Friday, May 29, 2009

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Este Livro
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Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz

do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total., tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda.
Enfie a carapuça. E cante.
Puro açúcar branco e blue.
Ana Cristina Cesar

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"Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.".
Mário Quintana
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Cartilha
Foi de poesia

lição primeira:
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"a arara

morreu
na aroeira".
Orides Fontela

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Livraria Paço da Liberdade - abre suas portas em 09 de junho

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Recebi um e-mail da Sissi Pereira. Eu havia publicado a data anterior do início do funcionamento da Livraria como 30 de maio. A data foi transferida para 09 de junho. Melhor ressaltar aqui para não confundir quem já leu a notícia.
Solidão Calcinada agora só lá na Livraria Paço da Liberdade e nas Livrarias Curitiba. Os exemplares que recebi, cota de direito autoral, terminou. Fui listar os "livros prometidos" e separar meia dúzia para meu arquivo pessoal e vi que os 300 evaporaram para mãos e corações e, que bom. Ter o livro - Solidão Calcinada - publicado via Secretaria da Cultura teve vários pontos positivos. Um deles é que em cada Biblioteca do nosso Estado tem um exemplar do romance.

Monday, May 25, 2009

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Rosa
Flor platônica
Gêmea
Da alma minha
Geme
Acima dos muros
Hipnotizando
Espinhos

Bárbara Lia
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Wednesday, May 20, 2009

No caminho com Michel Sleiman


Bienal - 2006








. . . .. . . .. . .. . .. . .. . . .. . . .. .. ........... Alhambra





1.
Tua família foi viver no Líbano quando você era menino. Como foi
iniciar sua educação no país de seus ancestrais?
E quando a poesia começou a ser parte da tua vida?

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Tenho um capítulo importante da infância e dos primeiros anos da adolescência no país dos meus pais. Fui pra lá um mês antes de completar os seis anos de idade para viver com meus avós maternos em Beirute, onde acabei ficando sete anos, dos quais cinco frequentei uma escola primária, de freiras francesas. Estudei o árabe e o francês em período integral, até que estourou a guerra civil de 1975. Em 76 voltei. Cumpri um rito de passagem que parece um tanto comum nas famílias libanesas da primeira geração aqui no Brasil: mandar os filhos ao país dos pais, pelo menos um deles; no meu caso fui eu, o mais velho dentre os quatro irmãos. Mas isso tudo não foi planejado para ser como foi: era para ser um ano -aproveitaria para curar uma bronquite asmática que me castigava na fria Santa Rosa, RS- e acabaram se tornando sete: fui me adaptando bem, aparentemente, me dava bem na escola, não dava muito trabalho aos meus avós e tios etc. E o sétimo ano não era para ser o de retorno, mas a guerra acabou fazendo urgente o retorno naquele ano de 1976, creio que em outubro. O aeroporto bombardeado de Beirute estava fechado. A fronteira com a Síria era controlada por milícias islâmicas. E minha carteira de identidade libanesa estampava meu estatuto civil de cristão ortodoxo, um "rúmi". Me lembro que às 4h da manhã meu tio paterno Jurius, do vale do Bekae, me colocou no táxi de um tal Ahmad, amigo dele, com a recomendação de cruzar a fronteira da Síria em segurança até o aeroporto de Damasco, onde eu embarcaria em avião da KLM. Fechei os olhos, e o Ahmad me declarou às milícias como um filho seu que dormia. "O nome dele é Muhammad", ele disse, e passamos. No aeroporto, despediu-se de mim na descida do carro. Me dirigi até o balcão da KLM. No avião, depois em Amsterdã, onde fiquei algumas horas para fazer a conexão, me virei no francês. Havia um senhor no vôo, acho que amigo do meu pai. Lembro que ele me acompanhou aqui e ali. Lembro ele de meias pretas, tirou os sapatos, chulezinho familiar. Lembro também que as aeromoças holandesas eram muito altas, muito brancas e cheiravam a leite e talco de maquiagem. A chegada ao Rio foi assustadora no Galeão, à porta da aeronave, descendo as escadas, um calor! era um bafo quente de cortar a respiração. Senti tristeza e desolação por alguns minutos. Depois em Campinas, o dia era úmido. Meu tio Elias me esperava no Viracopos e eu achei que ele fosse o meu pai; são muito parecidos os dois e fácil de serem confundidos. Completando a tua pergunta, esse tempo eu passei sem meus pais e irmãos, portanto. Mas era para falar do tempo durante e acabei falando do start e do end. E era para falar de poesia. Mas tudo bem. Acho que isso tudo que disse é um mote para a poesia. Poesia como supra-sumo da vida, e os momentos tópicos da vida são também pura poesia. A lembrança como um ideário, um metapoema. Acho que a poesia começou nesses momentos tópicos, em suma.


2.
Você dedicou teu livro A Arte do Zajal "Para o Éden de Haroldo de Campos"... Além de Haroldo, quais poetas brasileiros mais te encantam?


