Tuesday, September 08, 2015

um poema...





Tenho pena dos arbustos arredondados
Podados feito taças que nem podem
Conter a chuva
Tenho pena da amputação
Dos dedos esvoaçantes
Loucos para acariciar o vento
Tenho pena dos cortes programados
Dói a simetria
Dói submeter-se à régua plana
Com que medem
Gente, plantas, asas e esperanças
imagem - carey mulligan in - an education -

Sunday, September 06, 2015

O caramelo deserto do teu sorriso






(diante de uma fotografia de willie nelson)

O caramelo deserto do teu sorriso




Este é o rosto da vida:
         cicatriz rasgada abaixo do olho esquerdo e um lenço de pirata
Este é o rosto da vida:
         rugas que lembram um deserto com mil camelos enterrados
Estas corcovas da cor caramelo que são
         – na verdade – o sulco de tantas lágrimas
Este é o rosto da vida:
         dois planetas orbitados de luz a mostrar a explosão dentro...
Este é o rosto da vida:
         nariz adunco que esqueceu abutres e agora só cheira flor
Este é o rosto da vida:
         lábios sarcásticos que podem expor um riso ou uma agonia
Tanto faz o que foi a vida, ela começa agora com esta música
            que cai lentamente
No espaço onde cabe o mundo inteiro e por isto cabe – esta música
O rosto da vida é
                 carcaça de uma história
O rosto da vida é
                 cortina ilusória
A vida é esta música e é explosão dentro
                     e é ir remando lento na beira do abismo
Este rio que dá na queda
                 a queda que dá na morte
                                   a morte que se quer adiada
E o rosto da vida não entrega a real verdade
  o rosto da vida ri sarcasticamente e afaga mil camelos
Respira fundo e expele - em explosão de alma –
        a última esperança que dança a música
A bela música, e quando ela findar...
Os camelos estarão adormecidos

No caramelo deserto do teu sorriso

Bárbara Lia


Monday, August 31, 2015

Campanha: Ajude a Editora Dubolsinho a continuar na briga



​Seja parte de um movimento que traz cultura e educação para todos. O nosso país precisa disso.


Link para a campanha da Editora Dubolsinho:

http://www.kickante.com.br/campanhas/ajude-editora-dubolsinho-continuar-na-briga-0

Saturday, August 29, 2015

somos o zero à deriva

   fotografia - El Pais

o zero à deriva


depois de milênios filósofos tratados poetas lutas depois das sondas dos voos de perfurar a galáxia os anéis dos planetas o entardecer azul em marte depois de sondar abismos explorar a veia do mar da terra das flores entre tantos mantras religiões sacrifícios sangue lágrimas depois de revirar tudo sacudir o planeta desmontar vulcões depois de conhecer segredos e lendas armazenar a bomba explodir a bomba chorar a explosão da bomba depois de toda palavra de toda tentativa somos o zero à deriva somos cada corpo no mar da líbia somos a perdição sem volta fracassada humanidade torta e nada que possa fazer valer milênios poesia filosofia se estivermos a morrer na areia vomitados pelo mar sem nada que faça crer que este sol e este dia lindo é por mim merecido considerando que está tudo perdido morto e ressequido humanidade naufragada em cada corpo vomitado Bárbara Lia​

Friday, August 28, 2015

Antologia Jornal RelevO 5 Anos


O editor Daniel Zanella e equipe do Jornal RelevO selecionou poemas, contos e traduções entre as oitenta edições do Jornal e isto resultou em uma bela Antologia. Meu poema que dialoga com Alfonsina Storni, da série - O céu dos poetas - integra este livro que traz uma mostra da poesia paranaense atual, e que tem uma qualidade rara. O livro custa R$.30,00  e o contato do Jornal Relevo é:

https://www.facebook.com/jornal.relevo?fref=ts

Wednesday, August 26, 2015

If in this world there's you...





