Monday, June 30, 2014

Respirar







Sobre o novo livro. Para "Respirar" dentro de sessenta dias... Parar tudo e concentrar o trabalho nele.
No início o livro teria 50 poemas.
Chutei o balde do Prêmio Paraná. Desmontei um livro inédito e "Respirar" incorpora alguns poemas do livro que pretendia mandar, os que possuem perfil do livro migraram para esta publicação que vai ser o meu livro mais completo, por ter o início e o momento, e estes novos poemas fazem com que o livro contenha uns 80 poemas.
Agora é dar um tempo em tudo e trabalhar para que o livro venha à luz dos dias.
Aquela ideia inicial segue, de que o livro seja leve como ar e profundo como a substância metafísica que nos conduz: A alma.

Em capítulos que complementam a ideia de Respirar.

Respirar...


Um sorriso
Uma rosa adulterada
Uma lágrima
O céu dos poetas
O vento
Uma nuvem
O Tejo
Uma mínima estrela
Uma flor; Uma árvore
Signos

O livro terá edição limitada. Quem desejar encomendar entre em contato com barbaralia@gmail.com.

Sunday, June 29, 2014

Percurso Amoroso de uma Vândala - Mallarmargens



Encerrando a série - Rosas em Ruínas - no site Mallarmargens. Hoje as poesias do livro artesanal - Percurso amoroso de uma vândala. Link abaixo.
Agradeço a poeta Jandira Zanchi por publicar esta Trilogia.

http://www.mallarmargens.com/2014/06/rosas-em-ruinas-iii-percurso-amoroso-de.html

Respirar - Bárbara Lia


Do veludo da minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer

Maiakóvski





Maiakóvski vestia o céu sem cerimônia
Entardecer nos ombros - sua blusa amareça
O infinito atado à flauta de suas vértebras
A derramar delírios e sonhos pela Nevski
Tudo queimava em beleza revolucionária
E até hoje seu canto incendeia os poetas

Bárbara Lia in Respirar (2014)

(livro no prelo)

Wednesday, June 25, 2014

azul

O azul me arranha com cuidado como se alguém retirasse a pele do céu e mostrasse que mesmo os anjos sangram. O azul me incomoda como se a noite tivesse que ser da cor escarlate com estrelas de translúcido branco e nenhum verde ou cinza ou tons que lembrem esta cor da dor. O azul eu o lavo mil vezes até que fique assim: pálido. Inconsequente e mágico, da cor da primeira cor das manhãs, pois parei de considerar o azul amor, o azul atado ao paraíso. Não existe a cor do Paraíso, pois ele é luz e não conseguimos olhar a cor da luz, ao contemplá-la os olhos cegam. Talvez por isto eu comece a pintar de azul alvíssimo o título dos capítulos de RESPIRAR. Quero respirar o que está abaixo de todas as camadas supérfluas – a grande beleza – e raspar a aparência sub-reptícia do tosco que engana a tudo calar todo o som que domina e mesmo o coração que ele soe distante, como um bumbo rouco, suave, quase inaudível e a cor quase transparente. Há muito eu tenho brigado com o azul, este azul desmoronado, que não traz mais a paz nem a promessa... Só quero a luz, abrir o peito do homem amado para saber que calor aquele que voou de seu peito para meu coração e cobriu com uma camada calorosa de ternura de forma material por dentro quando ficamos fisicamente no mesmo ambiente, abrir seus olhos e derramar aquele oceano improvável que ele leva em silêncio, entrar em seu silêncio e respirar, e respirar e respirar, depois voltar à flor dos dias, às camadas do nada: os aplausos, as aclamações, as maratonas intermináveis a que se sujeitam os poetas. Retirar a pele, deixar que sangre o sangue de poeta em algum esgoto. Não somos nada, e só retirando o azul sobre o azul sobre o azul sobre o azul, para encontrar aquele quase apagado, instante-luz, onde é possível amar, poetizar, e derramar a última lágrima pela humanidade.


Bárbara Lia




imagem: Modigliani.


Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico - lançamento 03 de Julho



Estendo o convite para lançamento deste livro. Para quem está em Sampa. Segundo Willer - Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico - é sobre beats, rebeliões religiosas e poéticas, modernidade e tradição, mitologias, valor literário e muito mais. 

