Wednesday, April 12, 2023

Todas as tardes de maio serão tuas

 




Todas as tardes de maio serão tuas

Poesia 

Bárbara Lia





Prefácio

 

 

Você está prestes a adentrar a vida imaginada de um amor secreto, não compartilhado, que tem no ser amado, ou em seu holograma, um pretexto. Bárbara Lia, em seu vigésimo livro solo, o décimo segundo dedicado à poesia, encontra várias respirações e maneiras de descrever essa forma de amor/quimera, doloroso anestésico. Algumas conservam o segredo, outras são pistas de uma carta de amor tardia. Em uma delas, temos a voz poética em sua adolescência, sonhando encontrar o olhar. Muitos cruzarão o caminho dessa voz feminina, mas existe um, em particular, grão do paraíso, que ela encontrará muitas vezes, mais tarde, pescando em sua memória (Na terra onde cadáveres repousam/Não nasce amor/Essa matéria ignorada/Necessita oceanos, montes e atrito). Inatingível como o horizonte; fonte de calor.

Um dos eixos poéticos que permeiam o livro é a autorreflexão: E por te amar, meu homem, eu carrego as dores da infância pelo avesso – às vezes não sara nunca. Não só em indícios biográficos, mas também na tristeza de viver em um mundo tão injusto, tropeçando a cada dia no invisível fio que une pessoas feitas para serem felizes, Bárbara Lia conecta o universo pessoal ao social, onde crianças sofrem em guerras e se encontram os motivos para o ateísmo do amado e seu impulso revolucionário, foco de admiração.

O homem além do vidro dominaria um saber-viver, como uma dessas pessoas que parecem ter embarcado no trem da história ligeiramente antes de a gente saber da existência dele. Esse homem frequenta o meio dos poetas. Talvez seja um dos grandes de Curitiba, ou vários, ou alguém que lembra o mais amado dos poetas brasileiros, enquanto a narradora, como grande parte de nossa população, é chegada do interior e traz a lembrança de ter sido uma criança Magra, malvestida e sem muita chance. Talvez ele saiba de algo que ela não sabe sobre a vida. Ele abre para ela as portas da boemia em seu melhor momento.

Há indícios de que o amor também se deva ao senso das possibilidades que são despertadas nela, à versão dela que vem à tona quando desse contato. Algo mais próximo de uma aventura, uma suspensão de tantas obrigações (Sim, eu dormia quando te encontrei. Cansada da casa, da rotina, da roupa, da batalha). Afinal, como ele, que tem filhos provavelmente pequenos, consegue estar sempre de roupas claras? Que horas ele tira para esfregar essas roupas, sendo que passa tanto tempo no Bife Sujo? Uma impossibilidade da vida se reflete nesse amor intocado e se conserva num lugar mítico, e por isso mantém para sempre para ela a promessa do que a vida poderia ser. Talvez exista algo nela que é tocado na presença/memória dele e só vem à tona nesse lugar idealizado, quando ela está longe da sua carga diária. Enquanto ela carrega no colo filhos e netos, ele parece carregar uma promessa de liberdade, não só para si, não só para ela, mas para a América Latina inteira.

Você se lembra? A vida era isto: uma asa. A vida era isto: o sabor ardente das cervejas nas manhãs ensolaradas na feira hippie. A vida era o canto das cigarras nas noites insones a cuidar dos filhos. A vida era isto: intensidade que a gente vestia. Era o tempo de estar imerso. Estivemos imersos na casa, no trabalho, na rotina, no dever, no sim, no sim absoluto. Sempre o sim que varre todas as gardênias do céu. Esse “sim” escancarado que está inscrito em constituições, atas, parlamentos, e dissemos: sim.

Você se lembra?

Uma vida plena contrasta com aquele contato fugidio, acentuando o que conseguimos olhar de fora desse amor, a que se brinda com um copo vazio, a que se dedica o auge do outono e lençóis que permanecem guardados. E, mesmo assim, não há dúvida do que essa centelha é capaz de despertar – uma quentura de felicidade ressuscitada.


