depois de milênios
filósofos
tratados
poetas
lutas
depois das sondas
dos voos
de perfurar a galáxia
os anéis dos planetas
o entardecer azul em marte
depois de sondar abismos
explorar a veia do mar
da terra
das flores
entre tantos mantras
religiões
sacrifícios
sangue
lágrimas
depois de revirar tudo
sacudir o planeta
desmontar vulcões
depois de conhecer
segredos e lendas
armazenar a bomba
explodir a bomba
chorar a explosão da bomba
depois de toda palavra
de toda tentativa
somos o zero à deriva
somos cada corpo no mar da líbia
somos a perdição sem volta
fracassada humanidade torta
e nada
que possa fazer valer
milênios
poesia
filosofia
se estivermos a morrer
na areia
vomitados pelo mar
sem nada que faça crer
que este sol e este dia lindo
é por mim merecido
considerando que
está tudo perdido
morto e ressequido
humanidade naufragada
em cada corpo vomitado
Bárbara Lia
O editor Daniel Zanella e equipe do Jornal RelevO selecionou poemas, contos e traduções entre as oitenta edições do Jornal e isto resultou em uma bela Antologia. Meu poema que dialoga com Alfonsina Storni, da série - O céu dos poetas - integra este livro que traz uma mostra da poesia paranaense atual, e que tem uma qualidade rara. O livro custa R$.30,00 e o contato do Jornal Relevo é:
Lavar a ilusão da vidraça para ver o real - é mais bonito Quebrar o salto que te pisa e estilhaça teu pé descalço Serrar as gaiolas e dar aos pássaros o mapa desta rua Só eles carregam a fúria livre que senti em teu abraço
Bárbara Lia
Sunday, August 23, 2015
Trilha sonora para os sessenta anos que completo amanhã. Trilha sonora pra lembrar duas pessoas que eu amo e não poderei abraçar de forma material. Pra vocês dois: pai e mãe, só pra dizer que sigo - tocando em frente. Grata pela vida. Ainda que me protegessem como se eu fosse flor de estufa, no fundo, no fundo eu sei que vocês sabiam que eu era como todos os poetas, tal e qual Cruz e Sousa escreveu
"Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema."
A gentesempre sabe... Agora, vou começar a abraçar os que estão na minha vida como a - possibillidade de esticar um tempo mais esta jornada alucinante - e ao abraçar um a um, amigos de ontem, amigos de agora, amigos de toda hora, filhos, neto - não posso esquecer meus amigos de data de nascimento, pois poetas e escritores, ainda que nunca tenham se encontrado pela vida, são amigos em um patamar de beleza. São irmãos atados pelo sangue da palavra. São os que se apoiam em recados pendurados pela vida... É isto. Este estranhamento de não ter mais como dizer parabéns ao Donizete Galvão... Ainda assim: Feliz aniversário! Onde quer que estejas, a vocês, a todos nós... E a poesia segue...
++Era pra ser um CD, uma ideia que arquivei e encontro agora esta gravação na voz da Luciana Cañete... Este poema integra a Antologia "O Melhor da Festa 3" Festipoa. ++
Clique no link abaixo do poema para ouvir a gravação...
ROSA CHÁ AZUL ANIL
.
Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.
Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:
Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.
Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.
Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.
Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:
rosa chá + azul anil
Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.
E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.
A Revista Capitu, que Gil cantou em uma canção, foi a primeira a publicar um poema meu. Os editores eram Edson e Carlos Pessoa Rosa, eu uma poeta desconhecida. Achei aquilo incrível. E quando Edson Cruz se uniu ao Pipol para criar aquele que seria o Site Literário Cronópios, automaticamente virei cronopiana. Sei que devo, imensamente, a divulgação da minha Poesia à nível nacional ao Cronópios. Nos anos que seguiram, muitos poemas e textos. Conheci Pipol no evento - A cidade aTravessa, Casa das Rosas, em 2010 quando fui lançar Constelação de Ossos. Em 2012 ele visitou Curitiba na véspera do meu embarque para Poa onde lançaria - A flor dentro da árvore. Foi a tarde que passamos visitando a exposição Leminski, conversando em um café, gravando um bate papo. Querido e sempre animado, ficou esta memória de partilhar a Arte e a Poesia. Ainda não sei se editarão a Antologia em homenagem a Éder Jofre, e foi a razão das nossas últimas trocas, sempre embaladas pelo entusiasmo do Pipol. O que sei neste inverno único, é que - inédita - é a vida. Só ela escreve enredos inacreditáveis. Nós somos a sombra de um dramaturgo genial, mas, se existe um deus, ele tem esta vantagem que não temos, de TUDO VER, TUDO SABER... Quem dera eu pudesse emprestar por sessenta segundos os olhos de Deus...
Na verdade, eu só queria contar que aquele novo Cronópios que o Pipol trabalhou tanto pra construir ficou pronto. Ele não está aqui para ver, mas, ele está, no legado, na memória, e trafegar pela página deixa aquela sensação de que ele - realmente - não morreu. Lá estão meus textos de antes, a possibilidade de seguir a publicar a Poesia, e a memória daqueles acenos no pátio do Museu Oscar Niemeyer... A gente não sabe mesmo quando é a última vez que vai poder sorrir para alguém em uma última despedida neste mundo. RIP Pipol, o Cronópios segue, a Poesia segue...
