Wednesday, June 10, 2009

o amor nos tempos do H1N1


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Tática e estratégia

Minha tática é olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és
minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti
minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda
e mais simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
MÁRIO BENEDETTI

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Campo de flores


Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Carlos Drummond de Andrade



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E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

HILDA HILST

(Do Desejo - 1992)

* * *

Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

HILDA HILST

( Do Desejo - 1992)

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L’OISEAU BLEU


There’s a blue bird / in my heart / that wants to get out - Charles Bukowski

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Três dias e três noites
tento narrar nosso dia
tua beleza misantropa
a voz de aço e açucena

Caio prostrada e oca
(vencida e sem saída)
toda palavra é pouca

Cães espalham nuvens
pela sala
O passado soa mais grave
que a chuva uníssona

Ancoras em meu colo
abraço a aura a paz
a lágrima esfumada

Lembro um pássaro azul
a cortar a chuva
Um homem a cantar
um rio feio e um anjo

Lembro
o cheiro de Deus
entre tuas carnes

e agora
toda aurora
arde
Bárbara Lia

Tuesday, June 09, 2009

Estante #20







Na semana do 11 de setembro ouvi o Everton Bortotti em uma mesa redonda de um encontro de escritores. Uma pessoa incrível, o Everton. Foi a primeira leitura minha em um palco e no final ele disse que - eu li com emoção - pra não criticar a tremedeira que tomou conta de mim, de estar totalmente deslocada em um palco... Veio me dar seu apoio poético com uma ternura explícita. Sai do encontro com cenas lindas, poéticas, vivas. O descompasso de passos lerdos até o Teatro do Sesc. A forma como ele subiu no palco antes do show do Vadeco e os astronaturas - sem a menor cerimônia e sem ser convidado - e recitou um verso que gravei na memória:
ah, criatura. que seria de mim sem seus acordes de piano
Vez ou outra eu olho o livro de contos ali espremido entre os livros de capa dura, o livro do Everton nada deve aos outros. O livro artesanal pulsando, com a poesia "drops de deus" do Mário Bortolotto no final do livro e no início a dedicatória em letras de poeta visceral. Algumas pessoas você encontra uma única vez e guarda pela vida. Outras você esbarra dia e noite e não te tocam. É o ciclo da vida e das ressonâncias.
Sonhei que nadava em um mar verde com um poeta de um outro país. Sonhei que encontramos uma estátua quase submersa (um pássaro gigante com suas asas abertas). Ele dizia que devíamos continuar a nadar e eu dizia que tinha desejos de ficar ali ao lado daquela estátua coberta de verde mar e de musgo. No dorso do pássaro gigante, dois amantes petrificados. Sonhei com águas de tanta água que percorrem para acalmar o coração dos que ficam. O mais difícil é acalmar o coração dos que ficam. O meu vive  suspenso desde que minha filha Tahiana começou a voar. H1N1, aviões tombando, a vida um ciclo estranho como um filme de Fellini. Comissária de Voo, ela disse... E foi em frente e agora ela é Comissária. Ela ultrapassa a porta e se aninha por uns dias neste lugar onde a paz me acalanta e me cura de todas as agruras. Depois ela se vai e eu a vejo sempre ali, diante do elevador a dizer tchau: o casaco escuro, o cabelo Chanel, aquele cachecol que eu teci e eu penso - é isto, viver é isto... um risco. Ela sempre volta e eu penso no descompasso do destino. Por vezes seu filho sai do trabalho e é mutilado em alguma esquina. Ela tem razão quando me diz que morre mais gente no trânsito. Sigo a rezar para que Nossa Senhora dos Passarinhos desvie todos os pássaros de todas as aeronaves, que estanque o vírus, que a tormenta se apiede dos homens e suas máquinas frágeis...
...
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Reproduzindo a poesia da contra capa do livro do Everton. Rush na Madrugada, que ele dedicou ao Bukowski
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quando a sujeira dos tempos se agita
..............o pó se levanta fere olhos sensíveis
..........o silêncio sangra entre a distância
.................................das pessoas
tento dizer alguma coisa
................................................digo
já sei que cirurgicamente
..........todo sorriso é perfeito
já vi aquela garota acreditanto em
.............................felicidade fácil
e dizendo que poeta é triste
e que a tristeza espanta as pessoas
...mas garota
..................meu deus
...............................ele se sente
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.................................................tão bem...
Everton Bortotti - Rush na Madrugada

Thursday, June 04, 2009

por aí...

No caminho com Michel Sleiman no Portal Cronópios - uma conversa sobre poesia, cultura árabe e a igualdade entre homens:
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4020
Barco de Lia no rio de Cora está na coletânea artesanal de junho - o tema Sobre Letras e Barcos:

Wednesday, June 03, 2009

Rimbaud Rimbaud Rimbaud






David Thewlis (Paul Verlaine) – Leonardo Di Caprio (Rimbaud) - no filme Eclipse de uma paixão




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DANS L’AIR

Tínhamos a mesma idade

Quando vimos o mar

Este mistério de impaciência

Tínhamos a mesma impaciência

– Rimbaud e eu –

Por isto

Pisamos telhados

Ao invés do chão

Por isto

Machucamos nossos amores

Com nossas próprias mãos

Por isto

As velas acabam na madrugada

Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.


