Sunday, October 20, 2013

E por falar em silêncio...




Cinzas de Pitágoras

"Cala-te ou dê algo melhor do que o silêncio." - Pitágoras

O silêncio é a Música das Esferas da qual Pitágoras falava. Nada existia de mais belo para ele que o silêncio quando ele saia para ouvir as estrelas nas noites. E esta epígrafe _ cala-te ou dê algo melhor que o silêncio _ fica ao meu redor neste tempo sonorizado. Tempo aturdido e sem um instante de céu de Pitágoras. 
Eu recordo a mãe e sua aura silenciosa e tento ouvir os pensamentos antigos que ela aninhava dentro daquela redoma onde nada penetrava. Volto ao ninho de amor _ do mais belo amor _ uma casa incrustada em uma serra, erguida acima de um rio e o amado a meditar sentado em posição de lótus em uma rede branca. Lembra a escultura de Rodin – O pensador, onde o homem apóia seu rosto em sua mão e se isola de tudo, em silêncio. Rodin a chamou inicialmente de _ O poeta. E, sendo poeta, entendo Rodin quando ele quis chamar de Poeta seu Pensador. A poesia nasce no silêncio e diz a Mitologia que o silêncio nasceu antes do AMOR. Os pensamentos, as imagens e as lembranças fluem agora – s-i-l-e-n-c-i-o-s-a-m-e-n-t-e.
As coisas eternas e imutáveis são silenciosas _ as árvores, as montanhas, os lagos profundos. O canyon imponente _ catedral de pedra _ cujo hímen rompido por algum estilhaço de deus irado rasgou ao meio a montanha. Amantes repartidos que se contemplam eternamente. O silêncio tem me interrogado em cada manhã. Quer sugar-me para dentro do seu ventre branco. Traz-me notícias de um éden que desconheço, ou que conheci tão pouco, tão etéreo, tão fugidio, quais os beija-flores que vinham em asas vibrantes a nos visitar na varanda do amor. 
Meu pai amava o deserto. Quando a vida exigia e ele se entristecia com algo, ele dizia que ia embora para o deserto.
O deserto foi minha paixão desde que o li Saint-Exupéry, aquela eternidade calcinada de areia e o vácuo e a paz do não ruído flanando e um príncipe pequeno pousando do nada.
O deserto do meu pai, o deserto de Paul Bowles, o deserto do aviador francês que concebeu um príncipe eternizado que diz de uma rosa e do amor como laço de escravidão com a palavra de aço _ responsabilidade _ uma pequena fábula que engendra um amor estranho. Eu o via como belo quando era menina. Hoje os sacrifícios e as palavras do livro falam-me de um amor pequeno. O grande amor não agrilhoa, não prende, não usa metáforas de rosas, não espera nada, nada diz. 
O verdadeiro amor é como está em Coríntios: Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor que nasceu do silêncio tem esta verve de entrega, de dar e não esperar nada. Segue sua estrada e quando reencontra o objeto amado está lá inteiro, mãos estendidas, sorriso prateado de estrelas.
O silêncio não abandona os corações. Está sempre ali, à espera no canto da parede cavernosa. Quando o ruído estronda, quando a maré invade, quando a cólera colore de sangue tudo, ele está esquivo, quase parede, quase coração, à espera que tudo se acalme que o sangue escoe que a dor crie asas para regenerar a casa, sem exigir nada. 
O silêncio é como a mãe em todas as madrugadas do mundo. A mãe que pisa com pés de tigresa, para não ecoar som algum pela casa. A mãe que se debruça, respiração opressa, sob um berço e cuida que haja paz para a criança que dorme. A mãe que consegue atravessar madrugadas sem voz, sem ruído. A acompanhar a respiração de um filho doente. Esta é a alma do silêncio. A música do silêncio que não é apenas aquela de Pitágoras em suas caminhadas na noite, perscrutando astros. O ritmo que ele colheu das estrelas e utilizou para criar a escala de notas, enriquecer a cítara com seus acordes e segredos emprestados dos astros. 
A música de John Cage, sua sinfonia do silêncio. A peça para piano intitulada 4'33". Sinfonia que não possui nenhuma nota, sendo composta inteiramente por pausas! 
Para testá-la ele a ouviu dentro uma câmera anecóica, que é uma sala construída de tal modo a cancelar todos os ruídos ambientes. Ainda assim, ele não ouviu o silêncio absoluto. Ele ainda conseguia ouvir um barulho _ o ruído do próprio coração.
O silêncio nosso jamais será o silêncio de Deus. É o silêncio da matéria. Deus é a não matéria. Significa que só a Natureza possui totalmente Deus: As árvores, os vales, as montanhas e as flores. Nós o possuímos com uma parcela de humanidade, este coração que bate e interfere na sintonia pura. Por isto, só abraçaremos em eternidade o silêncio após a morte. Penso neste silêncio em um tempo onde os ruídos me raptam, onde a rua com suas máquinas possantes se transformam em uma orquestra desafinada vinte e quatro horas ao dia. Penso no silêncio por que o desejo como meu pai desejava o deserto.
Aquele verso sublime da canção _Silêncio _ que Ormara Portuondo e Ibrahim Ferrer interpretam:

Silencio, que están durmiendo
los nardos y las azucenas.
No quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando morirán

Para que não morram as flores devemos buscar o silêncio. Para que as geleiras não desabem e evoquem o apocalipse narrado. Para que os filhos não cresçam com os acordes da mágoa. Quando penso em silêncio eu penso _ Rio. O silêncio caudaloso e verde. O eterno singrar para um destino, sem alarde. Os rios silenciosos que assistiram ao nosso amor. O silêncio das esferas prateadas de Pitágoras e da alma do Poeta que Rodin tecia, em pedra. 
O silêncio das pedras, das nuvens, da lua miraculosa. As águas banhando silenciosamente as encostas desabitadas. O silêncio de uma paisagem. 
O silêncio de um amor que não pode ser narrado. Guardado em uma estrela. A mais amada por Pitágoras. 
O silêncio fecundo das manhãs esperançadas, todas que acordei com o aroma fecundo do café que minha mãe passava, o silêncio fecundo do novo, esta alegoria bonita _ a surpresa da vida que chega sempre depois de um silêncio fecundo. O silêncio de um respirar profundo, ar invadindo cavernas de um coração necrosado, derrubando as carnes mortas e implantando a luz do silêncio, a música do silêncio, a partitura do silêncio. Regenerando tudo, à revelia de todas as profecias más. A profecia maior é o Amor. A profecia que os poetas escrevem com signos invisíveis _ eternamente _ à sombra de um rio.

Bárbara Lia/Coreografia do Caos/book online no site Germina e parte do projeto 21 gramas da primeira fase (2010) 

Imagem_ Man Ray_1936