Monday, October 31, 2011

tem um pássaro cantando dentro de mim - bárbara lia

JARDIM DO CAOS




III





Signo de Salomão
na palma
Napalm na pele
da alma
Tatuagem recebida
no berço
Caligrafia de Deus
- risco estrela -
Que oblitera
A pele canela
O mel de flor evaporada

Os traços arcaicos
Incinerados no espelho
Reflete em branca fogueira
Intacta
Minha alma
Ignorata


pg. 40
 
(poesia premiada no Prêmio Ufes Literatura - 2010)


**




IV


Homem Vitruviano de Leonardo
Tecido nas linhas finas da mão
Cinco pontas estiradas e a
Eternidade traçada no chão

Livres mulheres assinaladas
Atiradas ao reles jardim
Das harpias descarnadas
- feras sem dentes
que devoram inocentes -

Alguma razão que as estrelas guardam:
As mulheres de rara estirpe – livres -
São alvos de feras. Sempre acossadas
Por harpias que não iluminam nada.
pg. 41

Saturday, October 29, 2011

The man!





Ryan Gosling. Para ser perfeito bastava cantar, com voz rouca quase-Elvis, no mais uma perfeição. My god! Que homem! Existe aquele tipo de homem que é homem desde sempre. Com vinte já tem aquele jeito determinado, olhar de homem e gestos decididos... Creio que ele está na faixa dos trinta anos...
Um ator total. Quando o filme traz Ryan Gosling eu sei que vou gostar. Não sei se ele é que faz as escolhas certas ou se ele é aquele cara que constrói um filme, que leva tudo pela mão e envolve, tipo Javier Bardem...
Ryan Gosling é perfeito - Canta!
Ele canta no filme - Blue Valentine. Belo filme...
Nocauteada pela história, por relatar em diferentes aspectos um pouco de mim. Resgatando o tempo em que vivi assim, um casamento.  
O casamento para mim é um mistério. Uma equação. Avesso do sentir, melancolia sem fim, onde só é possível viver com a razão. Os que se amam demais não conseguem viver uma vida em comum. Tenho pra mim que o casamento é apenas um contrato social. Patético. Desviando amantes verdadeiros, e levando à falência os desejos de Eros. Uma pena.
Melhor lembrar a força e a arte deste moço. My god!
A cena onde ele (Ryan Gosling) canta enquanto ela (Michelle Williams) dança me deixou feliz por saber que ele canta. The perfect man.
Blue Valentine é alucinante por intercalar cenas do sim e do não. Da loucura da descoberta com a constatação de que a chama apaga. Que nem um motel futurista e aquela velha canção vai apagar as ranhuras dos dias. E fica aquele desejo de sentir de novo o ar, respirar sem dor...

Abaixo cena onde ele canta com sua voz rouca. A qualidade desta postagem não é boa, e a legenda está em espanhol, mas, foi a única que achei da forma como está no filme...




***

Ryan Gosling estava compondo uma peça com a sua banda - Dead Man´s Bones - e acabou por gravar um CD. Uma matéria sobre sua "banda assombrada" neste site...





little ashes


Javier Beltrán (Federico García Lorca) e Robert Pattinson (Salvador Dalí) em uma cena do filme - Poucas Cinzas - que revi e voltei a sentir aquela sensação de que preciso voltar a Federico Garcia Lorca.
Little Ashes - o quadro - define como Dali via Federico Garcia Lorca quando conviveram em Madrid e quando viveram a descoberta um do outro, uma fusão surreal de um poeta genial com um ícone em seu despertar...
No limit. Era a fala de Dali. Mas, ele impôs limites a Federico e ao que parece, no filme, ele não se entregou cem por cento ao desejo e quando o desejo voltou quando já estava casado com Gala, revendo cartas e lembranças de Federico, seu amigo foi assassinado. Nada para tirar mais o chão do que o fim. O inexorável fim.
Muito bom voltar a ver little ashes...






