Sunday, May 22, 2016

poetry!




não roubarão esta fagulha afoita
que nada dentro da mulher inteira
não tirarão o ar da agonia densa
- viver atada ao umbigo de deus -
não alcançarão minha alma libélula
para aprisionar em mesmices diplomáticas
ainda piso o primeiro rio
ainda canto na rua escura à luz das estrelas
e puxo o fio que desata as sempre vivas
danço na chuva de suas folhas brancas
não roubarão o fogo alucinado
que dorme e acorda - sempre - a meu lado
eu sou o que sou - habitante de um céu
estraçalhado -
caos, poema e santa rebeldia
não roubarão esta fagulha afoita
pra colocar no lugar uma farsa fria
Bárbara Lia
imagem da poeta patti smith

Wednesday, May 18, 2016

breve anotação em tempos de barbárie...


Dizem que a cultura é descartável, que só importa trabalhar e não pensar... Medo que tem este vampiro interino é desta força... Que bela forma de exorcizar esta figura de filme de terror... Estes são

os "vagabundos" que pessoas estão a ofender por aí. Um grão de areia no deserto da beleza - o que os músicos do Rio criaram ontem é só uma mínima mostra de quantos monstros vivos estão neste pais a criar para o palco, para a tela, para o livro, criando as canções da vida. O alicerce da cultura que vai mostrar quem fomos neste tempo... Somos sim, os que criam filmes e vida no palco, os que escrevem o que seus bisnetos vão ler e sentir aquele reconhecimento humano dentro. Que tempo triste este em que os que dão alma e dias na construção de algo intangível são obrigados a ser destratados e seguem a construir, a esculpir e a poetizar este tempo bárbaro, cruel, sem encanto, onde as coisas pequenas e tacanhas dão a ordem: calem-se, vagabundos.
Atrás da sombra dos séculos ofendem cada um que optou por trabalhar o pensamento, retirar da alma os elementos como um alquimista perpetuar o que há de mais humano em nós...


Monday, May 16, 2016

As Filhas de Manuela




Manuela acredita que o orvalho é lágrima das estrelas. Lava suas toalhinhas íntimas e depois de secas espera pelas lágrimas das estrelas com o desejo de esculpir em seu sexo a força vibrante e estremecida dos astros. Nas noites deita as toalhinhas na pedra escura diante da porta da cozinha.  Lenço rústico estendido – cor de algodão cru – na madrugada calada. O vento ondulando o tecido ao clarão da lua - um mínimo mar de algodão ondulado. Nas manhãs ela recolhe o pano refrescado pelo vento virgem. Sente na pele o atrito das estrelas em céu rascante – seu sexo inexplorado.
Sempre sonhava com uma estrela raspando o teto do mundo e acordava com aquela imagem na retina - invisível tatuagem que só ela via pregada nas paredes caiadas da casa. Gosta de sentir colado ao seu corpo virgem o tecido suave com a aura seca da lágrima evaporada, pernoitada lágrima de uma estrela qualquer.

As Filhas de Manuela - Bárbara Lia
Menção honrosa na primeira edição do Prémio Fundação Eça de Queiroz (Portugal)
Imagem: Ocais do porto de Paranaguá - Miguel Bakun
**Manuela é a personagem que inicia este romance no ano de 1839... Ela poderia emergir subitamente de uma tela de Miguel Bakun, nosso pintor mais incrível... Uma menina que se envolve com um homem da Armada Nacional que veio ao sul combater os Farrapos e o encontro dos dois engendra uma saga de mulheres amaldiçoadas que levam atrás de si uma sombra da cor do sangue... Realismo mágico, protagonistas femininas como tem sido sempre em meus livros. As mulheres da estirpe de Manuela dirão da vida, do amor, da morte, conquistas, saudade, sacrifício... Atravessando séculos, bruta aventura em prosa**

Thursday, May 12, 2016

Querida Presidenta...




