Friday, December 02, 2016

Pássaros ruins




INSÔNIA

Este é o século da nossa insônia
Mentes plugadas em telas isonômicas
Longe dos mitos e da cosmogonia
Dopados de “soma” e monotonia
Este é o século lavado à amônia
Escravos cardíacos da luz de néon
Escravos maníacos dos mantras
Escravos agônicos do abutre Mamon
E havia esperança no pássaro
Havia luz nas colmeias tardias
Havia ar nas barricadas de Paris
Havia armar-te. Havia amar-te... Havia.
BÁRBARA LIA
 



Ficha Técnica


Direção e Trilha: Adriano Esturilho I Curadoria: Ricardo Pozzo I Produção: Samara Bark I Ass. de produção: Gustavo Borralho I Montagem e Fotografia: Giuliano Andreso I Assistência de fotografia: Lucas Kosinski I Captação de Áudio: Lucas Maffini I Figuração: Bella Souza I Desenho de Som: João Caserta I Gravação Trilha: Estúdio AudioStamp I Realização: Processo Multiartes e Casazul

diálogo com Clarice Lispector




"mil luzes de orvalho"

"crucificada pela lassidão"

"arranho uma chaga"

Clarice Lispector


**


quem volta
para abraçar
um pássaro
não o encontra
mais


**

liquefaz o sangue do sol
em mil luzes de orvalho
ameniza!
estica o tempo
feito orgasmo
de rainha

**


diálogo poético com Clarice Lispector, a ideia era escrever poemas a partir da leitura dos contos dela, como garimpo, eu procurava palavras e frases poéticas dentro de cada conto e escrevia u poema, um exercício poético que rendeu doze poemas até aqui... mas veio a finalização de "Forasteira" e o lançamento, agora fico aqui sem saber se sigo na poesia dialogando com Clarice, se termino um romance estancado em sessenta páginas e que pretendo terminar até maio... a vida de quem escreve é - no mínimo - insana...
imagem - erika kuhn

Wednesday, November 30, 2016

mana, estamos sozinhas nas madrugadas




mana, estamos sozinhas nas madrugadas puro estanho
nas tardes de farpas atravessando rios de intolerância
somos nós na janela prontas ao salto e a última lágrima
estilhaçadas antes do nosso sol dissolver no ar da beleza
mana, estamos sozinhas - a sós - feito rara flor no deserto
o estatuto adâmico a voz das encíclicas as falsas posturas
a desnivelar nossa carne e alma, nos leva à rebeldia
veja o rio caudaloso de sangue de todas que foram mortas
uma espécie de maldição que se carrega nas dobraduras
cada mulher leva em cada vínculo de osso e carne o sino
quando ela passa urge que pareça uma monja e que não soe
que nada soe que tudo cale que sua alma estelar se apague
urge que ninguém perceba o palpitar vivo em cada poro
que ela seja – a invisível que atravessa um pátio – para sair viva
e o rio de sangue de todas que morreram só por ser – única –
aumenta à proporção do desgaste de tudo que é poesia
mana, estamos sozinhas nas madrugadas nas noites no deserto
lembre de não deixar pendências, escrever teu testamento
e olhar nos olhos como se fosse último olhar a cada tchau
que dás ao teu amor
Bárbara Lia

Tuesday, November 29, 2016

poema na revista gueto




A Revista Gueto é uma nova revista literária, editada por Jerome Knoxville e Amanda Sorrentino. Hoje a Gueto publicou um poema do livro "Forasteira", no link abaixo


https://gueto.wordpress.com/2016/11/29/poema-stitulo/

Monday, November 28, 2016

Blafêmeas: mulheres de palavra


"Blasfêmeas: mulheres de palavra" (Casa Verde, 2016, 216p) é uma antologia organizada por Marilia Kubota e Rita Lenira Bittencourt, reunindo 64 poetas que vêm publicando no Brasil a partir da década de 1990. O projeto gráfico, diagramação e capa são de Roberto Schmitt-Prym, da editora Bestiário.


