Thursday, October 17, 2013

A vida é ficção e nos devora _ Bárbara Lia





E então chega o dia. Então chega a hora. Então chega o instante em que é preciso coragem. Para que não venham os pretensos biógrafos retirar as páginas (agora virtuais) pra pintar teu retrato como se fosse um quadro de Goya. Para que não coloquem teu coração em lugar da flor de Magritte suspenso onde todo mundo vê. Para que não digam que você é um cachimbo, um artefato, uma droga, um súcubo. Para que os que você amou, ou não amou, emitam diagnósticos sobre tua vida de mulher. Para aqueles que você nunca mostrou teu rosto verdadeiro, tua ferida. Para quem nunca sentou-se à tua mesa, fez amor contigo. Para aqueles que nunca foram teus amigos. Para todos estes não te usurparem considerando-se conhecedores de tua alma, por se sentarem em um bar, falar de livros, lançar um livro e pensar que isto mostra teu íntimo. Para quem destrói ilhas de flores, paraísos que você demorou décadas pra construir como quem monta um quebra-cabeças nas madrugadas... Por estas e outras, e por que ninguém pode saber o que vai no meu coração, qualquer dia destes pego uma mochila e um violão... os livros que amo, e somo tudo isto à minha solidão e vou sim, para um lugar, para uma montanha, quiçá vou ficar ao lado do mar, e vou _ finalmente _ contar a minha história...
E ela vai ter este título _ A vida é ficção e nos devora.




**saturada deste assunto _ biografia, pensando em Bandini e Sal Paradise, pensando em como só vale quando alguém consegue ele mesmo narrar sua vida transformando com tanta beleza sua vida, que seu personagem acaba mais citado que seu próprio nome, e este é o momento em que a Literatura se agiganta. Raros momentos... e fazem falta!...**