Wednesday, July 29, 2009

Para Camille, com uma flor de pedra

la vague - camille claudel

.

Meu olhar cor da aurora de Latona

torna céu tudo o que ele toca

- pedra, ônix, gesso, mármore –

.

Luto com pedras na ponta dos dedos

Ignoro vozes, burburinho, olhares

Caio no abismo azulado

que de tudo me isola.

.

Augusta coroa da solidão

reflete-se na pedra dura

em amantes que não se fitam

a prever a degradante sina – Alienada.

.

O Deus que voou levou com ele

minha força, os nenúfares dos meus cabelos

fechou-me no casulo da exclusão

murcharam as flores, o filho no ventre

.

Murchou meu quinhão de glória

meu sorriso sensual de musa

minha ciranda de alegria

– La Vague –

água que se ergue do nada

e me cobre

e me enterra

e soterra.


Bárbara Lia

..............p/ Camille Claudel

Sunday, July 26, 2009

Nathaniel Ayers
Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx) músico esquizofrênico que Steve Lopez (Robert Downey Jr) encontrou tocando violino com apenas duas cordas diante de uma estátua de Beethoven. Steve procurava por uma matéria e encontrou o enigma. Uma história real baseada no livro de Steve Lopez - The Soloist. O filme conta a trajetória de um músico pobre que entra para The Juilliard School, quando o seu estado de saúde piora ele abandona tudo e vai viver nas ruas. Um retrato em tempo real dos moradores de rua. Belo filme que eu veria de qualquer forma . Vejo todos os filmes de Robert Downey Jr - esta criatura incrível, é claro que não tive como ver Iron Man até o fim, mas, eu tentei.
Em uma cena Nathaniel pergunta a Steve se os escritores pensam muito nos grandes escritores, assim como ele pensava o tempo todo em Beethoven.
Nathaniel continua nas ruas, tem um quarto em um abrigo que o repórter conseguiu para ele, Steve continua escrevendo para o Los Angeles Times.

Mais nos Los Angeles Times:
http://www.latimes.com/news/local/la-me-lopez-skidrow-nathaniel-series,0,1456093.special

Friday, July 24, 2009

Magritte - Door


Safe in their Alabaster Chambers—
Untouched by Morning
And untouched by Noon—
Sleep the meek members of the Resurrection—
Rafter of satin,
And Roof of stone.

Light laughs the breeze
In her Castle of sunshine -
Babbles the Bee in a stolid Ear,
Pipe the Sweet Birds in ignorant cadence—
Ah, what sagacity perished here!


Version of 1859
EMILY DICKINSON


A salvo em suas Câmaras de Alabastro-
Intocados pela Manhã
E intocados pelo Meio-dia-
Dormem os mansos donos da Ressurreição-
Cortina de cetim,
E Teto de pedra.

Branca ri a brisa
En seu Castelo de sol-
Sussurra a Abelha em uma apática Orelha,
Sibilam os Doces Pássaros em cadência ignorada-
Ah, a sagacidade pereceu aqui!
tradução - Bárbara Lia

Constelação de Ossos


Lynx Constellation

.

Acordei com o vento astuto a sacudir a cortina.

A fresta da janela concedia a chuva abrupta em meu corpo.

Corpo que já não tinha forças para estender a mão e fechar o vidro.

Desejei que toda a chuva carimbasse uma nova vida.

Uma vida na qual eu me tornasse o anjo d’água.

A realidade ressuscitou o gosto do ontem na garganta

– uísque com guaraná –

E a força das mãos de Heleno, que me subjugava na hora do sexo.

Sexo.

Sexo apenas.

Seus olhos verdes ejaculados e lascivos presos em mim

– a boneca de pano entorpecida de álcool –

Sopro de ternura em uma curva trouxe a última gota de dignidade.

O sexo dele extraído das entranhas ardendo entre as minhas carnes.

Pude ouvir o barulho da descarga do banheiro.

Era um rito que me deixava triste.

Como se ele me despejasse em jatos.

Como se eu fosse flor de cacto.

– última fonte de água em uma terra árida –

Mas, ele se livrava de mim após saciar a sede.

No silêncio das noites iguais um oco em minha alma.

E eu buscava a antiga e enterrada ânsia

– Um amor que me vivificasse –

As mãos de Heleno na braguilha a terminar de fechar o zíper.

O olhar blasé em minha pele chamuscada de desesperança.

Não ouvi minha voz, onda leve morrendo, um sopro em si bemol...

– Deixe a chave sobre a mesa da cozinha. Não volte nunca mais!

– Lyn?...

– Você ouviu. Deixe a chave.

– Esquece isto, Lyn, durma.

– Se sair com minha chave conto tudo para tua mulher.

– Duvido!

– Adeus sua mordomia. Vá, Heleno, e não volte nunca mais.

– Assim? Vá e pronto?

– Vá. Estou cansada demais para velhos refrões. Acabou.

A dor no olhar dele me fez acreditar que ele me amava, afinal.

Lívido, deu meia volta e saiu.

Bem mais simples do que eu pensava.

Indolor.

Ânsia infinita de ter dez anos.

Antes da noite da despedida na capela.

A dupla orfandade.

Antes, quando era só infância de mel e perfumes.