Adelaide Ivánova, Adriana Zapparoli, Adriane Garcia, Ana Elisa Ribeiro, Ana Mariano, Ana Mello, Ana Peluso, Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Andréia Carvalho Gavita, Angélica Freitas, Bárbara Lia, Celia Musilli, Claudia Manzolillo, Claudia Roquette-Pinto, Concha Rousia, Daniela Delias, Eliana Mara Chiossi, Eliane Marques, Estrelinski Ruiz, Etel Frota, Francine Canto, Gabriela Silva, Germana Zanettini, Greta Benitez, Jandira Zanchi, Jane Sprenger Bodnar, Josely Vianna Baptista, Juliana Meira, Jussara Salazar, Katyuscia Carvalho, Karen Debértolis, Laís Chaffe, Leila Guenther, Ligia Regina, Líria Porto, Lisa Alves, Lota Moncada, Lubi Prates, Luci Collin, Lúcia Santos, Mari Quarentei, Maria Rezende, Marília Garcia, Marilia Kubota, Micheliny Verunschk, Miriam Adelman, Monica Martinez, Neysi Oliveira, Nina Rizzi, Nydia Bonetti, Priscila Merizzio, Priscila Prado, Regina Bostulim, Roberta Silva, Rose Mendes, Sabrina Lopes, Sandra Santos, Stela Livina Siebenichler,Telma Scherer, Vássia Silveira, Virna Teixeira, Yassu Noguchi, Zoe de Camaris.


Thursday, November 24, 2016

algumas poesias no Paraná Imprensa




"Com seriedade e profundidade Bárbara Lia foi trabalhando o seu estilo até chegar à maturidade literária. Seus livros de poesia possuem técnica e essência." 
Isabel Furini publicou poemas meus lá no Paraná Imprensa. Gracias Isabel

link para os poemas:

http://www.paranaimprensa.com.br/isabel-furini-poesias-de-barbara-lia/



Thursday, November 10, 2016

De Amor e Revolução – A poesia libertária e anárquica de Jr Bellé







(Leitura poética de “Trato de Levante”)