The world cannot be wrong
If in this world there’s you
(Charlie Chaplin)




Lavar a ilusão da vidraça para ver o real - é mais bonito 
Quebrar o salto que te pisa e estilhaça teu pé descalço
Serrar as gaiolas e dar aos pássaros o mapa desta rua
Só eles carregam a fúria livre que senti em teu abraço
Bárbara Lia

Sunday, August 23, 2015

Trilha sonora para os sessenta anos que completo amanhã. Trilha sonora pra lembrar duas pessoas que eu amo e não poderei abraçar de forma material. Pra vocês dois: pai e mãe, só pra dizer que sigo - tocando em frente. Grata pela vida. Ainda que me protegessem como se eu fosse flor de estufa, no fundo, no fundo eu sei que vocês sabiam que eu era como todos os poetas, tal e qual Cruz e Sousa escreveu 
"Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema."
A gente sempre sabe... Agora, vou começar a abraçar os que estão na minha vida como a - possibillidade de esticar um tempo mais esta jornada alucinante - e ao abraçar um a um, amigos de ontem, amigos de agora, amigos de toda hora, filhos, neto - não posso esquecer meus amigos de data de nascimento, pois poetas e escritores, ainda que nunca tenham se encontrado pela vida, são amigos em um patamar de beleza. São irmãos atados pelo sangue da palavra. São os que se apoiam em recados pendurados pela vida... É isto. Este estranhamento de não ter mais como dizer parabéns ao Donizete Galvão... Ainda assim: Feliz aniversário! Onde quer que estejas, a vocês, a todos nós... E a poesia segue...
Agora eu vou começar a abraçar os que amo...


Felizes os felizes.

Jorge Luis Borges



isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai 
nos levar além

Paulo Leminski


"Fique atento
às raízes
que se trançam
em seu coração.
Fique atento.
A atenção
é sua forma natural 
de oração"

Donizete Galvão

Saturday, August 08, 2015

Rosa CHá + Azul Anil no Sound Cloud





++Era pra ser um CD, uma ideia que arquivei e encontro agora esta gravação na voz da Luciana Cañete... Este poema integra a Antologia "O Melhor da Festa 3" Festipoa. ++

Clique no link abaixo do poema para ouvir a gravação...



ROSA CHÁ AZUL ANIL
.
Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.
Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:
Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.
Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.
Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.
Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:
rosa chá + azul anil
Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.
E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.
- meu azul demorado!
BÁRBARA LIA

https://soundcloud.com/b-rbara-lia/rosa-cha-azul-anil

Thursday, August 06, 2015

Pássaros Ruins

Adriano Esturilho, Bárbara Lia e Giuliano Andreso




Adriano Esturilho, Priscila Merizzio e Giuliano Andreso


Imagens acima da gravação para o vídeo Pássaros Ruins, meu poema gravado foi - Insônia.




Saturday, August 01, 2015

Viva Pipol!





A Revista Capitu, que Gil cantou em uma canção, foi a primeira a publicar um poema meu. Os editores eram Edson e Carlos Pessoa Rosa, eu uma poeta desconhecida. Achei aquilo incrível. E quando Edson Cruz se uniu ao Pipol para criar aquele que seria o Site Literário Cronópios, automaticamente virei cronopiana. Sei que devo, imensamente, a divulgação da minha Poesia à nível nacional ao Cronópios. Nos anos que seguiram, muitos poemas e textos. Conheci Pipol no evento - A cidade aTravessa, Casa das Rosas, em 2010 quando fui lançar Constelação de Ossos. Em 2012 ele visitou Curitiba na véspera do meu embarque para Poa onde lançaria - A flor dentro da árvore. Foi a tarde que passamos visitando a exposição Leminski, conversando em um café, gravando um bate papo. Querido e sempre animado, ficou esta memória de partilhar a Arte e a Poesia. Ainda não sei se editarão a Antologia em homenagem a Éder Jofre, e foi a razão das nossas últimas trocas, sempre embaladas pelo entusiasmo do Pipol. O que sei neste inverno único, é que - inédita - é a vida. Só ela escreve enredos inacreditáveis. Nós somos a sombra de um dramaturgo genial, mas, se existe um deus, ele tem esta vantagem que não temos, de TUDO VER, TUDO SABER... Quem dera eu pudesse emprestar por sessenta segundos os olhos de Deus...
Na verdade, eu só queria contar que aquele novo Cronópios que o Pipol trabalhou tanto pra construir ficou pronto. Ele não está aqui para ver, mas, ele está, no legado, na memória, e trafegar pela página deixa aquela sensação de que ele - realmente - não morreu. Lá estão meus textos de antes, a possibilidade de seguir a publicar a Poesia, e a memória daqueles acenos no pátio do Museu Oscar Niemeyer... A gente não sabe mesmo quando é a última vez que vai poder sorrir para alguém em uma última despedida neste mundo. RIP Pipol, o Cronópios segue, a Poesia segue...