A minha poesia se divide em antes e depois do encontro com Haroldo de Campos em persona. Com ele, tudo ficou mais complexo. No mesmo tempo, cresci e passei a exercer o poema maior do homem que trabalha e projeta coisas para a frente. Confirmei poesia e tradução, e estas juntas na crítica, e a crítica passou a ser para mim um ato de poesia. Não prefiro uma a outra; simplesmente são extensões uma da outra. O livro Éden do HC, ao qual dedico meu Arte do Zajal, contém o poema que nos uniu, o Cântico dos Cânticos. Quando contatei o Poeta ele me pediu "algo" para ver, e eu levei um dos Cantos que traduzi a partir da versão árabe, que é por sua vez versão a partir do grego, que é por sua vez versão a partir do hebraico, que por sua vez é, polemicamente, versão-criação de alguma outra língua... Foi interessante cruzar o árabe e o hebraico dos poemas que tínhamos nas mãos na língua portuguesa das nossas criações. Aprendi, por exemplo, que a tradução no final das contas é um modo de poetar, que encontra eco entre seus agentes, como a Lua que manda luz para a Terra, que manda luz para a Lua, e essa luz enfim sequer é desta ou daquela, mas do Sol. Aprendi também que a língua da tradução é uma constelação de poemas da qual o tradutor pega algumas estrelas e engasta criteriosamente no poemário seu da vida inteira, lembrando aqui o belo título do Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Estrela da Tarde, Estrela da Vida Inteira.
Li muito durante os anos de escola secundária. Lia o que tinha por perto. Esgotei a pequena biblioteca da Escola onde estudei em Santa Rosa e o que pude da Biblioteca Municipal daquela cidade. Não tinha o que fazer. As tardes eram longas, calorentas na maior parte do ano, assombradas pelo som das cigarras no crepúsculo. Aquilo dava uma tristeza. O jeito era ler: quando as ofertas de romances e poemas da prateleira se acabaram, assaltei os livros de filosofia, psicologia, ciências políticas etc. Fazíamos isso como ato de sobrevivência eu e alguns amigos de lá. Era um tédio. E a cidade ficava no nosso pé. Pelo menos eu percebia assim. Vai ver ninguém tava aí para mim ou o Sacha, mas a sensação era de que a gente não podia ser diferente que a cidade logo se encolhia para nos apertar e nos empurrar para fora dela. E foi o que aconteceu com a nossa turminha de "desajustados". Todo mundo espirrou. Mas isto não tem nada a ver com a sua pergunta... Um poeta que me inspira muito hoje é, não um nome mas uma nação: a da Língua Árabe. Ali tenho tudo que preciso. Essa língua é um mar. E por sorte, o português é um céu! Já citei o Bandeira? Gosto muito dos poetas que portam bandeiras. Pela razão de que poucos portam bandeiras, quando muitos mais deveriam fazê-lo. Os melhores poetas deveriam ser os poetas que portam bandeiras, como Maiakosvki fez, e como fez Whitman, e como fez Darwich. E como fez Haroldo de Campos. E como faz Adonis, erguendo no nariz dos árabes a bandeira linda da transformação (de dentro para fora) daquelas sociedades.

3.
Ontem quando fui ao correio enviar um livro a funcionária do correio comentou que adorava ler. Ela perguntou - Conhece Gibran?
Quando ela citou Gibran, lembrei as belas poesias lidas naquele Diwan que organizamos em 2006, os belos poemas de Adonis, Darwich, Nizar Qabbani. Não existe nenhuma publicação de um poeta como Mahmoud Darwich aqui no Brasil. Alguma explicação para esta ausência da poesia árabe nas prateleiras?