"Lembre-se de mim quando estiver na praia e quando pintar coisas brilhantes e de poucas cinzas. Oh, minhas poucas cinzas! Coloque meu nome no quadro a fim de que meu nome sirva para algo, no mundo"
Federico Garcia Lorca

Wednesday, October 26, 2011

Código Coletivo na 57ª Feira do Livro em Porto Alegre


Minha Poesia "Dame el ocaso en una copa" na exposição código coletivo - Memorial Rio Grande do Sul - 57ª Feira do Livro de Porto Alegre

Andréa del Fuego, Prémio José Saramago 2011

A escritora brasileiraAndréa del Fuego é a vencedora do Prémio Literário José Saramago 2011, com o livro Os Malaquias, editado pela Língua Geral. A cerimónia de entrega do Prémio teve lugar no edifício Grupo Círculo/Bertrand.




A Fundação José Saramago felicita Andréa del Fuego
Andréa del Fuego, natural de S. Paulo, Brasil, onde nasceu no ano de 1975. Com formação em publicidade, fez produção de cinema e realizou duas curtas-metragens. Colaborando em várias revistas, inicia-se na escrita com Minto enquanto posso (2004). Uma primeira coletânea de contos seguida por Nego Tudo (2005), Engano seu (2007) e Nego fogo (2009). Em paralelo experimenta o juvenil com Quase caio (2008) e Sociedade da Caveira de Cristal (2008) e o registo infantil com Irmãs de pelúcia (2010). Decidida a completar a sua formação em Filosofia ingressa na Universidade de São Paulo. Incluída em diversas antologias de contos, nomeadamente 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira e Os cem menores contos brasileiros do século, foi distinguida ainda este ano com o Prémio São Paulo de Literatura. Mantém o blog http://www.andreadelfuego.wordpress.com/
(...)
Mais detalhes e todo texto sobre a premiação na página Fundação José Saramago


andréa del fuego

Monday, October 24, 2011

 
Os poetas



Conhecem


O genoma


Das flores


E a pulsação


Das estrelas

 
BÁRBARA LIA
tem um pássaro cantando dentro de mim

Saturday, October 22, 2011

Poetas Assaienses



estou lá no painel da minha cidade natal, também uma poesia - adeus às asas


      Os poetas de Assaí, ladeados pelas Professoras Maria Zélia Bezerra Lopes e Rosana Galassi

Os alunos sempre atentos


Recebi mais um Boletim Poético da Maria Zélia Bezerra Lopes. Os poetas de Assaí: Regina Goes, Paulo Kuya, Ione Kuya, Wanderley Sueiro e Mattheus Hermanny estiveram na escola para serem entrevistados pelos alunos. Chamo de Boletins Poéticos as notícias que recebo das professoras. Os alunos estão escrevendo poesia, entrevistando os poetas de sua Terra, isto me deixa feliz, assim à distância, com esta iniciativa. Que a Poesia siga a encantar e capturar os pequeninos da cidade onde nasci, que eu fico vibrando por aqui... Na frequencia da Poesia, nas ondas sonoras do verbo.

fotos do site REVELIA



ADEUS ÀS ASAS


Mudou o gosto da goiaba madura
Não vejo aranhas tecendo fios de prata
Nenhum besouro verde de bom agouro
As estrelas se afastam
expulsas pelos néons da cidade


O mundo virou alguma coisa
Alguma coisa que não tem mais cheiro
ou cor ou brilho
Alguma coisa que plastifica a alma
Alguma coisa inodora e impura


Não mais o orvalho na pétala
Cristal líquido em surdina prece
a bailar diante dos olhos serenos
enquanto balançam verdes os galhos
da amendoeira


Cerro os olhos para relembrar:
O orvalho. O gosto da goiaba madura
A astuta aracnídea construindo redes
em desalinho, diante do nosso espanto
Aquela estrela que me seguia
na rua escura da infância


Tudo perdido em um túnel sem acesso
As belas coisas roubadas quando
perdemos a inocência
Ou quando nos arrancam das asas

Bárbara Lia
do livro Chá para as borboletas - 21 gramas/2010

Friday, October 21, 2011

Poesia como Gênero Vivo na Escola

Poesia Social




Menino



Olha lá um menino
Todo sujo e encardido
Vagando nas ruas fedido

Olha lá um menino
Abandonado e perdido
Nesse mundo tão grande

Olha lá um menino
Passando fome e miséria
Sozinho sem família
Mas tudo que ele quer...
É um lugar para ficar.

