Thursday, February 28, 2013

O Verão das Musas #1 - Marina Abramovic






O verão das musas substitui  o meu abortado verão poético. Algumas Mulheres que se destacaram diante dos meus olhos. Mulheres que admiro. Este é o nosso verão. 

Mulher
Musa
Artista

Dia 08 de Março é o - dia da mulher. Quando eu era menina achava essencial e admirava e acreditava que deveria fazer o possível para ser alguém que deixa uma marca no mundo. Era muito estranho aquilo, pois eu era uma menina pobre, filha de uma descendente de índios, vivendo em uma cidade muito pequena. Quando completei um ano fui atingida pelo vírus da poliomielite. A pequena sequela alterou rotas. Criou uma pensadora. Talvez eu me tornasse alguém introspectiva da mesma forma, isto eu não sei. O que tenho certeza é que sai de um nível de escuridão, caminho nenhum diante de mim, para construir uma vida na qual me tornei exatamente o que eu queria ser. Voltando ao meu desejo de ser alguém capaz de ajudar o mundo ao redor. Eu lia, abismada, biografias de pessoas como Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, etc. Muito forte batia em mim o vento da universalidade. Aquelas pessoas que viviam com o ideal de tornar o mundo melhor. Sempre pensei em ser escritora. Apesar de ouvir muita poesia em casa, apesar de ser puxada para isto, eu não via, ainda, os escritores como homens e mulheres capazes de alterar o mundo. Demorei a perceber que é o pensamento que move o mundo. Que a cada ação humana existe um comando que é via pensamento/palavra. Quando percebi que a minha vocação tinha tentáculos na via humanitária, eu já estava enfronhada em um caminho do qual demorei décadas para sair, pois aos dezoito anos fui aprovada em um concurso e desviei minha vida para a inócua burocracia. Agora, Poesia é a via. Ela é a minha - estrela guia - através dela eu posso dizer do mundo, navegar no mundo, pulsar em outros corpos e corações. Através dela eu me transformei em algo que nunca ansiei - Uma artista. Por isto, acho essencial começar o nosso pequeno roteiro das - mulheres que eu admiro - com Marina Abramovic. Precisava encontrar Marina neste momento. Saber que estou no caminho certo. Que, ainda que tudo aponte para muitos nãos que caem como portas diante de mim, tudo em mim é um SIM. E ler este manifesto é parte do desabrochar rosa de 2013. Tem a ver com fases, tem a ver com um poema, tem a ver com o fato de no primeiro dia deste ano ser puxada para fora de minha casa. O céu estava coberto de nuvens rosas. Eu estava com meu neto no dia primeiro de janeiro. Ficamos os dois olhando para o céu e eu comentei com ele e ele não esqueceu. Quando fomos para a praia, eu contei para minha filha sobre aquela experiência nossa. Era a anunciação de outro tempo, a mudança, a destruição da fase azul de Picasso - um paralelo que fiz - pois ele passou da dolorida fase azul para uma outra de telas sem dor, a fase rosa. E quando eu comentava do nosso espanto diante do céu de outra cor o Arthur,  que tem apenas três aninhos, completou - o céu tinha nuvens cor de rosa. Sim. Muita coisa na atual LITERATURA destoa deste Manifesto. Quase tudo destoa neste tempo das - celebridades. Consegui vestir quase todas as palavras de Marina. Apenas não consigo perdoar os 'inimigos' que devo considerar sejam os desafetos. Sou Poeta e Humana, santa não. Perdoe-me Dalai Lama, os deuses do Olimpo, os Orixás e Alá... Deve haver algum protocolo celeste para entender isto, e considerar a minha dificuldade em perdoar alguns desafetos. Então. Perdoo, sim, os pequenos impasses e pessoas que não usaram da crueldade nua para me alcançar e magoar, difícil é a empáfia. É você mandar um e-mail por puro engano para alguém e azedar tudo, pois alguns acreditam pateticamente que o mundo gira em torno de seus umbigos. Vamos esquecer estas coisas pequenas. É tempo de mulheres fortes, as belas, as carismáticas, as que não precisam diminuir ninguém para brilhar, aquelas que são de aço, ferro, mel, nuvem, água, eternidade.


