Friday, March 25, 2016

Poesia contra a guerra


Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no azul, como uma eterna vela!"
Masa estrela, fitando a luz, com ciúme:
- "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
- "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Machado de Assis

Tuesday, March 22, 2016

Março sempre prepara um abril despedaçado



.
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Reunir cacos da Pátria
Na enseada da Esperança
Para construir um molhe
Lembra estes olhos ônix?
Eram os olhos da dignidade
Coloque-os ali, ao lado
Dos braços fortes da verdade
Nestas horas é preciso blindar
O músculo pulsante
Endureça-o com o aço da paz
Sabemos o que a podridão faz
Já vimos este filme tempos atrás
Beije pela última vez o teu amor
Breve teu coração arderá
Na fogueira da ira que virá
Melhor morrer na enseada
Na pequena ilha da esperança
Que viver na larga lagoa pútrida
Com patinhos fazendo plim plim
(isto, realmente, não é para mim)

Bárbara Lia


Gerda Taro (Foto: Robert Capa)


Sunday, March 20, 2016

Carol




A trilha sonora é linda. Algumas cenas lavadas por neblina, ou por uma espécie de - matéria do sonho - uma nitidez escassa que enlaça em uma aura encantatória. A certeza ao final de Carol é que não mudou quase nada a forma como o mundo age, neste desnível de olhar, onde os homens tudo podem e as mulheres quase nada. A salvação é o que o amor ainda brota, apesar de tudo, em longos olhares, estes que duram 5, 4, 3, 2, 1 segundos... E neste instante tão mínimo na régua do tempo, dá para desvelar um mundo. Carol é para os que já mergulharam - um dia - no olhar do amado (a)... único espaço maior que a palavra... Sempre bom ver Cate Blanchett, incrível neste filme de Todd Haynes... um oásis meio ao caos.

Saturday, March 19, 2016

ciudad sin sueño



Os homens que não sonham
(Bárbara Lia)


No duerme nadie por El cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de La luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan.
(Federico Garcia Lorca – fragmento de Ciudad sin sueño)




Os homens que não sonham demolem pontes catedrais parques cânions praças
Os homens que não sonham incineram as rosas cálidas das núpcias da moça feia
Os homens que não sonham afogam pássaros em nuvens escarlates enquanto riem
Os homens que não sonham pisam prímulas pálidas em varandas centenárias
Os homens que não sonham pintam máscaras de dor em crianças, com traços de Dali
Os homens que não sonham queimam o violino roto do último anjo que passou aqui
Os homens que não sonham armazenam cédulas, pepitas, moedas, esmeraldas, royalties
Os homens que não sonham caminham vestindo Armani olhos foscos atrás dos óculos
Os homens que não sonham trituram sonhos dos reais sonhadores como quem respira
Os homens que não sonham pisam pontes de gelo e alçam asas em pássaros niquelados
Os homens que não sonham nunca leram Lorca, não sabem de Las criaturas de la luna
Os homens que não sonham pisam flores de cerejeiras - tapete aveludado - e nem rezam
Os homens que não sonham odeiam flores nascidas pós-bombas em beleza voluntariosa
Os homens que não sonham ignoram iguanas vivas seus dentes de serra e olhar de vidro
Os homens que não sonham não veem os dentes afiados de iguanas tristes na pedra fria
Os homens que não sonham ignoram a mordida de iguana e ignoram que não sonham
Os homens que não sonham fecharam a via estreita que nos aproxima de um éden
Os homens que não sonham não amam iguanas, cidades, pedras, éden, cerejeiras, anjos
Os homens que não sonham não amam nada, não tocam nada, não vivem nada...


Thursday, March 10, 2016

a rosa selvagem




tempo de luta
das rosas rebeldes
não aquelas dos buquês
falo da rosa selvagem
aferrada ao solo
pra nunca mais ser morta


Bárbara Lia
Pagu, 1933 by Candido Portinari

Eu sou Poeta

  •     

  • Biblioteca Alceu Amoroso Lima - CSMB
    Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros
    São Paulo

    Dia 19 março, sábado
    Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
    Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)

    10h: Oficina Lendo Mulheres: a potência da poesia feminina
    Com Jeanne Callegari
    Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas. 

    14h: Abertura

    15h: Clube de Leitura
    Mediadoras: Lubi Prates e Pilar Bu
    Livro: Do desejo, Hilda Hilst
    Convidada: A confirmar
    Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas. 

    16h: Tradutoras
    Mediadora: Francesca Cricelli
    Convidadas: Ana Cecília, Sarah Valle e Maurício Santana Dias

    18h: Sarau microfone aberto

    Dia 20 de março, domingo
    Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
    Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)

    10h: Oficina de fanzine: as línguas e os idiomas das mulheres
    Mediadora: Julia Francisca autora da zine [nectarina] 
    Oficina para mulheres conhecerem a linguagem do fanzine e aprenderem a publicar seus escritos com autonomia. Espaço de diálogo e troca de escritos, referências visuais e técnicas de publicação. O objetivo é reconhecer as diferentes vozes das mulheres e encontrar meios para que nós possamos falar para o mundo, publicar textos, etc.
    Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas. 

    14h: Poesia é resistência?
    Mediadora: Juliana Bernardo
    Convidadas: Tula Pilar, Jarid Arraes, Geruza Zelnys e Jenyffer Nascimento 

    16h: Mulheres e invenção
    Mediadora: Maíra Mendes Galvão 
    Convidadas: Fabiana Faleiros, Luisa Nóbrega, Julia Mendes e Dirceu Villa

    18h: Microfone aberto

    19h: Encerramento: abraço geral

    * * * * * * * 

    https://eusoupoeta.wordpress.com/

Saturday, March 05, 2016

mundo caduco


Agora, quando digo: 
— Sou Poeta
A voz trava na garganta. 
Je suis poète?
Não posso mais escolher como Drummond
“Não serei o poeta de um mundo caduco” 
Carlos, não há mais escolha: 
O mundo caducou

Bárbara Lia
Foto: EPA/Herbert P.