Sunday, June 26, 2011

Mais rápido que o pensamento





imagem - Gazeta do Povo deste domingo



Vez ou outra perguntam se vou lançar Cereja & Blues. Decidi que não. Eu o escrevi em 1995. A ausência de maturidade na escrita reflete no texto. Era meu exercício de artista. Os romances que escrevi descartei. Tudo começa mesmo com Solidão Calcinada. A partir dele posso publicar os livros que tenho.
Fiquei com aquele roteiro de Cereja & Blues, jovens ou adolescentes vivendo em um tempo futuro. Escrevi outra pequena história com personagens de quinze anos que vivem em Curitiba em um futuro próximo. Sempre penso na alquimia do verbo. Em como os escritores conseguem captar o amanhã, sem ser vidente, é claro. Um mistério mais ameno. Hoje quando li que vão reabrir o Cine Luz e o Cine Ritz e que há um projeto para revitalizar o entorno da Riachuelo eu resgatei um trecho do meu livro inédito (ainda sem título) onde os meninos se encontram exatamente ali, na Rua Riachuelo, já revitalizada. Muito legal ler isto, por saber que os Cinemas vão voltar e por saber que vai existir um lugar que eu imaginei há um ano ou mais...


a matéria da Gazeta do Povo

http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1140805&tit=Cine-Luz-e-Ritz-saem-do-papel




Encontro com Kin




Kin me abraça. Tão quente o abraço de Kin! Sempre tem aquela alegria. Sempre alegre, sempre. Estamos no ponto de encontro esperando Alana. Kin me conta o sonho que teve.

No sonho, estávamos ali no ponto de encontro. Era tudo igual, menos o céu. As nuvens eram de cores rosa, alaranjada e rubra. O diálogo do sonho que ele guardou nítido, ao acordar, e que ele me narra agora com sua pose de ator. Mais ou menos assim:


- Salmão claríssimo.

- o que você disse Kin?

- Aquela nuvem à esquerda...

- Fotografou?

- Não, tenho muitas fotos de nuvens...

- Não tem o salmão claríssimo, vai me dizer qualquer hora: Bia, eu devia ter fotografado aquela nuvem...

- Bia! Bia!

- Eu te conheço, Kin... Depois da nossa visita à reserva ecológica você se arrependeu de cada foto não tirada. Eu me lembro. Fiquei uma semana ouvindo você... Não fotografei a gralha azul, não fotografei a gralha azul... Parecia um mantra.

- Beatriz Lia Carolina Bárbara, quem te agüenta?

- Você, Kin...


- O que achou deste sonho, Bia?

- Só você mesmo Kin, para transformar a brancura das nuvens em um arco-íris de matizes avermelhados, mesmo que em sonhos. Já estudamos estes fenômenos... Você sabe por que as nuvens são brancas - porque elas espalham e refletem todos os comprimentos de ondas na faixa visível e a soma de todas as cores é o branco. Parece que a voz do professor Giba ficou gravada com aquela conotação de locutor de rádio:

“E no crepúsculo as nuvens são mais alaranjadas, neste instante, os raios solares percorrem uma maior camada da atmosfera, porque eles estão mais horizontais. E com isso, o comprimento de ondas mais curtas - (azul e violeta) - são espalhados na atmosfera antes de chegar até nós. Então somente conseguem chegar até as nuvens os comprimentos de ondas maiores que são da cor vermelho e laranja. O principal determinante da cor de uma nuvem é a radiação solar.”

Seria muito poético se as nuvens adquirissem cores.

Kin me sorri aurora-boreal...

As nuvens continuam brancas.

Se a poluição interferisse na cor das nuvens seriam como sangue refletido no céu, há muitas décadas tentam reeducar o homem, mas, o homem é o animal mais teimoso do planeta e tem uma leve tendência suicida, ainda assim consideram uma evolução e vamos indo entre o gás tóxico e a crise de alimentos.

O mais rubro tom das nuvens - vermelho asqueroso e sanguinolento - estaria lá nos Estados Unidos da América do Norte. Talvez aqui, com mais natureza, veríamos uma nuvem de tom salmão suave da nuvem que Kin não fotografou no sonho, cuja imagem se desfaz lentamente em minha imaginação, como uma cálida lágrima que vai evaporando quando passa a dor dentro da gente.

Kin se volta e sacode a cabeça, já estamos, no fundo, acostumados com os calotes de Alana...

- Alana não virá...

- Ela adora mesmo nos deixar à espera...

- Vamos esperar mais cinco minutos.

O chão deu aquela leve trepidada que sempre dá quando o metrô passa abaixo deixando vazar um som oco e estranho.

A floreira deu uma valsada leve e um amor-perfeito azul sacudiu suas folhas.

Pousei o olhar na floreira sabendo que desde o século XX elas estavam ali na minha cidade, enfeitando as ruas.

Primeiro era só na Rua das Flores. A rua de pedestres. Agora, também ali, na Rua Riachuelo. Adornando a calçada branca e moderna repleta de bancos de acrílico. Uma rua clara ao sol impetuoso. As lojas pequenas, de variedades. Lojas de disco, pequenas livrarias, cafés, uma floricultura, pequenos prédios que surgiram de um lugar onde ficavam casarões antigos.

Minha mãe narra histórias que sua mãe contava. Aqui, à noite, trafegavam prostitutas entre os prédios velhos, sempre em reforma. Pilastras de madeira que atrapalhavam a passagem. Cheiro de urina. Hotéis baratos onde os programas das moças que vendiam sexo eram combinados. Uma rua que se tornou tão clara, e tão diurna, que nas noites ninguém passava por ali. Apenas o metrô sacudindo a flor azul, à sua passagem. Tudo se transforma, eu penso.

Menos a mania de Alana de nos dar o fora e nos deixar esperando. No aquário da loja em frente um peixe sacode as águas azuis:





abaixo do camarim

aquático

primavera seca

de plantas iluminadas

no pensamento

periscópio do sonhador



- O que está dizendo Bia?

- É um poema de Thomas Gabriel...

- Thomas Gabriel! Bia! Acho que você ama mais ele do que teu amigo Kin...

- Não tenha ciúme dele Kin, agora que sua fase de ciúmes de Manoel de Barros já passou... Poetas não deviam morrer jamais.

- Bia, poetas não morrem. Você não está aí até hoje, bebendo os poemas de Manoel de Barros. Catando a poesia que ele entorna no chão...

- Kin! Isto você tirou daquela música do Chico...

- Não, Bia. Eu falei o que pensei assim quando você declamou a poesia.

- Não, você deve ter ouvido esta música lá em casa, deve ter ficado aí na tua cabecinha:



Na galeria

Cada clarão

è como um dia depois de outro dia

Abrindo um salão

Passas em exposição

Passas sem ver teu vigia

Catando a poesia

Que entornas no chão



- Vamos indo, que Alana não vem, dona Bia expert em Chico...

- Certo, Kin, pela milésima vez, Alana não vem.

BÁRBARA LIA

Fragmento de um romance (literatura juvenil?) em fase conclusão