Tuesday, December 31, 2013

Poema de fim de ano


    Imagem by  Rosie Hardy





NIZAR QABBÁNI (sírio, 1923-1995)


QUE TODO ANO VOCÊ SEJA A MINHA AMADA



Que todo ano você seja a minha amada. (1)
Digo com simplicidade de
reza de criança antes de dormir,
ou o descanso, na espiga de trigo, de um passarinho.
No vestido branco, mais uma flor,
nas águas dos olhos, mais um navio a esperar.
Digo com calor e ira de
pés batendo o chão – dançarino espanhol –,
mil círculos a formar
em torno da terra.
Que todo ano você seja a minha amada.
Sete palavras, embrulho com laço:
meu presente de ano novo.
Os cartões não dizem o meu querer;
todos os desenhos que contêm,
(velas, sinos, árvores, bolas de neve,
crianças, anjos) - nada disso me convém:
não me agradam os cartões prontos
nem os poemas prontos
nem os votos para exportação,
feitos em Paris, Londres e Amesterdã,
escritos em francês ou inglês
servindo a toda ocasião.
Mas você não é mulher de ocasião;
é a mulher que amo,
a dor diária
que não se escreve em cartões,
que não se diz em letras latinas
e nem por correspondência.
Quando chega a meia-noite,
você, peixe, penetra na minha água cálida, se banha,
minha boca explora florestas ciganas, o seu cabelo,
e fica por lá.
Porque amo você,
o ano novo, rei que chega;
e porque amo você, carrego
permissão especial de Deus
para passar entre mil estrelas.
Este ano, não vamos comprar árvore:
Você será a árvore,
e sobre você vou dispor
meus desejos e orações,
minhas lágrimas, lampiões.
Que todo ano você seja a minha amada.
Desejo que temo
para não ser acusado de ambição e pretensão,
idéia que temo alguém a roube
e alegue ser o inventor da poesia.
Que todo ano você seja a minha amada.
Que todos os anos eu seja o seu amado.
Desejo fora do merecido,
sonho além do permitido,
mas quem tem o direito de censurar-me por meus sonhos?
Quem censura ao pobre o sentar-se no trono
por cinco minutos? – um sonho.
Quem censura ao deserto
querer um riacho? um desejo.
Em três casos o sonho é legal.
Caso de loucura,
caso de poesia
e o caso de conhecer uma mulher
estonteante como você.
Eu – felizmente – sofro dos três.
Deixe a sua tribo,
siga-me até as minhas cavernas,
largue o chapéu de papel,
a desajeitada melodia
e a fantasia.
Sente-se comigo na sombra – anestesia:
A poesia tem véu azul;
O meu manto protege-a das chuvas de Beirute.
Tenho vinho tinto, das adegas dos monges. Eu lhe oferecerei.
Prepararei um prato espanhol, de frutos do mar.
Siga-me, minha senhora, para os descaminhos dos sonhos:
Eu lhe mostrarei poemas nunca dantes lidos,
destrancarei baús de lágrimas nunca dantes abertos,
amarei você como nunca amei antes.
Quando chegar a meia-noite
e a terra desequilibrar-se,
quando os dançarinos começarem a pensar com os pés,
retirarei-me para dentro de mim
e levarei você comigo.
Não é mulher pertencente à alegria
comum, você.
E nem ao tempo comum
e nem ao grande circo que passa
nem aos tambores pagãos que tocam,
tampouco às máscaras de papel.
Finda a noite, sobram só
homens de papel e mulheres de papel.
Ah, se fosse do meu alcance,
minha senhora,
construiria um ano só para você
poder recortar os seus dias como quiser,
em sua semana apoiar as costas como quiser,
tomar sol e se banhar,
nas areias dos meses, correr como quiser.
Ah, minha senhora,
se fosse do meu alcance
ergueria uma capital para você
na zona temporal
que não seguisse o relógio solar
nem o areial.
O tempo real só começaria a contar
quando sua mão pequenina fizesse
a sesta dentro da minha.
Que todo ano os seus olhos permaneçam
ícones bizantinos;
seus seios, loiras crianças na neve a brincar.
Que todo ano eu esteja enredado em você,
acusado por amar
como acusam o céu por viajar
e o lábio, por arredondar-se.
Que todo ano eu seja atingido por seu terremoto,
encharcado por suas águas
e tisnado feito vaso chinês
pela geografia de seu corpo.
Que todo ano você... não sei como dizer:
seus nomes, você escolhe,
como o ponto escolhe o seu lugar na linha,
como o pente escolhe o seu lugar nas dobras de seu cabelo.
Apenas, permita-me chamá-la:
“minha amada”.



