Saturday, August 30, 2008

Os meninos e eu






Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.
.
Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.
..
Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.
.
Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.
.
Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara
.
Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas

Tão tristes os meninos
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
com café.
.
Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.
.
Eu,
desenho gravuras
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.
.
Não atravesso
o vidro frio do templo
moderno
- shopping center –
.
Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo
.
(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)
.
Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.
.
Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul
no “mar/
belo mar selvagem…”

Bárbara Lia


Canção da procura
.
.
Esta é a manhã que procuro,
repleta de coisas inúteis e belas,
feitas de objetos infantis
somente existentes em aquarelas.
Esta é a manhã que procuro
pintada de nuvens e camélias.
.
Sob a sombra desta manhã
dorme o pássaro extinto.
Canteiros de dálias rebeldes
com forte cheiro de absinto.
Trilhos abandonados,
caminhos de andarilhos.
.
Uma manhã quase estranha:
vestida de arvoredos,
dormindo num regato perdido
ao som de realejos.
Feita dos fios de sol,
mas também de bocejos..
.
Esta é a manhã que procuro,
presa nas ramagens do arabesco.
Escondida na candura da infância
onde dorme um bodoque preto.
Bela feito o nácar na concha
e não como o Narciso no espelho.
.
É nesta manhã que procuro
uma serenata para Estela,
o bailar do beija-flor bojudo,
a borboleta que se liberta,
rebanho de violoncelos turcos.
Coisas assim, inúteis e belas.
Marcos Ferreira

.
..
o inseto
.
.
o soneto
fechou-se à
verborréia,
fez careta
.
ao discurso.
tem agora
o hemistíquio
dos insetos
.
dissecados.
e entreabriu-se
aos desvãos,
.
por mais mínimos,
como quem
se abre ao mar.
.
2
o inseto
de palarva e tinta,
multiplicado
por suas asas,
.
despega da
margem esquerda.
magro e comprido,
no afã de ser

fero e revivo,
deixará a página
(conta se morre
.
pouco depois?)
pelas paredes
sem transcendência.
.
3
antes de pousar
de uma vez por todas,
o sonetinseto
revela-se inteiro
.
à sanha suctória
nas dermes da vida:
imos, méis e conas.
morto, vai feder
.
quase impercebido:
micromiliabismos.
seu registro no
.
papel será como
a abelha esmagada
correndo no vidro.
.
4
ou a fribólise?
carne do susto,
e não do sono,
mil folhações.
.
duma crisálida
renascerá:
sangue de tinta,
asas-sulfite,
.
a carnadura
de gosma e âmbar
para queimar
.
no ar e nas veias,
como um veneno,
como um verão.
Rodrigo Madeira
.
.
Os meninos e eu é o título da poesia minha que recebeu menção honrosa no 17° Concurso Nacional de Poesias Helena Kolody. Os meninos e eu, é também o título deste post, pela minha alegria de estar partilhando esta antologia com os meninos Marcos Ferreira e Rodrigo Madeira, amigos especiais que escrevem demais. -

Monday, August 25, 2008

MEIA ELIPSE ENCANTADA

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Assai = amanhecer.
Aurora de algodão.
Ecos do tiro de Vargas.
Agosto hostil.
.
Percorro a linha elíptica

Aurora – Poente.
Sonhos & Sons.
Êxtase.
Cimitarras na carne.
Dança em etnas-lençóis.
Olhos plenos de orvalhos.
Agonia.
Paz.
.
Não temo o poente.