Há muitos anos toquei o ódio contra tua alma guerreira. Começou na tua primeira campanha à Presidência da República. Cresci em uma família conservadora e direita radical. Naquele ano eu estava com minha decisão tomada desde o início, era vital seguir com as políticas sociais implementadas por Lula. Tirar milhões da linha da miséria e da pobreza, dar dignidade às pessoas, permitir que os jovens pobres tivessem acesso às Universidades, ajudar com uma mudança jamais vista era e sempre foi um sonho meu, uma espécie de tempo de felicidade que sofreu um duro golpe no dia de hoje. Estava eu, em uma manhã, tranquila e calma em minha casa quando abri um e-mail enviado por algumas parentas. Era o mesmo e-mail com a mesma mentira. Era o começo daquela patrulha do ódio que planta coisas irreais, repetem à exaustão até convencer os que não tem um pensamento político sólido. O e-mail dizia que você era uma terrorista, uma ficha do dops, uma sequência de noticias sobre sua vida de luta pela liberdade. Sim, eu conhecia a tua luta e esta frase resume tua vida para quem conhece História. A "terrorista" não poderia governar o País. O e-mail deveria ser ignorado como sempre faço com os da família para não brigar com sangue do meu sangue, No entanto, sob impacto daquela invasão querendo impor-me uma ideia mentirosa, respondi bruscamente e criei atrito com irmã e primas. Seguiu um tempo onde - nunca antes na história deste país - alguém foi tão severamente atacada. E ao ver-te hoje a sorrir neste momento tão crítico eu fico pensando em antigas heroínas, e nas lendas que meu pai contava. Existe um lugar onde a força reside. Longe de filmes hollywoodianos e lado negro ou não da força, longe das coisas de agora que dissolvem líquidas sempre e em tudo, existe um lugar onde a força reside. E algumas almas tocam este lugar. Algumas pessoas sabem que existe um fator que a tudo sublima, e existe um ideal onde podemos amarrar nossos navios à salvo. Independente do futuro, do hoje, de toda nossa impotência diante da sanha e do ódio das almas pequenas, é la que você caminha, é onde você chegou. Li sobre o limite da dor humana. Quiçá aqueles antigos dias nas mãos do carrasco a tenha conduzido ao patamar inatingível. E você soube que bastava seguir o coração para encontrar a paz bendita dos fortes que vivem por amor. Obrigada Dilma por toda a sua dedicação desde sua adolescência. Obrigada por ter olhado os meninos, jovens, mulheres e estabelecido um tempo belo, dói saber que muitas conquistas irão para o ralo, mas, nos reergueremos meio aos escombros e este ideal de igualdade, de justiça social e este tempo tão raro que fez com que o Brasil fosse olhado com respeito em todo mundo, ele há de voltar. Querida e ainda nossa Presidenta, conte com nossa força e nossa luta.

Monday, May 09, 2016

Poemas na Revista Mallarmargens



No link abaixo os poemas publicados na Revista Mallarmargens. Uma seleção atual de poemas meus, alguns estão no livro Respirar, outros estão na seleção do próximo livro em organização. A Poesia segue, e algumas pessoas acabam por incorporar este papel essencial, publicar os novos poetas e sua
produção. Sempre grata à poeta Jandira Zanchi pelas publicações.



AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA - Rubens Jardim




Em Junho de 2011 o poeta Rubens Jardim iniciou um mapeamento das mulheres poetas na Literatura Brasileira, belo projeto que descortina um cenário pleno de vozes e estilos de várias épocas, quiçá o mais completo arquivo de poesia escrita por mulheres no Brasil. As postagem atingem neste momento o n° 75, a cada postagem figuram 04 poetas neste momento em que somos trezentas fica esta alegria e a expectativa de que haja igualdade nos meios literários, prêmios, espaço e reconhecimento... A Poesia segue... Seguimos

link para a página:


Texto de Rubens Jardim na abertura das publicações das mulheres poetas.

AS MULHERES NA LITERATURA BRASILEIRA

(Rubens Jardim)