(1) Um jogo de palavras a partir da expressão árabe equivalente a “Que todo ano e você esteja bem”, usada em  saudações festivas, especialmente na passagem do ano.

Traduçao - Michel Sleiman, integrou o recital de Poesia Arabe em 2006.

Saturday, December 14, 2013

G Ideias _ 7 Poetas Paranaenses

Ilustração: Felipe Lima



Linda ilustração dialogando com minha poesia _ Algo a respirar nas casas naufragadas _ que está no G Ideias deste sábado. Poema inédito que vai figurar em um próximo livro que devo organizar em 2014. 
Os poetas paranaenses deste belo encarte editado por Marleth Silva:
Rodrigo Garcia Lopes
Glória Kirinus
Marcos Losnak
Karen Debértolis
José Marins
Bárbara Lia
Adriano Scandolara

Sábado com Poesia, basta clicar no link:
http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1433149&tit=A-producao-dos-poetas-paranaenses#barbara


A imagem que inspirou  _ Algo a respirar nas casas naufragadas:



http://www.vus.com.br/projects/italo-calvino/

Ilustração de uma passagem do livro Cidades Invisíveis de Italo Calvino

Wednesday, December 04, 2013

Artesanais _ Fantasma Civil

Minha amiga Kátia Torres Negrisoli, de Adamantina, sempre fotografa os livros em ensaios poéticos que eu recebo e compartilho. Os dois livros da coleção _ Rosas em Ruínas _ Percurso amoroso de uma Vândala e Femme! e a Antologia da Bienal Internacional de Curitiba, organizada por Ricardo Corona _ Fantasma Civil.











2013: Algumas horas belas



O livro mais impactante de 2013 _ Uma viagem à Índia _ Gonçalo Tavares.
Uma epopeia onde os versos emanam toda Filosofia, a Metafísica. Um homem: Bloom. Até onde ele poderá levar seu segredo? Há algum tempo um livro de poemas não me levava pela mão com tanta beleza e com aquela ranhura de reconhecimento da alma humana. Um grande momento deste ano: Ler Gonçalo Tavares. Ouvir Gonçalo. Beber sua luz.

--

23 _ Canto V

Alimentados por livros, os filósofos
estão no mundo de roupão, se ainda não sofreram.
De roupão, que ridículo! Bloom solta uma gargalhada.
Ninguém recebe visitas estranhas com roupa intermédia
entre o sono obscuro e a vigilância clara.
Mas, de roupão estão de facto os filósofos no mundo
se ainda não olharam de frente para o tumulto inexplicável da natureza,
ou se por amor ainda não sofreram.

Página 211
Uma Viagem à Índia _ Gonçalo M. Tavares _ Ed. Leya


**


O filme impactante _ Blue Jasmine _ Uma adaptação de Woody Allen de _ Um bonde chamado desejo. Longe daquele enfoque nas locações, que ele trouxe nos mais recentes filmes, San Francisco é coadjuvante. Por isto mesmo a cidade se impõem. Como ótima coadjuvante integra a cena em luz e sombra. As horas duras no lusco fusco... As possibilidades em amplidão e luz...  
Uma interpretação impecável de Cate Blanchett. 





**

Momento sublime no cinema _ Monólogo de Javier Bardem em _ To the wonder (Terrence Malick)





**



Um momento impactante envolvido em uma esperança terna que desvaneceu depressa demais.
Sempre ficava triste por perceber a inércia dos brasileiros. Na metade do ano um vento de esperança soprou forte. Não foi em vão, mas, retomada a rotina fica aquela sensação de exército que abandona a guerra ao meio. Foram semanas de nadar no mar da utopia. 



***