É quando a luz se espalha.
A terra se agasalha.
Aceno lenços-poemas
Na despedida.
Um sorriso-açucena.
Visto o luar.
Entro na noite branca
Meio ao aplauso das estrelas.
BÁRBARA LIA
(O sal das rosas
Lumme editor - 2007)

presente de aniversário

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Flor do ipê do pé de Assaí posto
Epopéia nos idos raios de agosto
Ipê mesmo, mão de Deus, dedicatória
caindo angélico nos versos da história
.
Aproveitar a poesia pra proveta
Chapar de chá até rachar as borboletas
Salgar as rosas que estejam dessalgadas
E adoçar as solitárias calcinadas
E, com lirismo [embora seja um certo fardo],
fazer sorrir o mais revolto Leonardo
.
A chuva última haverá de ser primeira
que da Medusa apaga o fogo em cabeleira
e molha fértil e de forma tão precisa
a inspiração brotando à mão da poetisa
em Curitiba, pelos parques, pelas ruas
em Peabiru, de pó rubi, de estrelas cruas
para regar, banhar de luz a poesia
e eternizar o que compor Bárbara Lia
Fábio Sexugi
.
Fábio é da cidade da minha infância: Peabiru. Reavivou a lembrança da poeira vermelha (pó rubi) e das estrelas cruas. Banzo de um tempo em que eu não escrevia poesia, mas, a poesia me ungia, plasmava um futuro que eu nem sabia. Meu reino em Peabiru - uma sucessão de quintais - à sombra das árvores, colhendo goiaba do vizinho, tirando água do poço... Sonhando ser escritora... um dia.

Saturday, August 23, 2008

Agosto Feminino V



.



Os rios
Sabem mais
Do que cantam

Sabe a folha perdida
Dádiva sem juizo
A navegar na tessitura
Verdelânguida

Partitura líquida
A sussurrar
Lendas e operetas

Rio embriagado
De absinto
A murmurar por aí

Nossa história onírica
Perfumada
De diamantes

Bárbara Lia

Agosto Feminino IV

Ana Lúcia Vasconcelos
Hilda Hilst


...
Ana Lúcia Vasconcelos é atriz, jornalista, escritora e tradutora, e está escrevendo um livro sobre Hilda Hilst. Edita o site - Sal da Terra Luz do Mundo. Nasceu em Campinas... Outra mulher de agosto, e escreveu sobre a poeta que eu mais amo - Hilda Hilst:



Agosto Feminino III

Quadro de Ana Kaminski - Paraíso Suave


Ana Luisa Kaminski:


Movimentos Vitais

Renovar (olhares e mundos)
reciclar (olhares e laços)
reinventar (olhares e mapas)
necessidades vitais
das almas aladas
vivazes-viajantes...

Agosto Feminino II

Rebecca Loise - por Mariana Alves




Rebecca Loise:

Aceita estes galhos mortos

..



Aceita estes galhos mortos
colhidos no cimento ácido.
Quiçá as solas dos pés
rachados
ajudam-me a fuga deste monólogo.
Doem em ti as rosas?
Perfuram-te as âncoras
de um amor que manifesta o labirinto?
Os caminhos dançando a valsa.
A cortesia da textura das pétalas
era para servir a tua raiva da entrega:
teu coração em vitrine.
A bailarina de mim te concedendo
a paralisia.
Tu estátua jacente,
revelando o desconhecido do imediato.
Que é preciso o abismo
tu nunca ousaste entender?
Que assim há o casamento
da eternidade com a respiração mortal
tu nunca ousaste sentir?
Se rosas não te enfeitam,
aceita estes galhos mortos
colhidos no cimento ácido.
Dissolverei o labirinto
ao declarar que me encontro perdida.
Não há qualquer rumo
quando se dorme os sentidos,
quando o silêncio de uma protagonista voz
sequer se ouve interpretando o seu papel.
Aceita estes galhos mortos.