Sabrina Lopes

Curitiba (PR), 2023

 

Friday, March 24, 2023

Paisagem com canoa na margem - a nova capa de "Todas as tardes de maio serão tuas"




 Sempre quis meu nome em um barco... No caso, em uma canoa que foi delineada por Alfredo Andersen. Quem adentrar comigo essa canoa/livro poderá percorrer fragmentos de uma memória iluminada pelo Amor. Um encanto que me habita desde o século passado e que fluiu ao papel em 2014, para finalmente ser impresso em 2023.

Troquei a imagem da capa em nome da harmonia. Sai a Rua XV e entra a tela do Alfredo Andersen (Paisagem com canoa na margem - 1922).
As duas ilustrações internas dialogam com essa imagem, são fotografias dos meus filhos Paula e Thomas.
"Todas as tardes de maio serão tuas", agora, com suas imagens de barcos e rio e mar, como se tudo fluísse para um porto: Porto Poesia.

encomende seu exemplar - R$.32,00 + tarifa correios - via e-mail barbaralia@gmail.com

Saturday, March 04, 2023

Todas as tardes de maio serão tuas





Pense em um livro lindo...
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Todas as tardes de Maio serão tuas
Poesia/Memória
Bárbara Lia
72 páginas
Capa: Alfredo Andersen
Prefácio de Sabrina Lopes
ISBN - 978-65-00-61736-8
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Fragmentos do Prefácio:
Você está prestes a adentrar a vida imaginada de um amor secreto, não compartilhado, que tem no ser amado, ou em seu holograma, um pretexto. Bárbara Lia, em seu vigésimo livro solo, o décimo segundo dedicado à poesia, encontra várias respirações e maneiras de descrever essa forma de amor/quimera...
(...)
Um dos eixos poéticos que permeiam o livro é a autorreflexão: E por te amar, meu homem, eu carrego as dores da infância pelo avesso – às vezes não sara nunca. Não só em indícios biográficos, mas também na tristeza de viver em um mundo tão injusto, tropeçando a cada dia no invisível fio que une pessoas feitas para serem felizes, Bárbara Lia conecta o universo pessoal ao social, onde crianças sofrem em guerras e se encontram os motivos para o ateísmo do amado e seu impulso revolucionário, foco de admiração.
O homem além do vidro dominaria um saber-viver, como uma dessas pessoas que parecem ter embarcado no trem da história ligeiramente antes de a gente saber da existência dele.
(...)
Uma vida plena contrasta com aquele contato fugidio, acentuando o que conseguimos olhar de fora desse amor, a que se brinda com um copo vazio, a que se dedica o auge do outono e lençóis que permanecem guardados. E, mesmo assim, não há dúvida do que essa centelha é capaz de despertar – uma quentura de felicidade ressuscitada.

Sabrina Lopes
Nasceu em Curitiba, 1978. Publicou poemas nas revistas Alforja (México), Medusa e Babel, no jornal Rascunho e no livro Passagens – poetas contemporâneos do Paraná. Integra a Antologia - Blasfêmeas Mulheres de Palavras. Escreveu a peça Perca a vida para o verão junto ao grupo Gabinete de Curiosidades. Desenvolveu pesquisas sobre feminismo e teoria queer durante o curso de Ciências Sociais (UFPR), e, posteriormente, feminismo e justiça ambiental, na secretaria da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (2005-2006).
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Enviar mensagem privada, caso queira adquirir este que é meu vigésimo livro. detalhes no meu e-mail: barbaralia@gmail.com


Monday, February 27, 2023

As filhas de Manuela na Revista Crioula



Na página 132 um artigo que analisa algumas personagens do romance "As filhas de Manuela", meu romance editado pela Triunfal em 2017. Um olhar sobre as transgressões e a não aceitação dos grilhões do patriarcado. 