Friday, July 31, 2015

Margens SESC Campinas - difusão da literatura feminina brasileira







Margens , realizado pelo Sesc Campinas com curadoria da jornalista e pesquisadora Jéssica Balbino é um projeto pioneiro, independente e multimídia na difusão da literatura feminina brasileira da última década. O desafio é responder, na prática, a pergunta “Quem são as mulheres da literatura?” e que mais do que livros e teoria acadêmica, as boas histórias só existem a partir da gente, e de gente, por isso é um espaço dedicado aos saraus, debates, oficinas, slams, festivais e resenhas, especialmente a que é vinculado às mulheres e sua produção.

05/08 - 19h30
A oficina deve trabalhar a figura da mulher na literatura e mais especificamente na poesia. As formas como o gênero aparecem narradas pelas próprias autoras, que assumem seus lugares sociais e de enunciação, passando a escrever, eternizar e propagar a própria história. A ação será ministrada por Marina Mara. Sala de Atividades 1


12/08 - 19h30
Mediado pela jornalista e pesquisadora em literatura feminina, Jéssica Balbino, que traz a jornalista e escritora Eliane Brum, para discutir o papel e a representação da mulher na literatura no jornalismo literário, além de fazer uma leitura de textos próprios. Área de Convivência




19/08 - 19h30
Para seguir empoderando mulheres e garantindo a voz feminina, o sarau Margens traz escritoras, slammers, jornalistas e poetas emergentes da literatura brasileira. Com microfone aberto, o sarau é também um espaço de troca, a fim de celebrar a oralidade. Área de Convivência

Participação de Elizandra Souza, Raquel Almeida, Ryane Leão, Mel Duarte, Jennyfer Nascimento, Débora Garcia e Michele Santos

26/08 - 19h30
Para seguir empoderando mulheres e garantindo a voz feminina, o sarau Margens traz escritoras, slammers, jornalistas e poetas emergentes da literatura brasileira. Com microfone aberto, o sarau é também um espaço de troca, a fim de celebrar a oralidade. Área de Convivência

Participação de Elisa Lucinda.


GRATUITO
CLASSIFICAÇÃO LIVRE

Monday, July 27, 2015

Josefina Neves Mello




e as tardes de verão no Oeste eram densas
sufocava o calor e a falta de palavras
doía não saber notícias

o pai sumiu depois do final de março
e os livros tiveram de ser queimados
dissolvi as cinzas na bacia Rochedo em que a mãe tomava banho
o inverno passou e nada de chegar uma notícia
um dia passou em casa um moço e disse que o pai estava no Paraguay
na divisa, perto, não do outro lado
demorou muito até o pai voltar
velho, triste e cheio de cicatrizes
e toda noite ainda tinha pesadelos
lembro sempre daquela madrugada
em que arrombaram a porta procurando o pai
revirando a casa
empurrando a mãe
e perguntando onde estavam os malditos livros
(Josefina Neves Mello, Rio de Janeiro, 19/07, 05h05)

imagem enviada pela autora: verão na Ilha de Paquetá

Wednesday, July 22, 2015

A cada ano colhemos fruto do trabalho (árduo) e a cada ano alegrias novas. O ano começou com a notícia da Menção Honrosa na primeira edição do - Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz - em Santa Cruz do Douro, Portugal, com o livro - As Filhas de Manuela - romance que eu vinha tecendo desde 2004. Na sequência tem a Antologia do Jornal Relevo. Os livros inéditos em editoras e concursos. Outras imersões poéticas estão por vir. Só quero falar do fato consumado. Então, geralmente o ano começa mesmo no final do primeiro semestre. Este ano é um ano lindo, único. 