Sunday, June 22, 2014

Respirar - Bárbara Lia



Nesta primavera, para comemorar os dez anos da minha primeira publicação em livro, o livro "Respirar" chega como o décimo livro e o sétimo livro de Poesia. Ele abre com três poemas que citam - Leonardo Da Vinci - como homenagem ao primeiro livro "O sorriso de Leonardo" e traz 50 poemas escritos - em sua maioria - entre 2011 e agora, incluindo os sonetos pessoanos e a série "Musas de Acetileno". No dia 15 de dezembro de 2004, dia do aniversário do poeta Marcos Prado, nasceu meu primeiro livro. Dez primaveras depois "Respirar" terá edição minha. Se continuar em busca de editor vai acabar o ano. Alguns editores querem inéditos. Um livro inédito, sim eu tenho. Mas, provavelmente não será lançado agora. Outro editor nem responde se aceitam originais... Outro diz que primeiro preciso "trabalhar" - Paraísos de Pedra - não sei como dizer que não sei "trabalhar" um livro, só sei escrever livros. Quero um editor que publique meu livro sem custos. Com custos, eu encaro minha produção. Isto, ao que parece, diminui o valor da obra no Mercado. Sei lá. Dane-se o Mercado. Não sou a pessoa que sai em busca de críticas, prêmios e aprovações. Em 2003 eu "testei" minha Poesia, e depois disto eu compreendi algo: Não são amigos que definem quem é bom autor. É quem lê, o que não te conhece e opina pela obra e não pelo autor. Se aos estranhos teu verso não abala, então, repense. Eu lecionava em um bairro classe média, para todas as turmas do segundo ano do Ensino Médio. Lecionava História. Para que não quebrasse o ritmo, preparava a mesma aula para todos e queria manter assim. A turma "A" só tinha ninja. E sempre sobrava tempo durante as aulas, alguns minutos em que eles tinham executado todas as tarefas. Era realmente uma surpresa para um colégio da rede pública. Um dia comentei com o menino Andrew da primeira carteira diante de mim, que ficava revirando meus livros e cadernos, que eu escrevia poesia. Ele se voltou para turma e disse: - A professora escreve poesia. Pediram para que eu lesse. Eu li. No dia seguinte idem, e no outro e no outro. Passei meses abrindo a aula de História com uma Poesia. Li poemas de outros poetas atuais. Não sabia o quanto eles amavam ouvir poesia, até que um aluno já reprovado foi transferido do turno da tarde para aquela turma da manhã, que era a turma dos melhores alunos. Para justificar suas notas horríveis ele argumentou que ia reprovar, pois a professora de História lia poesia em plena aula. Na verdade não havia como ele recuperar suas notas. Era um aluno reprovado e complicado. Fui chamada pela direção e disseram para que eu ficasse com o programa de História. Nada de Poesia. Não queria colocar a culpa na direção e não quis falar sobre isto em sala, então, quando cortei bruscamente os poemas, a classe calou, murchou feito uma flor sem água, passei mais de uma semana com olhares atravessados e cobranças a fuzilar-me. Aquilo mostrou o quanto eles gostavam dos meus poemas, e de poesia em si. Antes de encerrar o ano letivo, chutei o balde, entrei na sala e disse que ia voltar a ler poesia, e tivemos mais algumas aulas com nosso rito. Era final de 2003, e decidi procurar um editor local para tentar uma publicação... Foi assim, foi este o teste. Foi para meninos de 15 ou 16 anos que eu li os poemas antes de publicar. Há alguns anos eu era cobrada pelo poeta Carlos Barros que insistia que eu tirasse os poemas da gaveta. E eu tirei. Na verdade eu nunca pensei na Poesia como meu caminho fatal. Aos doze anos eu sonhava publicar romances, aqueles livros que fazem as pessoas viajar sem sair do lugar. Sempre quis ser escritora. Tarde comecei com as publicações, mas, foi meteórico. Se olhar tudo que aconteceu nestes dez anos... Mas, naquele final de 2003, encorajada pelos meninos e meninas do 2° A, eu só não queria morrer sem lançar um livro. E sou grata sempre pelas nossas manhãs tão líricas, que deram coragem para que eu - saísse da gaveta - e publicasse. No ritmo médio de um livro por ano nasce "Respirar". 
Agora é escolher a capa e marcar a data - Primavera de 2014, em um dia qualquer, respiraremos.