Autor: Luciano Akira de Souza – 8ºB



Meu país é muito engraçado


Meu país é muito engraçado
Saio de casa e não sei se voltarei.
É uma insegurança para todo lado
Não sei se algum dia ainda poderei
Viver num lugar mais organizado.

Meu país é muito engraçado
É preciso ter plano de saúde
Porque o cidadão paga e é deixado de lado
O governo finge que não sabe da gravidade
Mas no fundo sabe da mais cruel realidade.

Meu país é muito engraçado
O ensino público agoniza
E a população quer ter futuro
Mas o governo afirma com destreza
Que o cidadão sem condições não está abandonado

Meu país é muito engraçado
Agradeço, para não dizer desgraçado
Quero estar num lugar melhor
Um lugar, onde eu possa de fato viver
Viver, da forma que eu realmente merecer.

Autor: Bruno Guilherme Nomura – 8ºB



Dor nas ruas

Eu vejo na rua
Sua nua e crua
Um ser indefinido
Barbudo, tanto sujo e cabeludo.

Mas só não imagino, porque ele está lá
Mal, ele não fez apenas ele está como está
Sinto pena, mas não sei como ajudar
Mas meu grande sonho é a realidade mudar
Mudar para melhor onde mendigos vivem esnobes.

Mas isso é apenas um sonho,
Um sonho distante
Mas não tão viajante
Só um pouco distante
Mas se isso se realizar
Com certeza tudo vai mudar.

Autor: Pedro Alberto Alves Maciel Filho – 8ºB



O planeta miséria

O planeta Terra
O planeta água
O planeta matéria
Agora planeta miséria

Um planeta miserável
Um planeta de fome
Um planeta desagradável
Quem sai ganhando aqui,
É aquele que não passa fome

Com necessidade
E sem verdade
Com um arroz e feijão,
Sonha quem dorme no clarão.

Autor: Andrew Kakubo Esteves Silva – 8ºB



Meu Deus

Meu Deus, aonde vamos chegar?
Em um mundo de misérias e crimes?
Temos a miséria nas ruas, nas praças,
Nos becos e bairros.

Meu Deus aonde está aquela flor?
Que representa amor, solidariedade
Confiança e fidelidade
Aonde foi parar aquilo que respeitava-mos
São crianças vendendo drogas, sem expectativas,
Sem futuro, em uma vida de horror.

Meu Deus por que isto está acontecendo?
Pessoas o seu emprego perdendo
Sua vida morrendo
Meu Deus tire esse punhal do meu peito,
Que está doendo.

Autor: Carlos Eduardo Gonçalves – 8ºB


**


Poesias dos alunos da 8ª Série do Colégio Estadual Barão do Rio Branco - Assaí (PR), dentro do Projeto “Poesia como Gênero Vivo na Escola”, assinado pela professora Rosana Gonçalves Torquato Galassi.

Saturday, October 15, 2011

EntreGêneros




O diálogo poético com Ianê Mello (RJ) inaugura as entrevistas do blog que ela edita - EntreGêneros.
Para ler a Entrevista n° 1 no link abaixo:

Algumas Poesias:



Monday, October 10, 2011

Poesia na Vidraça


fotografia de Andréa Motta - Poesia na Vidraça - XIX Congresso Brasileiro de Poesia / 2011 - Bento Gonçalves (RS)


Sondas da Nasa


Pássaros de aço
no firmamento
acordam estrelas
com seu vôo carente

Bárbara Lia

.

Sunday, October 09, 2011

John Lennon

Nothing is real
And there's nothing to get hung about (Lennon/McCartney)