Há um par de anos, escrevi uma resenha sobre um livro em prosa de um poeta árabe que estava em visita ao Brasil. Eu disse indignado que aquela publicação era um contrassenso típico do mercado editorial brasileiro. Reconheço que aquela minha afirmação parece antipática, afinal publicar um livro de um autor árabe deveria ser motivo de saudação num mercado, como você diz, tão carente de títulos dessa procedência. Mas veja, o contrassenso era uma editora chamar para o Brasil um poeta importante e publicar dele não um livro de poemas, mas uma espécie de relato de viagens, por acaso uma obra menor na história do poeta. O livro veio, o autor veio, e ambos se foram. O que ficou na nossa história literária foi a crônica de uma sombra que passou. Nenhum leitor brasileiro hoje, ou de amanhã, tem como consultar um exemplar da obra em nome da qual se chamou o seu autor para estar entre nós. Como explicar isso? De diversos modos que eu sou incapaz de fazer aqui e agora. Mas fica o sintoma, que tem em si um paradoxo. Não lemos poemas porque não publicamos livros de poemas. E não os publicamos porque não os lemos. Esta situação encontra similitude em outras localidades mas no Brasil é patética. Mas o Brasil, em contrapartida, me parece um país poético, facilmente “poetizável”. Não falo em tom de ironia, de verdade que não. Nossa alma e nossa língua são maiores que o juízo que temos de nós. O problema do Brasil é que a toda hora impomos ao país e à nossa gente um modelo de cultura que não é nosso, que não se ajusta a nós. Dentro desse modelo está o de leitores e cultivadores da dita “poesia”. Na verdade, o gosto nacional passa largo da poesia culta, erudita, que fazemos, nós, uma centena ou algo mais de poetas que puxamos uma tradição de extração livresca. O poema parece ao brasileiro médio uma instituição forânea, tem meneios de dama que a um plebeu passam batidos. O brasileiro a que me refiro gosta e aprecia a poesia; sabe-a de ouvir nas muitas linguagens que nos traduzem: a dança, a poesia oral, o nosso jeito de tomar café e de subir escadas. Aviso também: não faço coro ao mito do homem poeta por natureza. Mas nele localizo um alvo: quando um agente da cultura, um editor, pensa na poesia não vê nela um ponto catalisador do que se acredita ser a identidade nacional. Meu editor sabe disso, ele, um homem culto, sabe que o gosto médio do seu freguês não é o que escrevo como poeta ou como tradutor de poemas.
E então a poesia vai migrando aceleradamente daqui e dali. Poetas são levados a abandonar a forma-poema e as suas virtualidades. Coisas deste nosso tempo. Poetas começam a se aventurar na forma-romance, forma-relato. As pessoas já pouco distinguem, aliás, romance e ficção, pois erradamente se pensa que a prosa é relato de ficção, e o poema (o que vulgarmente chamamos poesia) é tido como depoimento pessoal, expressão idiossincrásica do pensamento de homens e mulheres caprichosos... no bom e no mau sentido do termo. A forma do poema passa a ser entendida como expressão sem arte, desordenada, que agrada a poucos porque não segue os trilhos do gênero artístico verdadeiramente de ficção, que -assumimos- é a prosa. Um equívoco tolo, cavalar, asnal. A forma-poema é ficção levada a um grau exponencial, como o é a forma-romance e suas virtualidades. Lê poemas quem tem cultura de poemas, quem dela conhece a história, sendo capaz de entender o porquê de uma vírgula fora do lugar, da ausência dela, ou da anulação, se preciso, do seu paradigma como modelador da idéia na escrita. Os leitores de “literatura de ficção” são os mesmos professores de Literatura nacionais. Poucos professores encaram a leitura de um livro de poemas e dele se sentem próximos; e poucos são capazes de ler poemas com seus alunos; e poucos são capazes de responder por determinada poética. Para responder a sua pergunta pontual sobre a ausência de Adonis, Alhaj e Qabbáni: poucos traduzimos do árabe, e, desses, poucos embarcam na aventura do poema. Estamos na média, portanto.

4.
Conte sua experiência como editor da Revista Tiraz - revista do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe – USP. E também sua atuação no Icarabe - Instituto de Cultura Árabe
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A revista Tiraz tem um belo nome. É um arabismo que entrou no nosso idioma há séculos e guarda o sentido original de “brocado caligráfico”, que os cortesãos medievais usavam ostentando a marca faustosa do ateliê que o produziu, em geral ateliê mantido pelas cortes de califas, emires ou sultões. Foi assim nas terras da Pérsia e depois em Bagdá, na Síria, no Egito, no Marrocos e no Alandalus. Quando o poeta egípcio Ibn-Saná Almulk, do século XIII, batizou sua coletânea de poemas do tipo “muacha” de “Casa de tiraz”, quis dizer que aqueles espécimes de poemas –dele, dos poetas de seu tempo e dos poetas andalusinos predecessores naquela forma-poema– tinham a nobreza de um tiraz bordado a ouro, prata e fios de seletos matizes. Com esse título, ele evidenciou aspectos de excelência e singularidade daquela arte. Assim quisemos marcar a produção científica de quem entre nós, pares mais próximos ou distantes, lida com as milenares artes e ciências dos árabes. Propusemos uma revista que acolha a produção intelectual como uma preciosidade da “casa das ciências”, bastião, quase que solitário, da pesquisa no país do carnaval.
A revista tem conselho editorial e consultivo, ao qual submete as colaborações recebidas. E trabalha com recursos enxutos advindos da Pós-Graduação. O que garante a existência dela é o trabalho conjunto dos colegas, alunos e colaboradores que atuam sem fins lucrativos, barateando o custo final, que seria altíssimo dada a exigência técnica de sua editoração, como a diagramação diferenciada para cada artigo, com ou sem colunas, inserção de imagens, a edição bilíngue em árabe e português da sessão Fontes, a filosofia de traduzir ao português as colaborações recebidas em outros idiomas e a incidências de diferentes fontes usadas num mesmo artigo, alternando fontes da escrita árabe, de transcrição ou transliteração latina de outras línguas, além do árabe, como sânscrito, russo, turco, entre outras, a depender do conteúdo do texto por editar. Eu atuo nela como diretor editorial e faço o papel de “publisher”, acompanhando sua realização em todas as etapas, desde o planejamento, passando pela editoração e o gerenciamento dos profissionais contratados, até o lançamento da revista.
A experiência com Tiraz é disciplinadora. Desenvolve o senso de trabalho em equipe. Leva a meditar sobre o imprevisto diante das tecnologias. Mas também ensina a trabalhar a poesia das formas como um conhecimento a ser perseguido, controlado e repassado. E amplia o entendimento do trabalho com as linguagens. É impossível diferenciar o zelo que um editor tem com um texto que lhe é confiado e o zelo que tenho com um poema que concebo como criação ou transcriação. O resultado final da revista assemelha-se com o do poema escrito e reescrito até a versão impressa.
No Instituto da Cultura Árabe, do qual sou presidente desde novembro de 2008, coordeno um grupo de diretores da mais alta competência na área cultural quando o assunto é o mundo árabe e o Brasil por ele tocado. O trabalho ali é mais complexo do que na Tiraz, porque as ações do Instituto reverberam muito, e excessivamente por vezes, conforme o “tempo” ou o “clima” dos fatos mundiais, aos quais somos chamados a responder. A demanda por explicar o mundo árabe é constante no nosso país. Sempre foi, mas após o sinal do petróleo, o dito Oriente Médio passou a um dos focos de atenção mais perceptíveis. O século XX foi a estação de desmembramento das terras do antigo Islã, dirigido pelos otomanos. Não bastasse a frágil construção do sentido nacional nesses países, forjado a partir de um projeto, por baixo, muito mal estudado e implementado por França e Inglaterra nesse período, no século XXI esse mundo fracionado agora é alvo evidente de demonização. O cinema norte-americano, ícone maior da alta e média cultura dos EUA, tem um papel crucial nesse processo e o fez à moda da escansão da sicuta, pingando-o gota a gota, de película em película, como de resto esse cinema fez com os russos nos tempos da guerra fria. Por outro lado, as forças de reação do mundo árabe têm encontrado na politização das religiões uma força catalisadora aparentemente capaz de libertar as massas dos efeitos externos vindos de um “Ocidente corrupto e corrompedor”, tornado também, e por sua vez, demoníaco.
As forças vitais, contudo, nos dois polos, parecem estar prontas para derruir o muro que se insiste em impor na linha ficticiamente divisória entre ambos. As ações da cultura são essas forças. E são essas mesmas que o Instituto da Cultura Árabe persegue e busca implementar nas diversas ações que lhe são cabíveis na nossa sociedade.