MANIFESTO SOBRE A VIDA DO ARTISTA

MARINA ABRAMOVIC


1. a conduta de vida do artista:

- o artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros- o artista não deve roubar ideias de outros artistas
- os artistas não devem comprometer o seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte
- o artista não deve matar outros seres humanos
- os artistas não se devem transformar em ídolos
- os artistas não se devem transformar em ídolos
- os artistas não se devem transformar em ídolos


2. a relação entre o artista e sua vida amorosa:

- o artista deve evitar apaixonar-se por outro artista
- o artista deve evitar apaixonar-se por outro artista
- o artista deve evitar apaixonar-se por outro artista


3. a relação entre o artista e o erotismo:

- o artista deve ter uma visão erótica do mundo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo
- o artista deve ter erotismo


4. a relação entre o artista e o sofrimento:

- o artista deve sofrer
- o sofrimento cria as melhores obras
- o sofrimento traz transformação
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito


5. a relação entre o artista e a depressão:

- o artista nunca deve estar deprimido
- a depressão é uma doença e deve ser curada
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas
- a depressão não é produtiva para os artistas


6. a relação entre o artista e o suicídio:

- o suicídio é um crime contra a vida
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio
- o artista não deve cometer suicídio


7. a relação entre o artista e a inspiração:

- os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
- Quanto mais se aprofundarem no seu âmago, mais universais serão
- o artista é um universo
- o artista é um universo
- o artista é um universo


8. a relação entre o artista e o auto-controlo:

- o artista não deve ter auto-controlo em relação à sua vida
- o artista deve ter auto-controlo total em relação à sua obra
- o artista não deve ter auto-controlo em relação à sua vida
- o artista deve ter auto-controlo total em relação à sua obra


9. a relação entre o artista e a transparência:

- o artista deve dar e receber ao mesmo tempo
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber


10. a relação entre o artista e os símbolos:

- o artista cria os seus próprios símbolos
- os símbolos são a língua do artista
- e a língua tem que ser traduzida
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave
- Às vezes, é difícil encontrar a chave


11. a relação entre o artista e o silêncio:

- o artista deve compreender o silêncio
- o artista deve criar um espaço para que o silêncio entre na sua obra
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

12. a relação entre o artista e a solidão:

- o artista deve reservar para si longos períodos de solidão
- a solidão é extremamente importante
- Longe de casa
- Longe do atelier
- Longe da família
- Longe dos amigos
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de cascatas
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de vulcões em erupção
- o artista deve passar longos períodos de tempo observando a correnteza dos rios
- o artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram
- o artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas no céu da noite

13. a conduta do artista em relação ao trabalho:

- o artista deve evitar ir para seu atelier todos os dias
- o artista não deve considerar o seu horário de trabalho como o de um funcionário de um banco
- o artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma ideia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe como uma surpresa
- o artista não se deve repetir
- o artista não deve produzir em demasia
- o artista deve evitar poluir a sua própria arte
- o artista deve evitar poluir a sua própria arte
- o artista deve evitar poluir a sua própria arte

14. as posses do artista:

- os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objectos:
1 roupão para o verão
1 roupão para o inverno
1 par de sapatos
1 pequena tigela para pedir alimentos
1 tela de protecção contra insectos
1 livro de orações
1 guarda-chuva
1 colchão para dormir
1 par de óculos se necessário
- o artista deve tomar a sua própria decisão sobre os objectos pessoais que deve ter
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos
- o artista deve, cada vez mais, ter menos

15. a lista de amigos do artista:

- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito
- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

16. os inimigos do artista:

- os inimigos são muito importantes
- o Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil ter compaixão pelos inimigos
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar
- o artista deve aprender a perdoar

17. a morte e seus diferentes contextos:

- o artista deve ter consciência de sua mortalidade
- Para o artista, como viver é tão importante quanto como morrer
- o artista deve encontrar nos símbolos da sua obra os sinais dos diferentes contextos da morte
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo
- o artista deve morrer conscientemente e sem medo

18. o funeral e seus diferentes contextos:

- o artista deve deixar instruções para seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo a sua vontade
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida






Marina Abramovic nasceu em 30 de Novembro de 1946, em Belgrado, Sérvia. Marina é uma artista que iniciou sua carreira no início dos anos 1970. Em atividade há mais de três décadas, Marina se denomina como a "avó da arte da performance". O trabalho de Abramovic explora a relação entre o artista e o público, os limites do corpo e as possibilidades da mente.

18 h no bar "O Torto" depois do Apocalipse - Bárbara Lia



Vamos ao que interessa!