Livre. O poeta é livre. Canta Neruda com amor revolucionário. Depois que tantos esqueceram Neruda e sua verve humana. Mesmo eu o esqueci em um escaninho triste, há vinte e dois anos e mais algumas auroras, deitada na solidão de um quarto, a ler o livro – Cartas de amor de Neruda – a caminhar ao lado do poeta pelas ruas de Santiago em seus vinte anos e seu amor desesperado. Com sua capa negra e o coração estourando o peito. Amava Neruda, sua biografia e seu canto amorável – geral e eterno. Como alguém que vem para te ajudar a atravessar a ponte perigosa, ele foi um irmão mais velho que segui por alguns anos e não mais visitei. Ingrata. Esta ingratidão não permeia a fronte de Jr Bellé. É o poeta chileno que ele leva para dentro de seu romance “Trato de Levante”, em um amalgama de poesia, ficção, grito anárquico, canção de amor... É tudo isto e é mais. É um livro surpreendente, onde não há medo, vergonha, ou pudor em cantar o que mora no coração de homens e mulheres, em tempos líquidos de perfis fabricados. Uma utopia rasga páginas e inaugura uma revolução em um lugar de araucárias e rio inventado - rio Varanda. Cada detalhe reverbera dentro em poesia: rio varanda. Ganhei o dia. Lorca vaticinou: a poesia é o impossível feito possível. E este romance escrito em poesia torna verossímil um engajamento, sem igual, de toda a natureza ao redor, a passos largos em uma narrativa épica poética a acompanhar os revolucionários. É de uma beleza impar este adendo de exército da natureza a incorporar o levante: “blocos de caramujos ressurretos” e o som da liberdade no “estardalhaço das gralhas” e na “dinastia aérea dos falcões”. Formigas como “agentes infiltradas”. 
O revolucionário e seus amores: Alice - o amor de ontem - envolve o corpo do poeta em um trotear de memórias. O livro infiltra enredos novos e reinventa, deixa de ser - a leitura sempre igual – de uma revolução. Traz dos confins de um poema de Ginsberg uma garota para o poeta amar: Valentina. O alter ego de Bellé não coloca amarras, nem no corpo nem na essência. Os personagens despidos de estereótipos são tão verdadeiros que é possível tocá-los. E quem viveu no Paraná se aconchega na paisagem a reconhecer as reentrâncias dos rincões, o rio a correr suave, o vapor da água que vai cair na erva. O mate, a partilha.
O poeta situou o levante em seu lugar de chegada ao mundo: sudoeste do Paraná. A revolução que teve êxito, e que inaugurou um lugar utópico sonhado. Pátria Livre. Sonho de tantos. As mais de trezentas páginas do livro não pesam neste mergulhar em momentos que dizem tanto a todos nós que somos os velhos sonhadores: a vida é mesmo feita de amor e revoluções. E uma coisa é a outra. Não existe amor que não seja revolucionário. Não existe revolução que não seja puro amor. Esta é apenas uma leitura poética de um livro inacreditável. Onde sexo = amor. Só isto eleva o livro a um patamar de maturidade interior que não se encontra em toda parte. Em um mundo onde sexo = pornografia, onde tiram a humanidade de uma beleza e a transformam em pecado, resta ler o encontro incendiado de Bellé e Valentina. Basta entrar naquele quarto. Basta percorrer o poema “o poente orgasmo de Valentina”. O poeta tece a vida como se fosse o último respiro. Esta urgência de tragar o sol. Esta agonia de ver o tempo escorrer sem que todos possam conhecer a aurora da Liberdade, e vivê-la e além, saber o que é preciso para forjá-la, com as mãos. Um poeta que ama um poeta comunista. Uma simbiose de autor/personagem e um lugar, todo meu por ser também o chão da minha chegada. Paraná, paranauês. Aqui onde concebi meus próprios sonhos, e por isto foi mais que terno ler o poema abaixo, bem antes de percorrer as páginas de “Trato de Levante”: 



meus versos
são pinhão sapecado na brasa
de grimpa despencada
do alto da araucária
que a cada estalo
entalha-me
enfim
semente
de poesia
teu sangue, seiva de geada fria
paraná

tua alma de madeira forte e carpintaria impossível



*


O livro apresenta uma poética livre de uma poesia potente, sem máscaras, crua e nua, como deve ser a poesia. Capaz de chafurdar nossos sentires a cada instante. Li como quem vê um filme, que belo filme daria. Ainda que até aqui tenha apenas um curta inspirado no poema – o poente orgasmo de Valentina - pensei em como esta revolução brilharia nas telas com uma beleza rara, esta que permeei em um dia, lendo alucinadamente as páginas, sem descanso ou cansaço. Há um caminho que eleva, ele passa pela poesia, ele passa pelas mãos de um jovem poeta que tem algo a dizer. Acho que foi Leminski que disse que não existe escrever bem, mas pensar bem. O pensamento de um jovem anárquico somado a esta verve poética de qualidade, trouxe à luz dos nossos olhos esta pequena joia paranaense. No final, o poema de amor rasgado - mais forte e pungente - é a declaração de amor que ele faz à revolução. Sim é por ela e nela que o poeta caminha, com a exatidão e a inevitabilidade das velhas geadas, ou do fogo, que ferve a água para o mate, que ferve os corações para a vida... Esta que alguns vivem em Liberdade e plenos de Amor.