5.
Um livro de poesias de Michel Sleiman: Notícias, título, previsão para publicação... Conte tudo! E como você encara as afirmações que nós poetas sempre ouvimos:
- Poesia não vende. / Ninguém lê poesia.



Títulos não faltam; e não faltam poemas organizados em livros. Mas isto não basta. Publicar um livro é, entre outras coisas, uma ação política, comercial e pessoal. A primeira é esta, a da ordem pessoal. O livro requer mover uma energia que convença o autor a sair de si, primeiramente. O próximo passo é o reflexo deste: convencer o editor e manter-se convencido à medida que o tempo passa e o livro não sai, enquanto as finanças das editoras e as oscilações do mercado financeiro acenam para recessão da economia, e enquanto, claro, menos se vendem livros, menos o editor recebe pelos livros em consignação nas livrarias. Não esqueçamos de que falamos de livros de poemas, que os editores são unânimes em afirmar só os poetas lêem. E eles têm razão: nós escrevemos para um leitor com entendimento da história do poema.
A outra ação é a comercial. Editar para vender onde, se os livreiros não expõem livros de poemas? Agora vale a ironia: afinal são livros volumosos, enchem prateleiras, bla-bla-bla. É conversa, sabemos. Mas caberá a mim e a você o papel de ser “promoter” das editoras junto às livrarias? Isto é demais, não?
A terceira ação para um livro de poemas ser editado é política porque implica tomada de posição diante o que se quer para a nação como um todo. Que projeto cultural têm o Brasil, seus dirigentes e seus cidadãos? Não quero ser eu a dizer que não têm projeto algum. Não direi. Não direi mesmo que não há um projeto cultural para este querido país. Bom, já disse.
Há, contudo, os projetos dos poetas que levantam bandeiras. Esses para os quais eu tiro o chapéu. Agentes de si mesmos, contudo, não repercutem suas ações salvo em torno do próprio umbigo. E o fazem bem, mas não são editores. Portanto, continuamos sem projeto cultural. Sem política editorial. Sem poemas. Não sem poesia. Esta existe e vai bem, obrigado, porque ela existe como ação política de quem escreve e perscruta o mundo. E ainda que tal poesia não fale a língua nacional, é ainda a língua de muitos: assim tem sido a história milenar desde a invenção da escrita.
Tenho um livro a sair pela Ateliê, chama-se Ínula Niúla, que o poeta meu amigo Horácio Costa faz preceder com um texto seu de apresentação. E estou trabalhando em várias frentes de tradução de poemas árabes antigos, contemporâneos, além do sempre inspirador Alcorão, mãe-das-linguagens. Finalmente dei uma versão que me agradou muito do longo Poema dos Árabes, de A-Chánfara, do século VI ou VII, e estou terminando a tradução, com transliteração da recitação solene, do segundo capítulo do Alcorão, a chamada Sura da Vaca, cujos primeiros 143 versículos publiquei em Tiraz 5, do ano passado. E estou engrossando uma antologia da poesia árabe em perspectiva histórica das suas formas-poemas. Tudo virá a seu tempo.

