Monday, October 11, 2010

UMA LUA EM TEU VENTRE





foto - Ana Mestre



Lunar visão
descortinada
Crateras azuis
fluida paisagem
Ecos de Deus
luz que encanta
e espanta a dor
(árvores se curvam
aves gorjeiam)



Se tudo é negro
de sol cicatrizado
de demônios galgando
picos de aço
Impingindo
com botas de gelo
a dor aos mortais
Se as noites densas
assolam as horas
e as sentinelas
ausentam-se
Despem as asas
Se a noite cai e esmaga
os filhos do Oriente
como se fossem
inumanos
vassalos sem alma
Se a águia
negra e voraz
percorre os desertos
e ancora
em corroídas árvores:
Antes, cardamomos
tamareiras sândalos
Véus que voam
e a silhueta em êxtase- páginas de kamasutra -
Amor na tenda
ao revés das horas
Camelos a suspirar
e amantes ao embalo
de flautas encantadas
Palmeiras cálidas
miragem
Paisagem
que se move
altaneira
e surge
a visão das águas
- Poço de alguma Sarah,
Eloah, Hagar, Ester -
As sábias areias
vergando horizontes
mudando paisagens
ao embalo
do vento sem nome
Pétalas de um segredo
nas entranhas
as negras veias
que a América anseia
pousa as garras
arrebata oásis
e os converte em vinho
vertido na areia


Horas de escândalo:
Debandam anjos
exilam almas
Resta este rio negro
superfície jocosa
nua paisagem
estriada de marcas
deste látex sem alma
Deste aço líquido
das vestes da discórdia
-Cáqui-
Mundo vertido em casa negra
Esperança vertida
em luz da lua
Metáfora inocente
branda e encantada
As mãos paternas
elevam-me diante
da luneta que lembra
fuzil hasteado
e entre a eternidade
e a terra
pernas magras
balançam, nadam no ar
dos segredos
Flutuam entre Deus
e o nada
Somos o nada
A lua flutua
azul e enfeitiçada
fluorescente
náutica e errante
diante dos meus nove anos
Expectadora do impossível
um astro vergado
em minha íris
e a solidão desmascarada
Ancorado em luz
esfera incandescente
óvulo maturado
encontra o ventre ardente
que o tecerá
anjo de encanto
alma de viajante
luz de areias
em cântaros secretos
Era noite:
Eu tinha nove anos
e o sonhava
enquanto duas almas
vertidas de amor teciam-no
enquanto ele ancorava
no universo em poesia
eu caminhava
em caminhos de brasas
Infância tosca
casa escura
lua vestida
de manto azul
na noite da visão
da aura prata
na virgem planície
imaculada ainda
sem pegadas de astronautas
A lua menina
acenou em chama transparente
bailando
ácida e lírica
enquanto aquele que amo
aninhava-se
em alegria de espumas
na serena casa
onde o amariam
e onde seria
moreno inquieto humano
denso de sonhos
pleno de luas
Noites
Noites de azul e véu
Noites de vermelha chama
Noites de lama
Noites
Mais de mil e uma
Dez vezes mil e uma
para reencontrar
em um olhar
a luz da antiga noite
do casarão espectral
Descobrir que é
entre o negror e o medo
que brilha o sonho
e que é bem mais
o que chamam de amor
os mortais
Metáfora sem nexo
Sonho da musa
esquecida
Metáfora oca
Metáfora sem viço
Metáfora apenas
A lua na noite
da densa neblina
da vida pobre
da bailarina.
A lua na noite
o azul na retina
a cálida aurora
lunar clandestina
A lua e o amor
que chega assim:
Sem asas
Sem espada
Sem escudos
de ouro ou de luz
A lua e a noite
O casarão e o pai
e as mãos da candura
Mundo - casa escura
Mundo - Solidão
mistério sem nome
A metáfora me assola
Baila em minha mente
e sonho a lua azul
a colorir a casa escura
As horas
Todas as horas
sepultadas
no negror abstrato
A lua
A casa
As mãos
O olhar
O encontro
Na noite em que
aquele que amo
fez-se menino
Esperei decênios
para secar a pele em suor vertida
do prazer que pulsa
Suor que brilha na pele sarracena
Enamoradas castanholas a tilintar:
V-I-D-A.
As cores da Espanha
gritam através desta madeira
Ecoam, como ecoa
em fúria encantada