Agosto Feminino I

Luciana Cañete por Bárbara Lia


Luciana Cañete:



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Ah, esses meninos que teimam
em colecionar pedras nada preciosas,
emparedam-se vivos,
montando uma coleção
que vai pra museu nenhum.
Ah, se essa rua fosse minha eu mandava
arrancar, lavar, e banir
essas pedrinhas das suas mentes brilhantes.
E depois ia brincar com eles,
que nem me aguentam
tão feliz e saudável
e me deixam assim
a ver navios afundados
em latas de coca-cola.
...
...
- Agosto feminino, a série:
Entre os dias 21 e 24 de agosto, quase uma semana de agosto enfileirada, minhas poetas mui amadas estão todas de aniversário, culmina com o meu amanhã... por isto, cá estamos nós, a comemorar outra data querida, em poesia...
Uma mínima homenagem!

Luis Serguilha

Um fio de espadas roucas combaterá ao lado do coreógrafo nos lençóis brancos das casinhas esquecidas e um espírro dos goivos alimentará a sentença das raízes entre os mamílos engordurados pelo prado carregado de evaporações.
Lorosa'e - Boca de Sândalo - Luis Serguilha (Campos das Letras Editores S/A, 2001)
...
.
... segue um mínimo fragmento do novo texto do Luis Serguilha, que cita meu livro de poesias Noir, parte de um ensaio que o poeta escreve... quando relançar Noir vou incluir os textos do Serguilha, ao menos um livro meu vai ter algo que meus livros geralmente não tem - prefácio e apresentação...

...as imagens ampliadas/profundas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas-cosmológicas fundadoras do centro atómico-NATUREZA-MULHER:________ as unânimes correspondências das energias libidinais exercitam a plenitude -animal-rizomática-maternal entre as aberturas/devorações/encruzilhadas do corpo-outro e o diálogo labiríntico-original com o mundo:_________ a reciprocidade do fogo das vibrações-das-centelhas-uterinas-das-celebrações forma os cavalos da heterogeneidade dos limites e da auto-construção-genésica onde as loucas marchas do elementarismo paradisíaco/dionisiaco despertam os halos da revisitação do pulsar erótico-alquímico-infabulador fundindo a alteridade, a pluralidade e o analogismo :_________a sonoridade/sensualidade/liberdade dos espelhos das metáforas, as árvores-da-potencialidade-criadora ; as crisálidas das eclosões alucinantes, a respiração expansiva-epidérmica-visual-do-desejo regressam vertiginosamente à dramatização prodigiosa de BÁRBARA LIA.
- Luis Serguilha - Portugal.

IL MIO CIELO!

(Lasciate ogni speranza
voi ch' entrate
Dante Alighieri)

Disubbidiente,
vivo i miei purgatori,
con lo zaino della speranza
attacato alla schiena
e torno
com scapole spezzate
e la speranza sgranata
scorrendo
per la sua cerniera lampo
zollette sprecate
di dolcezza.

Sia il mio cielo!
Per la tua bocca
di garofano e petali
è restata uma sola
zolletta di zucchero.

Sia il mio cielo!
Incantami,
come incanti
il colibrì colorato
nella tua veranda bianca.

Sia il mio cielo!
E aprile tue labbra
francescane
perché io adagi
ques' ultima zolletta
come un' ostia

Sia il mio cielo!
Incantatore d’uccelli
di fiumi
e di donne,
Luce agreste ultima
che mi resta.




MEU CÉU!

Desobediente,
vivo meus purgatórios,
com a mochila da esperança
atrelada às costas,
e volto
com as omoplatas fendidas
e a esperança debulhada
escorrendo
pelo seu fecho éclair
torrões desperdiçados
de doçura.

Seja meu céu!
Para tua boca
de cravo e pétalas
restou um único
torrão de açúcar.

