da morte do Sérgio, tentando vencer a barreira do tempo, terminar meu romance para tentar a única forma de um escritor iniciante neste país publicar seu primeiro livro - os concursos, as tentativas...
Nariz enfiado no computador, escrevendo, criando, corrigindo... Mas, com uma sensação estranha ao redor.
Apenas ontem me sentei diante da TV e no noticiário local ouvi o nome do homem morto pelo síndico. Ter entendido as sensações dos últimos dias. Saber que do seu modo e com sua força recebi um adeus. Ir ao encontro dela - triste e atordoada morando no mesmo prédio que vive o assassino do marido, vivendo no corre-corre de depoimentos em delegacias. Uma certeza de que o mundo está mesmo a um passo da derrocada. Que não há mais limites, um mínimo de humanidade onde quer que seja. Que o capitalismo selvagem faz lembrar uma fumaça invisível e inodora que adentra as almas das criaturas, seus corações, e rasteja ao límite do corpo e invade o espírito e corrompe. Mundo do avesso onde importa apenas o que na verdade não importa...