6.
Michel Sleiman por Michel Sleiman


Gostaria que os brasileiros de origem disso e daquilo não fôssemos tanto, até extinguir-se, brasileiros árabes, brasileiros judeus, brasileiros negros. Isto é uma coisa ruim, e um retrocesso, uma abdicação do que temos sido ao longo da nossa história. Gostaria de lutar por um país mais justo e democrático, pra valer: que tivéssemos condições similares para fazer cultura, sendo agentes e esperando menos das ações que vêm de cima, não por não querê-las, mas porque em geral tais ações subtraem nossa capacidade de agir por nós e, com isso, de decidir por nós, de lutar por nós e por sonhar por nós. O que tiver de vir de cima será mais uma ação vinda de outrem e de alhures, sem o direcionamento vertical a que somos tão afeitos, desde que o mundo é mundo e desde que deus se fez deus com letra maiúscula.
Este meu depoimento destacou a ação em detrimento da reação. Entendo esta a política das políticas. Como o amor, quando saímos em busca dele nos vemos presas dele, e quando não o buscamos nos assusta, porém, a sua chegada ou sequer o identificamos como tal... É por ser uma ação que o amor não se deve buscar nos outros nem cavoucar no íntimo ensimesmado. A ação é condicionamento do querer. E este não é exatamente a ação. Algo parecido se dá com a literatura dos poetas: um livro que se escreve com afinco e se publica na medida de sua hora, de seu lugar, no tempo e no espaço de todos os agentes que o tornam l
ivro, autoria, produto e consumação.



Michel Sleiman nasceu em 1963 em Santa Rosa, RS. Participou de livros coletivos de poemas, mas ainda não publicou um livro individual. Tem dois livros de crítica e tradução da poesia árabe-andalusina: A Poesia Árabe-Andaluza (Coleção Signos, da Perspectiva, 2000) e A Arte do Zajal (Coleção Estudos Árabes, da Ateliê, 2007). Dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio e preside o Instituto da Cultura Árabe, em São Paulo, onde é professor doutor de Língua e Literatura Árabe da USP.
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Animália
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Gato porte ferino
descendo lombas de braços
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Cão de pêlo aos pés
não para calçá-lo
mas cuidar-lhe o salto célere.
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O sol me vem confunde
penso-o à tarde
- Precipite-me
até a vala do corpo
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Potro pêlo lustroso
convida ao prado, vejam-no
a ceifar trigo novo
a saber-lhe a haste
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Ovelha, nos ouvidos,
Ali Babá e seu balido de chave mestra
- Abre-te, salão!
Olhe-se-lhe o mármore.
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Vaca órix, olhos vergados,
tinteiro de farol a sua mirada
- Espiem-lhe a láctea pele
no café 100% arábico
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Tal amor cavalgou dorso selvagem:
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nem tigre, nem dragão.
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Michel Sleiman
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Tuesday, May 19, 2009

Balada da Cruz Machado

Geração Beat - Cláudio Willer


Para agendar:

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L&PM
LANÇAMENTO – ENCYCLOPAEDIA
Geração Beat
de Claudio Willer
Volume 756 da Coleção L&PM POCKET – 128 páginas – R$ 12
Lançamento e sessão de autógrafos do livro Geração Beat, de Claudio Willer:
3 de junho, quarta-feira, às 19h30, na Livraria Martins Fontes: Av. Paulista, 509 - São Paulo – SP (esquina com ruas Brigadeiro Luís Antonio e Pe. Manoel de Nóbrega), fones (11) 2167-9900 e 2167-9937,
www.martinsfontespaulista.com.br
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Quer saber mais sobre uma das manifestações culturais mais originais do século XX? Leia Geração Beat, livro da Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia, a nova série que traz livros de referência com conteúdo acessível, útil e na medida certa. Escrita por Claudio Willer, especialista no tema, esta obra traz as principais informações sobre o revolucionário movimento da vanguarda artística norte-americana em 128 páginas de texto claro. Em Geração Beat você irá saber como surgiu a expressão “beat generation”; desvendar a origem deste grupo de poetas, escritores e artistas, e conhecer suas principais obras e aventuras, desde os primórdios do movimento até a chegada do beat ao Brasil.
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CLAUDIO WILLER é poeta, ensaísta e tradutor. Nasceu em São Paulo, em 1940. Publicações mais recentes: Estra­nhas experiências, poesia (Lamparina, 2004); Volta, narrativa em prosa (Iluminuras, 1966, terceira edição em 2004); Lautréamont – Os cantos de Maldoror, Poesias e cartas – Obra completa (Iluminuras, nova edição em 2005) e Uivo e outros poemas, de Allen Ginsberg (L&PM, nova edição de bolso de 2005). Teve lançado Poemas para leer em voz alta, (Editorial Andrómeda, San Jose, Costa Rica, 2007) e uma série de ensaios sobre poesia surrealista na coletânea Surrealismo (Perspectiva, coleção Signos, 2008). É autor de outros livros de poesia e da coletânea Escritos de Antonin Artaud, esgotados. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela ligada ao surrealismo e à geração beat. Doutor em Letras, DLCV-FFLCH-USP, tese em 2008: Um obscuro encanto: Gnose, gnosticismo e a poesia moderna. Co-edita, com Floriano Martins, a revista digital Agulha.

