Monday, February 27, 2017

Cabocla


acho tão bonito ser cabocla
eu sempre achei uma benção da lua
ser uma cabocla da terra brasileira
morena pele canela olhos de graúna


acho lindo ser cabocla
mistura de branco e índio
no grupo escolar rústico
aprendi a equação das raças
como se fosse tabuada
e o resultado eu lia e sorria
= cabocla

acho que não penso em pele
acho que penso em palavra
cabocla é palavra estelar

dizer cabocla é como traçar
as asas dos pássaros
as flechas e os arcos
as cabanas os riachos

eu sou cabocla
por ser por querer
cabocla até morrer

Bárbara Lia



...

fotografia -eu,  aos vinte e dois anos no Clube 10, na cidade de Campo Mourão (PR)

Wednesday, February 22, 2017

Como costurar água - Bárbara Lia








O amor costurou sua boca 
O amor  atou suas mãos
O amor cegou os seus olhos
O amor neutralizou os aromas
O amor tornou insípido o céu
O amor deitou-a na relva
E a inoculou com o silêncio
Em  uma noite rasa no Ocidente
Pós-longas noites desorientadas
Ela soube, enfim:

Para dizer de amar

Toda palavra é nonsense









O Amor é uma explosão sinistra



Nunca fui de ninguém
O mundo me entedia
A pergunta antiga
A febre do homem:
— Viver pra quê?
Nunca vi inteiro
Os que me amaram
Seus corpos
Dobrados sobre mim
Sufocava-me
Não desacreditei do amor
Simplesmente
Nunca o vivi plenamente
Isto o deixa vivo
Como um amanhecer
Virgem e apocalíptico
Esperando para romper
Em uma explosão
Sinistra







Como costurar água
Bárbara Lia

(livro em construção)

imagem - Helen Levitt

Tuesday, February 07, 2017

Sol de Coyoacán - diálogos com Frida Kahlo - livro artesanal

Como eu sei que sou Você?
Ouço uma incessante chuva no pátio, mesmo que não exista pátio. Uma parte minha vive na Casa Azul, ainda. Ouço uma incessante goteira na pedra quando estou entre o sono e o despertar.

Como você e todas as mulheres de sangue indígena, levo esta postura de rainha, o queixo erguido, o olhar que nunca se dobra, nunca em nós uma postura de subserviência. Temos o chão e a floresta e os segredos dos ancestrais. Os teus são toltecas e os meus são da raça Tupi. Nossa pele canela conhece o sol e não se irrita com seus raios e nosso amor pela lua vem de longe de muito longe. As estrelas amam estas mulheres das tribos e temos sempre uma que escolhemos para ser nosso farol. Nunca soube a tua, mas a minha é a estrela Vésper.


Sol de Coyoacán - Bárbara Lia




Em 2010 iniciei a edição de livros artesanais, dei a este projeto delicado e muito amado por mim, o título  - 21 gramas - livros com 21 páginas (em média), formato 10,5 x 18 cm e o detalhe em crochê para juntar as páginas. 
Sol de Coyoacán reúne meu diálogo - em prosa e verso - com Frida Kahlo.
O preço de cada livro é R$.21,00 - + postagem - R$.7,00.
Iniciei uma promoção por 15 dias.
Quem comprar um livro artesanal recebe dois e pode presentear outra pessoa que ame poesia.

Mais detalhes e vendas no meu e-mail
barbaralia@gmail.com

Sunday, February 05, 2017

da desumanização...




a desumanização acontece ao ritmo do plim-plim, há décadas
orquestra subliminar com hálito de goebbels nunca cessa
os ouvidos agudos não suportaram e desconectaram satã
enlear os mais simples em estratégia miserável e cruel
o exercito maior inocente e alguns cientes tão podres quanto
quando a onda fascista a tudo engole e cai a beleza humana
quando no chão toda a poesia as rosas as notas musicais
toda a serpentina lírica dos carnavais riso puro e auras de antes
quando no chão os rios de suavidade evaporam ao sol sem nexo
fica esta espada no coração-pedra esta espada enfeitiçada
ninguém mais tem o direito de sangrar ainda mais nosso coração
nosso sangue só pela grandeza, só pelas mãos de um Arthur
só mãos de amor para retirar a espada, deixar vazar o sangue
só a beleza vale nossa dor, então vamos cessar o sofrimento
esquecer o que não vale nossa lágrima, perdoar, seguir, lutar
reconstruir - as rosas, os rios, as marchinhas delicadas, os
lábios das primaveras inenarráveis, as mãos que acenam luz
há um mundo que nos atinge por ser o rosto que já conhecemos
misto de hitler, temer e carrascos, coisas que destroem as coisas
a desumanização vem acontecendo lentamente e alguns já viram
os que viram hoje, os que sabem agora, os que veem o absurdo
de se agredir quem morre, desejar que morra, o escárnio, horrível
a desumanização é hipócrita e podre atrás de um rosto colorido
a desumanização - uma fumaça invisível e inodora a enlear tudo
a desumanização que nos atirou nesta patamar tão triste...


Bárbara Lia 

Thursday, February 02, 2017

Marisa Letícia Lula da Silva (1950-2017)




Marisa Letícia, companheira de Lula, mulher guerreira, ex-primeira dama do Brasil descansa. Sei de forma abrandada da sua dor, aqui no reino das insignificâncias - a minha insignificância e a de alguns que me detestam. É difícil suportar as falas injustas, sim. O corpo adoece. Não posso imaginar o que é ser uma pessoa simples que sai de um mundo onde pode tocar cada coisa ao redor para estar ao lado de uma pessoa histórica como é Lula. Os mitos morrem. Os poetas que você ama como se fossem deus, morrem. Morrem os grandes homens e mulheres que você admira e você sabe: é o ciclo. Você entristece, mas não chora. Nada escapa ao fim, e esta dúvida sobre o fim de Marisa Letícia, este sentir na pele de forma abrandada o que ela sentiu em fúria reverbera a certeza de que é preciso ser forte diante dos que odeiam, mas até para ser forte existe um limite. 

Não posso dar nada além da lágrima, as lágrimas todas.

Descanse em paz... 
Dos que odeiam não falaremos e nem os lembraremos...

Wednesday, February 01, 2017