Monday, December 29, 2008

o nove

gerânios - nancy caro
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Certa noite eu estava em uma platéia e ouvi Ana Miranda dizer que ficou nove anos mergulhada nos arquivos de bibliotecas pesquisando sobre Gregório de Matos. Ela encontrava as pessoas e elas perguntavam - o que você anda fazendo? indagavam do seu sumiço e ela dizia - estou escrevendo um livro. "Boca do inferno" é um dos melhores livros que li. Gosto deste caminho que Ana trilhou. Impossível um poeta não amar um livro sobre outro poeta. Ana Miranda repetiu a dose com Augusto dos Anjos e Gonçalves Dias. "A última quimera" e "Dias & dias". Ela consegue trazer para dentro do livro o clima, o ambiente pesado que cercava Augusto dos Anjos, a dor do amor de Gonçalves Dias - Enfim te vejo! — enfim posso, / Curvado a teus pés, dizer-te, / Que não cessei de querer-te, / Pesar de quanto sofri. - A cena surreal onde o outro poeta queima todos os seus escritos depois de ler os poemas de Augusto.

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O nove chega e com ele a lembrança de Joaquim Nabuco. Um dia copiei esta carta de Nabuco onde ele diz do nove - O último ano de sua vida, o ano que ele percorreu inteiro foi 1.909. Ele morreu no início de 1.910. O que será o 09?

Nabuco enviou a Graça Aranha no dia 1° de dezembro de 1.908:

Eu já começo a ver a sombra do novo nove. Já lhe disse que os nove marcam sempre novas fases de minha vida desde 1.849, o nascimento.
É curioso lembrar: 49, o nascimento; 59, o internato (a separação de casa); 69, o Recife; 79, o Parlamento e a Abolição; 89 o casamento e a queda da Monarquia; 99, a diplomacia.
Que será o novo sem mais nada, o 09?

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Pablo Arrabal é personagem do livro Solidão Calcinada. Um poeta que se uniu aos rebeldes revolucionários no final dos anos sessenta. Pablo Arrabal é meu primeiro heterônimo, pois lhe dei uma vida e escrevi versos vestindo a sua carne. Mesmo alguns poemas que emprestei a ele parece não serem mais meus.

Alguma poesia do livro que lancei este ano:

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MINUANO NO SUL SOMBRIO

Teu olhar por entre as frestas da veneziana – um sinal.
Jamais eu teria inteira a tua figura que me assola.
Jamais estaria contigo amor em chama em todas as horas.
Ainda assim no sul sombrio um amor sem igual.
Um jardim de poltronas de ferros – brancos.
Uma noite de estrelas em desalinho – brancas.
Duas taças tilintando em vida & vinho - branco.
E aquele teu jeito precioso de cruzar as tuas pernas – brancas.
Mas sempre que o amor ardia em teu olhar azul,
Sabia que o amor eu só o teria ali, pleno amor ardente no sul.
Vento minuano no sul sombrio.
Chuí inteiro abraçando tua partida e o meu vazio.

pg. 12

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GERÂNIOS

Pessoas regam gerânios
Na manhã de primavera.
A voz do repórter Esso
Informa meias-verdades.
Não diz da minha carne
Costurada pelas chamas
Nesta masmorra.
A minha voz quer ser a voz
Que propala
Romper os muros. Pisar
Em parapeitos inocentes
Regar com meu sangue
As flores brancas.
Delatar o que não sabem.
Dizer das catacumbas tristes.
Que o repórter Esso não conta.

Os gerânios sabem
E choram no solo da Pátria.
Ninguém entende a flor.
Não aprenderam o idioma do gerânio
Nem percebem seu pranto.

pg. 17

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SHANGRILÁ


Luz exangue do dia que se vai
Lençóis de estrelas
Perfume suave
Da malha negra
Espia nosso amor

Azul intolerável me abraça
Ouço uma canção africana
Sonho uma cena:
Brancas melenas
Cigarro bailando em seus dedos
Charme cruel.

Tempo marcando a seqüência
Inexata, sinuosa:
Dois pássaros
Unidos pelo fio invisível
Do amor real.

pg. 20

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PABLO ARRABAL
(do seu único livro - Crepúsculo)
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- sobre a morte de Valêncio Xavier - um texto de Wilson Bueno na revista Sibila:

Sunday, December 28, 2008

os livros que mais gostei em 2.008

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Os depoimentos sobre as leituras de alguns escritores em 2008 no site cronopios, foi o ano da minha descoberta de Jose Maria Arguedas. Fico sempre feliz quando encontro um escritor que me captura. Tento retomar o blog... melhor comprar outro teclado primeiro, virginiano nao suportar ver coisas fora de lugar e ausencias, mesmo de minimos acentos. cade o acento que deveria estar aqui (ponto de interrogacao)

Saturday, December 27, 2008

por Darwich e Fausto Wolff pelas crianças da Palestina






O ano termina com a carnificina imposta as criancas palestinas, lembrei a perda irreparavel de dois poetas que sangravam esta dor pela palestina em unidade - o poeta palestino e o grande escritor Fausto Wolff - A eternidade do conflito vai acabar por varrer a palestina do mapa e os avatares defensores dos pequeninos morrendo um a um - as vozes calando e o futuro prometendo mais poeira e escombros - uma chance para a paz (ponto de interrogacao) ecos de imagine e uma dor...








Mahmud Darwich (palestino, 1942-2008)

Uma nuvem na minha mão



Fere-me uma nuvem na mão: não
quero da terra mais do que
esta terra: o cheiro do cardamomo e da palha
entre o meu pai e o cavalo.
Na minha mão há uma nuvem que me feriu, mas
não quero do sol mais do
que a bola laranja, mais do que
o ouro que derramam as palavras ouvidas.
***
Selaram os cavalos,
não sabem por quê,
mas selaram os cavalos
no final da noite, e esperaram
sair um fantasma das rachaduras...



traducao de Michel Sleiman


-minimo fragmento do poema - uma nuvem na minha mao.


PARA CESSAR-FOGO NA FAIXA DE GAZA - abaixo assinado para o Conselho de Segurança da ONU, União Européia, Liga Árabe e EUA:


http://www.avaaz.org/po/gaza_time_for_peace/97.php?cl_tf_sign=1

Friday, December 19, 2008

À sombra de um rio I




120

"Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
CANTO III - Os Lusíadas - CAMÕES
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Fiquei pensando nos amores que floresceram à sombra de um rio e selecionei os reais amores eternizados em estátuas e livros - Inicia com o Rio Mondego, onde Pedro I de Portugal levou sua amada Inês de Castro a navegar para talvez amainar entre as águas o fogo da paixão infinita, enquanto as ribeirinhas cochichavam enquanto lavavam roupas nas pedras do rio, sobre o rei adúltero e a aia bela, a loira flamejante que depois de morta foi rainha.

À sombra de um rio II




(...)

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora.
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Sei!
Tudo isto
é mármore!
Mas, antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado
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Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore

Bárbara Lia

(Fragmento de "Sakountala")
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Auguste Rodin e Camille Claudel em seu pouco tempo de vida de amantes felizes, antes do desenlace trágico, alugaram uma casa às margens do Rio Loire e lá viveram À sombra de um rio.

À sombra de um rio III


Jane March, Tony Leung Ka Fai
O amante - filme de Jean-Jacques Annaud
- Rio Mekong-


Fala-me, diz que soube logo, desde a travessia do rio, que eu seria assim com o primeiro amante, que amaria o amor, diz que sabe já que o hei-de enganar e também que hei-de enganar todos os homens com quem virei a estar.
Marguerite Duras (O amante)