Friday, June 20, 2014

Teu amor que oprime - Bárbara Lia






TEU AMOR QUE OPRIME


Quando o dia está claro e o sol conclama todas as nuvens para que elas amenizem o calor do Inferno que reina ao redor. Quando o Tejo se entrega à luz como as amantes às mãos dos amados e espargem gozo de espumas cintilantes. Quando os pássaros emudecem diante da espectral beleza de uma tarde, recordo Ricardo. Saio de casa com uma roupa leve, uma sombrinha adornada. As lágrimas cálidas bailando em meus olhos aveludados que ele perseguia. Meu olhar, uma corça que se esconde atrás dos lírios. Quando à tarde propícia, engalanada eu caminho sem pressa e retorno ao lugar da nossa conversa mais bonita. Quando estou próxima e sinto o perfume das águas, atiro longe a sombrinha e tiro os meus sapatos. Calculo o vôo de meus pés sobre a relva, cerro meus olhos e já sei quantos passos terá esta corrida, até estancar diante do Tejo e rememorar, como quem atravessa um túnel azul banhado de Amor.
- Abrigo do sol.
Ele disse. O corpo ereto, as mãos postas atrás do corpo. Uma a enlaçar a outra. Sem mover os músculos do rosto. Como se um pensamento escapasse por entre os lábios:
- Abrigo do sol.
No instante seguinte, sem cerimônia, soltou as mãos enlaçadas e estendeu a mão direita e seus dedos passearam por alguns instantes entre os fios dourados dos meus cabelos.
- Teus cabelos. É aqui que o sol descansa quando os raios se recolhem. Teu corpo foi feito para o dia. Mas, teus cabelos são noturnos. Lâmpadas estriadas transparentes, leitos do sol.
Duas estátuas de sal beirando o Tejo. Um tempo infindo esperando para ver um barco, um navio. E ele me narrava sua travessia, quando deixou o Rio de Janeiro para voltar ao nosso continente. Quando escurecia e eu sentia fome ele pedia para esperar um momento, estendia seu paletó na relva, sentava-se comigo. Começava o jogo de sedução que ele nunca conseguiu levar até o fim. Meu olhar de menina ele cobria com versos e palavras. Em minha boca carnuda ele pousava uvas e beijos. Eu preferia a quentura do seu beijo. Uma tarde quando o sol espalhava chispas no horizonte, pousou a mão suavemente entre minhas coxas. Foi o mais longe que chegamos de um momento íntimo. Senti dois dedos vasculhando rendas, senti um calor saltitando em minhas entranhas, levantei-me com o rosto ardendo em fogo e o convoquei.
- É tarde. Minha mãe me espera.
Ele baixou a cabeça como um derrotado e pelo caminho, enquanto a cidade escurecia, ele cobriu Lisboa e todo meu corpo com um canto triste de quem sabe que tempo não haveria para ultrapassar as rendas e vencer todas as outras barreiras de heras e medos que eu impus.
Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
Temia seu assédio, escondia-me no quarto e mandava a mãe dizer-lhe que eu estava em algum lugar. Uma missa. Uma festa. Um velório.
Com o tempo tive que cumprir de fato o intento de distanciar-me e viajei para uma Quinta. Quinta de amigos de um tio rico. Fiquei lá como uma deusa exilada. Minha mãe era a porta maior entre Ricardo e eu. Ela dizia que os anos todos que nos separavam fazia de mim uma tolinha - Pássara desprotegida nas garras de um falcão. Tremia de saudade. Respirava o Tejo em qualquer garoa. Cada gota d’água era nosso mais belo rio. E cada pedaço de chão era aquele lugar onde nos postávamos – estátuas - até baixar o sol. Talvez com a criada ou com alguma amiga piedosa, ele conseguiu o endereço da Quinta. Enviou a carta. O papel delicado, perfumado e sua letra espremida de médico e aquelas palavras. Guardadas para toda a vida, o poema-pedido, o poema-recado:


Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
                Já que o não sou por tempo,
                Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dadiva
                É verdadeira. Aceito,
                Cerro olhos: é bastante.
                        Que mais quero?