Sunday, May 17, 2009

Lopes Chaves, 546

Anita Malfatti
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Uma luz apagou
Na ribalta do mundo
Quando cerrou as portas
Da vida daquele
Que Anita amava
Nunca mais se ouviu
Outra vez
O piano parisiense
- Henri Herz –
Mário a dedilhar
Teclas e palavras
No n° 546
Da Lopes Chaves
BÁRBARA LIA




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- fragmento de uma carta de Anita Malfatti p/Mário de Andrade:
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...Como você vê, eu tinha perdido o jeito de escrever para você, mas estou achando mais fácil do que eu esperava. Eu moro longe de São Paulo, tomo conta do meu jardim, arranco o mato e planto as flores e as árvores, rego quando posso, arrumo a casa e pinto as festinhas do nosso povo que dão alegria ao coração da gente simples. O grandioso e majestoso, assim como a glória e o mágico sucesso me deixam calada, triste, mas as coisas fáceis de pintar, simples de se compreender, onde mora a ternura e o amor do nosso povo, isto me consola, isto me comove.
Não sei ainda como é onde você foi morar… será como?… Deve ser um lugar cheio de poesia, de anjos de vez em quando e… e como é que você escreve hoje? Mudou de diretrizes? Será mais músico do que poeta?… – Parece-me que você bem pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
E nós que não sabemos as últimas novidades, porque você sempre foi novidadeiro… Mário. Como poderíamos saber! Ouvir?… sim, mansinho dentro do nosso coração!
Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.
Anita“

em Diário de São Paulo, São Paulo, 1955

Saturday, May 16, 2009

seis anos sem Jamil Snege


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Para matar um grande amor (Jamil Snege)
Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza; a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos. Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o Dom da finitude, abrupta e intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada, longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos que ainda nos une ao que acabamos de perder.Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...


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JAMIL SNEGE
(1939-2003)
Jamil Snege nasceu em Curitiba, PR. Era formado em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência. Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo. Era o escritor mais reconhecido pela classe literária curitibana, autor de mais de dez obras, entre as quais Tempo sujo (1968), Ficção Onívora (1978), Para Uma Sociologia das Práticas Simbólicas (ensaio, 1985), O Jardim, a Tempestade (minicontos, 1989), Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994) Viver é Prejudicial à Saúde (1998), Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000).

Friday, May 15, 2009

As I Lay Dying

Faulkner, William. As I Lay Dying. New York: Jonathan Cape, (1930).
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Apanhei na Biblioteca Pública o livro de Faulkner - tradução de Hélio Pólvora - Editora Expressão e Cultura, 1973 - O livro é estruturado em fragmentos, conduzido pelo fluxo do pensamento dos personagens. O pai e cinco filhos acompanham o caixão da mãe que quer ser enterrada em outra cidade. Em um dos fragmentos uma única frase do personagem Vardaman: Minha mãe é um peixe. Após a leitura de - Enquanto Agonizo (As I Lay Dying) a leitura para a oficina de dramaturgia - Volta ao Lar - Harold Pinter, tradução Millôr Fernandes (abril cultural).
Há mais de dez anos em um congresso de poesia eu conversava com Fernando Aguiar e Hugo Pontes diante de uma exposição de quadros e eles disseram: escolha entre a poesia e a prosa. Fiquei por um tempo com aquela frase, a opinião deles um eco ao fundo. Como escolher entre a poesia e a prosa? Se sou poeta desde que nasci e se o meu primeiro despertar para um caminho foi - quero ser escritora! E agora que uma nova trilha se abre? - a dramaturgia. O que fazer quando você quer beber a água inteira do oceano em um gole? Vez por outra anseio desenhar e pintar. É a alma de artista. Na noite que li algumas poesias no Realejo o poeta/ator Cláudio Bettega resumiu isto em uma única frase - Quem tem dentro de si a Arte consegue isto: pintar escrever interpretar compor...
Recebi o e-mail de uma universitária perguntando onde ela comprava Cereja & Blues. Era o desejo dela depois de ler Solidão Calcinada, ler outro romance meu. E com uma dor no coração tive que responder - sinto muito este livro ainda não foi publicado. Sigo mesmo - ao ritmo do tempo - como escreveu o Márcio Renato dos Santos - naquela matéria para o jornal, mas, espero ter um romance publicado breve. Ao final o que importa mesmo é mergulhar neste oceano, ler escrever lutar ter decepções e um monte de alegria, caminhar pela escrita viva de tantos escritores - atravessar o caminho criado por Faulkner em uma viagem estranha com a mãe morta. Tenho pensado muito em minha mãe. É claro. É maio e ela nasceu em maio.