Bárbara Lia
Poeta e Escritora





o poeta que amo é comunista
não tenho dúvidas sobre meu coração anarquista
a assim seguimos de versos dados

apertamos o caudilho e disparo
meu pássaro negro vara a tempestade
num desespero libertário de vida
e de morte

rima no poente sangue de nosso povo sulamericano
as tintas sílabas em teu vermelho de oceano
rebelde que nunca se rende
não sei se somos
ou nos tornamos

tua poesia tem densidade e cobre
verve vulcânica aflora na altura dos Andes
pura lava de copihue
que lavra
a brava terra mapuche



****

link para Editora Patúa:







Jr Bellé, ou Bellé Jr

Autor do livro Trato de Levante, Bellé Jr. nasceu em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná. Viveu em Curitiba, graduou-se em Jornalismo na UEPG e há quase seis anos habita São Paulo. Vive de escrever histórias e estórias. Trato de Levante é sua segunda obra poética.


***


trailer de trato de levante - curta de Ale Paschoalini baseado no poema - o poente orgasmo de Valentina

Wednesday, November 09, 2016

poema para uma madrugada tétrica...



não há dança
que possa
libertar 

este mundo
apocalipse
em conta-gotas
posso tocar
a angústia
das flores
em seu último
suspiro
de beleza
desintegra
no ar
as arraias
de um pintor
futurista
que ainda
nem nasceu
não há
mais céu
para os ideogramas
da revolução
necessário
inventar 

outra língua
código secreto
para trocar 

táticas
de salvamento
este é o tempo
triste e frio
no qual
o amor
se aquecerá
em uma vela
clandestina
e o ódio
em usinas
em cada esquina
(e não
faltará
vela)
Bárbara Lia - novembro (2016)

Tuesday, November 08, 2016

filha do Vinícius de Moraes com a Florbela Espanca: texto de apresentação do livro Forasteira pelo poeta Fernando Koproski (filho de Vinícius de um outro casamento)


       Fernando Koproski: poeta paranaense, escritor e tradutor





Bárbara é minha irmã por parte de pai. Ainda que hoje ela negue veementemente isso, e diga que é filha do seu Ladercio com a dona Patrocínia, tenho certeza que ela é filha do Vinicius de Moraes com a Florbela Espanca. Daí vem nosso parentesco. Só não me perguntem como meu pai Vinicius pode ter tido em agosto de 1955 uma filha com a poeta Florbela Espanca que uns dizem morreu em 8 de dezembro de 1930... Esse tipo de coisa não se explica, pelo menos não no nosso mundo. Mas é o tipo da coisa mais natural que pode acontecer no mundo de Alice. No país das maravilhas, de onde ela veio, deve haver uma centena de explicações razoáveis para que tal encontro aconteça. Posso até imaginar essa e outras questões, completamente plausíveis na boca do Chapeleiro, enquanto ele toma um tradicional chá das cinco com a Lebre de Março. Enfim, mas não é de Alice que falamos aqui e sim de Bárbara. Embora a menina Bárbara, na seção que abre este livro, intitulada “a menina de sua mãe” guarde muito da menina Alice, dançando entre assombros e deslumbramentos, em seu percurso de descobertas pelo país das maravilhas que é a infância. Sim, a infância é este país de saudades doces onde a menina poeta se inaugura em versos e se descobre num mundo de magia, afetividades e delicadezas. A magia da poesia, nessa instância é regida pela beleza, ternura e o mais puro encantamento (naquele tempo eu colhia o sol mesmo nos dias cinza). Não à toa, a autora quando encontra a ternura revisitada na fase adulta, a abraça de forma irreversível, pois sabe o valor que ela tem e, sobretudo, compreende a raridade e a preciosidade que há nessa ternura em tempos de caos e decadência: quando alguém rasga uma nesga de humanidade terna/ você quer sugar esta veia/ comer pelas bordas a pessoa inteira/ guardá-la em ti de todas as maneiras.