Ontem fiquei falando aqui no blog de pessoas que conheci e naquela comparação de que algumas paixões queimam rápido como fósforo e desaparecem. Outras são pirilampos e seguem como seres vivos flanando em algum lugar, brilhando um dia ou outro. Isto é intimo e pessoal, melhor não tocar mais neste assunto. 
Importa o que diz respeito ao que é foco deste blog - os meus escritos.

Há algum tempo publiquei fragmento de uma novela cujo título era - A garota sem nome. Converso com duas ou três pessoas sobre meus livros. Em uma destas conversas falei sobre um dos títulos do livro e acabei convencida a mudar, pois é um título mais impactante. Então estou com um livro em um busca de editor: 18h no bar "o torto" depois do apocalipse.

Quanto a esta novela policial é um livro sem pretensão. Escrevi como catarse, no tempo em que fui bombardeada com programas do Discovery Channel que propalavam o fim do mundo, ao lado de séries policiais que eu gosto de assistir. Isto virou amalgama estranho e o enredo é basicamente este: Uma garota sofre uma queda de um viaduto em Curitiba e perde a memória. Ela não existe no sistema, pois vive em uma comunidade alternativa que está à espera do fim do mundo. Entra no enredo o policial bonitão, sensual, que sai em busca da identidade da pequena. O bar - o torto - é um local onde os jovens se reúnem em Curitiba. E como sabemos que o mundo não acabou em dezembro passado, o desfecho feliz da história eles vão comemorar neste bar, depois do "apocalipse".


fragmento de 18 h no bar "O Torto" depois do apocalipse (Bárbara Lia):



Envelhecerão como um vestido


Envelhecerão como um vestido. Ainda que dure um pouco mais neste chão, morrerão. Com ou sem água estocada. Sabendo ou não todos os segredos dos plantios e as curas raras. Envelhecerão como um vestido. Ninguém durará até o próximo apocalipse que alguém vai anunciar algum dia, depois que surgir outro Cristo, outros profetas e outros livros sagrados. Alguém guardou os segredos da Humanidade para este futuro branco? Todas as vacinas das doenças várias? Alguém saberá todos os idiomas e todas as receitas de felicidade? Haverá outro império Persa? Uma nova Roma? Todos os povos bárbaros?
Em alguns dias eu sentia uma raiva imensa de Gilda, eu queria ser parte da História do meu mundo. Se tudo ia demolir com uma bomba nuclear. Se as entranhas do Yelowstone ia se abrir e enegrecer de cinza o céu. Se um cometa ia abrir crateras e acelerar o apocalipse. Se as emanações solares iam alterar as rotas dos navios, dos aviões e cessar entre os humanos a comunicação. Se todos ficariam como órfãos e mortos sem seus celulares, GPS, Ipad’s, TV’s, queria ser parte disto. Morrer como quem merece morrer. Não viver, sem saber se merecia esta sobrevida. Ela não entendia. Dizia que eu era uma ingrata. Nestes dias o jantar era calado e ela se fechava no quarto e ficava ouvindo Elvis. Já não aguentava mais ouvir Love me Tender. Preferia o apocalipse.