Não faz muito tempo que elas deixaram a cozinha, os crochês e as costuras. Hoje elas são executivas, médicas, empresárias,  políticas , professoras --e até presidentes. Mas já faz tempo que elas ingressaram na literatura, onde fizeram e fazem um excelente trabalho. Vamos dedicar este espaço a divulgar o trabalho das nossas poetas. Antes, porém, leiam este histórico.
Quando fez, em 1928, a famosa palestra sobre a presença da mulher na literatura inglesa, na Universidade de Cambridge, Virginia Woolf jamais poderia imaginar que a famosíssima Britannica iria ignorar sua posição feminista e omitir de sua bibliografia o livro A Room of One’s Own, onde foi publicada a conferência e outros escritos.
Como se vê, não é privilégio tupiniquim o esquecimento proposital da contribuição cultural da mulher em vários campos do saber e das artes. No caso específico da literatura, a questão é mais séria ainda. Afinal, tanto Silvio Romero como José Veríssimo –famosos historiadores da nossa literatura no século 19-- registraram pouquíssimos nomes femininos.
E na História Concisa da Literatura Brasileira –a mais usada no ensino atual— o prof. Alfredo Bosi só menciona quatro nomes de poetisas: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa Amália. Mesmo assim, somente a primeira mereceu biografia e algum destaque.
Mas essa ausência, que passa uma idéia equivocada da influência feminina na cultura do país, vem sendo corrigida através de pesquisas, teses, livros, artigos e ensaios. Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizado por Zaidhé Muzart, foi o pontapé inicial  em direção a uma reavaliação desse nosso patrimônio literário e cultural.
Publicado em 2000, o livro, com cerca de 1000 páginas, revela nada menos que 52 autoras e mostra nomes que nunca ouvimos falar —resultado desse trabalho paciente de “revolver escombros e garimpar entulhos” conforme texto introdutório da própria autora, Zaidhé Muzart
É inquestionável o mérito desse trabalho --e de um sem número de outros que foram surgindo sobre as questões relativas à mulher. É crescente, sem duvida,  a  presença delas em todas as áreas das atividades humanas. Hoje, temos até uma presidente mulher. Quanto à literatura mais recente, não podemos nos queixar. Existem muitas escritoras mulheres e elas também se apresentam em dissertações, teses de doutorado, pesquisas apresentadas em congressos e outras publicações.
Sem a pretensão de desenvolver uma avaliação desse panorama, utilizo este espaço para prestar uma homenagem às mulheres. Mais especificamente: às mulheres escritoras. Ou mais especificamente ainda: às mulheres escritoras de poemas. Afinal, por incrível que pareça, existe uma nítida predominância em nossa literatura de escritoras que se dedicaram à prosa, notadamente ao romance.
Caso de Rachel de Queiroz, por exemplo, a primeira mulher a ingressar, em 1977, no clube do bolinha que era a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, a ABL acolheu duas outras prosadoras consagradas: Dinah Silveira de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. O incrédulo leitor poderá perguntar: e as nossas poetas, onde estão?
É curioso observar, mas mesmo em épocas mais recentes, as escritoras continuavam sendo preteridas. Um exemplo é a inexistência de qualquer nome feminino vinculado à literatura na Semana de 22. A exceção é Cecília Meirelles, que  já havia publicado Espectros, em 1919 , Nunca Mais e Poema dos Poemas, em 1923, e Baladas para El Rei, em 1925. Assim mesmo, ela não participou da festejada Semana.
Só para não ficar sem registro, relaciono aqui alguns nomes femininos. Alguns são desconhecidos até de especialistas, outros conquistaram alguma visibilidade. Mas todas essas escritoras desempenharam um papel que não se restringia às funções de esposa, mãe e dona-de-casa. Elas foram à luta e deixaram  seu recado --para além do recato.
São elas: Auta de Souza, Maria Firmina dos Reis, Narcisa Amália, Francisca Júlia, Cecília Meireles, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Gilka Machado, Lúcia Miguel Pereira, Tatiana Belinky, Cora Coralina, Hilda Hilst, Dora Ferreira da Silva, Nísia Floresta, Adélia Prado, Barbara Lia, Renata Pallotini, Neide Arcanjo, Carolina Nabuco, Maria Rita Kehl, Adalgisa Nery, Lupe Cotrim, Astrid Cabral, Eunice Arruda, Helena Armond,Mirian de Carvalho,Raquel Naveira,Thereza Cristina Rocque de La Motta, Angélica Torres, Beatriz Bajo, Nydia Bonetti, Jacineide Travassos,etc.


Meus poemas entraram na seleção de n° 14

Sunday, May 08, 2016

mãe

 Minha mãe Patrocínia com minha filha Paula
Minha mãe com minha filha Tahiana
Tahiana com meu neto Arthur ao colo, eu, Paula e Thomas, no
lançamento de Paraísos de Pedra (Penalux) - Minha família!




Desde menina sonhava ser mãe e escritora. Aqui estou, ladeada de filhos, neto e livros... Gracias a la vida que me ha dado tanto, os meus filhos: Paula, Tahiana e Thomas e o meu neto Arthur.
Há quase vinte e cinco anos sem a presença física da minha mãe... 
Nas imagens: três gerações, onde sou elo de uma corrente... Minha mãe (Patrocínia) com minhas filhas, eu e meus filhos, a minha filha Tahiana com meu neto (lindo!) Arthur... É a vida, é bonita, é bonita...**



***

se eu pudesse ter o presente impossível
pediria os olhos mel de minha mãe
eles me viam inteira
- um catavento topázio eclipsando o cinza.
sem o mel
que me cobria...um dia sou cinza
em outros, catavento.
e entre eclipses sazonais:
topázio.
Bárbara Lia in A última chuva (2007)
.

**


O que me pertence
.
O que é maior que eu
faz parte de mim.
A chuva cabe no mar,
a areia no deserto.
Sempre foi assim.
O que é maior que eu
abraço feito fosse Deus.
As coisas pequenas vazam.
Choro por elas, uma noite talvez.
No outro dia
sol clareia a alma.
Descubro o que é meu
para sempre. Os sonhos, as lembranças.
Nossos passos calmos na areia.
O riso dos meus filhos, isto me pertence.
Bárbara Lia