Mesmo quando se revolta diante da ríspida realidade da fase adulta, e é atirada na dimensão angústia, isto é, nesta dimensão onde se descobre que os poetas mentem e tudo que é belo se deteriora, Bárbara ainda é impulsionada pela magia e não se conforma com a decadência humana. Em certo sentido, sua busca por compreender e rastrear a beleza em tempos de pobreza, e de empunhar buquês de delicadeza em meio ao terror de nossos tempos, é ainda uma forma de ver Alice revisitada na fase adulta, lutando por nossos últimos resquícios de humanidade. Essa nova Alice, já senhora e ainda menina, veste uma armadura delicada, se arma de fragilidades e de compaixão, e com certeza sabe de suas impossibilidades... mas isso pouco importa. Nada vai convencer Bárbara a ser de outra maneira. Ela há muito já atravessou as grandes águas e desvendou o poder transformador da Arte. Tanto que sente na maior naturalidade que sua casa é o olhar azul de Van Gogh/ dentro dele as estrelas enlouquecem/ e o girassol incorpora o sol. Assim é que a encontramos nesse livro, como uma bárbara Alice disposta a experimentar, escrever, se reescrever e amar, e principalmente isso: Amar em tempos inamáveis. Como ela mesma diz, como um rouxinol eletrocutado, temo partituras/ ainda que siga amando loucamente a música.

Como o bolo mágico que faz Alice crescer, essa crença na poesia como profissão de fé (e de febre) faz o texto poético de Bárbara crescer aos olhos incrédulos do leitor e o convida a uma incrível jornada noite e dia adentro de uma menina, que um belo dia surgiu em Assaí em 1955 e de lá partiu para deliciar o mundo. Portanto, ao entrar nesse livro, se preparem para provar várias delícias em versos. Pois minha irmã é ótima confeiteira. Disso eu tenho certeza. Digamos que ela tem uma mão boa pra isso. Ou talvez isso seja coisa de família mesmo... E por falar em família: pra finalizar digo que seus versos têm a grandeza dos versos de Vinicius conciliada com a espontaneidade das melodias do canto da Florbela Espanca. Tanto que é possível sair desse livro, com pelo menos um coração em flor, abraçado por seus poemas ou acarinhado por suas músicas de ideias.

Um abraço do seu irmão,
Fernando Koproski

(filho do Vinicius de um outro casamento...)


Forasteira
Poesia 
Vidráguas 

Coleção VentreLinhas
(2016)
80 páginas


link para editora vidráguas:
https://www.facebook.com/vidraguas/app/206803572685797/




Wednesday, November 02, 2016

as filhas de manuela



Meu romance - As Filhas de Manuela - está inscrito no Prêmio Kindle de Literatura.
O link para leitura e avaliação do livro segue abaixo. Quem assina o Kindle pode ler de graça. Quem não assina pode baixar o programa (é bem fácil) e o livros custa U$ 2,99.


sinopse:

"As Filhas de Manuela trafega pelo realismo mágico. É um romance de fôlego, inicia em 1839 em plena Guerra dos Farrapos e segue até os dias atuais. O enredo acompanha a vida de todas as descendentes de Manuela, uma garota simples de Paranaguá que, ao encontrar um oficial da Armada Nacional, muda totalmente a direção de sua vida pacata em uma busca e esta busca pelo homem amado vai propiciar o encontro com alguém cruel. Este homem rejeitado por Manuela a amaldiçoará e esta maldição acrescentará dor e perda às gerações futuras e o adendo de levarem, todas as mulheres da estirpe de Manuela, uma sombra da cor do sangue. Como cada mulher viveu esta peculiaridade e os desdobramentos deste encontro de Manuela com o amor e o ódio vai definir os passos futuros em um círculo de perdas e superações."

O livro obteve a única menção honrosa da primeira edição do Prémio Fundação Eça de Queiroz em Portugal.

link para o livro:
https://www.amazon.com.br/dp/B01LZK9UNA

Monday, October 31, 2016

Forasteira na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre

Algumas imagens da minha passagem pela Feira do Livro de Porto Alegre dia 30 de outubro, lançamento do livro Forasteira e participação no recital dos autores Vidráguas: Em verso e prosa, almas ruidosas.
Obrigada à editora Carmen Silvia Presotto por acatar o livro e ir além de editar um único livro, a partir dele criar  uma nova coleção (VentreLinhas) de poesia escritas por mulheres, novidades no próximo ano. Ao meu amigo e irmão de alma Fernando Koproski, pela apresentação tão única e especial para mim. Ao Adriano do Carmo Lima responsável pela Arte Final do livro e a todos que acompanharam este processo que originou o meu oitavo livro de Poesia. Grata aos amigos e poetas de Poa que seguem ao lado - sempre. Foi uma bela e rica experiência.

