
Refugiados do campo de Korem,
Etiópia, 1984.
DESERTO METAFÍSICO
Eu me vejo como estrangeira pela vida
Refugiada em um mundo áspero
De versos rasgados ao vento
Sei o quanto arde voltar dez passos
Olhar para trás e ver apenas - o vazio
Vaso amputado do jardim
Posso ver com olhos de areia
E ter certeza
Mais belos os cadáveres ambulantes:
O opaco semblante do menino morto
E do pai apático,
Da mãe que volta
- Como se voltam sempre as mulheres-
Atrás da última esperança
Mais belos e mais vivos
Que almas perdidas
No deserto metafísico do ódio
- Os mortos vivos -
Refugiados do mundo da beleza
Ateando fogo a oásis alheios
Disseminando espinhos
Rindo em galhos retorcidos
- Harpias angustiadas -
Eu não os decifrarei nunca
Sem a senha secreta
Em meus ossos está a senha
Que abriria o coração dos tristes
Eu não reconheço os tristes
A água de canela venenosa
Que me dão de beber
Seus cantos de salmos ao avesso
Tramando meu fim
E eu ali - sorrindo de peito
aberto
Morrerei acreditando
Como a mulher que se volta no deserto
À espera do milagre
A dizer pedra quando for pedra
E nuvem quando for nuvem
Morrerei com aquele olhar de espanto
De quem não acredita até o último instante
Que foi atraiçoada pelos tristes
Se o menino morto abrisse os olhos
Eu lhe diria que ele é mais vivo
Que os mortos vivos manipuladores de vidas
Do deserto de suas almas ressequidas
Brotam abutres invencíveis
Que comem minha carne até os ossos
E leem a minha senha escondida
Bárbara Lia