Seja meu céu!
Encanta-me,
como encantas
o colibri rajado
na tua varanda branca.
.
Seja meu céu e abra
teus lábios
franciscanos
para que eu deite
este último torrão,
feito hóstia.
.
Seja meu céu!
Encantador
de pássaros,
de rios
e mulheres.
Luz agreste última
que me resta.
..
.
TEU CÉU
.
Que lindo o teu poema, Bárbara Lia…
e com que lirismo cantas a esperança,
abres a alma como uma criança
e com teu encanto eu ganhei meu dia.
.
Essa ânsia de amor no teu caminho,
tuas omoplatas fendidas, tuas penas,
tua canção de cravos e verbenas
nesse céu onde declamas teu carinho.
.
É teu sonho de amante que palpita,
a tua doçura que se escorre e grita
junto ao colibri rajado na varanda branca…
.
Não fosse esse teu céu por testemunha
e os teus versos soltos…, eu supunha
ler um soneto de Florbela Espanca.
Manoel de Andrade
.
Meu céu! Minha poesia que a Camilla Gretter traduziu para o italiano, ganhou um soneto do poeta Manoel de Andrade.

Monday, August 18, 2008

.
beija-flor
bica
o sonho
e extrai
a luz lilás
deste amor
entre
as Plêiades.
Bárbara Lia
.
ilustração - Jorge Cardenas (México)

Sunday, August 17, 2008

La ragazza del Fante

- Leandra Leal -


Nossa "Camilla" está loira por conta da novela atual... Não está loira no filme - Nome Próprio. O filme inspirado na obra de Clarah Averbuck, dirigido por Murilo Salles recebeu o Prêmio de Melhor Filme Brasileiro no Festival de Gramado. O filme ganhou também o prêmio - Melhor Direção de Arte, e Melhor Atriz - Leandra Leal. Não há previsão de quando o filme estará aqui em Curitiba, mas, antevejo um instante digno de Fante, embora filtrado pela lente do cinema moderno. Em poucas cenas que vi, bebi a intensidade de Leandra, e mesmo que o roteiro tenha sido adaptado da obra de Clarah - quem lê seus escritos sabe da sua paixão por Fante - deve ter filtrado a intensidade do amado mais que amado - Fante.

O que acontece com o cinema e as adaptações é que a linguagem é outra e o texto nu e cru que está no livro não pode saltar para a tela (ou pode?). Li nos blogs da Clarah e do Bortolotto (que teve sua peça - Nossa vida não vale um Chevrolet - transformada em filme) um estranhamento, o desejo de dizer que aquele roteiro do filme não é deles, enfim. É um momento crítico, que leva o autor (sua obra, no caso) a ultrapassar a sua própria cena e ingressar em um outro caminho. Mas, é possível entender a angústia dos dois escritores quando tentam dizer que aquele roteiro não é deles, e eu sei que isto é um espanto genuíno, nunca para causar polêmica.

Sobre outras linguagens...

Os curtas que assisti na Biblioteca Pública, no lançamento do livro de Adriano Esturilho - [Cancha 2] cantigas para perverter juvenis - difere - do longa Nome Próprio - foi uma parceria e o autor pareceu feliz, bem feliz com o resultado. Particularmente, eu gostei muito, e depois de ver alguns poetas musicando seus poemas, vi um autor filmando seus contos. Muito interessante e bonito. Adriano é parceiro e diretor em alguns deles, convidou os amigos. Foi uma experiência nova. Um livro que tem um dvd encartado, alguns contos transformados em curta. Adriano Esturilho, Bia Dantas, Bruno de Oliveira, Eduardo Baggio, Fábio Allon, Henrique Faria, Rodrigo Belatto e Sérgio Veloso estão no Projeto. É sempre um adendo, o livro acoplado ao cd, ao dvd. E as leituras dos cineastas de Curitiba, alguns ainda estudantes na Escola de Cinema - Cine TV-Pr, uma escola que o Governo do Estado criou aqui em Curitiba, coordenada pela Ittala Nandi. Os cineastas daqui estão fazendo suas leituras dos textos poéticos e em prosa...

O cineasta Terence Keller está realizando um filme baseado na poesia do meu amigo Rodrigo Madeira - Balada da Cruz Machado - boa notícia!