Com Fernando Ramos, Carmen Silvia Presotto e Miriam Gress

Com Carmen ao lado de Quintana e Drummond
Com Carolina e Felipe 
Carmen Silvia Presotto com o escritor e jornalista Paulo Mota





O poeta Julio Alves, Carmen e eu


Reencontros - Sidnei Schneider - grande amigo.




Cristina Macedo 


Felipe e Carolina - encontros que a poesia proporciona 





poeta e jornalista Maria Alice Bragança

A poeta Berenice Sica Lamas lê um poema de Forasteira no encerramento do Recital


poeta Adriano do Carmo Lima, responsável pela Arte Final de Forasteira

Durante o recital: Em verso e prosa, almas ruidosas. Apresentação dos autores
Vidráguas, lendo poemas de Forasteira, ao lado da editora Carmen Silvia Presotto


As Forasteiras



Recebendo a visita da poeta Sandra Santos

RaimundA



Participo desta edição especial - escrita por mulheres - uma belíssima publicação, uma grande alegria ser parte deste momento RaimundA



"Hoje, vamos celebrar todas nós, as Beyoncés, as Angelas Davis, as Mc Carols, as Judith Butlers, as Sylvia Riveras, as Conceições Evaristos, as Sofias Faveros, as Hilda Hilsts. Beauvoir escreveu O Segundo Sexo se perguntando uma só pergunta: “O que é ser mulher?”. Obrigada a todes por essa jornada que ainda mantém essa pergunta aberta." 

Link para a edição Inverno/Primavera 2016:




Thursday, October 27, 2016

soneto para ninar a selvagem em mim .



há seis décadas luto como uma menina
na rua no quintal e numa velha campina
lado a lado com o amor sem dar propina
sem medo e só com o que a vida ensina


dá-me o ombro magro e, suave, me nina
em alguns dias cansa ser quase heroína
rasga meu peito pra arrancar alma felina
deixa o sol bater com o fogo que calcina

lava minha fúria para que mude esta sina
diga-me suave: - quem ama não domina!
cuida que eu abandone esta adrenalina

de viver a roubar o sol em cada esquina
quero um beijo eterno - tua boca fascina
quiçá o tempo que resta seja - purpurina

Bárbara Lia

Sunday, October 23, 2016

"Forasteira" sob o olhar do poeta Koproski


(fragmento da apresentação do livro)

Bárbara é minha irmã por parte de pai. Ainda que hoje ela negue veementemente isso, e diga que é filha do seu Ladercio com a dona Patrocínia, tenho certeza que ela é filha do Vinicius de Moraes com a Florbela Espanca. Daí vem nosso parentesco. Só não me perguntem como meu pai Vinicius pode ter tido em agosto de 1955 uma filha com a poeta Florbela Espanca que uns dizem morreu em 8 de dezembro de 1930... Esse tipo de coisa não se explica, pelo menos não no nosso mundo. Mas é o tipo da coisa mais natural que pode acontecer no mundo de Alice. No país das maravilhas, de onde ela veio, deve haver uma centena de explicações razoáveis para que tal encontro aconteça. Posso até imaginar essa e outras questões, completamente plausíveis na boca do Chapeleiro, enquanto ele toma um tradicional chá das cinco com a Lebre de Março. Enfim, mas não é de Alice que falamos aqui e sim de Bárbara. Embora a menina Bárbara, na seção que abre este livro, intitulada “a menina de sua mãe” guarde muito da menina Alice, dançando entre assombros e deslumbramentos, em seu percurso de descobertas pelo país das maravilhas que é a infância. Sim, a infância é este país de saudades doces onde a menina poeta se inaugura em versos e se descobre num mundo de magia, afetividades e delicadezas. A magia da poesia, nessa instância é regida pela beleza, ternura e o mais puro encantamento (naquele tempo eu colhia o sol mesmo nos dias cinza). Não à toa, a autora quando encontra a ternura revisitada na fase adulta, a abraça de forma irreversível, pois sabe o valor que ela tem e, sobretudo, compreende a raridade e a preciosidade que há nessa ternura em tempos de caos e decadência: quando alguém rasga uma nesga de humanidade terna/ você quer sugar esta veia/ comer pelas bordas a pessoa inteira/ guardá-la em ti de todas as maneiras
(...)

