Tuesday, April 10, 2012

A síndrome dos sonetos

Garden under snow - Paul Gauguin


A Neve

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"



Canto da Neve


Estendi a toalha branca sobre tudo
No pátio pequeno, de luxos desnudo
O silêncio da casa a dizer-me com dor
Da morte do homem velho, o pastor

Guardador de rebanhos raptor de Deus
Guardador de rebanhos de alma natural
Que falta sinto da tua voz e olhos teus
Eu que morro sempre como lesma ao sal

Alberto Alberto sopro de natureza e sonho
Amigo das lavadeiras, rios e animais
Espectador do crepúsculo de antanho

A cada ano que estender minha toalha alva
Junto uma lágrima em forma de estrela dalva
A gritar em dor a brancura dos meus ais

Bárbara Lia
soneto da série - O fim do futuro.


Durante o ano de 2011 vivi a sindrome dos sonetos, escrevi uns dez sonetos, emprestando a voz dos personagens dos poemas de Fernando Pessoa, em tom de despedida... no soneto acima a Neve canta a sua saudade de Alberto Caeiro. No Jornal Rascunho edição março 2012 (link ao lado) é possível ler mais três sonetos desta fase...