Friday, January 25, 2008

A UM PASSO DO PÁSSARO... I
























IMAGEM - http://www.iadb.org/idbamerica/Portuguese/JAN02P/jan02p5p6.html



Um pássaro no telhado ao amanhecer, um poema do amigo (Wilson) que leio e a poesia jorra como rio límpido:
.
A um passo
do pássaro
respiro
(Orides Fontela)
.
A vida é um pássaro que voa rápido e que a gente espanta com um respirar. Prendo a respiração e aprendo o exercício da espera, da paciência e do alumbramento. A um passo do pássaro... A um passo de ti... A um passo de poemas que tento reter, e depois deixo voar, de volta ao reino da poesia... Sim, existe um lugar, uma estrada, um sorriso branco, um canto de rio, o rio, o rio, o rio, a rota líquida que contorna tudo, a rota, a trégua, nossas mãos presas, a nuvem manto translúcido azulado, signos sons saudades asas águas...

A UM PASSO DO PÁSSARO... II




III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

MANOEL DE BARROS
Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
- fragmento -
de "O Guardador de Águas"





A UM PASSO DO PÁSSARO... III




Um pássaro
catando lágrimas do vento
beija num canto solitário
o encanto de estar vivo.

No resto do dia
alimenta-se da fantasia
daquela criança
que mesmo de barriga vazia
sorria para as nuvens
a imaginar carruagens e anjos
enquanto em volta de si
as sombras se banqueteiam
nas ruínas.

Wilson Roberto Nogueira

http://poeteias.blogspot.com/

Thursday, January 24, 2008

SERENATA






Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

ADÉLIA PRADO



Foto enviada por minha amiga Ana Mestre - Portugal (Luar azul)


Monday, January 21, 2008

O trem caipira

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar

Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar

(Ferreira Gullar)



Pensamos - Viagem!
Ele abre o baú de partituras
e delineia em minhas costas,
ventre e coxas, as partituras:
- sinfonias fados e tangos -
A que mais amei?
- o trem -
de Villa-Lobos.
O trenzinho caipira que corta
minhas ondulações, matas,
declives...
Sente o vento?
O perfume da serra?
Rasca de nuvens vão de carona
nos lábios dele
pelas notas
pelos trilhos
pelos pêlos
pela pele
e tudo termina
em suor do amor evaporado
borra minha virilha
rasura um Lá extraviado
e ele queda dentro
do Sol.
A vida palpita
aquém além da cortina
da cabine perfumada

- fim da viagem -

BÁRBARA LIA

TRENS TRITURANDO TRILHOS

.
.
Tangência de ferros nos trilhos
rasga em uma ternura que ofende
de tão bela.
Existirá paisagem de dor mais fecunda
que trens rasgando trilhos?
Nuvem ao redor: que nuvem aquela?
Cenário trepida
por trás de uma cortina estremecida.
Até o ar se emociona
quando o trem se aproxima,
diante dele a ternura de açúcar fervido
balançando em dobras de olvido…
Esquecer!
Ser este trem que parte e vai levando
diante dele a cortina:
nossos corações diluídos
acima dos trilhos.
Eu e você: recorda?
Recorda a fumaça do teu cigarro,
tua pele clara, o gozo líquido
-cortinas de açúcar.
Recorda?
Recordam – eternamente –
trens triturando trilhos.
BÁRBARA LIA


A minha poesia (Tangência de ferros nos trilhos...) e um texto que escrevi quando visitei o Museu da Língua Portuguesa e vi - A hora da estrela - exposição sobre vida/obra de Clarice Lispector estão no site Coletânea Artesanal, que dedica esta edição à cidade de São Paulo, que está de aniversário neste mês. Editado por Lunna Guedes

Saturday, January 19, 2008

Desejo e Reparação (Atonement)