A poesia do Madeira:

http://baladadacruzmachado.blogspot.com/2008/03/balada-da-cruz-machado.html

Clara Averbuck:

http://adioslounge.blogspot.com/

Mário Bortolotto:

http://atirenodramaturgo.zip.net/

Terence Keller:

http://www.diinamo.blogspot.com/

O longo inverno de Rita

No site Icarabe a poesia que me encantou em espanhol. A poesia de Mahmoud Darwich que reproduzi um mínimo trecho, um poema longo de amor, que Michel Sleiman e Safa Jubran traduziram e está no site Icarabe. Penso que as poesias que Michel trouxe para nosso diwan (recital, em árabe) em 2.006, também era tradução dele e de Safa. Abaixo escrevi que era apenas de Safa. Sei que o belo vídeo que passamos no recital - Um fragmento de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar) - foi traduzido para o árabe por Safa Jubran.
Mas, quando li os poemas de Darwich não supunha que seria tão breve sua vida.
Para ler a poesia - O longo inverno de Rita (Mahmoud Darwich)
*
*
No blog do Ademir Assunção (link ao lado) e no site Cronópios, uma proposta para um debate sobre a posição dos poetas e dos escritores no mercado editorial. Também penso como o Ademir que é importante ler autores que traduzem a Literatura, não livros e mais livros que nada acrescentam, de apelo comercial, etc etc
Vez por outra alguém diz que não importa o que a pessoa leia, contanto que leia. Já ouvi isto de pessoas que sofrem para manter a sua própria escrita, e que conhece a fonte viva, os autores que nos dão o pão para o dia, a água para seguir neste deserto... Disseram que isto cria o hábito da leitura. Mas, na minha opinião, serve apenas para manter vivo algum ou outro neurônio. Não ultrapassa a fina membrana e nos toca em humanidade. Só a Arte nos aprisiona no coração de Deus. Só quem produz a Literatura como Arte verdadeira alcança além... Admiro poetas como o Ademir, pois o processo artístico dele é parte dos homens universais, dos que falam em nome de todos...
Só tenho a certeza que os grandes poetas e escritores são maiores que o mercado e as jurisdições, e o seu quinhão mais valioso é a poesia, estas que Mahmoud deixou, e que Caymmi deixou... É o que embeleza os dias, por mais que eles (os dias) continuem os mesmos.
- o texto do Ademir:

Só louco

Só louco
Amou como eu amei
Só louco
Quis o bem que eu quis
Ah, insensato coração
Porque me fizeste sofrer
Porque de amor pra entender
É preciso amar, porque
Só louco, louco...
Dorival Caymmi
(1914-2008)

Partiu Caymmi, em sua jangada, saiu pro mar da eternidade e deixou as canções, e que canções!

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Não sei o que acontece aqui que não consigo postar vídeos, mas, tem Nana Caymmi cantando só louco:
http://br.youtube.com/watch?v=RoVg8P9GIyE&eurl=http://letras.kboing.com.br/dorival-caymmi/so-louco/

Caymmi



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Friday, August 15, 2008

"Quando os dias e os sonhos mudarem"













..