Fernando Koproski


--

Fernando Koproski nasceu em Curitiba, em 22 de janeiro de 1973. Publicou os livros de poemas: "Manual de ver nuvens" (1999); "O livro de sonhos" (1999); "Tudo que não sei sobre o amor" (2003), incluindo CD que apresenta leitura de poemas na voz do autor e temas musicais compostos por Luciano Romanelli; "Como tornar-se azul em Curitiba" (2004) e "Pétalas, pálpebras e pressas", livro premiado com publicaçãopela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (2004). Pela editora 7Letras, publicou a trilogia "Um poeta deve morrer", composta pelos livros: "Nunca seremos tão felizes como agora" (2009), "Retrato do artista quando primavera" (2014) e "Retrato do amor quando verão, outono e inverno" (2014).

Como tradutor, selecionou, organizou e traduziu as AntologiasPoéticas de Charles Bukowski "Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém" (7 Letras, 2005), "Amor é tudo que nós dissemos que não era" (7 Letras, 2012) e "Maldito deus arrancando esses poemas de minha cabeça" (7 Letras, 2015), bem como a Antologia Poética de Leonard Cohen "Atrás das linhas inimigas de meu amor" (7 Letras, 2007).

Lançou o CD Poesia em Desuso, registro ao vivo do recital que fez com o músico e compositor Alexandre França, apresentando poemas autorais, traduções e sua parceria musical, em 2005.

Como letrista, tem composições gravadas por: Beijo AA Força no CD "Companhia de Energia Elétrica Beijo AA Força"; Alexandre França no CD "A solidão não mata, dá a ideia"; Casca de Nós no CD "Tudo tem recheio"; e Carlos Machado nos CDs "Tendéu", "Samba portátil", "Longe", "Longe ao vivo" (DVD), ""Los amores del paso" e "Bárbara".


SOBRE O LIVRO:

Forasteira
Bárbara Lia 
80 páginas
Coleção VentreLinhas
Vidráguas - Porto Alegre


Forasteira na livraria virtual vidráguas:

https://www.facebook.com/vidraguas/app/206803572685797/

Saturday, October 22, 2016

As filhas de Manuela - Gênese

2004. Fui passar  uma semana na Ilha do Mel. E foi no pátio interno do Forte Nossa Senhora dos Prazeres na Ilha do Mel a "primeira visão". Fui até lá descansar e encontrei um casal simpático vindo de Santa Catarina. Nunca mais os vi, lembro apenas o nome da moça, que foi o nome que migrou para o livro, ela entrou na minha ficção. Era inverno, éramos apenas nós em uma pousada na Praia das Encantadas. Uma tarde saímos a caminhar pela orla da ilha e fomos parar no Forte, eles adentraram o Forte e fiquei por alguns minutos no pátio. Primeiro é preciso saber que a mente de escritor permeia universos paralelos. Não somos videntes, nada errado se fossemos, mas não somos os - adivinhadores do futuro - somos sensíveis e acossados por este mistério que traz personagens e histórias. A sós no pátio "vi" ou imaginei, um homem magro que tomba morto, com um uniforme branco, e ele precisa dizer algo antes do fim. Ecoou uma frase em minha mente: diga a helena que eu a amo. Por dez anos eu fiquei imersa nesta possibilidade de - dizer a helena que ele a amava. Era como aquela revoada de pássaros que no céu mudam sua jornada e bailam e formam cenários vários, escuras nuvens ondulantes. Meu livro era tão ondulante que uma parte da revoada debandou e originou outro livro que tem como cenário Paranaguá e uma garota que ama Chopin. Segui em lapidações sem entender quem era Helena, e só quando mudei seu nome, pude entender a vida pétrea e traçar o itinerário misterioso que faz de "As filhas de Manuela" um enredo do gênero realismo mágico. Manuela era mais verossímil e Manuela era a rude menina da antiga Paranaguá, que naquele lugar - grande mar redondo - apaixona-se por um oficial da Armada Nacional e inicia a saga que gerou o meu mais longo romance... O título final "brotou" um dia antes de imprimir o livro e enviar ao Prémio Fundação Eça de Queiroz... É isto. Uma longa jornada. As pessoas me escrevem e dizem que querem ler o livro impresso, que preferem o livro impresso... E eu quero que o livro seja impresso. Nem vou narrar a epopeia deste livro em busca de uma publicação, então... Decidi esperar os desdobramentos, se nada der certo, no final de janeiro vou fazer algo que nunca fiz - uma edição em uma plataforma tipo catarse - um financiamento coletivo. Quem vai querer? Nos falamos em janeiro e desculpe aí quem esperou para ler a história e agora dá de cara com ela em e-book... 
C'est la vie.
A roupagem física de - As filhas de Manuela - não demora... Assim espero.



  - um dos cenários do romance: Forte Nossa Senhora dos Prazeres - Ilha do Mel (PR)


Morena
Forte da Ilha do Mel




Do tamanho de uma mosca,
A marca do destino
Rasteja muro abaixo.
Sylvia Plath



Diga a Manuela que eu a amo!
A brisa do mar trouxe a voz angustiada – o pedido. O Forte estava vazio. No pátio interno as paredes brancas suspensas ao meu redor refletiam o passado. Na mente, a imagem de um homem vestido de branco com o uniforme da Armada Nacional. Um sussurro e depois a queda do moço em câmara lenta, em meio à fumaça do meu imaginário. O vento passava acima da Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres. Ali dentro a brisa solidificou em uma frase. Uma imagem que valsou ao meu redor e sacudiu meu vestido leve. O casal ao meu lado naquele passeio já adentrara o interior da carceragem do Forte. Eu os segui, tocada ainda pela frase. O clima adensa-se naquele lugar onde homens foram encarcerados. Fico por uns minutos colhendo a dor dos prisioneiros – ouvindo o ranger de correntes, barulho de latas batendo no chão, odor forte de marinheiros. O casal olha para meu rosto petrificado. A mulher se preocupa comigo.
Tudo bem, Morena?
Esboço um sorriso para não demonstrar que uma parede ergueu-se e as dimensões foram varridas naquela tarde. Estou na antiga prisão no Forte Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel. Estou ouvindo o recado do homem que tombou em batalha. Manuela? Um nome guardado por quase dois séculos. Um recado que apago ao sair do monumento belo e as gaivotas trazem a certeza de que agora são livres todos os homens. Ou, ao menos, devem ser livres. Não há mais navios negreiros nem batalhas. A Fortaleza marca o passado e proclama a era de mares abertos. Ao menos aqui perto. Longe, os piratas seguem a saquear. Somália é um nome que lembra piratas modernos. Aqui tudo está deserto. Nenhum soldado a vigiar os canhões. Uma nuvem imensa passa acima com pressa.  Hora de voltar para a pousada e comer aquele peixe maravilhoso com uma salada leve. Sei que hoje vou dormir sonhando com um homem que, antes de tombar para sempre, grava no tempo um recado para quem ama. Hora de lembrar que um tempo onde amor imprimia esta urgência de rastilho de pólvora, explosões, naufrágios, lenços brancos, fragatas despedaçadas, mulheres que esperaram - em vão - pelos seus amantes.

-- Bárbara Lia in As Filhas de Manuela -