Wednesday, May 13, 2009

Um café com John Fante. Uma tarde com O amante


The Other Man - Antonio Banderas - Liam Neeson
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Na edição deste mês do Jornal Rascunho (109) Adriana Lisboa em sua coluna - Por aí - aguça nossa curiosidade e o desejo de ler - 1933 foi um ano ruim (John Fante). Anos atrás após a leitura de - Espere a primavera Bandini - fiquei com aquele gosto de - quero mais - melhor ter lido na ordem inversa. Primeiro Espere a primavera... Depois, Pergunte ao pó. Márcio Claudino, por uma dessas sincronias poéticas, leu o livro no mesmo mês e chegou um tanto estranho para nosso café com John Fante, pois ele até já adotara o refrão - Espere a primavera Bandini. Agora vamos atrás deste novo livro que Adriana Lisboa cita em sua coluna cujo título é - Um café com John Fante. O detalhe - Adriana estava lendo o livro em um café, em companhia de seu filho, em Boulder. Cenário de 1933 foi um ano ruim. Nesta mesma edição do Jornal Rascunho Luiz Paulo Faccioli escreve sobre - O leitor - de Bernard Schlink. Um autor que está a me chamar com seus livros e cuja obra é representada em filmes sem perder muito quando o livro é adaptado e transformado em roteiro cinematográfico. Quando vi - Pergunte ao pó - decididamente fiquei decepcionada com o filme. Colin Farrell tem as feições do rosto imutáveis. É estranho assistir a um filme onde o ator não muda sua expressão e isto acontece em - Pergunte ao Pó. Acontece com o épico Alexandre. O filme não se aproxima em intensidade e não corresponde à narrativa de Fante. O que me preocupa é a renitente imagem de Salma Hayek na pele das minhas personagens essenciais em realidade e ficção - Frida Kahlo, Camila Lopez - Preciso tomar cuidado para não sair com uma frase mais ou menos assim - Quero ser Salma Hayek. Cá entre nós - quero ser Bárbara Lia mesmo. O texto de Faccioli no Jornal Rascunho - A estranha potência das palavras - tem como foco o livro - O leitor - mas, descobri que o outro livro de Bernard Schlink - O outro - foi traduzido e lançado pela Record.
Dois livros na agenda para leituras futuras.
Uma tarde na locadora pousei o olhar displicente em um lançamento e li o nome de Bernard Schlink - O filme - O amante com Liam Neeson, Laura Linney e Antonio Banderas - The Other Man - Roteiro e Direção de Richard Eyre - Tal qual em - O Leitor - existe um ponto de mutação onde tudo se descontrói como é, cria-se um novo cenário através de eventos, acontecimentos. Li uma crítica em um site de cinema e sempre me surpreendo com a discrepância que há entre minha opinião e a maioria das opiniões. Alguns filmes que não me tocam são alardeados, outros que me prendem e me surpreendem são detonados... É um filme bem mais potente que tantos que vi, mas, como é mesmo a palavra que traz esta potência - melhor ler o livro.
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- Para quem não tem acesso ao Jornal Rascunho impresso... a edição de maio jo jornal ainda não está online, breve estará para conferir as matérias citadas, e outras da edição 109.

Sunday, May 10, 2009

Lasanha #13






Uma poesia do Livro Noir na edição n° 13 da Revista Lasanha, editada pelo poeta Maicknuclear:
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Friday, May 08, 2009

estante #19


A Arte do Zajal - Estudo de Poética Árabe - Michel Sleiman
Atêlie Editorial, 2007
Parte de série - Coleção de Estudos Árabes
Para ler mais sobre o livro:
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3155

estante #18


O Moço
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O moço já viu um taquaral em chamas? O moço já ouviu o barulho de um taquaral em chamas? Os gomos secos das taquaras, espocando, espocando, espocando qual tropel de puros-sangues... O moço já teve uma casinha à beira de um taquaral? Então, não me venha falar de dor...
Cláudio B. Carlos
O Uniforme
Narrativas
Editora Maneco 2007

Ciranda com Emily & Hilda

Metal sculptures of Amherst residents Robert Frost and Emily Dickinson, near Emily's house in downtown Amherst.
imagem do site - www.cs.umass.edu/




Quanto mais nobre o gênio menos nobre o destino
um gênio pequeno alcança a fama
um grande gênio alcança o descrédito
um gênio ainda maior alcança o desespero
um deus é crucificado
Fernando Pessoa




Estes versos de Fernando Pessoa abrem a coluna de Pedro Maciel no site Cronópios: Emily Dickinson e a voz da imortalidade. Quando li os versos de Pessoa lembrei os aforismos do Tao Te King.

Emily é mesmo imortal:

http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=3970


Emily é parte do triângulo insuperável - Hilda Hilst - Clarice Lispector - Emily Dickinson - escrevi uma poesia para estas poetas, em ciranda extasiada. Encontrei uma foto de uma escultura de Emily onde ela está diante de Roberto Frost (eu tive uma briga de amantes com o mundo) este verso de Frost é o resumo da alma de poeta.



CIRANDA COM EMILY & HILDA



A bela de Amherst
E a obscena senhora H
Contam-me seus dias de paz.
Puxam-me para a misantropia.
Nunca mais seguir guias que abandonam
no meio do caminho.

Nunca te vi de branco,
Emily!
Nunca entrei na Casa do Sol.
Mas estivemos juntas em ciranda
Alma-a-alma
Thalassa & Sêmen.
Atavios de fadas & Ave Nave.

Crisálida outra vez.
Ouvindo as notas de vidro do amor.
Coração vestido de branco.
Nos pés as sandálias do sol.

Bárbara Lia

(O sal das rosas - Lumme editor-2007)

Thursday, May 07, 2009

gatos gatinhas e gatões

cybele chaves






à luz da lua
o gato namora
chuva de prata


Jiddu Saldanha



http://haigatos.zip.net/



Jiddu Saldanha contou-me deste blog de haicais para os apaixonados por gatos...