Mahmoud Darwich está morto. Entristeceu minha noite o e-mail do icarabe com a notícia. Ele morreu no dia 09 de agosto, mas, só soube ontem à noite, depois de ver a lua me chamando pela fresta da cortina. Tão clara. Farol inquieto a me chamar antes de desaparecer atrás do prédio. Talvez, como uma despedida, ou um alento. Então, fui ler os emails e fiquei triste.
Li os detalhes sobre a morte. Na mesa de cirurgia em Houston enquanto se submetia à uma cirurgia do coração. 67 anos.
Quando aguçou o meu desejo de descobrir mais sobre o mundo árabe esta busca me levou aos poemas de Darwich. Precisava saber o que um poeta dizia sobre a Palestina. Encontrei poucas poesias e com elas uma alma cintilada que me abria os campos das oliveiras e os laranjais de Beit Hannon, uma nova faceta que a televisão não mostrava, considerando o 11 de setembro. Era uma visão distorcida dos povos árabes, notadamente os da Palestina e Afeganistão. Em 2004 conheci de uma forma mais plena os passos deste menino...
(Mahmoud Darwich - 1942-2008): Nasceu na aldeia de Al-Birué, que não mais existe. Em 1948 durante a primeira guerra Árabe-Israelense a família de Mahmoud seguiu a rota do exílio e se refugiou no Líbano. Esta saída da pequena aldeia marcou a vida do menino que ao perguntar ao pai – Porque deixastes o cavalo sozinho? Ouviu do pai como resposta: que ao menos teria um ser vivo à espera. Este é o título de um poema de Darwich, e também de um de seus livros. Quando depois de um ano a família decidiu voltar para a casa não havia mais a aldeia de Al-Birué. No documentário que vi, um campo de grama e mata baixa, o repórter mostrou o poço que ficava ao lado da casa, totalmente varrida da cena, e a mesa de pedra onde ele se sentava nas tardes com a família. Mahmoud é um dos maiores poetas de língua árabe.
O seu poema Carteira de Identidade é uma espécie de hino que os palestinos sabem de cor, ele escreveu quando foi interrogado na prisão de San Juan Arca. Mahmoud amou uma judia, e o fragmento da poesia que segue encontrei em espanhol em um site, e traduzi. Quando fiz o curso sobre identidade árabe na UFPR, que era parte do curso de Psicologia, vi dois documentários em torno de Darwich, um que relatava a sua vida, e o outro - escritores sem fronteiras - que gerou um texto - A rosa desmoronada.
Junto com o escritor Edward Said, Mahmoud Darwich escreveu a constituição da Palestina. Mahmoud Darwich morreu sem ver os dias e os sonhos mudarem na Palestina. Mas, foi a voz de cada menino que sonha correr livre e ter um lugar, sem abandonar seus cavalos, seus sonhos, sua pátria e sua identidade...
...
fragmentos de poesias de Mahmoud Darwich:
.
.... Sete espigas bastam para a mesa do verão.
Sete espigas nas minhas mãos. E em cada espiga
um campo brota como campo de trigo. Meu pai
puxava a água do poço e dizia-lhe: Não seques. Pegava-me na mão
para que eu visse como eu crescia feito um agrião...
eu andava na beirada do poço: tenho duas luas
uma nas alturas
e outra a nadar na água... tenho duas luas
confiantes, como seus antepassados, no acerto.
...
- Uma nuvem na minha mão - fragmento da poesia que li no Recital de Poesia Árabe em apoio aos civís do Líbano em setembro de 2.006, com a seleção de textos e participação de Michel Sleiman... Safra Jubran traduziu.
**
Encontrei a poesia Inverno de Rita em espanhol, tradução do árabe de Maria Luisa Prieto, reproduzo um fragmento que traduzi para o português:
...
Rita, retorna a meu corpo para que as agulhas
dos pinhos descansem um pouco em meu sangue abandonado.
Sempre que
abraço a torre de marfim, fogem de minhas mãos as pombas.
Ela diz: Regressarei quando os dias e os sonhos mudarem.
Rita. É longo este inverno e nós somos o que somos.
Não tome palavras para dizer
eu sou,
essa que vendo-te pendurado em uma cerca, abaixou-se junto a ti e vedou tuas feridas.
Com sua lágrima te lavou, antes de cobrir-te de açucenas,
e passastes entre as espadas de seus irmãos e a maldição de sua mãe.
Eu sou eu e ela.
Porém tu és tu?
...
*
Fragmento de - Carteira de Identidade -
.
Toma nota!
Sou árabe.
Número de identidade: 50 mil.
Número de filhos: oito
E o nono...chega no verão
E vais te irritar por isso?
[...]
.
Toma nota!
Sou árabe.
Sou nome sem sobrenome
Paciência sem fim
Num país que tudo que é
Ferve na urgência da fúria
Minhas raízes
Antecedem
O nascimento do tempo
O principio das eras
O cipreste da oliveira
A primeira das ervas
.
[...]
Toma nota!
Sou árabe.
Arrancaste as vinhas do meu avô
A terra que eu arava
Eu, os filhos, todos
Nada poupastes...
Para nós, para os netos
Só pedras, pois não
E o governo, o teu já fala, em tomá-las
Pois então
Toma nota!
No alto da primeira página
Não odeio ninguém
Não agrido ninguém
Ao sentir fome, porém,
Como a carne de quem me viola
Atenção...
cuidado...
Com minha fome...
com minha fúria!
...
*
A rosa desmoronada (Bárbara Lia)
mais sobre a morte de Darwich