Wednesday, February 27, 2013

verão inacabado

                                                                                      Claudia Cardinale e Jacques Perrin



Verão poético inacabado. Até o final do verão pretendia dia a dia mostrar a minha biblioteca poética. A infinidade de livros de poesia com dedicatória, poetas do Brasil e do exterior.   Agora, minha impressora entrou em crise existencial. Não quer reconhecer o cabo USB, alguma coisa que meu filho explica diante da minha pequena irritação ao perceber que não posso escanear nada. Imprimir nada. Por ora, preciso suspender as postagens do verão poético. Esperar voltar ao normal tudo por aqui. Respira fundo. Respira fundo.
Fica este verão inacabado, com poucos livros e as duas postagens de canções do sobrinho Lincoln, conto erótico do amigo Back. Verão poético em sete tempos. 
Verão é quase ficção em Curitiba. Sempre chuva, temperatura amena. O verão a gente inventa dentro de um livro, na memória, na saudade das horas de verão da alma. Dentro o outono bate à porta dos meus anos, eu digo - Espera. Descartei aquela menina romântica dos anos setenta, aquela esposa amorável dos anos oitenta. Estive a pensar nos homens da minha vida como fósforos e pirilampos... Muitos fósforos. Paixão é coisa que se equipara a acender um fósforo, a chama queima rapidamente e quase sempre nos queimamos. Não queimar essencialmente no encontro de amantes, mas, queimar algo que separa, rompe, afasta. Quando penso em amantes que se transformaram em amigos que eu perdi eu fico com aquela sensação de derrota. Depois, vem a certeza de que os encontros são como caxumba, sarampo. Doença inevitável que gruda e não somos imunes. Não há vacina para o encanto, o desejo. Talvez eu tenha o - dedo podre - sempre meu olhar de fogo para pessoas com as quais eu nunca deveria me envolver. Forçando um pouco a memória dos meus amantes nestes vinte anos que é o tempo de ruptura do meu casamento, eu os vejo sempre em duas categorias: Os homens que chamaram minha atenção e acabaram se envolvendo comigo, eles queimaram como fósforos entre meus dedos. Luz artificial que roubei, noites de amor com desejos partilhados e o encanto em uma única via - a minha via - quiçá. Os homens que me olharam primeiro, jogaram suas redes para envolver-me, puxar para si com ardor, estes são pirilampos. Ainda brilham em algum instante quando a memória evoca aquela cena, outra cena, um outro momento. E, estes são ternos, cálidos, amigos ainda. Os "fósforos" primaram pelo ego, falas toscas que guardo. Aquilo de se acharem acima e melhores e os caras e etc. etc. O ego, pois devo dizer que neste milênio só partilhei meu coração corpo desejo com estes seres estranhos e complicados chamados - poetas. Isto está muito confessional, se eu quisesse criar polêmica escreveria um livro, narraria a odisseia destes encontros. Eu os recordo como um lugar de fuga que traz completude aos meus dias de loba solitária, mas calo. Calarei. Jamais dedicarei - outra vez - um livro, ainda que seja ao magnífico. Aquele que agora eu encontrei uma palavra para definir - Ulay. Este papo todo que emerge meio ao meu cotidiano mais voltado para minha casa, filhos, neto, livros por concluir, livros para publicar, chuva intermitente de verão curitibano, mundo caótico com UTIS predatórias e falta de senso em todo canto e jornalistas que me dão asco, meio literário empobrecido em todos os sentidos, falta de humanidade... Meio aos meus oitocentos diálogos interiores que é a rotina minha, eu vi um vídeo. Um vídeo que encontrei no Facebook. E senti saudades daquela menina romântica que acreditava neste pequeno grão graal que é ter alguém no mundo que faz estrelas brotarem em sua íris... É preciso falar sobre esta história, da forma como ela surgiu e quando vi o vídeo eu pensei em como existe para cada mulher do mundo este homem-Ulay, alguém que o passar do tempo não destrói, capaz de acender luz nos olhos, trazer memórias indescritíveis. Para viver um grande amor não é a paixão apenas, não é a maior boa vontade, sacrifícios em nome de nada ou coisa alguma. Para um grande amor é preciso que duas pessoas de grandeza interior se choquem. Grandeza interior. Nenhuma outra grandeza. Isto serve para a personagem Macabéia com sua - hora de estrela - e serve para Marina Abramovic. Isto para assinalar que creio piamente que o amor visita primordialmente o simples e por ser amor visita também alturas. Então, eu tive certeza dos poucos pirilampos com os quais choquei pela vida. Sim, um pirilampo-mor, meu Ulay. A certeza de que é preciso mais que humanidade para viver um grande amor, é preciso o toque divino que eleva. E nem importa se você conviveu cinco anos (como Ulay e Marina) cinco dias ou cinco horas, cinco minutos. Dez minutos... Remember? A vida, a vida, a vida...


“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando performances. Quando sentiram que a relação já não valia, decidiram percorrer a Grande Muralha da China, dar um último grande abraço e nunca mais se ver. 23 anos depois o MoMa de NY dedicou retrospectiva a sua obra. Nela Marina compartilhava 1 minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem ela saber, e foi assim.” Maeve Jinkings




Sunday, February 24, 2013

Verão poético (e erótico) nº 7



Sylvio Back - arquivo pessoal



Ada, assim 




Revejo-a. Cinquenta anos depois. É muito tempo, hein? Ou não? Para um morto é pouco, você diria! O rosto chapado, encarquilhado. Como o meu. As coxas ainda soberbas (dá pra ver pelo volume do andar). Iguais às minhas, obra e graça da musculação para macróbios. Revejo-a, assim, sem mais nem menos. Esquecida, esquecida estava para sempre. Agora, intacta, incólume, impávida, como é que pode? É isso que se chama física quântica? 