Margens , realizado pelo Sesc Campinas com curadoria da jornalista e pesquisadora Jéssica Balbino é um projeto pioneiro, independente e multimídia na difusão da literatura feminina brasileira da última década. O desafio é responder, na prática, a pergunta “Quem são as mulheres da literatura?” e que mais do que livros e teoria acadêmica, as boas histórias sóexistem a partir da gente, e de gente, por isso é um espaço dedicado aos saraus, debates, oficinas, slams, festivais e resenhas, especialmente a que é vinculado às mulheres e sua produção.
05/08 - 19h30
A oficina deve trabalhar a figura da mulher na literatura e mais especificamente na poesia. As formas como o gênero aparecem narradas pelas próprias autoras, que assumem seus lugares sociais e de enunciação, passando a escrever, eternizar e propagar a própria história. A ação será ministrada porMarina Mara. Sala de Atividades 1
Mediado pela jornalista e pesquisadora em literatura feminina, Jéssica Balbino, que traz a jornalista e escritora Eliane Brum, para discutir o papel e a representação da mulher na literatura no jornalismo literário, além de fazer uma leitura de textos próprios. Área de Convivência
Para seguir empoderando mulheres e garantindo a voz feminina, o sarau Margens traz escritoras, slammers, jornalistas e poetas emergentes da literatura brasileira. Com microfone aberto, o sarau é também um espaço de troca, a fim de celebrar a oralidade. Área de Convivência
Participação de Elizandra Souza, Raquel Almeida, Ryane Leão, Mel Duarte, Jennyfer Nascimento, Débora Garcia e Michele Santos
26/08 - 19h30
Para seguir empoderando mulheres e garantindo a voz feminina, o sarau Margens traz escritoras, slammers, jornalistas e poetas emergentes da literatura brasileira. Com microfone aberto, o sarau é também um espaço de troca, a fim de celebrar a oralidade. Área de Convivência
e as tardes de verão no Oeste eram densas sufocava o calor e a falta de palavras doía não saber notícias
o pai sumiu depois do final de março e os livros tiveram de ser queimados dissolvi as cinzas na bacia Rochedo em que a mãe tomava banho
o inverno passou e nada de chegar uma notícia
um dia passou em casa um moço e disse que o pai estava no Paraguay
na divisa, perto, não do outro lado
demorou muito até o pai voltar
velho, triste e cheio de cicatrizes
e toda noite ainda tinha pesadelos
lembro sempre daquela madrugada
em que arrombaram a porta procurando o pai
revirando a casa
empurrando a mãe
e perguntando onde estavam os malditos livros
(Josefina Neves Mello, Rio de Janeiro, 19/07, 05h05)
imagem enviada pela autora: verão na Ilha de Paquetá
Wednesday, July 22, 2015
A cada ano colhemos fruto do trabalho (árduo) e a cada ano alegrias novas. O ano começou com a notícia da Menção Honrosa na primeira edição do - Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz - em Santa Cruz do Douro, Portugal, com o livro - As Filhas de Manuela - romance que eu vinha tecendo desde 2004. Na sequência tem a Antologia do Jornal Relevo. Os livros inéditos em editoras e concursos. Outras imersões poéticas estão por vir. Só quero falar do fato consumado. Então, geralmente o ano começa mesmo no final do primeiro semestre. Este ano é um ano lindo, único.
Liberdade da boca pra fora é de barro
Liberdade da boca pra dentro é jardim
Luta da Mulher enoja o mundo feito escarro Esta gosma rosa quase ninguém olha Cortam voos destas asas menstruadas Com vontade de que fique na retórica Desejo que todas se conformem - Evas A insistência das costelas adormecidas Na liberdade monitorada por satélite Vida ao cubo: Mãe, provedora fêmea Engolindo este "sim" com fecho éclair Dentro mil nãos repartidos em gavetas Como homens bombas - sem saída Vão à luta para não morrer cerceada Que riqueza há em ser só - adereço? Se não for, saiba - vai pagar o preço Que dor é esta que insulta o mundo? Dor latente do leite e do sangue XX Mulher lacrada não pode ser - Sim Fecho éclair navalha – sobe / desce O mundo continua a achar estranho As flores vomitadas nas penumbras De jardins que floresceram súbito Em lares canônicos, uniões inócuas Sim! O que se quer é um sim liberto Um sim sem fecho éclair navalha Um sim sem prazo de validade Sem argola de detento no vestido Avenidas hão de conhecer o perfume Das flores soltas, leves, em liberdade Sou mulher pago o preço da ousadia A utopia: sonhar um jardim para dois Um dividir, sem confrontos, rupturas Que cada um seguisse com suas asas Muito alto, sempre mais. Haja alturas!...
Sempre volta aquele poema do Leminski
A arte do chá, do amigo "que chegou a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo"
Ser poeta é entrave A gente solta palavras como pipas Espalhadas em um céu de cimento deste inverno E não conseguimos dizer a quem amamos Que nosso silêncio é este estardalhaço de signos E os enleamos nas nossas linhas Melhor calar tudo e dizer apenas... - Eu só quero ficar Em silêncio ao teu lado Em silêncio sempre Até que um possa Entrar no silêncio do outro Como aquela chama viva Que flana Quando estamos Frente a frente -