Wednesday, May 06, 2009

"Onilíricas" e "Bordéis" inéditos do Márcio Claudino na Revista Etcetera

n° 23 - Outono - 2009
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sessão cinema
Kiyoshi Kurosawa
Nesta edição, Marcelo Ikeda comenta em sua coluna a obra do cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa, diretor de filmes como Cure, Água Viva e Pulse.
poesia
Luis Serguilha:
um sujeito na contramão do consumo
Andréa Santos discorre sobre A Singradura do Capinador, livro do poeta português Luís Serguilha.
literatura
O rebelde Clóvis Amorim
O escritor baiano Clóvis Amorim fez parte do grupo literário “Academia dos Rebeldes” e com seu romance O Alambique injetou sangue novo na linguagem da prosa neo-realista regionalista nordestina. Por Gilfrancisco Santos.
conto
Soberano Absoluto
Entre guimbas de cigarros e copos descartáveis, o menino Abdan encontra um estranho cartão. Desejos, baratas, escorpiões prateados e sonhos uterinos na narrativa do escritor Paulo Moreira.
crônica
Um homem comum. Mijão, mas comum
Kazumi é dono de um botequim no bairro da Liberdade. Um homem comum, marcas de cerveja, culinária japonesa, portentosos quadris e metralhadas na 23 de Maio na crônica de Celso Paraguaçu.
poesia
Onilíricas e Bordéis
O poeta curitibano Márcio Claudino mostra “Onilíricas” e “Bordéis”, duas séries curtas de poemas.
cinema
Pornô Cult:
a pornografia no cinema de arte
Rodrigo Gerace faz uma análise da pornografia no cinema de arte, destacando os principais aspectos que resultaram na substituição do erótico pelo pornográfico.
música
Estilhaços na cidade de Oz
A banda La Carne lança seu quarto disco, intitulado Granada.
Por Sandro Saraiva.
literatura
Acenos e Afagos:
o fluxo ininterrupto de Noll
Claudio Portella fala do mais novo trabalho de João Gilberto Noll, o romance Acenos e Afagos. [inédito]
poesia
Cântaro, abismo de bolso
A Etcetera traz nesta edição Cântaro, abismo de bolso, coletânea de nove poemas inéditos do mineiro Leo Gonçalves, autor de das infimidades e tradutor de Willian Blake, Juan Guelman e Molière.
Ilustrações de Ana Carmo.
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Monday, May 04, 2009

O mundo é uma igreja pequena

Há três de mim. Há o cenário: Uma igreja pequena. Há os atores: Pálidos e mumificados ouvindo a voz do pregador. Há um perfume de incenso e há um coro que só canta quando o pregador acena, levanta a mão, maestro tosco. Há um ranger de madeira de bancos velhos, mas não ouço o ranger de almas. Minha alma range desde que eu era menina. Hoje vivo à direita de mim, livre. Já escapei do cenário. Eu disse – Há três. Uma que todos vêem em pé, esgueirando-se pelas paredes onduladas do templo. Uma que está ali sem estar, a viver como uma obrigação, para não ferir quem a ama, fica ali, ouvindo as pregações. Ajoelha, arrepende, reza, comunga e até canta. Há aquela que está no limbo. Uma névoa líquida fria e esponjosa que envolve em uma dança estranha, quase bonita, quase assim aquele retrato de Isadora Duncan. Voando entre o tecido, linda. No limbo não sou feliz, no templo não sou feliz. Só a terceira que esgueira para fora e explode o peito de ar limpo e azul, esta que ninguém vê. A invisível. A invisível é feliz, esta que ninguém conhece. Que ninguém chicoteia como ao Cristo. Que ninguém julga: Pilatos aos borbotões. Esta que ninguém prega na cruz. A que as suas sementes conhecem e a amam. Aquela que o amado eleva ao éden na casa da chuva e a ama. A terceira é o ar o azul o pássaro a cópula o colo maternal a misantropa. A terceira que ninguém conhece. A terceira que só os que amam conhecem. O frio ondulado das paredes causa artrite. Toca o sino e a hóstia é erguida. Sacrifício. Vou ter que ficar aqui.

Bárbara Lia
4/5/9

Sunday, May 03, 2009

Tabula Rasa

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Las puertas de la ciudad blanca

Abiertas de par en par

Mi espíritu, tabula rasa

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Antes de la fecha en el tiempo grabada

Para alcanzar la sacrosanta ciudad

Sigo besando lombrices

Como si fueran jazmines

Bárbara Lia

em floripa


Saturday, May 02, 2009

A Palavra Bem Temperada - 05/05

Terça Músico-Literária no Realejo
Nesta terça, 05 de maio:
Pegada de Compositor:
Gerson Bientitez e Mauro Barbosa
musico convidado: João Francisco Paes
O Grupo Pó & Teias estará todo prosa, apresentando suas poesias!
À partir das 21:30 horas
No Realejo Culinária Acústica,
Esquina da Coronel Dulcídio com a Petit Carneiro
Entrada: R$ 5,00