Wednesday, July 15, 2015

Respirar na Joaquim Livraria & Sebo



Respirar (Poesia)
Bárbara Lia
124 páginas
Capa: "MInaretes & Para-raios"
 (aquarela de André Lissonger)
ISBN - 978-85-906912-3-5
R$.30,00


Meu livro "Respirar" na - Joaquim Livraria & Sebo - É possível comprar via internet, pedidos via e-mail:
info@joaquimlivraria.com.br
Joaquim Livraria & Sebo 
Rua Alfredo Bufren, 51, Centro
Curitiba
041 3078-5990

Tuesday, July 14, 2015

Este "Sim" com fecho éclair








Liberdade da boca pra fora é de barro
Liberdade da boca pra dentro é jardim
Luta da Mulher enoja o mundo feito escarro
Esta gosma rosa quase ninguém olha
Cortam voos destas asas menstruadas
Com vontade de que fique na retórica
Desejo que todas se conformem - Evas
A insistência das costelas adormecidas
Na liberdade monitorada por satélite
Vida ao cubo: Mãe, provedora fêmea
Engolindo este "sim" com fecho éclair
Dentro mil nãos repartidos em gavetas
Como homens bombas - sem saída
Vão à luta para não morrer cerceada
Que riqueza há em ser só - adereço?
Se não for, saiba - vai pagar o preço
Que dor é esta que insulta o mundo?
Dor latente do leite e do sangue XX
Mulher lacrada não pode ser - Sim
Fecho éclair navalha – sobe / desce
O mundo continua a achar estranho
As flores vomitadas nas penumbras
De jardins que floresceram súbito
Em lares canônicos, uniões inócuas
Sim! O que se quer é um sim liberto
Um sim sem fecho éclair navalha
Um sim sem prazo de validade
Sem argola de detento no vestido
Avenidas hão de conhecer o perfume
Das flores soltas, leves, em liberdade
Sou mulher pago o preço da ousadia
A utopia: sonhar um jardim para dois
Um dividir, sem confrontos, rupturas
Que cada um seguisse com suas asas
Muito alto, sempre mais. Haja alturas!...
Bárbara Lia

Saturday, July 11, 2015

Uivo




Um poema é sempre um uivo na noite calada
Quebrando a gélida cortina do silêncio negro
Entrando nas veias como um rio do Alasca
Em pleno verão quando ele degela - triste -
Diluindo a crosta expondo corpos estocados

Um poema é sempre este sangue tardio
Aquele que é descoberto pós-bala alojada
Pós-vísceras rasgadas e o corpo tombado
Que o poema salva com um ato cirúrgico

Um poema é a maré do espanto revelado
Aquele soluço incontido que estoura dor
Que explode rasgando a cápsula da pele

Coração/barragem – finalmente - rompe

Bárbara Lia

Friday, July 10, 2015




Sempre volta aquele poema do Leminski
A arte do chá, do amigo "que chegou a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo"
Ser poeta é entrave
A gente solta palavras como pipas
Espalhadas em um céu de cimento deste inverno
E não conseguimos dizer a quem amamos
Que nosso silêncio é este estardalhaço de signos
E os enleamos nas nossas linhas
Melhor calar tudo e dizer apenas...
- Eu só quero ficar
Em silêncio ao teu lado
Em silêncio sempre
Até que um possa
Entrar no silêncio do outro
Como aquela chama viva
Que flana
Quando estamos
Frente a frente -


La nave va...

Sou toda coração...

Nos demais, todo mundo sabe, o coração tem moradia certa, fica bem aqui no meio do peito, mas comigo a anatomia ficou louca, sou todo coraçã...