Feliz, fiz as malas. O comboio ultrapassou a eternidade. A demorada viagem por conta da minha ânsia. Ricardo recebeu-me à entrada do Hotel. Como uma dama resoluta eu quis dizer tudo aos borbotões. Ele me disse:
- Calma.
Deu um recado ao porteiro do hotel. Segurou meu braço, caminhou comigo em silêncio. Eu podia tocar o ar da ansiedade saltando de cada poro meu. No restaurante ele pediu vinho. O melhor vinho. Levou-me a um almoço para ouvir o que eu pretendia com aquela súbita chegada, depois de desaparecer por semanas sem ao menos dizer-lhe adeus. Olhando seu corpo e sua postura. Vasculhando seu rosto, suas rugas e suas olheiras. Em contraponto com a beleza infantil do meu rosto, descansado rosto de passar tantos dias em um pequeno paraíso. Pensei nas palavras da mãe. Era uma imagem de filha e pai. O corpo dele, no entanto, era forte, viril. A alma dele expandia em poesia. E eu o abraçaria, pra sempre. Em invernos de neve. Em tempos difíceis. Em horas inquietas de não entender sua escrita, sua alma sôfrega, sofrida. Passaria a vida ouvindo as lendas que ele contava. Como se tivesse um dia acampado no Olimpo e todos os deuses fossem seus amigos intimos.
Respirei fundo e propus um pacto.Eu esqueceria os mandamentos maternos, a recusa da família em aceitar-nos. Eu ficaria ao lado dele e seríamos marido e mulher. Para sempre. Eu lhe daria minha meninice e depois lhe daria meninos. A tristeza caiu sobre seu rosto. Nada entendi. Pela minha vida inteira nunca havia sido rechaçada. Ninguém havia dito não aos meus apelos amorosos. Cortejei garotos, esta é a verdade. Agora, diante de mim – Um Homem. Ele terminou o jantar em silêncio. Devolveu-me à porta da casa. Nunca mais encontrei o homem do Tejo. O médico que habitou meus dias com seu mistério e seu desejo. Que me disse adeus quando abri todas as portas do meu corpo-paraíso, da minha adolescência incandescente. Foi o mais frustrante encontro de amor de toda a minha vida. Arrependida por não me deitar com ele à relva diante do Tejo, deixar que suas mãos ultrapassassem a renda e os meus pêlos e me inaugurasse com a Poesia inteira que ele era, com a sua madureza que me seduzia.
Por isto eu corro ao Tejo em dia sem nuvem. Por isto eu me posto de olhos cerrados na esperança de encontrar quando abrir os olhos a imagem nítida e as palavras que brotavam dos seus pensamentos. Quando li seus versos impressos, muitos anos depois das tardes da minha Alegria, meus olhos lacrimaram e lamentei ser tão menina ao conhecê-lo e por ainda não saber colocar amor e liberdade na mesma cena. Deveria ter dito apenas – Quero-te! E burbulharia o Tejo aquecido pelo fogo do encontro. E ele sorriria ao deitar nos lábios finos a taça de vinho e ao me deitar naquela noite não seria na penumbra fria com mil interrogações.
Restou a cena: O poeta tateando meu corpo diante do Tejo e todo meu sangue incendiando, mais que aquele sol vermelho que, segundo ele, se deitou em meus cabelos.



Não quero, Cloé, teu amor, que oprime
Porque me exige o amor. Quero ser livre.

A esperança é um dever do sentimento.

do livro de contos - Contos portugueses *inédito*

Wednesday, June 18, 2014

Neera




O ano da morte de Ricardo Reis



Não cante o desprezo aos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto – Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto – Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa, à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto – Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

 
Bárbara Lia

desenho Bruno Braddell

Monday, June 16, 2014

Profanando Pessoa

A cada tempo de férias ou trégua que a vida proporciona, apego-me a um autor amado. Não como quem lê um livro entre os afazeres da vida. É uma espécie de comunhão. Foi assim em um julho frio com a leitura da vida de Camille Claudel, que engendrou "Para Camille, com uma flor de pedra". Um verão com Borges, ou mais de um ano dançando ao redor de alguma poeta contundente que faz nascer poesia e me ata para sempre em uma cúmplice troca imaginada de vida e sangue. Foi com Emily Dickinson, com Sylvia Plath... Há mais de dois anos passei um tempo com Fernando Pessoa, passei muitos dias mergulhada em seus heterônimos. Isto gerou um pensamento estranho. Quando Pessoa morreu, com ele morreu uma infinidade... Todo o infinito mundo de seus heterônimos. Senti em mim uma perda ampliada ao pensar nisto. E só então percebi a multiplicidade belíssima. Naqueles devaneios entre leitura e divagação, pensei em dar voz aos que perderam os múltiplos de Pessoa. E escrevi sonetos. Eu que raramente escrevo sonetos escrevi e foi uma seleção destinada a dizer adeus aos que morreram com ele, a morte física, no caso. O que restou foi eternidade, talvez por isto o verso que coloquei para abrir estes sonetos e contos escritos pós-diálogo com a obra de Fernando Pessoa fala disto: Do fim do futuro.