Thursday, August 14, 2008

Carpe diem








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Modigliani



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Fluxo anêmico dos carros

(de luxo)
sol selado
de adesivos Mc Donald’s.
Arabescos eróticos
na fumaça cinza
da panificadora ao lado.
Semente masculina
perfumada
amaciando o tecido
da minha pele.
Água calêndula no ralo
revela
a forma exata
do rosto estrangeiro
e o sexo formigueiro
de prostituta de Veneza.
Espie pela fresta do Zeppelin
dos sonhos...
Meu mundo:
Sem Florais de Bach
Feng Shui
Mantras.
Músculos da alma
– expostos –

Cicatrizes mortas,
lâmina que corta
escaras
revela
o mármore de carrara
- Vivo -


BÁRBARA LIA

(A última chuva - ME - ed. Alternativas -2.007)

Tuesday, August 12, 2008

Camille


A. Rodin

Ária de adeus nos lábios do amante

Guirlanda de nenúfares em cascata

quando chega ao chão petrifica o rio

Ninfa das árvores a recuperar o tempo

o corpo imberbe que esculpias

Danaê alva no atelíê

escuro

Corujas na vidraça

enganando o dia

BÁRBARA LIA


Para Camille com uma flor de pedra




Revista Lasanha n° 9

"Rap & Beija-Flores" está na Revista Lasanha n° 9:

http://www.revistalasanha.bravehost.com/

Friday, August 08, 2008

08/08/08 às 8 da noite na al. Muricy, 1088




Mar/absinto

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Nossos olhos de dezoito anos
acomodaram o mar
Sobrou a maré em torno
um sussurro de conchas
a nos acordar nas noites brancas

Nossos olhos de dezoito anos
beberem do mar/absinto
como ao vinho santo.

Nossos olhos embriagados.
Nossos olhos negros e azulados.
Uma sereia recolhendo a rede
os corações de dois poetas ali
enredados

Nossos olhos de dezoito anos.
Nossas almas milenares.
Nossos amores fracos à soleira da incerteza.
Tanta beleza em ti, Rimbaud!
Tanta ausência em mim!


