Friday, June 20, 2014

Teu amor que oprime - Bárbara Lia






TEU AMOR QUE OPRIME


Quando o dia está claro e o sol conclama todas as nuvens para que elas amenizem o calor do Inferno que reina ao redor. Quando o Tejo se entrega à luz como as amantes às mãos dos amados e espargem gozo de espumas cintilantes. Quando os pássaros emudecem diante da espectral beleza de uma tarde, recordo Ricardo. Saio de casa com uma roupa leve, uma sombrinha adornada. As lágrimas cálidas bailando em meus olhos aveludados que ele perseguia. Meu olhar, uma corça que se esconde atrás dos lírios. Quando à tarde propícia, engalanada eu caminho sem pressa e retorno ao lugar da nossa conversa mais bonita. Quando estou próxima e sinto o perfume das águas, atiro longe a sombrinha e tiro os meus sapatos. Calculo o vôo de meus pés sobre a relva, cerro meus olhos e já sei quantos passos terá esta corrida, até estancar diante do Tejo e rememorar, como quem atravessa um túnel azul banhado de Amor.
- Abrigo do sol.
Ele disse. O corpo ereto, as mãos postas atrás do corpo. Uma a enlaçar a outra. Sem mover os músculos do rosto. Como se um pensamento escapasse por entre os lábios:
- Abrigo do sol.
No instante seguinte, sem cerimônia, soltou as mãos enlaçadas e estendeu a mão direita e seus dedos passearam por alguns instantes entre os fios dourados dos meus cabelos.
- Teus cabelos. É aqui que o sol descansa quando os raios se recolhem. Teu corpo foi feito para o dia. Mas, teus cabelos são noturnos. Lâmpadas estriadas transparentes, leitos do sol.
Duas estátuas de sal beirando o Tejo. Um tempo infindo esperando para ver um barco, um navio. E ele me narrava sua travessia, quando deixou o Rio de Janeiro para voltar ao nosso continente. Quando escurecia e eu sentia fome ele pedia para esperar um momento, estendia seu paletó na relva, sentava-se comigo. Começava o jogo de sedução que ele nunca conseguiu levar até o fim. Meu olhar de menina ele cobria com versos e palavras. Em minha boca carnuda ele pousava uvas e beijos. Eu preferia a quentura do seu beijo. Uma tarde quando o sol espalhava chispas no horizonte, pousou a mão suavemente entre minhas coxas. Foi o mais longe que chegamos de um momento íntimo. Senti dois dedos vasculhando rendas, senti um calor saltitando em minhas entranhas, levantei-me com o rosto ardendo em fogo e o convoquei.
- É tarde. Minha mãe me espera.
Ele baixou a cabeça como um derrotado e pelo caminho, enquanto a cidade escurecia, ele cobriu Lisboa e todo meu corpo com um canto triste de quem sabe que tempo não haveria para ultrapassar as rendas e vencer todas as outras barreiras de heras e medos que eu impus.
Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
Temia seu assédio, escondia-me no quarto e mandava a mãe dizer-lhe que eu estava em algum lugar. Uma missa. Uma festa. Um velório.
Com o tempo tive que cumprir de fato o intento de distanciar-me e viajei para uma Quinta. Quinta de amigos de um tio rico. Fiquei lá como uma deusa exilada. Minha mãe era a porta maior entre Ricardo e eu. Ela dizia que os anos todos que nos separavam fazia de mim uma tolinha - Pássara desprotegida nas garras de um falcão. Tremia de saudade. Respirava o Tejo em qualquer garoa. Cada gota d’água era nosso mais belo rio. E cada pedaço de chão era aquele lugar onde nos postávamos – estátuas - até baixar o sol. Talvez com a criada ou com alguma amiga piedosa, ele conseguiu o endereço da Quinta. Enviou a carta. O papel delicado, perfumado e sua letra espremida de médico e aquelas palavras. Guardadas para toda a vida, o poema-pedido, o poema-recado:


Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
                Já que o não sou por tempo,
                Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dadiva
                É verdadeira. Aceito,
                Cerro olhos: é bastante.
                        Que mais quero?


Feliz, fiz as malas. O comboio ultrapassou a eternidade. A demorada viagem por conta da minha ânsia. Ricardo recebeu-me à entrada do Hotel. Como uma dama resoluta eu quis dizer tudo aos borbotões. Ele me disse:
- Calma.
Deu um recado ao porteiro do hotel. Segurou meu braço, caminhou comigo em silêncio. Eu podia tocar o ar da ansiedade saltando de cada poro meu. No restaurante ele pediu vinho. O melhor vinho. Levou-me a um almoço para ouvir o que eu pretendia com aquela súbita chegada, depois de desaparecer por semanas sem ao menos dizer-lhe adeus. Olhando seu corpo e sua postura. Vasculhando seu rosto, suas rugas e suas olheiras. Em contraponto com a beleza infantil do meu rosto, descansado rosto de passar tantos dias em um pequeno paraíso. Pensei nas palavras da mãe. Era uma imagem de filha e pai. O corpo dele, no entanto, era forte, viril. A alma dele expandia em poesia. E eu o abraçaria, pra sempre. Em invernos de neve. Em tempos difíceis. Em horas inquietas de não entender sua escrita, sua alma sôfrega, sofrida. Passaria a vida ouvindo as lendas que ele contava. Como se tivesse um dia acampado no Olimpo e todos os deuses fossem seus amigos intimos.
Respirei fundo e propus um pacto.Eu esqueceria os mandamentos maternos, a recusa da família em aceitar-nos. Eu ficaria ao lado dele e seríamos marido e mulher. Para sempre. Eu lhe daria minha meninice e depois lhe daria meninos. A tristeza caiu sobre seu rosto. Nada entendi. Pela minha vida inteira nunca havia sido rechaçada. Ninguém havia dito não aos meus apelos amorosos. Cortejei garotos, esta é a verdade. Agora, diante de mim – Um Homem. Ele terminou o jantar em silêncio. Devolveu-me à porta da casa. Nunca mais encontrei o homem do Tejo. O médico que habitou meus dias com seu mistério e seu desejo. Que me disse adeus quando abri todas as portas do meu corpo-paraíso, da minha adolescência incandescente. Foi o mais frustrante encontro de amor de toda a minha vida. Arrependida por não me deitar com ele à relva diante do Tejo, deixar que suas mãos ultrapassassem a renda e os meus pêlos e me inaugurasse com a Poesia inteira que ele era, com a sua madureza que me seduzia.
Por isto eu corro ao Tejo em dia sem nuvem. Por isto eu me posto de olhos cerrados na esperança de encontrar quando abrir os olhos a imagem nítida e as palavras que brotavam dos seus pensamentos. Quando li seus versos impressos, muitos anos depois das tardes da minha Alegria, meus olhos lacrimaram e lamentei ser tão menina ao conhecê-lo e por ainda não saber colocar amor e liberdade na mesma cena. Deveria ter dito apenas – Quero-te! E burbulharia o Tejo aquecido pelo fogo do encontro. E ele sorriria ao deitar nos lábios finos a taça de vinho e ao me deitar naquela noite não seria na penumbra fria com mil interrogações.
Restou a cena: O poeta tateando meu corpo diante do Tejo e todo meu sangue incendiando, mais que aquele sol vermelho que, segundo ele, se deitou em meus cabelos.



Não quero, Cloé, teu amor, que oprime
Porque me exige o amor. Quero ser livre.

A esperança é um dever do sentimento.

do livro de contos - Contos portugueses *inédito*