"Um dia,

lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."
Fernando Pessoa 


Em uma pequena homenagem, vou publicar o que escrevi, puro ato de criação, imaginando-me na pele de Lídia, Cloe e Neera. Apenas o soneto onde Neera despede-se de Ricardo Reis foi publicado no Jornal Rascunho. As duas outras musas de Ricardo Reis falaram de forma extensa, prolixa, em contos onde elas falam da perda. Do fim do futuro dele. Esta pequena loucura que é a Literatura, que permite que a realidade mude de lugar. Este conto é pura invenção. Nele, Lídia despede-se de Ricardo Reis. Nesta semana publicarei os textos das duas outras musas... 




    Foto - Mário Freitas


Lidia



Tão cedo apagou sua luz.
A fonte cessou de jorrar palavras.
O silêncio dele era o que eu mais amava.
E nunca ficamos em silêncio a não ser na hora do amor.
O silêncio era a hora do corpo.
Longe da cama, quando ele era alma, era uma interrogação incessante.
Quantas perguntas ele tinha ao universo?
Quantas vezes eu vi seu olhar perdido em um ponto?
No silêncio da cidade, quando os lampiões apagavam.
Nenhuma luz além da lua.
Nenhuma voz além do canto das estrelas.
Ele vinha sorrateiro pela calçada.
Pisando leve para não acordar ninguém pelas casas.
E um assobio fino ele emitia, para que ninguém reconhecesse sua voz.
Esgueirava-se pelas paredes até chegar à minha porta.
Porta de viúva solitária.
Porta que jamais se fecharia para o doutor que chega, vindo de um exílio, com o coração ardendo e com o corpo incendiado.
Dizia-me da vida e da sua fome de infinito.



Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
        Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
        Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
        Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
        E que eu a viva.

E a fome dele se estendia nas noites cálidas.
Alguém já amou?
Com corpo alma e cérebro?
Com tudo que temos em todas as fronteiras do ser?
Alguém já amou inteiro, sem reservas, sem pudores?
Ah! Quem assim amou sabe o poder dos amantes.
Ricardo era um menino gênio.
Carente de amor e de atenção.
Gostava de aparecer diante do mundo ao lado das gazelas fogosas.
Vestia sua impecável roupa e estendia o braço para uma moça clara de cabelos de fogo e saia como um deus.
Vi algumas vezes e virei o rosto.
Quis apagar aquela imagem para não macular nosso leito.
Se perguntarem qual o mais perfeito casamento eu direi que é aquele que se consuma na cama.
Ninguém é casado plenamente e vive um amor de plenitude, se na hora em que os corpos se tocam o estranhamento deita ao lado.
Nada em Ricardo me era estranho.
Nenhuma curva de seu corpo, nenhum odor.
Nada nele me atingia.
Tudo era perfeição.
No final, quando brilhavam seus olhos mais que a estrela matutina, eu sabia que seu silêncio dizia daquela mesma sensação.
Os seus mais secretos medos ele me confessava.
De mim ele sabia pouco.
Do meu ofício de bordar, que era um hobby.
O meu casamento que findou com a morte do capitão de uma fragata.
E a pensão vitalícia que eu recebia, permitia viver nesta alegria, fazer aquilo que se gosta.
Nenhuma benção é maior que esta – Fazer o que se gosta.
Gostava de bordar as toalhas finas.
Gostava de ir separando os fios de ouro para adornar a gola de uma camisinha de pagão que ia embalar o sono de uma criança venturosa.
Passava minha vida entre os tecidos finos, agulhas, fios.
Mesmo assim, nunca consegui juntar o quebra-cabeça que era aquele homem. Costurar os segredos dele até montar um mosaico.
Aquela força masculina que chegou a uma tarde, quando o vento insistiu em arrancar de minha cabeça o chapéu.
Quando meu salto alto não permitiu uma corrida rápida para resgatá-lo e vi chegar aquele homem alto, debruçar-se com elegância até o chão e me sorrir acenando com o meu chapéu.
Então eu me tornei – Lidia, a confidente.
A conduzi-lo por uma Lisboa que já não era tão igual a que ele deixara para viver no Brasil.
Ainda tinha resquícios de sol tropical em sua face.
Ainda sorria todos os dentes quando chegou com a alma salpicada de uma centena de almas felizes.
Dizia de um povo feliz, de um lugar de sol e luz.
Nada que pudesse impedir seu regresso.
Beijar Lisboa e viver aqui.
Uma tarde, quando eu tinha uma encomenda, ele seguiu sem mim.
Um pequeno barco a remo e foi remar no Tejo.
Dizem que desapareceu no Horizonte, sem explicação.
No meu coração as poesias que ele atirava ao vento na primavera mais feliz da minha vida.
Para sempre aquela certeza de que ele poderia retornar, com a roupa molhada e o corpo ardendo.
O mesmo corpo ardente que me levou ao céu...