2º semestre/2021

Revista Crioula - nº 28 -

Produções contemporâneas que impactam o cenário literário


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Literatura contemporânea no Paraná: autoria feminina, identidades e representação


Andriele Aparecida Heupa

Níncia Cecília Ribas Borges Teixeira


https://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/197165/189371

Thursday, December 08, 2022

Live: Francine Cruz entrevista Bárbara Lia e Rebecca Loise

No dia 07/12 um encontro no Instagram apresentou duas poetas que falaram de seus livros: Carta ao Mundo e Engordei o sol noturno. Com a direção da escritora Francine Cruz. 

Friday, November 11, 2022

Mulheres

Durante minha caminhada pela poesia eu encontrei poetas e autoras que eu lia no início do meu encanto por algo que não fosse os épicos que eu ouvia na minha casa. Emoção imensa em um encontro com Ana Miranda. Eu disse: Quando crescer quero ser Ana Miranda. Ela disse: Você é Bárbara Lia. Alguns anos antes ao pedir um autógrafo ela escreveu - Para Bárbara de olhos tão pristinos e tão doces. Uma alegria ouvir de Eunice Arruda e Renata Pallottini que elas liam meus poemas. Um susto. Uma sensação de que tudo o que se engoliu com o gosto cáustico se tornou doce. Para isto vivemos, como eu disse ontem a um belo homem: Isso é tudo que poetas desejam ouvir. Que se apaixonam por nossas palavras. Que, de alguma forma, tocamos o outro.

Há poucos dias encontrei-me com as - mulheres do meu círculo - pessoas que tornaram menos gélida a aura da cidade que é sempre congelante. Literalmente, ou não. Nossa noite no evento "Esbórnia Poética", quando o lançamento foi duplo, encontrei mulheres que escrevem e militam. Essa palavra (militar) criou asas da minha vida. A velhice e as doenças silenciosas precisam de reclusão e distanciamento. Mas eu sei que Francine Cruz e Edra Moraes militam diariamente para que os escritos não sejam esquecidos, para falar do que está sendo criado pelas Mulheres. 

Foi linda a noite do lançamento no Wonka Bar, ao lado de Rebecca Loise e convidadas.

Conheci Rebecca no ano de 2006, eu a vi atravessar o pequeno porão do Wonka Bar e subir ao palco. Dezesseis anos ela tinha, e fiquei impressionada com sua escrita pungente. Enquanto ela viveu em Curitiba dividimos passeios e encontros em cafés. Amava quando ela abria seu caderno universitário e lia seus textos para mim. Francine e Edra encontrei - assim - relances e momentos onde coube um oi e um tchau. Mas no lançamento duplo no dia 25/10 elas subiram ao palco ao lado de algumas atrizes belas que Rebecca convidou para ler nossos poemas: Maria Amélia, Daiane Caldeira, Jaque Silva... Noite linda!


A Poesia segue, seguimos escrevendo e espalhando nossa essência de aço & flor.






Para que haja luz lá fora

 

 

À sacralidade da natureza nada estremece:

O canto do pássaro

O assombro da rosa fúcsia

O coração da natureza -

Pura matéria das estrelas

 

Nós somos enxertados

Pelo sopro de dois anjos

O anjo do bem - descido das alturas

O anjo do mal - que veio a galope do desconhecido

 

Qual deles está amalgamado ao teu ser?

 

Amor se reconhece no ato

O ódio é este infiltrado

Via fatos, pessoas, eventos

O ódio é multifacetado - enganoso

O amor é como um menino

Livre e nu

Correndo de peito aberto

 

Gosto das pessoas eletrizadas

São as que amam

As que odeiam são contidas

Escondem sob a pele a farpa

As pessoas que odeiam

Voltam-se para dentro de si

Feito criptas

As que amam saem ao luar

Ao vento, ao destino

 

Invejo pássaros, rosas, rios e vento

Por saber que a sacralidade da natureza

Não é atingida pela onda

Esta que ora chega 

 

Como chega a tantos lugares

De tempos em tempos

Esta que persegue e carimba

Segrega e mata

 

Quando encontrarem nossos ossos

Eles serão leves

Serão como somos hoje:

Sol, liberdade e Poesia

 

Ninguém saberá quem odiou

E quem foi odiado

A mesma ossatura humana

Sem distinção

O negro, a mulher livre,

O mendigo ou cada poeta

Nossa ossatura tal e qual

A dos que –hoje – se conclamam deuses

E dizem que são escolhidos

E acham que podem

Com seus dedos de ódio

Brincar de: “uni duni tê o escolhido foi você

Virarão pó e ossos e igualdade

- Enfim -

 

Resta dobrar de encontro ao coração

O estrondo do mundo

Para caber no peito

O quão grande é

E foi tudo

 

A esplendorosa vida

A delicada vida

A orgástica vida

Esta que dançou em minha pele

Nadou no meu sangue

E espera, em paz, meio à natureza,

Que ignora a podridão

 

Lembrar o último beijo

O verso último que brotou ainda agora

Ter a certeza de que ainda faltam séculos 

Para que haja luz lá fora


Bárbara Lia

Carta ao Mundo

(edição da autora)



ENGORDEI O SOL NOTURNO


Às vezes eu ando meio noite
De tempos em ventos
ando meio dia
até quando o relógio
grita: — É meia-noite!

Dei de comer e beber
ao sol noturno
Assim como Cecília
deu de comer
aos pássaros
e deu de beber
à terra

A palavra tem
mais fome
e mais sede
do que alguém
que vive em carne
identidade e osso

Dei de comer
palavras para não
morrer feito gente
que morre sem alma

A íntima idade do tempo
eu alimento quanto mais
palavras eu como
Nem meia noite nem meio dia
às vezes ando meio sem chão
e caio de boca numa poesia


Rebecca Loise

Engordei o sol noturno

(Editora Urutau)



fragmento do texto ANA

Ana era uma cigana doidivana. Desde criança, peralta, saltava de um lado para o outro declamando aos metros versos longos e sentidos. Depois virou profissional. Escrevia poemas, diários e cartas, muitas cartas. Era amiga dos carteiros que levavam seu coração impresso em cartões postais. A libertinagem da linguagem. Prosa que dá prêmio. Piano no bordel. Gertrude e Catarina, Gil e Mary, Clara e Heloisa.
Era fiel aos acontecimentos biográficos. Mais do que fiel, oh, tão presa! Nos cadernos terapêuticos contava sua grande história passional, guardada a sete chaves pela mulher mais discreta do mundo. Loura donzela, adorava enigmas e que nós, que habitamos a mesma casa, caçássemos palavras como ela. "É inútil manobrar a lupa da adivinhação", dizia, e, apesar do nosso esforço, era sempre ela quem admitia vitória.

Francine Cruz
A obra poética de Ana Cristina Cesar: ressignificação do biografismo.
página 85
(Donizella)





Aguarde na antessala


o amor é a antessala do vazio
o beijo a antessala do escarro

a antessala da traição
será sempre a fiel de devoção

o desejo arde
na antessala do desprezo

nervosa espera a vida
na antessala da morte

na porta, a inscrição diz:
aqui morreu a esperança,
a bem aventurança e
a pobre Ismália enlouqueceu

Edra Moraes
Para ler enquanto escolhe feijão
(Atrito Arte Editorial)



Friday, November 04, 2022

Carta ao Mundo - Poesia - Bárbara Lia

 



"Carta ao Mundo"

Poesia
Bárbara Lia
440 páginas
ed. independente
ISBN 978-65-00-52448-2
Capa e contracapa: Fotografia de Tom Spross (Rural mailboxes in
Santa Fe).
Ilustrações do miolo: Desenhos de André Lissonger e Ane Fiuza, telas de Alphonse Mucha e fotografia da autora by Daniel Castellano.
"Carta ao Mundo" reúne poemas de dez livros editados entre 2004 a 2021, com cortes, recortes, e a adição de novos poemas.
Para receber um exemplar autografado enviar mensagem privada nas redes sociais, ou e-mail para barbaralia@gmail.com.
Poesia, sempre!

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...