O jardim de seda de Layla e Amir.

A sagrada inocência entre as flores e o aroma do pão sírio.

Bárbara Lia

(Constelação de ossos - fragmento do romance inédito)

Wednesday, July 22, 2009

Os agentes B - L. Rafael Nolli

para Rodrigo de Souza Leão


1 – TOP SECRET

O poeta trazia um chip escondido no corpo.
Aos 23 soube que era rastreado –

numa sala escura um monitor Toshiba
piscava uma luz verde que era ele:

se súbito virasse à esquerda
e corresse até o tênis acabar eles saberiam.

Mergulhar por dias em piscina, de escafandro,
ou enfiar o dedo na tomada não adiantava –

era a prova d’água, imune ao curto-circuito.

A luz continuaria piscando, indicando
aos agentes que ele estava onde estava.

Com a faca arrancá-lo seria em vão.
Outro seria posto no lugar do primeiro –

à noite, pelo pai; ou num ato violento por eles.

Novamente internado, voltaria
com a tecnologia re-implantada –

up grade da versão dois ponto zero,
mais moderna, com sinal via satélite.

2 – Fuga e outros movimentos

Certo dia, perseguido por todos,
desceu correndo os treze andares da CEF,
contando cuidadosamente cada degrau.
(Diante do impasse, quase voltou para conferir)

Os macacos em seu encalço
– mordendo o calcanhar do tênis Nike –
seria uma prévia de tantas outras perseguições.
(Análogas às exibidas na Sessão da Tarde)

Aquele era o momento de lamentar não ter fu-
gido com Rimbaud – companheiro de manicômio
onde trocavam figurinhas do time do Flamengo.
(Álbum Campeonato Brasileiro, 1989)

3 – Necrológio

Acordou vinte anos depois
– ressaqueado de Haldol –
seu nome inscrito no obituário.

Levantou da cama
– a hora havia chegado –
e comunicou a todos que iria morrer.
...

do blog Stalingrado III:
http://rafaelnolli.blogspot.com/


Saturday, July 18, 2009

estante #23


Horário do fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento
Fevereiro 1984
MIA COUTO



Pássaros de aço
no firmamento
acordam estrelas
com seu vôo
carente
Bárbara Lia

Monday, July 13, 2009

No caminho com Emily Dickinson


http://penelopeillustration.com



UM SENHOR DE IDADE DISSE QUE UMA VEZ ESTEVE COM EMILY DICKINSON

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Rosto inconsolado - rosto cheio tenso e pálido
Como de uma mulher bonita já morta - Ela olhou para
......mim.
Com suas mãos compridas ela segurava a garganta
Seus cabelos escuros sedosos deitados como morcegos no
......sono;
Não era a mim que ela estava olhando.
.
Ao me afastar ela ainda olhava para o mesmo lugar
...Mas nada havia para se olhar;
Quer dizer, nada que eu pudesse ver.


GREGORY CORSO
Gasolina & Lady Vestal
(poesia urbana)
Coleção Olho da Rua - L&PM

...

Friday, July 10, 2009



PEQUENO TRATADO DA DELICADEZA
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p/Rodrigo de Souza Leão
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Rimbaud te espera
No barco bêbado encalhado
Em um mar crespado de turmalinas
-lágrimas dos poetas-
Nas mãos, duas taças de absinto
Para brindar a vida fera
Dois homens de branco
Ancorados na beleza
A repartir
O fogo santo
O espanto
O canto
O eterno canto
Dos poetas...
-Por delicadeza
Perdi minha vida-
Por delicadeza
Entregamos a vida
Aos escarros
Por delicadeza
Entregamos a carne
Aos caninos ávidos
Por delicadeza
Atravessamos a bruma
Com lírios brancos
Nos braços
Rimbaud sempre à espera
Para brindar
A eterna primavera


Bárbara Lia

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O Portal Cronópios publicou uma homenagem ao Rodrigo de Souza Leão, várias vozes e
um único canto - saudades.

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4083


A poesia não quer adeptos, quer amantes.
Federico Garcia Lorca


Monday, July 06, 2009

Rebecca Loise

Foto - Mariana Alves

2 & 3

O punho no duro da mesa
E a pétala morta cai de cabeça
Se gravidade tivesse altura
A rosa ainda vive na angústia
'Que sem água existe às avessas
Sendo mistério p’ro detetive das certezas
Outro sem por que
É o início dos indícios
Que pra ela é discurso depois luxo
E pra ele é de nota sem papel
Sanfona indo e vindo p’ras cinturas do bordel
Satírica, lírica, quase sacra e estúpida
É a poesia que serve de broquel
Do ar pulmões e alvéolos
Dos dedos corda e véu
Da voz o que vem sai de mim feito fim
Que sem sim é assim
Meio não, meio de sentimento em gira-pião
Que tonteia em função de sentimento
Que direciona os olhares vesgos no segundo lento
O que é morrer para viver
Se a vida endurece se o tempo,
Ao invés de parar, só faz correr?
O que é a vida do ser
Se não se é só
Se só se é dois e três?
Rebecca Loise
Escritora, estudante de Psicologia. Vive em São Paulo

http://a-dibuk.blogspot.com/