E nas marquises
bêbados ainda caminham
buscando o sol
que você guardou prá mim

Bárbara Lia
- O rasurado azul de Paris, poesias para Arthur Rimbaud

Thursday, August 07, 2008

I colori dell'anima


Terça, no Teatro da Caixa, eu vi Enéas Lour e André Coelho no palco, uma leitura do livro - Os Rios Profundos - do escritor peruano Jose Maria Arguedas. A direção de Moacir Chaves, dentro do Projeto Outras Leituras - Ciclo Latino-Americano (Curadoria de Mario Domingues, Nena Inoue e Josely Vianna Baptista). Ao final do debate o diretor Moacir tinha um único exemplar do livro que disse doaria para a platéia. Eu ali, hipnotizando o livro, depois de ouvir a leitura linda dos dois atores, do capítulo que abre o livro - O velho. Vi as ruas de Cuzco, seus palácios e suas cores, a alma tem cor, e o escritor sabe capturar a cor da alma dos pássaros, das flores, dos rios. O rio de pedras da muralha de um palácio Inca, dança diante dos olhos durante a leitura, pedras flutuantes, a lembrar os rios... foi o instante mágico, permeado do idioma quíchua:
.
"Eram maiores e mais estranhas do que imaginara as pedras da muralha inca; ferviam sob o segundo piso caiado que pelo lado da rua estreita não tinha saída. Lembrei-me, então, das canções quíchuas que repetem uma frase patética constante; "Yawar mayu", rio de sangue; 'yawar unu", água sangrenta; "puk-tik, yawar k'ocha", lago de sangue que ferve ; "yawar wek'e", lágrimas de sangue. Acaso não poderia dizer-se "yawar rumi", pedra de sangue, ou "puk-tik", "yawar-rumi", pedra de sangue fervente? Era estática a muralha, mas fervia por todas as suas linhas, e a superfície era cambiante como as dos rios no verão, que têm uma crista assim, no centro do seu caudal, que é a zona mais temível e poderosa. Os índios chamam "yawar mayu" e esses rios turvos, porque mostram com o sol um brilho em movimento, semelhante ao do sangue. Também chamam "yawar mayu" ao tempo violento das danças guerreiras, ao momento em que os bailarinos lutam.
- Puk'tik, yawar rumi! - exclamei diante da muralha, em voz alta.
E como a rua continuava em silêncio , repeti a frase várias vezes."
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Encantada com o livro e o texto poético de Arguedas, hipnotizei o livro e ao final na hora de sortear aos que estavam ali ergui a mão e ganhei o livro - Os Rios Profundos - de Jose María Arguedas. Uma publicação da Assírio Alvim, tradução de José Bento.
Ontem fui ao lançamento do livro Cantares de Manoel de Andrade, abri o livro em um poema Hiroshima, lembrei a data - 6 de agosto - fechei o livro, e passou uma nuvem cinza ao lado... Hiroshima ainda queima.
...
de repente nos teus ares
a águia do norte, o falcão
e num segundo, em teus lares
gritos, fogo, turbilhão.
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O beijo carbonizando
a luz devorando o dia
a carne viva queimando
na instantânea agonia
...
Na volta, liguei a tevê, em um dos canais da Net passava um filme sobre Modigliani e uma avalanche de poesia, rios, agonia, êxtase e encanto que se pode viver em menos de 24 horas, basta ver uma peça de teatro, ler um livro, e contemplar o êxtase no qual os grandes pintores mergulham, e confirmar que há mais vida na alma italiana, destes ragazzos que entontecem tudo ao redor, como o vento ghibbli da Tunísia, o vento que gira gira em torno das pessoas e causa uma sensação estranha. Modigliani. Modigliani. Modi.

Sunday, August 03, 2008

Agosto no Coreto





Para celebrar a publicação do meu primeiro romance, convidei três mulheres infinitas para uma leitura do livro - Solidão Calcinada - em uma noite para comemorar com amigos, com surpresas e abraços. Noite de lua crescente, estilo - casa de chá do luar de agosto. Quando preparava o lançamento do livro - O sal das rosas - estava tramando, com a Luciana Cañete, o lançamento em um bosque. Não aconteceu o lançamento do livro - O sal das rosas - em um bosque, mas, agora, meu primeiro romance vai ter ar ao redor, pois encontramos dentro da Facinter (Grupo Uninter), o Teatro com um Coreto na entrada. Lá vai acontecer o encontro poético e o nascimento do meu primeiro livro em prosa.


Recital - Solidão Calcinada:
com a escritora/atriz Geisa Müller e as poetas Gabriela Caramuru e Luciana Cañete
Dia 08/08/08 - 20h
Coreto do Teatro Uninter
Entrada pela Alameda Muricy n°1088
Centro
Curitiba - PR
Telefone: (41)2102-3442
O Prédio fica entre a Rua do Rosário e Alameda Muricy