Tuesday, December 18, 2012

A Poesia virou uma puta em uma cidade bombardeada






Para vender livros é preciso alardear felicidade de placebo... Particularmente não gosto do estilo de Martha Medeiros, mas, um país que acompanhou alguém que escrevia assim: "Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então" (Clarice Lispector), agora devora livros e livros e aclama quem escreve assim: "De toda a minha literatura, você é a minha melhor página." (Martha Medeiros). Coisa mais adolescente o que escreve esta mulher e todo mundo compra e todo mundo lê. Duas frases que falam de amor ou amado. A diferença está na potencialidade humana de quem diz um mundo em poucas palavras. Eu te deixo SER. Tudo está implícito em um pensamento. Densidade de Clarice. É proibido ser denso neste tempo. Está fora de moda mergulhar no humano, ninguém quer chegar perto do coração selvagem - dói. Esta vida virtual deste milênio trouxe a todos duas caras. Uma é aquela que se tranca no quarto, no banheiro, na casa e se vê nu, olhar de pássaro ferido, dúvidas na retina, medo... reflexo das almas verdadeiras. O outro rosto é qual Avatar - Azul. Uma máscara de igualdade, uma máscara de tola felicidade que todo mundo exibe, alardeia, publica... Viver (não) ultrapassa (mais) todo entendimento, Clarice... Todo mundo entende, dá receitas e jura pelos anjos da nova era (que os antigos anjos verdadeiros debandariam aos gritos diante de tantos corações falsos) juram diante de anjos fakes que tudo está em seu lugar. Eu, que não compreendo, eu que não visto azul Face, fico assim: Colhendo o espanto, escrevendo sobre o que ninguém quer saber. Dor? Pra quê? Para quem? Poucos conseguem acompanhar e conviver com o paralelo angustiante do meu grito, quiçá o rapaz que abre o meu livro e diz - Lembra Orides Fontela. Luz dentro, se é assim, é assim... Segue a poesia plena de cínicos signos, a prosa para curar por meia hora os corações civilizados. Nunca mais Clarice, Hilda, Fontela, Ana C. Tristes tempos, tristes trópicos e haja Água Viva para matar a sede verdadeira. Literatura sem humanidade é água no deserto, oásis imaginário - tremula, fascina, te faz correr, se atirar na areia e depois tudo desaparece... Fica mesmo as agulhadas sem piedade destas mulheres magníficas. Depois delas, quem tem coragem de apagar-se como estrela cadente para tentar gravar algum verso que diga - Viver dói, eu sou espectro neste mundo, o amor nunca me visitou, ou, ontem eu recolhi a Poesia e nela havia uma centena de cuspes mal cheirosos, em uma cascata branca e perfumada de jasmins, a lavei inteira... Ela estava quase morta de ser usada por tantos como uma puta em uma cidade bombardeada... O corpo dela pleno de arranhões que ela infligiu para tirar de si roupas que não são suas. Ela não estava feliz comigo e nem com ninguém. Disse a ela que vou dar um tempo em tudo, quem sabe um dia nos reencontremos no crepúsculo de um dia mais ameno. Ela seguiu renovada e leve, tal qual eu a vi pela primeira vez. Fiquei com um nó na garganta, quis dizer que ia ajudá-la, não pude prometer nada. Por causa dela, também estou a morrer. E vou continuar vendo a replicante figura dela, sem aura verdadeira, em todo canto... Acho que antes de dobrar uma esquina larga, ela se virou e sorriu...
Bárbara Lia
18/12/2012