Numa rua qualquer, num dia, idem, numa tarde única. Aquela chuvinha fina de Curitiba. Faltam nanossegundos para eu reconhecê-la. Ela não se demora nada. Cabelos desarrumados, é o vento sul. Alisei os meus, mais branquelos do que os dela. Devem ser pintados, invejei. O que importa, afinal? Num primeiro ímpeto, os corpos simularam se grudar ali mesmo. Feito ímã, um tanto gasto, pois não. Mas, antes que algum calor transite entre nós, só leve enrubescimento: pisca-pisca de alerta. Aliás, mútuo, coadjuvado por uma fisgadinha, alhures. Nem tão alhures, confesso, infelizmente, impossível nomeá-la nesse átimo. Ao nos tocarmos, bingo! A vertigem vira tremor. Ou será temor? É aí que Ada faz-se a deliciosa Ada do baile de Carnaval de 1958. 



Aqueles peitões antológicos! Esquecer? Impossível, se eles mantêm-se incólumes! Toda vez em que nos encontrávamos, dito e feito, Ada tinha orgasminhos em série. Como se fosse dar um troço nela. A orelha ficava magenta, os lábios, flamantes, olhos de lobisomem. Ada se imolava, era um fogaréu de Eros. Coisa rápida, imperceptível a quem passasse ao largo. Eu, sim, testemunhava fingindo que não. Sabia e mui caridoso ficava enxugando umas lagriminhas alegrinhas rolando pelas bochechinhas. Nem preciso dizer que agora o incêndio se reprisa com a mesma intensidade. Tesão não tem idade nem cabimento. O tranco, porém, é maior. 



Como é que pode? Como é que pode, santo Deus? Será que Ada conseguira recapturar, nesse exato fortuito, todos os gozos que juntos tivemos? Memória afetiva, como é o nome disso mesmo? Ou será que é pura imaginação, como alguém que jamais se olha no espelho, nem pra fazer a barba nem pra se pentear? Existe essa pessoa? Ada, ao menos, continua o orgasmo tal qual. Tremelica e, curiosamente, não fica mais tão vermelha. Ao contrário, parece que rebobina gozos estrangeiros, de outrem, de outrens, esse neologismo me ocorre diante da volúpia dela. O que não se faz e pensa tomado de volúpia, hein? Ada era a própria. Mais: a luxúria nua e crua, vestida dos pés à cabeça. Subitamente, o agarra-agarra vira atentado ao pudor. No meio da calçada, gente se entreolhando, carros diminuem a marcha, bisbilhotice geral. Que velhuscos sem noção do ridículo! Um pião carnal a toda. Ela enfia as coxas nunca assaz tão soberbas entre as minhas pernas. Não deu outra. E, com todo respeito, ejaculei como nunca dantes (Eros não perdoa, dispara!). De onde é que saiu tanto esperma, oh Jísus Craist? Pensei cá comigo, sem disfarçar um sutil toque de vingança. 

Mesmo com o coração e a alma ululando, tive como pensar. Aleluia! Foram precisos gloriosos 50 anos para que eu recebesse o troco, literalmente, em espécie, latejante e umectante. Aquele menininho de antanho que fazia Ada gozar, agora era um velhinho encharcado de Ada.



Sylvio Back

Cineasta, Poeta e Escritor, autor de 38 filmes e 21 livros (roteiros, poesia e ensaios). 
Prepara o lançamento nacional do documentário - O Universo Graciliano.

* conto publicado no Diário Catarinense.  Sylvio Back autorizou a publicação no - Chapar as Borboletas. Aos leitores deste blog, um conto do meu amigo que é também, a meu ver, o melhor amigo de Eros. Pacto sigiloso com o deus erótico, a cantar em prosa e verso este tipo belo de amor: o amor carnal (desejo).

Saturday, February 23, 2013

Verão Poético nº 6




PROMETEU


Agrada-me o chegar perto do fogo,
no tão próximo onde se desfazem
as certezas, amo o gesto e o risco,
a aventura do fogo, e tanto mais
se for para roubá-lo de Zeus pai.