Pensei ter visto uma vez uma fotografia - teus óculos na calçada diante do Edifício Dakota. Pensei ter visto e não sei se existe tal fotografia, ou se a forjei em minha mente como um poema visual, naqueles dias que eu apenas estendia em varais imaginários meus pensamentos poéticos e eles ficavam lá, leves e límpidos, como as fraldas da primeira filha. Pensei ter visto aquela cena/poema e sentir a dor - agulha fina - trazendo a certeza da tua morte. Os signos de eternidade e as pessoas eternas imprimem suas almas em lugares, objetos, pessoas... Então és os óculos diante do Dakota e és este portão misterioso de filme encantado. Li em algum lugar, na ocasião dos seus setenta anos, John, que se estivesses vivo estarias mais calmo. Acomodado? Pintaram uma imagem tua que nada condiz com aquela que eu penso. Fizeram aquela imagem com jeito de professor de francês de colégio do interior nos anos setenta. Eu te vejo indignação e ira. Energia sem fim, canções aos milhares e o mesmo grito. Nu, outra vez, em alguma cama, ao lado de Yoko. E os teus cabelos brancos agitados, longos e descuidados, a lembrar mil bandeiras aflitas para reviver esta paz aniquilada. Eu vi outro homem e vi outra alma. E vi outros lugares ícones que agora seriam John Lennon, não seriam mais lugares. Como não é mais um portão este portão, como Imagine agora não é mais palavra, é canção.

Thursday, October 06, 2011

momentos preciosos

Inspirado no livro da poeta de Assaí, Regina Goes, os alunos de Assaí estão chamando os momentos de leitura de poesia de - Momentos Preciosos. Os alunos se reunem na Biblioteca e realizam rodas de poesias. Recitais no Colégio. Uma emoção ver os pequeninos e saber que estão acompanhando as linhas de todos os poetas nascidos na cidade, entre os meus livros, os escolhidos pela professoa Maria Zélia - Chá para as borboletas, O sorriso de Leonardo. Entre os poemas do projeto da Rosana Galassi, entrou _ as rosas mortas a me contemplar_ do livro A última chuva.
POESIA SEMPRE!


Assaí: Amanhecer
Aurora de algodão

Minha terra natal, que ora desenvolve no Colégio Estadual Barão do Rio Branco, dois projetos de leitura das professoras Maria Zélia Bezerra Lopes e Rosana Galassi. Acompanho através dos boletins poéticos que recebo, a revolução da poesia. Os alunos lendo, escrevendo e realizando leituras poéticas:


Meus dados poéticos - poesias no mural:








 




 
Acrósticos dos alunos, enviados pela professora Maria Zélia:



 

ACRÓSTICOS PRODUZIDOS PELOS ALUNOS DA 5ª B:





Adorável
Fofinho
cOnfiável
iNteligente
Santinho
sOrtudo


Aluno: Vinícius de Souza Hayashida (acróstico feito para o irmão caçula que nasceu com 2% de chance de viver)



Sábia toda hora
Amorosa sempre
Não teme a alegria
Doce mãe
Responsável com tudo
Adorada pela filha.

Aluna: Stephany Mayumi Arase Rosendo Silva 5ª B


Maravilhosa
Atenciosa
Rigorosa
inTeligente
Atenta a tudo

Aluna: Carolina Harumi Assahara 5ª B


Seu coração de menino
Está sempre sorrindo
Indo ao bom caminho
Tem sempre boas ideias
Alegria de deixar platéia animada
Raro ficar triste
Olhar distante que me agrada

Aluno: Erick Shimote Lima 5ª B


Mãe linda
Amiga
Responsável
Carinhosa
Elegante
Legal com todos
Amorosa


Aluna: Sabrina Vieira Lopes 5ª B


Tanta esperteza
Honrada
Atenciosa
Inteligente
Super irmã

Aluno: Vitor Domingues 5ª B


Inteligente como ninguém
Sábia e serena
Amiga para sempre
Bonita e carinhosa
Elegante e exuberante
Legal e especial
Amorosa e gentil


Aluna: Juliana I. Miura 5ª B





 Leituras na Biblioteca:




Leitura de Poesia


Poesia na Biblioteca



Professora Maria Zélia Bezerra Lopes e alunas do Colégio Barão do Rio Branco


Rosana Galassi, Regina Goes (poeta de Assaí), Maria Zélia Lopes e alunos
novo dia, mais poesia na biblioteca

Professora Rosana Galassi (blusa florida) e a sua equipe de alunas







Maria Zélia e alunos - ela envia boletins poéticos sobre o desenrolar do projeto. Viva a Poesia!