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.               


Conhecendo Ricardo, conheci o fingimento dos poetas.
Sua aura platônica era disfarce.
Por amar os deuses ele construía mitos.
Ele – o próprio mito.
O homem não combinava com suas palavras.
Nada nele era tão alienado e nem tão elevado.
Não era nihilista.
Não contemplava o mundo e aproveitava o dia.
Ele ardia o dia, inquiria o mundo, ansiava viver gota a gota, e vivia.
Tudo que da alma jorrava caia pelo corpo, e o corpo seu era todo amor e desejo de vida. Desejo que toquei e alimentei.
No entanto, a palavra é o Poder.
E assim ele ficou para eternidade.
Com esta personalidade adulterada.
Não me importo.
Conheci o potencial do homem inteiro.
E bebo suas palavras mentalmente, enquanto bordo.
Não estava preparada para aquele Outono.
O outono que o levou de mim, para sempre.


Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
        Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo actual que as folhas vivem
        E as torna diferentes.



 Bárbara Lia - do livro inédito - Contos Portugueses

Saturday, June 14, 2014

Rosas em Ruínas II - Femme! - Bárbara Lia no site Mallarmargens




Link para a segunda publicação da trilogia - Rosas em Ruínas:



http://www.mallarmargens.com/2014/06/rosas-em-ruinas-ii-femme-barbara-lia.html

Salva Bicho


Revista Biografia



Na Revista Biografia a reedição da antologia virtual do poeta Rubens Jardim: As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira. Alguns poemas meus na 14ª Postagem da Série Inicial, agora no link abaixo:

http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2014/06/as-mulheres-poetas-na-literatura_10.html

Tuesday, June 10, 2014

COM A BOCA SUJA DE POESIA, Márcia do Canto & Sidnei Schneider,






COM A BOCA SUJA DE POESIAMárcia do Canto & Sidnei Schneider,
13/06 (sexta) , Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, 19 horas
Aedo - Festival de Poesia
Entrada franca

A atriz Márcia do Canto e o poeta Sidnei Schneider apresentam, no dia 13/06 (sexta-feira), o recital performático “Com a boca suja de poesia”, às 19 horas, no palco do Auditório Barbosa Lessa, do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV), sito à Rua dos Andradas, 1223. Com entrada franca, o espetáculo integra a programação do festival de poesia Aedo, patrocinado pelo Ministério da Cultura.

Os poemas que embasam o roteiro, divididos em blocos temáticos, buscam instigar a reflexão e o prazer estético através da ironia, do humor e do inusitado. De autoria dos dois artistas, os textos tratam de relações humanas e visões de mundo, entre outros temas.

Márcia do Canto lançou pela Editora Projeto “O mundo de Camila”, história infanto-juvenil que foi também para o palco. Com o espetáculo, recebeu o Prêmio Tibicuera de melhor atriz. Co-autora da clássica “Bailei na Curva”, na qual também atuou, possui textos publicados no livro “Crônicas de Botequim”. Como atriz, participou da minissérie “Mulheres em Transe” e dos filmes “Netto perde sua alma” e “Verdes Anos”.

Sidnei Schneider, poeta e ficcionista, publicou os livros “Andorinhas e outros enganos”, “Quichiligangues”, “Plano de Navegação” e é tradutor de poesia. Recebeu o 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, da UFRGS; 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, da UFSM; e o Troféu Açorianos de evento literário. Iniciou no mundo artístico como ator do Grupo Porão de Teatro, vencedor de vários festivais e com circulação nacional.

Serviço:
Evento: “
Com a boca suja de poesia”, recital performático de Márcia do Canto e Sidnei Schneider. O evento integra a programação do festival de poesia Aedo, que acontece de 10 de junho a 15 de julho no CCCEV.
Local: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV) – Rua dos Andradas, 1223, Centro Histórico, em Porto Alegre. 
Data: 13/06/2014 (sexta-feira)
Horário: 19 horas
Acesso: aberto ao público com entrada gratuita.
Fotografia: Nina Nicolaiewsky, sobre graffiti de Jotapê