(pg. 21)


 





CERÂMICA


Na primeira fase da humanidade,
o barro, objeto do desejo, viu-se
moldado como pegada de cervo,
virou utensílio, panela, recipiente:
Deus!, o homem se fez de barro,
disse a menina sujinha de batom.

(pg. 47)




ilustração- Fabriano Rocha


Verão Poético nº 5


Thursday, February 21, 2013

Verão Poético n° 4




Pausa na poesia escrita para o momento sonoro. Verão musical. Maior orgulho do meu sobrinho Lincoln D'ávila, ele canta, toca e tem muito talento. Lincoln também é Poeta. Professor de História. Vive em Campo Mourão. Influenciado pelo seu ídolo John Lennon ele compõe em inglês. 





- A Day in the Life - na voz do Lincoln:


Wednesday, February 20, 2013

Verão Poético nº 3










Ernani Fraga é paranaense de Campo Mourão. Advogado, Dramaturgo e Poeta. Vive em São Paulo

Verão Poético nº 2








http://cassioamaral.blogspot.com.br/

Verão Poético nº1

O verão segue lerdo. Estou assoberbada: Terminar um livro, revisar outro livro e outras pequenas tarefas poéticas... Lembrei a Kátia Negrisoli dizendo - Você precisa de um secretário, um ajudante... Pensei em um mancebo sensual de melenas claras a me ajudar com esta montanha de livros e projetos e sonhos. Escritor neste País é ao mesmo tempo Agente Literário, Relações Públicas, Editor, Diagramador, Revisor e Guerreiro, amém... Neste tempo que é mais ou menos o meu deserto, quarenta dias de mergulho no meu roteiro programado para organizar tudo isto aqui, vou postando poetas brasileiros cuja poesia eu li e gostei... O verão poético inicia com a poeta Juliana Meira - Porto Alegre. 




Monday, February 18, 2013

A POESIA É CERNE A PALAVRA É BÁRBARA - Cássio Amaral




"A FLOR DENTRO DA ÁRVORE de Bárbara Lia é um ikebana que se tece e se vivifica com palavras. A palavra é a flor que se fixa na árvore para dar vida."

Texto completo no link:

http://cassioamaral.blogspot.com.br/2013/02/a-poesia-e-cerne-palavra-e-barbara.html

Feliz com este texto do poeta Cássio Amaral sobre - A flor dentro da árvore.
Texto de Filósofo e Poeta. Aura zen de flores orientais. Ikebanas a sorrir no canto da sala. Gracias, Cássio. A flor, a árvore, ikebanas, Emily, um quarto, um nome herdado e tudo isto tecido em espanto, no silêncio sempre e na vontade de dizer o que a alma implora.

a última chuva




A chuva baila cinza na vidraça
que abre a cidade
e as cicatrizes de concreto.
No mundo não há quem leve,
como eu,
este solar crepitar na alma.

Bárbara Lia
A última chuva / ME-2007

Saturday, February 16, 2013

por onde andará Stephen Fry?





Passeando pelo Youtube, em uma noite destas, encontrei um vídeo de Stephen Fry. Ele estava lançando um livro em Amsterdam. Comecei a assistir acreditando que breve mudaria a página, pois não tenho muita paciência para papos acadêmicos. Vi o vídeo inteiro, quase uma hora. Ele não falou de sua própria escrita. Ele falou de sua vida, talvez por estar lançando sua biografia. Mas, fiquei com a impressão que ele é este cara que se coloca dentro do mundo e para fora do seu umbigo. Ele é humorista, ator e isto dá a ele o completo domínio de uma platéia. O que surpreendeu foi a declaração de amor que ele fez a Oscar Wilde. Lembrou aquela sensação que todos temos quando nos encontramos dentro de um livro, definimos nossa identidade, nos sentimos salvos, nos sentimos amparados, parte do mundo, e somos envolvidos por aquele glacê de felicidade que ameniza décadas de buscas. A Literatura é a potência das potências e apenas ela consegue moldar vidas, alterar caminhos, despertar todos os nossos anjos e demônios adormecidos, inaugurar - subitamente - um paraíso inteiro dentro de qualquer um. Para Stephen foi sua tábua de salvação, ao descobrir que antes dele Oscar enfrentou o mundo e sofreu punições supremas pela sua opção sexual. Stephen vivia no interior da Inglaterra e sentia-se - certamente - um estranho no ninho. Ao descobrir os livros de Oscar Wilde ele ficou fascinado, pela Literatura e amparado pela similaridade de suas almas. Dias depois de ficar totalmente envolvida pela fala deste cara, encontrei o filme - Wilde - de 1997, onde o próprio Stephen Fry interpreta Oscar Wilde. Não li nada deste autor, ele escreve poesias também. Encontrei algumas em inglês. Fiquei feliz por ter topado com aquele homem alto e totalmente sincero, bebi sua fala, fiquei feliz ao descobrir que ele também nasceu em um dia 24 de agosto, dois anos depois do meu nascimento. Somos virginanos, somos poetas, e estamos no mundo, contra as segregações. Nós somos diferentes, mas, ousamos rir disto. Nós seguimos, imprimindo a nossa marca, e temos esta peculiaridade de nem falar muito de nós, de viver falando daqueles que nos abalam, nos movem, nos ajudam a entender esta coisa estranha chamada vida.