o falo sereno em meus lagos de sol
Viagem inebriada pela pele morena
- Guarani -
Desertos resfriam
gélidos
em campanas de estios
Recolhem-se
em caravanas
Beduínos
ao relento
bebem estrelas
choram o passado
quando a veia negra era ignorada
O Oriente - um oásis
de lua crescente e romãs
adocicando auroras
As belas mulheres
As burqas
Cântaros
Tilintar do ouro
Caravanas encantadas
Narguilé
Lua arábica
Lua pudica
coberta pela Terra
Mulheres silenciosas
nas tendas
incendiadas
Secretas deusas
do amor
nuas na lua
a encantar serpentes
O passado.
Os ancestrais
As tribos
A estirpe do deserto
Os tuaregues
O sonho do profeta
As mesquitas
Os quase cem nomes
de Deus
Alah!
Alah!
Caem mísseis
em Bagdad
Tanques demolem
Jenin
Caem os muros
do amor humano
Solo incerto
Sonho esquecido
A morada é só poeira
A terra é rarefeita
A vida é átimo

A alma
não ocupa espaço
Quantos corpos para ocupar
uma única Jerusalém?
“O espírito sopra onde quer”
Sei que Jerusalém
é este quarto
É a campina
serpenteada
de borboletas
onde eu corri
menina
Jerusalém é a rede
branca de sal
onde pela vez última
vi o vulto materno
Aquele olhar de mel e chama
aquele amor
que purificava as horas
Jerusalém
É a praia no outono
mar a beijar
o espelho do nosso amor
O amor que vi na lua
escolhe-me
entre mil musas
e cobre-me
de espumas e sons
Minha Jerusalém
libertada
Jerusalém é onde
brilha a vida
Os profetas
derramaram-se
em metáforas
que o mundo não decifra
A lua azul
segredou

na infância
que o amor é alma
estilhaçada
que cabe
em catedrais
minaretes
mesquitas
choupanas de neve
templos
estádios
Soube ao ver
o azul luar
na noite
em que a alma do amor
flutuou no espaço
Óvulo incendiado
Solidão e pó
na casa escura
azul em mim
Na noite em que soube:
Existes!
As mãos de Deus
elevam os mortais
até a luneta
e coloca-os
diante dos mistérios
Não vêem os mistérios

Têm olhos de carne
Olhos parcos
Sem sonhos
Sem delírios
Não decifram
os símbolos
Jerusalém
é onde brilha o amor
Azul verdade
entre as crateras
iluminadas
Depor armas
Dar aos filhos do deserto
o direito
sobre a negra veia
Cessar os anseios
Ampliar a beleza
Abrir os braços
-Continentes extasiados-
Reunir as peças
Atirar as pontes
Unir diante do céu
impetuoso
e do mar sereno
continentes em desalinho
Juntar as peças extraviadas
em uma Jerusalém
ao soar das cítaras
de anjos extasiados
Antes que os céus
desabem em fogo e fúria
Unir universos
esta Torre de Babel
no idioma sem pátria
-AMOR-
Poeta tola
dirá
decifrando estas metáforas
ensandecidas
Poeta embalsamada
em utopia
Sonho que todos

Beijem os lábios
Da África esquecida
Quero que lavem
As feridas
Dos filhos de Cam
Quero os índios
Em um Quarup
universal
Sonho ver os muros de Sharon
Ruindo entre hebreus
E palestinos
Quero todos dançando
Sobre a túnica de Mosiah
Que abrirá
mar vermelho do sangue
de todos que morreram
por Jerusalém
Esta que ora brilha serena
em picos nevados
campos de açucena
ilhas do Pacífico
geleiras sem fim
As mãos de Mosiah
em súplica delirante
erguendo o sangue
dos mártires da história
e a caravana
de Maomé e Abraão
percorrendo a trilha
enquanto verte
uma lágrima
a mãe universal
São minhas visões:
sem cânhamo
sem álcool
Visões ao embalo
da poesia
de mulher
mãe e menina
Quando aquele que amo
abraça-me
na cidade fria
eu vivo a palpável alegria
Mas tenho uma tela
dessas que espelham
o grito
E o grito do mundo
varre meu universo
lírico de amor
calor e música
Calo dores
angústias
E grito mais alto
que imagens
E com meu grito
desmorono castelos
as linhas dos mapas
as trincheiras
E projeto na tela azul da lua
mil povos em poesia
Abro as portas
da cidade branca
com palavras de encanto
lidas por anjos
São palavras em êxtase
a plasmar um universo
de culpas purgadas
em uma fogueira
de tanques navios mísseis


Rosa azul
desponta
na sarça ardente

O impossível:
Sonho lunar da infância

BÁRBARA LIA
Inverno de 2.004