**

biblioteca lotada para a festa da poesia, os alunos escolheram poesias dos poetas que nasceram em Assaí e de poetas nacionais como José Paulo Paes, Vinícius de Moraes e outros

um livro sobre a mesa

Acabo de chegar em casa e encontro o pacote da Rocco sobre a mesa. A certeza ao dar de cara com o invólucro. Chegou o novo livro do Frei Betto!... Romance "em homenagem aos 300 anos (1711-2011) da fundação de Ouro Preto, Mariana e Sabará."
Minas do Ouro, capa belíssima, leio a dedicatória - Bem-vinda à Minas e à minha amizade.
Gracias amigo. Que ternura me inunda pós-noite em claro, descompasso do coração na madrugada, uma dor latente, que explodiu em um dane-se...
Cá estou eu - bárbara bela do norte estrela - a ler estes versos do poeta da Arcádia, na introdução do livro do Betto:

"Aquelas serras na aparência feias,
- dirá José - oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, ouro e pedras preciosas."
Alvarenga Peixoto, Canto genetlíaco

Minas do Ouro, por onde vou caminhar neste dia de sol dourado.




Este novo romance de Frei Betto descreve a saga da família Arienim através de cinco séculos de história das Minas Gerais.
Em torno de um misterioso mapa de "inesgotáveis fontes de riquezas", repassado de geração em geração, a narrativa abarca episódios e figuras emblemáticas da história mineira: entradas e bandeiras; guerra dos Emboabas e Triunfo Eucarístico; a exploração de ouro e diamante; Tiradentes e Aleijadinho; mina de Morro Velho e as coincidências ente o explorador Richard Burton e o ator de mesmo nome.
Minas do Ouro, garimpo da memória familiar, é um romance no qual o barroco transparece na volúpia e beleza, numa linguagem de primorosa qualidade estética.

Minas do Ouro - Frei Betto -  Rocco -

Monday, October 03, 2011

Um livro belo consegue furar o bloqueio da greve dos correios...





Um Homem

De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda



António José Fortes
Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.

Chambel Santos enviou este belíssimo livro,  de Lisboa, escambo poético. Confesso que não conhecia a poesia de Antonio José Fortes e estou aqui, encerrada em uma casa, com a mesma sensação que lembrei hoje, aquela colisão com poetas maravilhosos. Abri o livro e li esta poesia, e
li outra e outra e fiquei feliz... 

Poesia: a paixão da linguagem


pequeno fragmento do ensaio Poesia: a paixão da linguagem - Paulo Leminski:

(...)


Qualquer editor principiante sabe: poesia não vende. Existe este hiato, realmente poesia não vende, e é bom que não venda! Sabe aqueles que reclamam dizendo, é um absurdo, um país como o nosso, não sei o quê, tchê, tchê, pá, pá, e poesia não vende. Vamos nos rejubilar. Poesia não vende. Poesia é um ato de amor entre o poeta e a linguagem. E esse é um território como se fosse assim uma reserva ecológica do mercado em que vivemos que resiste ao fato de se transformar em mercadoria. Não é uma infelicidade e nenhuma inferioridade da poesia escrita, falando da poesia escrita, da poesia, escrita, da poesia livro, a dificuldade dela em se transformar em mercadoria é uma grandeza. Quem não entender isso não entendeu a verdadeira natureza da poesia, ela é feita de uma substância que é, basicamente, rebelde à transformação em mercadoria. A gente pode criar um mundo assim, o império total da mercadoria, tudo pode ser vendido, coisas, sensações, as coisas mais incríveis, os momentos mais emocionantes. Uma coisa, porém, não pode ser transformada em mercadoria, que é o amor. Amor é dado de graça, alguém pode comprar amor? Pode-se comprar sexo de outra pessoa, mas o amor a gente sabe que é o último reduto que resiste à transformação em mercadoria. Então, eu acho que realmente a paixão do poeta pela linguagem, da linguagem pelo poeta, é coisa que tem amplas implicações sociológicas, históricas, transcendentais ...

PAULO LEMINSKI
In OS SENTIDOS DA PAIXÃO, Ed. Companhia das Letras, São Paulo, SP



Tenho o livro Anseios Cripticos da Editora Criar, alguns ensaios deste livro e o ensaio acima estão no site da Revista Sibila, link acima.