Thursday, February 14, 2013

REVISTA PRISMA CULTURAL



http://www.selmovasconcellos.com.br/colunas/prisma-cultural/revista-prisma-cultural-no-007/


A poesia que dá nome ao meu blog está no nº 7 da Revista Prisma Cultural. O Editor é Selmo Vasconcellos. Poetas de todos os cantos do Brasil, uma homenagem póstuma a Zé Rodrix (homenagem póstuma), entre outros poetas...
A Poesia segue pulsando, pulsando...

Curso de Teatro para Iniciantes




CURSO DE TEATRO PARA INICIANTES DO UNINTER


QUANDO: início em 02/03 e término em 14/12/2013.
HORÁRIO: das 09:30 às 12:30 (aos sábados).
AONDE: Rua do Rosário, 147 - Centro.
(Próximo ao Largo da Ordem - campus Divina)
PÚBLICO ALVO: acadêmicos do Centro Universitário Uninter e de outras instituições de ensino; comunidade externa em geral.
QUANTO: curso gratuito.
PRÉ-REQUISITO: 18 anos.


INSCRIÇÕES até 28/2/2013


O curso é ministrado pela minha amiga - Geisa Mueller - Mais detalhes em seu blog:
http://umaisumenosum.blogspot.com.br/2013/02/curso-de-teatro-para-iniciantes.html

Tuesday, February 12, 2013

Um bilhão que se ergue - Curitiba





Dia 14/02
das 12:00 até 16:00
Praça Santos Andrade
Curitiba





http://umbilhaoqueseergue.blogspot.com.br/

One Billion Rising 14/02 - Curitiba - Praça Santos Andrade - 12 as 16h







O “Um bilhão que se ergue” (One billion rising) ou V-Day, é um movimento ativista global, realizado anualmente no dia 14 de fevereiro, para acabar com a violência contra mulheres e meninas, inspirado pela autora, dramaturga e ativista Eve Ensler, que relata ter sido fisicamente e sexualmente abusada por seu pai quando era uma criança.

Terá sua primeira edição em São Paulo, sábado, dia 16/02/2013 no Museu de Arte de São Paulo (MASP) das 14:00 às 18:00 hrs. A data oficial foi mudada devido a atividades realizadas durante a semana (trabalho, escola, etc) que impossibilitam alguns cidadãos a comparecer no evento.

O movimento teve inicio em 1998 quando uma instituição de caridade sem fins lucrativos, "V-Day", foi constituída com o objetivo de usar apresentações da peça “Os monólogos da vagina” para arrecadar dinheiro para beneficiar mulheres vítimas de violência e abuso sexual. 

Uma pesquisa aponta que, no mundo há 07 bilhões de pessoas, sendo que metade são mulheres.
Uma em cada três mulheres no planeta vai ser estuprada ou espancada em sua vida, ou seja, um bilhão de mulheres. 
Um bilhão de mulheres violadas é uma atrocidade.
Um bilhão de mulheres dançando é uma revolução.

Um bilhão que se ergue é:
Um ataque global
Um convite para uma dança revolucionária
Uma chamada para homens e mulheres que se recusam a participar da cultura de estupro
Um ato de solidariedade, demonstrando a indignação e a força das mulheres de todo o mundo
A recusa em aceitar a violência contra mulheres e meninas
É o nascimento de um novo tempo e uma nova forma de pensar e ser.



http://blogueirasfeministas.com/2013/02/evento-um-bilhao-que-se-ergue/



http://www.onebillionrising.org/