Quando no Brasil a poesia será mais importante que a parafernália que engendra o sensual barato e pobre em uma apelação tola? O romance de Ian McEwan "Reparação" foi belamente filmado, dispensava esta palavra no título (desejo) - penso que em uma espécie de apelação -
O filme é em sua essência uma - Reparação - Ou, uma tentativa de reparação. O título poderia ser o mesmo do romance. Mas, esquecendo esta bronca que a gente tem com estas traduções sem nexo, é de uma beleza sem fim... Li que recebeu O Globo de Ouro de melhor filme. O enredo é aquele que não muda com os séculos e com toda a pseudo-evolução do homem - Pobres não tem direito a muita coisa, e não são respeitados pelos mais abastados. Meu pai vivia a declamar versos... E penso que é de Guerra Junqueiro um verso que guardei e que ele sempre repetia:
pobres de pobres são pobrezinhos.
O filho do caseiro e a irmã da futura escritora. Na verdade a menina já é escritora aos treze, e o amor do casal é BELO - sem pieguices e sem ilusões. Humano e sublime. E a reparação, mas, é um filme que de tão bonito a gente guarda, e nem se fala nele... A gente guarda como guarda as belezas tantas - e sai do cinema com vontade de dizer ao amor que o ama, com vontade de não levar na alma uma culpa que nada apaga, nem toda a reparação.

Desejo e Reparação (Atonement, Inglaterra, 2007)
Diretor(es): Joe Wright
Roteirista(s): Christopher Hampton com base no livro de Ian McEwan
Elenco: Keira Knightley, James McAvoy, Romola Garai, Saoirse Ronan, Brenda Blethyn, Vanessa Redgrave, Juno Temple, Alfie Owen-Allen, Nonso Anozie, Andrew Appleyard, Jamie Beamish, Robert Alan Bishop, Benedict Cumberbatch, Michelle Duncan, Vivienne Gibbs

Thursday, January 17, 2008

UMA CARTA

Clarice...

Apagarias o cigarro. Recolherias o olhar pousado em um ponto longe a ultrapassar as balas perdidas e toda a beleza do Rio. Sentarias à janela, bloco e caneta preta, letra da minha mãe, para responder a esta interrogação, querida?

Nadavas no escuro? Que lagoa recôndita entre rochas lázulis atravessavas para buscar o espanto? Bebi tua Água Viva e escrevi como quem ainda não te elucida: A gota clara do orvalho na rosa é lágrima fêmea, que brilha enquanto sofre.

Guardaram tua vida em gavetas onde caminhei por uma tarde. Na tela teu rosto reverberava de dor escondida. Deti-me, e fluiu esta pergunta de mulher que busca a chave dos mistérios – como lavar a mágoa com tinta como tu, eu que só tenho águas e espumas?

BÁRBARA LIA


Penso que foi no site da Rocco que havia esta proposta, escrever uma carta à Clarice e ganhar um livro, escrevi a carta, mas, não enviei... Não queria contar palavras, virar do avesso meu desejo prá entrar sempre na medida que me pedem... Reli a carta e pensei em dividir aquilo que sempre vai ser quando eu ler a obra dela: interrogações, interrogações, interrogações...

Tuesday, January 15, 2008

RAINER MARIA RILKE

























Danaid - Rodin

...

Havia no fundo dele a obscuridade, o refúgio e a calma de uma casa, e ele próprio era o céu acima, era a floresta em torno, e a extensão, era o rio que corria para sempre diante de si. Que solitário, aquele velho, estragado nele próprio, de pé, carregado de seiva, como uma velha árvore de outono. Ele se fez profundo; cavou uma profundidade em seu coração, cujas batidas vêm de longe, como do centro de uma montanha. Seus pensamentos circulam nele, enchem-no completamente de gravidade e de doçura sem se perder em superfície. Ele se endureceu, fechado ao inessencial, e se ergue em meio aos outros homens como sob a proteção de uma velha casca. Mas para o essencial ele se desata imediatamente, e perto das coisas, ou quando os homens e os bichos o tocam mudos, à maneira das coisas, ele se abre inteiramente. (...) O que ele olha, o que ele envolve em sua contemplação é sempre para ele o universo único onde tudo se produz; quando ele modela uma mão, ela está sozinha no espaço, nada mais existe além dela; Deus, em seis dias, só criou uma mão, é em torno dela que espalhou as águas, acima dela que abobadou o céu; e quando tudo foi acabado, ele repousou de a ter criado, e houve um esplendor e uma mão.

