Monday, April 18, 2016

a escória







na tribuna falam em nome de deus
os que não têm noção
do que é O Sagrado
na tribuna homenageiam o demônio
que colocava ratos em vaginas
e arrancava os seios das mulheres
na tribuna sorriem ao cão mor:
olhos de lince, cabelo lambido
sádico riso lavado em enxofre
(nesta manhã foram encontrados
milhões de ratos mortos
atiraram-se ao rio profundo
para não serem comparados
à escória do mundo)
Bárbara Lia

Monday, April 04, 2016

inédito

                                                   
      (foto by Angie Machado) - Semana Literária SESC - na mesa com Chacal



                                                         agora finalmente estou renunciando ao pacto
                                                         rasgo o contrato
                                                         devolvo a fita
                                                         Hilda Machado

                                                                                É crua a vida. Alça de tripa e metal.
                                                                                Nela despenco: pedra mórula ferida. 
                                                                                Hilda Hilst


Se eu me chamasse Hilda seria poeta irônica
Evocaria antigos deuses - júbilo amorável
Desfaria contratos usando a Poesia e diria
Nuvem de organdi – metáfora acariciante
Se eu fosse Hilda deixaria a casa nas manhãs
Adentraria a floresta das palavras
Voltaria com o almoço, o jantar e a sobremesa
Viveria do verbo, devoraria nas noites:
Megatério & Ilharga
Trufas & Mimesis
Floema & Mórula
Minha alma jamais teria fome
Escreveria como quem habita outro mundo
O mundo das rainhas com senso de humor
Viveria tal qual agora - sem amor -
Mas, com um vendaval de mistérios
Costurados na saia de poeta
Não sou Hilda Machado ou Hilst
Sou bárbara poeta que teima
Em cantar o feminino com cuidado
Para que todos entendam da palavra – Mulher –
O significado

Bárbara Lia

A Revista  Carlos Zemek Arte e Cultura publicou três poemas meus. O poema acima, inédito, e  o poema - quando eu quis atravessar as grandes águas - integram meu próximo livro, que trará inéditos em livro. 

link para a postagem da Revista:

http://revistacazemek.blogspot.com.br/2016/04/barbara-lia-quando-eu-quis-atravessar.html

Sunday, April 03, 2016

Respirar


A flor dentro da árvore



"Uma migalha de mim”

Teço
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu

Teço
Uma nuvem lassa
Cortina que qualquer mão
Atravessa

Teço
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu

Bárbara Lia
in A flor dentro da árvore (2011)

Tem um pássaro cantando dentro de mim




Giz rendado

O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado
Bárbara Lia in Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011)
Página 06

A última chuva




TRISTESSA
.
ame quem te ama e conheça o inferno
fogo a fogo no porão do medo
fogo a fogo no cabelo da Medusa
atiçando cobras
atiçando demos.
ame quem te ama e conheça a dor
amputar pernas braços sexo e coração.
ame quem te ama
nesta luta cega
boitatás no milharal
não sobra espiga sobre espiga
e o espantalho, mudo, tira o chapéu
e dança triste no chão de palhas.
ame quem te ama e conheça o inferno
dois sustos travestidos de sons
querendo narrar o que o humano não narra
escrevendo em aramaico o avesso do vivido.
ame quem te ama
e se arrependa de viver rezando pelo amor.
ame quem te ama
e descubra
a agulha fina e gelada do olhar
o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca
o que é não sentir o corpo do outro
cópula de luz.
o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso
e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer
onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos
Bárbara Lia
A última chuva
Mulheres emergentes (2007)

O sal das rosas




DEUS NO ORVALHO
(para Jorge Luiz Borges)

Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.
Bárbara Lia in O sal das rosas (lumme editor)

este poema também integra a Antologia - Arqueologia da Palavra Anatomia da Língua (Literatas - Maputo)
**Livrarias Cultura ou via editora**

Noir






           Enamorar-se é criar uma religião cujo Deus é falível?

                                                 
Jorge Luis Borges

            



Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco.
Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome.
Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos.
Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado.
Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam.
Creio na morte, la petite-mort que viverei em teus braços.

Bárbara Lia (Noir - 2006)




Texto Criativo sobre "NOIR", da poeta e historiadora Barbara Lia

por Luis Serguilha
A Sonoridade dos tigres das metáforas mobilizam as homenagens solares e a Barbara encaminha as linfas dos elementos energéticos até à desvairada obscuridade das criptas. As palavras como cordas expansíveis desencarceram os pássaros loucos da sua interioridade. NOIR símbolo da febre submarina e dos silêncios das escamas incandescentes que flutuam sobre as abóbadas da angústia e do medo. NOIR PALAVRA INESGOTÁVEL tentando completar a Barbara em sucessivos renascimentos. O lugar inaugural da catarse canta a solidão da rebeldia e transpõe a diminuição dos abismos como a verdadeira arte da mudança. Barbara restaura os magnetismos das palavras para iluminar a decisão primordial do desejo, libertando o silêncio e a vida absoluta porque quer a manifestação sensual na incorruptibilidade do ser.
Barbara diz ´´que é a palavra´´, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. Os vestuários das inflexões atravessam os instantes do cromatismo das feridas, este circulo de crisálidas alucinantes que BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa "que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta".

.
Luís Serguilha, poeta português, nasceu em Vila Nova de Famalicão, em 1966. Publicou, entre outros livros de poesia, O périplo do cachoO outroEmbarcaçõesO externo tatuado da visãoLorosa’e boca de sândalo e A Singradura do capinador

O sorriso de Leonardo (2004)




Entardecer lilás
brisa de raro fôlego
do deus das nuvens.

Pés descalços
liberdade de estar amando
na era dos mísseis.

Bárbara Lia