*


A vela acesa, o estábulo, o feno

O vento rutilante lá fora

Uma estação no inferno

Um grito dentro

Que ainda espanta

Em todas as catedrais

As pombas brancas

*

MAR/ABSINTO

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Nossos olhos de dezoito anos

acomodaram o mar

Sobrou a maré em torno

um sussurro de conchas

a nos acordar nas noites brancas

Nossos olhos de dezoito anos

beberem do mar/absinto

como ao vinho santo.

Nossos olhos embriagados.

Nossos olhos negros e azulados.

Uma sereia recolhendo a rede

os corações de dois poetas ali

enredados

Nossos olhos de dezoito anos.

Nossas almas milenares.

Nossos amores fracos à soleira da incerteza.

Tanta beleza em ti, Rimbaud!

Tanta ausência em mim!

E nas marquises

bêbados ainda caminham

buscando o sol

que você guardou prá mim

Bárbara Lia
- O rasurado azul de Paris


Monday, June 01, 2009

O paciente inglês








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Hanna pula amarelinha
No monastério
Sombra azul de lua italiana
Delineia a silhueta de Hanna
Minas e ruínas
Aos pés do piano de Bach
Escadas de livros
E voos de mariposas
Descortinando o sagrado
Almasy recolhe cenas
Entre a fuligem de cada poro
Noites de camelos e areia
Um tratado dos ventos
Para a amiga de Heródoto
O pingente em forma de dedal
Navega no Bósforo intangível
Ardem fogueiras no deserto
Incendiando a cartografia celeste


Nunca mais os amantes dançarão
Ao som da melodia
De Irving Berlin

Bárbara Lia



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- Leitura poética de cenas de um dos filmes que mais amo - Conde Lazlo de Almasy é real e Michael Ondaatje alterou fatos históricos da vida do aristocrata da Hungria, mas, manteve seu nome real. Lazlo era um explorador do deserto, em busca de Zerzura - a cidade branca como a pomba. Katherine lendo Heródoto, Lazlo costurando a camisa e pendurando o dedal em seu pescoço e brincando que a ele pertencia o estreito de carne logo abaixo do pescoço dela, um homem que via a mulher como quem vê a terra estendida, branco deserto que se avista do pequeno avião. Os instantes poéticos onde Hannah pula amarelinha na noite branca, onde ilumina paredes sagradas com um castiçal, voos que lhe proporciona o moço de turbante... Uma obra prima de Anthony Minghella.
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"Amo o deserto. Amo a infinita extensão, o vento, os picos escarpados, as cadeias de dunas como rígidas ondas do mar. E amo a vida simples e rude de um acampamento primitivo no frio gélido, a luz das estrelas na noite e as calorosas tempestades de areia. "
Lazlo de Almasy in “O Sahara desconhecido”

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- Vou lhe falar sobre os ventos. Há um ciclone do Sul do Marrocos, o Aajej, contra o qual os felás se defendem com facas. Há o Ghibli da Tunísia...
- O Ghibli?
- Ele gira gira gira e produz uma sensação estranha. E há o Harmatã, um vento vermelho que os fuzileiros chamam “mar de trevas”. A areia vermelha deste vento chegou à costa sul da Inglaterra. Produziram tempestades tão densas que parece sangue.
- Mentira. Temos uma casa nessa costa e nunca choveu sangue.
- É verdade, Heródoto, seu amigo...
- Meu amigo?
- Ele escreveu sobre isso... E há o vento Simun, uma nação chegou a declarar guerra e marchar contra ele com armaduras e espadas erguidas.

(Diálogo entre o Conde Almasy e Katherine no filme - O Paciente Inglês (Anthony Minghela) – baseado no livro com o mesmo nome, de Michel Ondaatje)

Friday, May 29, 2009

...
Este Livro
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Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz

do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total., tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda.
Enfie a carapuça. E cante.
Puro açúcar branco e blue.
Ana Cristina Cesar

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"Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.".
Mário Quintana
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Cartilha
Foi de poesia

lição primeira:
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"a arara

morreu
na aroeira".
Orides Fontela

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Livraria Paço da Liberdade - abre suas portas em 09 de junho

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Recebi um e-mail da Sissi Pereira. Eu havia publicado a data anterior do início do funcionamento da Livraria como 30 de maio. A data foi transferida para 09 de junho. Melhor ressaltar aqui para não confundir quem já leu a notícia.
Solidão Calcinada agora só lá na Livraria Paço da Liberdade e nas Livrarias Curitiba. Os exemplares que recebi, cota de direito autoral, terminou. Fui listar os "livros prometidos" e separar meia dúzia para meu arquivo pessoal e vi que os 300 evaporaram para mãos e corações e, que bom. Ter o livro - Solidão Calcinada - publicado via Secretaria da Cultura teve vários pontos positivos. Um deles é que em cada Biblioteca do nosso Estado tem um exemplar do romance.

Monday, May 25, 2009

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Rosa
Flor platônica
Gêmea
Da alma minha
Geme
Acima dos muros
Hipnotizando
Espinhos

Bárbara Lia
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Wednesday, May 20, 2009

No caminho com Michel Sleiman


Bienal - 2006








. . . .. . . .. . .. . .. . .. . . .. . . .. .. ........... Alhambra





1.
Tua família foi viver no Líbano quando você era menino. Como foi
iniciar sua educação no país de seus ancestrais?
E quando a poesia começou a ser parte da tua vida?

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Tenho um capítulo importante da infância e dos primeiros anos da adolescência no país dos meus pais. Fui pra lá um mês antes de completar os seis anos de idade para viver com meus avós maternos em Beirute, onde acabei ficando sete anos, dos quais cinco frequentei uma escola primária, de freiras francesas. Estudei o árabe e o francês em período integral, até que estourou a guerra civil de 1975. Em 76 voltei. Cumpri um rito de passagem que parece um tanto comum nas famílias libanesas da primeira geração aqui no Brasil: mandar os filhos ao país dos pais, pelo menos um deles; no meu caso fui eu, o mais velho dentre os quatro irmãos. Mas isso tudo não foi planejado para ser como foi: era para ser um ano -aproveitaria para curar uma bronquite asmática que me castigava na fria Santa Rosa, RS- e acabaram se tornando sete: fui me adaptando bem, aparentemente, me dava bem na escola, não dava muito trabalho aos meus avós e tios etc. E o sétimo ano não era para ser o de retorno, mas a guerra acabou fazendo urgente o retorno naquele ano de 1976, creio que em outubro. O aeroporto bombardeado de Beirute estava fechado. A fronteira com a Síria era controlada por milícias islâmicas. E minha carteira de identidade libanesa estampava meu estatuto civil de cristão ortodoxo, um "rúmi". Me lembro que às 4h da manhã meu tio paterno Jurius, do vale do Bekae, me colocou no táxi de um tal Ahmad, amigo dele, com a recomendação de cruzar a fronteira da Síria em segurança até o aeroporto de Damasco, onde eu embarcaria em avião da KLM. Fechei os olhos, e o Ahmad me declarou às milícias como um filho seu que dormia. "O nome dele é Muhammad", ele disse, e passamos. No aeroporto, despediu-se de mim na descida do carro. Me dirigi até o balcão da KLM. No avião, depois em Amsterdã, onde fiquei algumas horas para fazer a conexão, me virei no francês. Havia um senhor no vôo, acho que amigo do meu pai. Lembro que ele me acompanhou aqui e ali. Lembro ele de meias pretas, tirou os sapatos, chulezinho familiar. Lembro também que as aeromoças holandesas eram muito altas, muito brancas e cheiravam a leite e talco de maquiagem. A chegada ao Rio foi assustadora no Galeão, à porta da aeronave, descendo as escadas, um calor! era um bafo quente de cortar a respiração. Senti tristeza e desolação por alguns minutos. Depois em Campinas, o dia era úmido. Meu tio Elias me esperava no Viracopos e eu achei que ele fosse o meu pai; são muito parecidos os dois e fácil de serem confundidos. Completando a tua pergunta, esse tempo eu passei sem meus pais e irmãos, portanto. Mas era para falar do tempo durante e acabei falando do start e do end. E era para falar de poesia. Mas tudo bem. Acho que isso tudo que disse é um mote para a poesia. Poesia como supra-sumo da vida, e os momentos tópicos da vida são também pura poesia. A lembrança como um ideário, um metapoema. Acho que a poesia começou nesses momentos tópicos, em suma.


2.
Você dedicou teu livro A Arte do Zajal "Para o Éden de Haroldo de Campos"... Além de Haroldo, quais poetas brasileiros mais te encantam?


A minha poesia se divide em antes e depois do encontro com Haroldo de Campos em persona. Com ele, tudo ficou mais complexo. No mesmo tempo, cresci e passei a exercer o poema maior do homem que trabalha e projeta coisas para a frente. Confirmei poesia e tradução, e estas juntas na crítica, e a crítica passou a ser para mim um ato de poesia. Não prefiro uma a outra; simplesmente são extensões uma da outra. O livro Éden do HC, ao qual dedico meu Arte do Zajal, contém o poema que nos uniu, o Cântico dos Cânticos. Quando contatei o Poeta ele me pediu "algo" para ver, e eu levei um dos Cantos que traduzi a partir da versão árabe, que é por sua vez versão a partir do grego, que é por sua vez versão a partir do hebraico, que por sua vez é, polemicamente, versão-criação de alguma outra língua... Foi interessante cruzar o árabe e o hebraico dos poemas que tínhamos nas mãos na língua portuguesa das nossas criações. Aprendi, por exemplo, que a tradução no final das contas é um modo de poetar, que encontra eco entre seus agentes, como a Lua que manda luz para a Terra, que manda luz para a Lua, e essa luz enfim sequer é desta ou daquela, mas do Sol. Aprendi também que a língua da tradução é uma constelação de poemas da qual o tradutor pega algumas estrelas e engasta criteriosamente no poemário seu da vida inteira, lembrando aqui o belo título do Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Estrela da Tarde, Estrela da Vida Inteira.
Li muito durante os anos de escola secundária. Lia o que tinha por perto. Esgotei a pequena biblioteca da Escola onde estudei em Santa Rosa e o que pude da Biblioteca Municipal daquela cidade. Não tinha o que fazer. As tardes eram longas, calorentas na maior parte do ano, assombradas pelo som das cigarras no crepúsculo. Aquilo dava uma tristeza. O jeito era ler: quando as ofertas de romances e poemas da prateleira se acabaram, assaltei os livros de filosofia, psicologia, ciências políticas etc. Fazíamos isso como ato de sobrevivência eu e alguns amigos de lá. Era um tédio. E a cidade ficava no nosso pé. Pelo menos eu percebia assim. Vai ver ninguém tava aí para mim ou o Sacha, mas a sensação era de que a gente não podia ser diferente que a cidade logo se encolhia para nos apertar e nos empurrar para fora dela. E foi o que aconteceu com a nossa turminha de "desajustados". Todo mundo espirrou. Mas isto não tem nada a ver com a sua pergunta... Um poeta que me inspira muito hoje é, não um nome mas uma nação: a da Língua Árabe. Ali tenho tudo que preciso. Essa língua é um mar. E por sorte, o português é um céu! Já citei o Bandeira? Gosto muito dos poetas que portam bandeiras. Pela razão de que poucos portam bandeiras, quando muitos mais deveriam fazê-lo. Os melhores poetas deveriam ser os poetas que portam bandeiras, como Maiakosvki fez, e como fez Whitman, e como fez Darwich. E como fez Haroldo de Campos. E como faz Adonis, erguendo no nariz dos árabes a bandeira linda da transformação (de dentro para fora) daquelas sociedades.

3.
Ontem quando fui ao correio enviar um livro a funcionária do correio comentou que adorava ler. Ela perguntou - Conhece Gibran?
Quando ela citou Gibran, lembrei as belas poesias lidas naquele Diwan que organizamos em 2006, os belos poemas de Adonis, Darwich, Nizar Qabbani. Não existe nenhuma publicação de um poeta como Mahmoud Darwich aqui no Brasil. Alguma explicação para esta ausência da poesia árabe nas prateleiras?


Há um par de anos, escrevi uma resenha sobre um livro em prosa de um poeta árabe que estava em visita ao Brasil. Eu disse indignado que aquela publicação era um contrassenso típico do mercado editorial brasileiro. Reconheço que aquela minha afirmação parece antipática, afinal publicar um livro de um autor árabe deveria ser motivo de saudação num mercado, como você diz, tão carente de títulos dessa procedência. Mas veja, o contrassenso era uma editora chamar para o Brasil um poeta importante e publicar dele não um livro de poemas, mas uma espécie de relato de viagens, por acaso uma obra menor na história do poeta. O livro veio, o autor veio, e ambos se foram. O que ficou na nossa história literária foi a crônica de uma sombra que passou. Nenhum leitor brasileiro hoje, ou de amanhã, tem como consultar um exemplar da obra em nome da qual se chamou o seu autor para estar entre nós. Como explicar isso? De diversos modos que eu sou incapaz de fazer aqui e agora. Mas fica o sintoma, que tem em si um paradoxo. Não lemos poemas porque não publicamos livros de poemas. E não os publicamos porque não os lemos. Esta situação encontra similitude em outras localidades mas no Brasil é patética. Mas o Brasil, em contrapartida, me parece um país poético, facilmente “poetizável”. Não falo em tom de ironia, de verdade que não. Nossa alma e nossa língua são maiores que o juízo que temos de nós. O problema do Brasil é que a toda hora impomos ao país e à nossa gente um modelo de cultura que não é nosso, que não se ajusta a nós. Dentro desse modelo está o de leitores e cultivadores da dita “poesia”. Na verdade, o gosto nacional passa largo da poesia culta, erudita, que fazemos, nós, uma centena ou algo mais de poetas que puxamos uma tradição de extração livresca. O poema parece ao brasileiro médio uma instituição forânea, tem meneios de dama que a um plebeu passam batidos. O brasileiro a que me refiro gosta e aprecia a poesia; sabe-a de ouvir nas muitas linguagens que nos traduzem: a dança, a poesia oral, o nosso jeito de tomar café e de subir escadas. Aviso também: não faço coro ao mito do homem poeta por natureza. Mas nele localizo um alvo: quando um agente da cultura, um editor, pensa na poesia não vê nela um ponto catalisador do que se acredita ser a identidade nacional. Meu editor sabe disso, ele, um homem culto, sabe que o gosto médio do seu freguês não é o que escrevo como poeta ou como tradutor de poemas.
E então a poesia vai migrando aceleradamente daqui e dali. Poetas são levados a abandonar a forma-poema e as suas virtualidades. Coisas deste nosso tempo. Poetas começam a se aventurar na forma-romance, forma-relato. As pessoas já pouco distinguem, aliás, romance e ficção, pois erradamente se pensa que a prosa é relato de ficção, e o poema (o que vulgarmente chamamos poesia) é tido como depoimento pessoal, expressão idiossincrásica do pensamento de homens e mulheres caprichosos... no bom e no mau sentido do termo. A forma do poema passa a ser entendida como expressão sem arte, desordenada, que agrada a poucos porque não segue os trilhos do gênero artístico verdadeiramente de ficção, que -assumimos- é a prosa. Um equívoco tolo, cavalar, asnal. A forma-poema é ficção levada a um grau exponencial, como o é a forma-romance e suas virtualidades. Lê poemas quem tem cultura de poemas, quem dela conhece a história, sendo capaz de entender o porquê de uma vírgula fora do lugar, da ausência dela, ou da anulação, se preciso, do seu paradigma como modelador da idéia na escrita. Os leitores de “literatura de ficção” são os mesmos professores de Literatura nacionais. Poucos professores encaram a leitura de um livro de poemas e dele se sentem próximos; e poucos são capazes de ler poemas com seus alunos; e poucos são capazes de responder por determinada poética. Para responder a sua pergunta pontual sobre a ausência de Adonis, Alhaj e Qabbáni: poucos traduzimos do árabe, e, desses, poucos embarcam na aventura do poema. Estamos na média, portanto.

4.
Conte sua experiência como editor da Revista Tiraz - revista do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe – USP. E também sua atuação no Icarabe - Instituto de Cultura Árabe
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A revista Tiraz tem um belo nome. É um arabismo que entrou no nosso idioma há séculos e guarda o sentido original de “brocado caligráfico”, que os cortesãos medievais usavam ostentando a marca faustosa do ateliê que o produziu, em geral ateliê mantido pelas cortes de califas, emires ou sultões. Foi assim nas terras da Pérsia e depois em Bagdá, na Síria, no Egito, no Marrocos e no Alandalus. Quando o poeta egípcio Ibn-Saná Almulk, do século XIII, batizou sua coletânea de poemas do tipo “muacha” de “Casa de tiraz”, quis dizer que aqueles espécimes de poemas –dele, dos poetas de seu tempo e dos poetas andalusinos predecessores naquela forma-poema– tinham a nobreza de um tiraz bordado a ouro, prata e fios de seletos matizes. Com esse título, ele evidenciou aspectos de excelência e singularidade daquela arte. Assim quisemos marcar a produção científica de quem entre nós, pares mais próximos ou distantes, lida com as milenares artes e ciências dos árabes. Propusemos uma revista que acolha a produção intelectual como uma preciosidade da “casa das ciências”, bastião, quase que solitário, da pesquisa no país do carnaval.
A revista tem conselho editorial e consultivo, ao qual submete as colaborações recebidas. E trabalha com recursos enxutos advindos da Pós-Graduação. O que garante a existência dela é o trabalho conjunto dos colegas, alunos e colaboradores que atuam sem fins lucrativos, barateando o custo final, que seria altíssimo dada a exigência técnica de sua editoração, como a diagramação diferenciada para cada artigo, com ou sem colunas, inserção de imagens, a edição bilíngue em árabe e português da sessão Fontes, a filosofia de traduzir ao português as colaborações recebidas em outros idiomas e a incidências de diferentes fontes usadas num mesmo artigo, alternando fontes da escrita árabe, de transcrição ou transliteração latina de outras línguas, além do árabe, como sânscrito, russo, turco, entre outras, a depender do conteúdo do texto por editar. Eu atuo nela como diretor editorial e faço o papel de “publisher”, acompanhando sua realização em todas as etapas, desde o planejamento, passando pela editoração e o gerenciamento dos profissionais contratados, até o lançamento da revista.
A experiência com Tiraz é disciplinadora. Desenvolve o senso de trabalho em equipe. Leva a meditar sobre o imprevisto diante das tecnologias. Mas também ensina a trabalhar a poesia das formas como um conhecimento a ser perseguido, controlado e repassado. E amplia o entendimento do trabalho com as linguagens. É impossível diferenciar o zelo que um editor tem com um texto que lhe é confiado e o zelo que tenho com um poema que concebo como criação ou transcriação. O resultado final da revista assemelha-se com o do poema escrito e reescrito até a versão impressa.
No Instituto da Cultura Árabe, do qual sou presidente desde novembro de 2008, coordeno um grupo de diretores da mais alta competência na área cultural quando o assunto é o mundo árabe e o Brasil por ele tocado. O trabalho ali é mais complexo do que na Tiraz, porque as ações do Instituto reverberam muito, e excessivamente por vezes, conforme o “tempo” ou o “clima” dos fatos mundiais, aos quais somos chamados a responder. A demanda por explicar o mundo árabe é constante no nosso país. Sempre foi, mas após o sinal do petróleo, o dito Oriente Médio passou a um dos focos de atenção mais perceptíveis. O século XX foi a estação de desmembramento das terras do antigo Islã, dirigido pelos otomanos. Não bastasse a frágil construção do sentido nacional nesses países, forjado a partir de um projeto, por baixo, muito mal estudado e implementado por França e Inglaterra nesse período, no século XXI esse mundo fracionado agora é alvo evidente de demonização. O cinema norte-americano, ícone maior da alta e média cultura dos EUA, tem um papel crucial nesse processo e o fez à moda da escansão da sicuta, pingando-o gota a gota, de película em película, como de resto esse cinema fez com os russos nos tempos da guerra fria. Por outro lado, as forças de reação do mundo árabe têm encontrado na politização das religiões uma força catalisadora aparentemente capaz de libertar as massas dos efeitos externos vindos de um “Ocidente corrupto e corrompedor”, tornado também, e por sua vez, demoníaco.
As forças vitais, contudo, nos dois polos, parecem estar prontas para derruir o muro que se insiste em impor na linha ficticiamente divisória entre ambos. As ações da cultura são essas forças. E são essas mesmas que o Instituto da Cultura Árabe persegue e busca implementar nas diversas ações que lhe são cabíveis na nossa sociedade.

5.
Um livro de poesias de Michel Sleiman: Notícias, título, previsão para publicação... Conte tudo! E como você encara as afirmações que nós poetas sempre ouvimos:
- Poesia não vende. / Ninguém lê poesia.



Títulos não faltam; e não faltam poemas organizados em livros. Mas isto não basta. Publicar um livro é, entre outras coisas, uma ação política, comercial e pessoal. A primeira é esta, a da ordem pessoal. O livro requer mover uma energia que convença o autor a sair de si, primeiramente. O próximo passo é o reflexo deste: convencer o editor e manter-se convencido à medida que o tempo passa e o livro não sai, enquanto as finanças das editoras e as oscilações do mercado financeiro acenam para recessão da economia, e enquanto, claro, menos se vendem livros, menos o editor recebe pelos livros em consignação nas livrarias. Não esqueçamos de que falamos de livros de poemas, que os editores são unânimes em afirmar só os poetas lêem. E eles têm razão: nós escrevemos para um leitor com entendimento da história do poema.
A outra ação é a comercial. Editar para vender onde, se os livreiros não expõem livros de poemas? Agora vale a ironia: afinal são livros volumosos, enchem prateleiras, bla-bla-bla. É conversa, sabemos. Mas caberá a mim e a você o papel de ser “promoter” das editoras junto às livrarias? Isto é demais, não?
A terceira ação para um livro de poemas ser editado é política porque implica tomada de posição diante o que se quer para a nação como um todo. Que projeto cultural têm o Brasil, seus dirigentes e seus cidadãos? Não quero ser eu a dizer que não têm projeto algum. Não direi. Não direi mesmo que não há um projeto cultural para este querido país. Bom, já disse.
Há, contudo, os projetos dos poetas que levantam bandeiras. Esses para os quais eu tiro o chapéu. Agentes de si mesmos, contudo, não repercutem suas ações salvo em torno do próprio umbigo. E o fazem bem, mas não são editores. Portanto, continuamos sem projeto cultural. Sem política editorial. Sem poemas. Não sem poesia. Esta existe e vai bem, obrigado, porque ela existe como ação política de quem escreve e perscruta o mundo. E ainda que tal poesia não fale a língua nacional, é ainda a língua de muitos: assim tem sido a história milenar desde a invenção da escrita.
Tenho um livro a sair pela Ateliê, chama-se Ínula Niúla, que o poeta meu amigo Horácio Costa faz preceder com um texto seu de apresentação. E estou trabalhando em várias frentes de tradução de poemas árabes antigos, contemporâneos, além do sempre inspirador Alcorão, mãe-das-linguagens. Finalmente dei uma versão que me agradou muito do longo Poema dos Árabes, de A-Chánfara, do século VI ou VII, e estou terminando a tradução, com transliteração da recitação solene, do segundo capítulo do Alcorão, a chamada Sura da Vaca, cujos primeiros 143 versículos publiquei em Tiraz 5, do ano passado. E estou engrossando uma antologia da poesia árabe em perspectiva histórica das suas formas-poemas. Tudo virá a seu tempo.

6.
Michel Sleiman por Michel Sleiman


Gostaria que os brasileiros de origem disso e daquilo não fôssemos tanto, até extinguir-se, brasileiros árabes, brasileiros judeus, brasileiros negros. Isto é uma coisa ruim, e um retrocesso, uma abdicação do que temos sido ao longo da nossa história. Gostaria de lutar por um país mais justo e democrático, pra valer: que tivéssemos condições similares para fazer cultura, sendo agentes e esperando menos das ações que vêm de cima, não por não querê-las, mas porque em geral tais ações subtraem nossa capacidade de agir por nós e, com isso, de decidir por nós, de lutar por nós e por sonhar por nós. O que tiver de vir de cima será mais uma ação vinda de outrem e de alhures, sem o direcionamento vertical a que somos tão afeitos, desde que o mundo é mundo e desde que deus se fez deus com letra maiúscula.
Este meu depoimento destacou a ação em detrimento da reação. Entendo esta a política das políticas. Como o amor, quando saímos em busca dele nos vemos presas dele, e quando não o buscamos nos assusta, porém, a sua chegada ou sequer o identificamos como tal... É por ser uma ação que o amor não se deve buscar nos outros nem cavoucar no íntimo ensimesmado. A ação é condicionamento do querer. E este não é exatamente a ação. Algo parecido se dá com a literatura dos poetas: um livro que se escreve com afinco e se publica na medida de sua hora, de seu lugar, no tempo e no espaço de todos os agentes que o tornam l
ivro, autoria, produto e consumação.



Michel Sleiman nasceu em 1963 em Santa Rosa, RS. Participou de livros coletivos de poemas, mas ainda não publicou um livro individual. Tem dois livros de crítica e tradução da poesia árabe-andalusina: A Poesia Árabe-Andaluza (Coleção Signos, da Perspectiva, 2000) e A Arte do Zajal (Coleção Estudos Árabes, da Ateliê, 2007). Dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio e preside o Instituto da Cultura Árabe, em São Paulo, onde é professor doutor de Língua e Literatura Árabe da USP.
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Animália
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Gato porte ferino
descendo lombas de braços
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Cão de pêlo aos pés
não para calçá-lo
mas cuidar-lhe o salto célere.
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O sol me vem confunde
penso-o à tarde
- Precipite-me
até a vala do corpo
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Potro pêlo lustroso
convida ao prado, vejam-no
a ceifar trigo novo
a saber-lhe a haste
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Ovelha, nos ouvidos,
Ali Babá e seu balido de chave mestra
- Abre-te, salão!
Olhe-se-lhe o mármore.
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Vaca órix, olhos vergados,
tinteiro de farol a sua mirada
- Espiem-lhe a láctea pele
no café 100% arábico
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Tal amor cavalgou dorso selvagem:
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nem tigre, nem dragão.
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Michel Sleiman
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Tuesday, May 19, 2009

Balada da Cruz Machado

Geração Beat - Cláudio Willer


Para agendar:

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L&PM
LANÇAMENTO – ENCYCLOPAEDIA
Geração Beat
de Claudio Willer
Volume 756 da Coleção L&PM POCKET – 128 páginas – R$ 12
Lançamento e sessão de autógrafos do livro Geração Beat, de Claudio Willer:
3 de junho, quarta-feira, às 19h30, na Livraria Martins Fontes: Av. Paulista, 509 - São Paulo – SP (esquina com ruas Brigadeiro Luís Antonio e Pe. Manoel de Nóbrega), fones (11) 2167-9900 e 2167-9937,
www.martinsfontespaulista.com.br
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Quer saber mais sobre uma das manifestações culturais mais originais do século XX? Leia Geração Beat, livro da Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia, a nova série que traz livros de referência com conteúdo acessível, útil e na medida certa. Escrita por Claudio Willer, especialista no tema, esta obra traz as principais informações sobre o revolucionário movimento da vanguarda artística norte-americana em 128 páginas de texto claro. Em Geração Beat você irá saber como surgiu a expressão “beat generation”; desvendar a origem deste grupo de poetas, escritores e artistas, e conhecer suas principais obras e aventuras, desde os primórdios do movimento até a chegada do beat ao Brasil.
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CLAUDIO WILLER é poeta, ensaísta e tradutor. Nasceu em São Paulo, em 1940. Publicações mais recentes: Estra­nhas experiências, poesia (Lamparina, 2004); Volta, narrativa em prosa (Iluminuras, 1966, terceira edição em 2004); Lautréamont – Os cantos de Maldoror, Poesias e cartas – Obra completa (Iluminuras, nova edição em 2005) e Uivo e outros poemas, de Allen Ginsberg (L&PM, nova edição de bolso de 2005). Teve lançado Poemas para leer em voz alta, (Editorial Andrómeda, San Jose, Costa Rica, 2007) e uma série de ensaios sobre poesia surrealista na coletânea Surrealismo (Perspectiva, coleção Signos, 2008). É autor de outros livros de poesia e da coletânea Escritos de Antonin Artaud, esgotados. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela ligada ao surrealismo e à geração beat. Doutor em Letras, DLCV-FFLCH-USP, tese em 2008: Um obscuro encanto: Gnose, gnosticismo e a poesia moderna. Co-edita, com Floriano Martins, a revista digital Agulha.

Sunday, May 17, 2009

Lopes Chaves, 546

Anita Malfatti
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Uma luz apagou
Na ribalta do mundo
Quando cerrou as portas
Da vida daquele
Que Anita amava
Nunca mais se ouviu
Outra vez
O piano parisiense
- Henri Herz –
Mário a dedilhar
Teclas e palavras
No n° 546
Da Lopes Chaves
BÁRBARA LIA




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- fragmento de uma carta de Anita Malfatti p/Mário de Andrade:
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...Como você vê, eu tinha perdido o jeito de escrever para você, mas estou achando mais fácil do que eu esperava. Eu moro longe de São Paulo, tomo conta do meu jardim, arranco o mato e planto as flores e as árvores, rego quando posso, arrumo a casa e pinto as festinhas do nosso povo que dão alegria ao coração da gente simples. O grandioso e majestoso, assim como a glória e o mágico sucesso me deixam calada, triste, mas as coisas fáceis de pintar, simples de se compreender, onde mora a ternura e o amor do nosso povo, isto me consola, isto me comove.
Não sei ainda como é onde você foi morar… será como?… Deve ser um lugar cheio de poesia, de anjos de vez em quando e… e como é que você escreve hoje? Mudou de diretrizes? Será mais músico do que poeta?… – Parece-me que você bem pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
E nós que não sabemos as últimas novidades, porque você sempre foi novidadeiro… Mário. Como poderíamos saber! Ouvir?… sim, mansinho dentro do nosso coração!
Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.
Anita“

em Diário de São Paulo, São Paulo, 1955

Saturday, May 16, 2009

seis anos sem Jamil Snege


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Para matar um grande amor (Jamil Snege)
Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza; a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos. Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o Dom da finitude, abrupta e intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada, longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos que ainda nos une ao que acabamos de perder.Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...


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JAMIL SNEGE
(1939-2003)
Jamil Snege nasceu em Curitiba, PR. Era formado em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência. Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo. Era o escritor mais reconhecido pela classe literária curitibana, autor de mais de dez obras, entre as quais Tempo sujo (1968), Ficção Onívora (1978), Para Uma Sociologia das Práticas Simbólicas (ensaio, 1985), O Jardim, a Tempestade (minicontos, 1989), Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994) Viver é Prejudicial à Saúde (1998), Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000).

Friday, May 15, 2009

As I Lay Dying

Faulkner, William. As I Lay Dying. New York: Jonathan Cape, (1930).
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Apanhei na Biblioteca Pública o livro de Faulkner - tradução de Hélio Pólvora - Editora Expressão e Cultura, 1973 - O livro é estruturado em fragmentos, conduzido pelo fluxo do pensamento dos personagens. O pai e cinco filhos acompanham o caixão da mãe que quer ser enterrada em outra cidade. Em um dos fragmentos uma única frase do personagem Vardaman: Minha mãe é um peixe. Após a leitura de - Enquanto Agonizo (As I Lay Dying) a leitura para a oficina de dramaturgia - Volta ao Lar - Harold Pinter, tradução Millôr Fernandes (abril cultural).
Há mais de dez anos em um congresso de poesia eu conversava com Fernando Aguiar e Hugo Pontes diante de uma exposição de quadros e eles disseram: escolha entre a poesia e a prosa. Fiquei por um tempo com aquela frase, a opinião deles um eco ao fundo. Como escolher entre a poesia e a prosa? Se sou poeta desde que nasci e se o meu primeiro despertar para um caminho foi - quero ser escritora! E agora que uma nova trilha se abre? - a dramaturgia. O que fazer quando você quer beber a água inteira do oceano em um gole? Vez por outra anseio desenhar e pintar. É a alma de artista. Na noite que li algumas poesias no Realejo o poeta/ator Cláudio Bettega resumiu isto em uma única frase - Quem tem dentro de si a Arte consegue isto: pintar escrever interpretar compor...
Recebi o e-mail de uma universitária perguntando onde ela comprava Cereja & Blues. Era o desejo dela depois de ler Solidão Calcinada, ler outro romance meu. E com uma dor no coração tive que responder - sinto muito este livro ainda não foi publicado. Sigo mesmo - ao ritmo do tempo - como escreveu o Márcio Renato dos Santos - naquela matéria para o jornal, mas, espero ter um romance publicado breve. Ao final o que importa mesmo é mergulhar neste oceano, ler escrever lutar ter decepções e um monte de alegria, caminhar pela escrita viva de tantos escritores - atravessar o caminho criado por Faulkner em uma viagem estranha com a mãe morta. Tenho pensado muito em minha mãe. É claro. É maio e ela nasceu em maio.

Wednesday, May 13, 2009

Um café com John Fante. Uma tarde com O amante


The Other Man - Antonio Banderas - Liam Neeson
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Na edição deste mês do Jornal Rascunho (109) Adriana Lisboa em sua coluna - Por aí - aguça nossa curiosidade e o desejo de ler - 1933 foi um ano ruim (John Fante). Anos atrás após a leitura de - Espere a primavera Bandini - fiquei com aquele gosto de - quero mais - melhor ter lido na ordem inversa. Primeiro Espere a primavera... Depois, Pergunte ao pó. Márcio Claudino, por uma dessas sincronias poéticas, leu o livro no mesmo mês e chegou um tanto estranho para nosso café com John Fante, pois ele até já adotara o refrão - Espere a primavera Bandini. Agora vamos atrás deste novo livro que Adriana Lisboa cita em sua coluna cujo título é - Um café com John Fante. O detalhe - Adriana estava lendo o livro em um café, em companhia de seu filho, em Boulder. Cenário de 1933 foi um ano ruim. Nesta mesma edição do Jornal Rascunho Luiz Paulo Faccioli escreve sobre - O leitor - de Bernard Schlink. Um autor que está a me chamar com seus livros e cuja obra é representada em filmes sem perder muito quando o livro é adaptado e transformado em roteiro cinematográfico. Quando vi - Pergunte ao pó - decididamente fiquei decepcionada com o filme. Colin Farrell tem as feições do rosto imutáveis. É estranho assistir a um filme onde o ator não muda sua expressão e isto acontece em - Pergunte ao Pó. Acontece com o épico Alexandre. O filme não se aproxima em intensidade e não corresponde à narrativa de Fante. O que me preocupa é a renitente imagem de Salma Hayek na pele das minhas personagens essenciais em realidade e ficção - Frida Kahlo, Camila Lopez - Preciso tomar cuidado para não sair com uma frase mais ou menos assim - Quero ser Salma Hayek. Cá entre nós - quero ser Bárbara Lia mesmo. O texto de Faccioli no Jornal Rascunho - A estranha potência das palavras - tem como foco o livro - O leitor - mas, descobri que o outro livro de Bernard Schlink - O outro - foi traduzido e lançado pela Record.
Dois livros na agenda para leituras futuras.
Uma tarde na locadora pousei o olhar displicente em um lançamento e li o nome de Bernard Schlink - O filme - O amante com Liam Neeson, Laura Linney e Antonio Banderas - The Other Man - Roteiro e Direção de Richard Eyre - Tal qual em - O Leitor - existe um ponto de mutação onde tudo se descontrói, cria-se um novo cenário através de eventos, acontecimentos. Li uma crítica em um site de cinema e sempre me surpreendo com a discrepância que há entre minha opinião e a maioria das opiniões. Alguns filmes que não me tocam são alardeados, outros que me prendem e me surpreendem são detonados... É um filme bem mais potente que tantos que vi, mas, como é mesmo a palavra que traz esta potência - melhor ler o livro.
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- Para quem não tem acesso ao Jornal Rascunho impresso... a edição de maio jo jornal ainda não está online, breve estará para conferir as matérias citadas, e outras da edição 109.

Sunday, May 10, 2009

Lasanha #13






Uma poesia do Livro Noir na edição n° 13 da Revista Lasanha, editada pelo poeta Maicknuclear:
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La nave va...

Sou toda coração...

Nos demais, todo mundo sabe, o coração tem moradia certa, fica bem aqui no meio do peito, mas comigo a anatomia ficou louca, sou todo coraçã...