(carta de Rainer Maria Rilke à Lou Salomé, narrando o escultor Rodin, em poesia)

Humana, demasiado Humana (ed. Rocco )- Biografia de Lou Salomé por Luzilaá Gonçalves Ferreira

Tuesday, January 08, 2008

REVISTA ABRELATAS





Lançamento do n° 1 da Revista em Fevereiro, mais notícias em breve.


Revista AbreLatas com periodicidade bimestral, a Revista Abrelatas será distribuída de forma gratuita, visando instigar a discussão literária e a divulgação do trabalho de poetas, tradutores, cronistas, contistas, ensaístas e romancistas.


Maiores informações sobre a revista no site da Editora Inverso:

ESTAS MULHERES

Com o livro de Hilda Hilst nas mãos "Do desejo". Apanhei hoje na Biblioteca Pública. Para minha surpresa - autografado. Fiquei lendo relendo, fiquei bebendo a letra atrevida. Um autógrafo de Hilda. É a primeira vez que toco sua letra... Fico sem saber se um documento público pode ser publicado, mas, ali ela se diz - inteira poesia, e depois conclui: Oh! Modéstia minha!
Genial Hilda. Saí da Biblioteca cercada de aço & mel - estas mulheres - Hilda Hilst e Lou Salomé.
Semana passada assisti - Quando Nietzsche chorou - Um filme que amei. Armand Assante, um eletrizante Nietzsche. Descobri que o site alma da palavra publicou a “Trilogia Nietzsche” e narra este encontro - Nietzsche-Lou Salomé - no filme ele interroga a garota:
- de que astro nós viemos?
mas, a tradução poética é:
de que estrelas nós viemos?
para ler os podcasts:
Tem programa novo também no Neuroscópio, do meu amigo poeta Rogério Santos:

Friday, January 04, 2008

A PRIMEIRA CHUVA DA PRIMAVERA




Silêncio de ipês
desmaiados
primavera
perfumada

a cessar
meu passo
a embalar-me
nesta chuva
de luz
sagrada

enquanto
sangra a terra
entre
o Tigre
e o Eufrates.

BÁRBARA LIA

Wednesday, January 02, 2008

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA





“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados” - O amor nos tempos do cólera (Gabriel Garcia Marquez)
Ele esperou cinquenta anos nove meses e quatro dias... Esperaria sessenta anos dez meses e cinco dias, esperaria setenta anos onze meses e seis dias... ou mais... simplesmente por esta inenarrável certeza: amor.
Esta certeza que cai como um raio um dia em nós.
Foi no ano de 1994 que caiu este livro em minhas mãos e jamais esqueci Florentino Ariza e Fermina Daza. Quando fui dizer feliz ano novo à minha vizinha octogenária - Yáyá - contei o enredo de uma nova história que quero narrar, e ela disse - Garcia Marquez.
Ela me disse que estava passando o filme - O amor nos tempos do cólera. Rever Javier Barden. Gosto imensamente de Javier Barden. Também Fernanda Montenegro que interpreta a mãe do apaixonado Florentino.
O amor é o mesmo - em tempos do cólera, ou não...

AVES DE ARREBENTAÇÃO

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A poesia "Aves de Arrebentação" do livro "O sorriso de Leonardo" - publicado pela Kafka no final de 2.004, escrevi sob o impacto da leitura da biografia de Leonardo Da Vinci.
Ela está no nº 6 da Revista Lasanha: