Wednesday, February 22, 2017

Como costurar água - Bárbara Lia








O amor costurou sua boca 
O amor  atou suas mãos
O amor cegou os seus olhos
O amor neutralizou os aromas
O amor tornou insípido o céu
O amor deitou-a na relva
E a inoculou com o silêncio
Em  uma noite rasa no Ocidente
Pós-longas noites desorientadas
Ela soube, enfim:

Para dizer de amar

Toda palavra é nonsense









O Amor é uma explosão sinistra



Nunca fui de ninguém
O mundo me entedia
A pergunta antiga
A febre do homem:
— Viver pra quê?
Nunca vi inteiro
Os que me amaram
Seus corpos
Dobrados sobre mim
Sufocava-me
Não desacreditei do amor
Simplesmente
Nunca o vivi plenamente
Isto o deixa vivo
Como um amanhecer
Virgem e apocalíptico
Esperando para romper
Em uma explosão
Sinistra









Como água e água


                                     

Algumas coisas colocadas juntas seguem - água e óleo.
Experiência da aula de Física, copos americanos a exibir - água e óleo.
E os amantes - água e óleo.
E os amigos - água e óleo.
E a família – água e óleo.
E os pares – água e óleo.
E os lugares – água e óleo.
E as salas das repartições - água e óleo.
Em tudo que os olhos caíram pela vida:
  - vitrines flor de estufa arranjos bailes casamentos roupas de festa –
Água e óleo.
Lá no rincão das estrelas misturam demais e acaba tudo - água e óleo.
Súbito, despejaram algo em meu copo/corpo e me senti inundada de amor/água/ anjo.
Lá dos confins das estrelas despencou um ser molhado e estou, agora, a ele misturada.
Sublime calor me enlaça e a parte que é água/ele - por ser estelar - tem uma luz maior.
As gotas dele dançam e me extasiam e enleiam minha parte fosca – e, foscamente, sorrio.
É tudo água. Só não sei como dizer a ele desta - água sozinha de fonte secreta – posto ele ser das alturas e todos lhe acenam e lhe falam de amor e o querem e me sinto assim - clandestina - na luz líquida que é do anjo / estrela /água, que agora sinto como matéria da minha matéria e alma da minha alma.

Como costurar água
Bárbara Lia

(livro em construção)

imagem - Helen Levitt

Tuesday, February 07, 2017

Sol de Coyoacán - diálogos com Frida Kahlo - livro artesanal

Como eu sei que sou Você?
Ouço uma incessante chuva no pátio, mesmo que não exista pátio. Uma parte minha vive na Casa Azul, ainda. Ouço uma incessante goteira na pedra quando estou entre o sono e o despertar.

Como você e todas as mulheres de sangue indígena, levo esta postura de rainha, o queixo erguido, o olhar que nunca se dobra, nunca em nós uma postura de subserviência. Temos o chão e a floresta e os segredos dos ancestrais. Os teus são toltecas e os meus são da raça Tupi. Nossa pele canela conhece o sol e não se irrita com seus raios e nosso amor pela lua vem de longe de muito longe. As estrelas amam estas mulheres das tribos e temos sempre uma que escolhemos para ser nosso farol. Nunca soube a tua, mas a minha é a estrela Vésper.


Sol de Coyoacán - Bárbara Lia




Em 2010 iniciei a edição de livros artesanais, dei a este projeto delicado e muito amado por mim, o título  - 21 gramas - livros com 21 páginas (em média), formato 10,5 x 18 cm e o detalhe em crochê para juntar as páginas. 
Sol de Coyoacán reúne meu diálogo - em prosa e verso - com Frida Kahlo.
O preço de cada livro é R$.21,00 - + postagem - R$.7,00.
Iniciei uma promoção por 15 dias.
Quem comprar um livro artesanal recebe dois e pode presentear outra pessoa que ame poesia.

Mais detalhes e vendas no meu e-mail
barbaralia@gmail.com

Sunday, February 05, 2017

da desumanização...




a desumanização acontece ao ritmo do plim-plim, há décadas
orquestra subliminar com hálito de goebbels nunca cessa
os ouvidos agudos não suportaram e desconectaram satã
enlear os mais simples em estratégia miserável e cruel
o exercito maior inocente e alguns cientes tão podres quanto
quando a onda fascista a tudo engole e cai a beleza humana
quando no chão toda a poesia as rosas as notas musicais
toda a serpentina lírica dos carnavais riso puro e auras de antes
quando no chão os rios de suavidade evaporam ao sol sem nexo
fica esta espada no coração-pedra esta espada enfeitiçada
ninguém mais tem o direito de sangrar ainda mais nosso coração
nosso sangue só pela grandeza, só pelas mãos de um Arthur
só mãos de amor para retirar a espada, deixar vazar o sangue
só a beleza vale nossa dor, então vamos cessar o sofrimento
esquecer o que não vale nossa lágrima, perdoar, seguir, lutar
reconstruir - as rosas, os rios, as marchinhas delicadas, os
lábios das primaveras inenarráveis, as mãos que acenam luz
há um mundo que nos atinge por ser o rosto que já conhecemos
misto de hitler, temer e carrascos, coisas que destroem as coisas
a desumanização vem acontecendo lentamente e alguns já viram
os que viram hoje, os que sabem agora, os que veem o absurdo
de se agredir quem morre, desejar que morra, o escárnio, horrível
a desumanização é hipócrita e podre atrás de um rosto colorido
a desumanização - uma fumaça invisível e inodora a enlear tudo
a desumanização que nos atirou nesta patamar tão triste...


Bárbara Lia 

Thursday, February 02, 2017

Marisa Letícia Lula da Silva (1950-2017)




Marisa Letícia, companheira de Lula, mulher guerreira, ex-primeira dama do Brasil descansa. Sei de forma abrandada da sua dor, aqui no reino das insignificâncias - a minha insignificância e a de alguns que me detestam. É difícil suportar as falas injustas, sim. O corpo adoece. Não posso imaginar o que é ser uma pessoa simples que sai de um mundo onde pode tocar cada coisa ao redor para estar ao lado de uma pessoa histórica como é Lula. Os mitos morrem. Os poetas que você ama como se fossem deus, morrem. Morrem os grandes homens e mulheres que você admira e você sabe: é o ciclo. Você entristece, mas não chora. Nada escapa ao fim, e esta dúvida sobre o fim de Marisa Letícia, este sentir na pele de forma abrandada o que ela sentiu em fúria reverbera a certeza de que é preciso ser forte diante dos que odeiam, mas até para ser forte existe um limite. 

Não posso dar nada além da lágrima, as lágrimas todas.

Descanse em paz... 
Dos que odeiam não falaremos e nem os lembraremos...

Wednesday, February 01, 2017

Sunday, January 29, 2017

Revista Gueto - em breve pelo selo independente um livro digital - Aguardem!


Novo título a caminho:

Uma brasa acesa de amor e morte - Poesia - Bárbara Lia

Republicando postagem da editora da Revista Gueto - Amanda Sorrentino - no Facebook:
Já publicamos | no selo gueto editorial | da revista gueto | Antonio LaCarne | livro um | e Claudio Parreira | livro dois
mais três já confirmados | no prelo | Rodrigo Novaes de Almeida | livro três | Bárbara Lia | livro quatro | e Cláudio B. Carlos | livro cinco | em breve


gueto editorial é um selo independente de livros digitais destinado a correr livre na rede | levando versos, antiversos, protoversos, metaversos e multiversos para o reviramento do mundo | todos os títulos serão acessados gratuitamente em nosso site sob licença creative commons


Friday, January 27, 2017

A eternidade da eternidade, um prefácio para o livro A Barca de Rá - Isabel Furini

(Prefácio que escrevi para o livro - A Barca de Rá - Poemas da Travessia dos Personagens Mortos pelo Portais das 12 Hora - Isabel Furini)

link para leitura do livro: clicar aqui neste link para ler A  Barca de Rá





O sonho do homem é permanecer. Para isto gera filhos, planta árvores, realiza projetos e busca, de várias maneiras, imprimir seu nome no mundo de forma pétrea. Algo que nada lave, apague, queime, desintegre. Algumas edificações atravessam Milênios. As civilizações imprimem conhecimentos que gerações futuras replicam. Em cada nome que se perpetua um feito de galhardia, de ciência, de conquista. Alguns também se perpetuam por iniquidades, como Jack o estripador, do qual nem sabemos o real nome. Sabemos que existiu e foi feroz. O escritor é o que se eterniza por traz de máscaras, com muitos nomes, a caminhar por muitas cidades e a sentir de várias formas o rio da vida em suas veias. O escritor é o que cria uma realidade metafísica que migra para o papel como fato e tudo isto acaba por ser eternizado mais que o criador. O mistério da Arte imprime esta flor de fogo nas entrelinhas e permite que um mortal comum, por vezes calado e tímido, se torne eterno. Nem sempre o autor é afeito a arroubos como quem ele cria. Ficam os enredos a guiar corações em êxtase, que leva a um momento inacreditável, onde a respiração se faz opressa e, dentro de nós esta incredibilidade: como alguém conseguiu escrever algo tão lindo! O texto que inicia esta apresentação é minha forma de dizer que, para alguns, os personagens dos livros são tão sagrados que acabam confundidos com as coisas do dia, da vida e não são colocados como algo apartado da vida materializada. O escritor é o mago que consegue derrubar uma fina parede entre os mundos. Para os leitores estes personagens são tão reais como o vizinho que nos chateia com os barulhos na madrugada, ou a mulher que nos saúda no supermercado. 
O livro A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12 HORAS adentra um universo fictício para plasmar um mundo onde personagens de livros se encontram em uma barca em uma travessia rumo ao mundo dos mortos. É possível que este mundo antigo te engula e entres em uma espiral de mitos e símbolos. É uma viagem sonora, lavada em imagens, onde a angústia, o êxtase e o medo te tocam e tudo conclama a pensar nesta possibilidade, de que nossos maiores ícones da Literatura acabem por morrer nas veias de um tempo (presente) onde a vida se resume a likes na rede social, a encontros cibernéticos lavados em puro ego, palavra que evaporam ao acabar de ser proferida. Estas coisas deste tempo – líquido - segundo Baumann. Fica esta angústia de que consigam roubar a eternidade da Eternidade, de tudo que o mundo calcificou em matéria de Arte impressa nos livros. No instante seguinte, um pensamento consolador a garantir que desde que o mundo é mundo, os leitores se perpetuaram à margem dos modismos, convenções, etc. E o pensamento consolador dilui no ar uma barca plasmada, onde personagens atravessam portais para a morte. O livro traz uma narrativa lírica, com direito ao coro, à moda do Teatro grego, o que traz uma aura de gravidade aos acontecimentos. A autora dá voz aos personagens canônicos e atira uma chuva de interrogações sobre a gênese de um livro, sobre o papel do autor: esta eterna dúvida se é ele que imprime força aos personagens, ou são os personagens que se impõem advindos deste espaço misterioso chamado – criação. Nesta barca, a autora veste a pele dos personagens em discursos vários: Dom Quixote fala de lutas e Úrsula de Cem Anos de Solidão, espanta-se por ser ficção dentro da ficção. As fala das inúmeras personalidades ecoam em uma barca impossível, plasmada para debater o mistério da criação e da criatura no universo da Literatura. A eternidade - ou não - dos que habitam este universo paralelo do imaginário. Resta ao coro deixar no ar a pergunta:

"e se os humanos
fossemos apenas
personagens exilados
de um livro virtual
construído no passado?"


Bárbara Lia é poeta e romancista.

Monday, January 16, 2017

A tecelã dos sonhos - Entrevista a Ana Lúcia Vasconcelos no site Musa Rara


Ana Lúcia Vasconcelos disse que suas entrevistas são mesmo longas e que era para que eu contasse TUDO sobre meu itinerário de leituras e livros que escrevi, e eu contei. A Literatura é o pão e o dia a dia, então não esperem rompantes acadêmicos, citações e nada mais além do que se ouviria em uma conversa em um café. Minha vida de escritora começou mesmo - nel mezzo del cammin di mi vita - este é o resumo do meu mergulho na palavra... 

Link para a entrevista:

http://www.musarara.com.br/a-tecela-de-sonhos

Monday, January 09, 2017

RIP ZIGMUNT BAUMANN


(todos nós fomos influenciados por Zigmunt)


não suporto o ruído dourado do sol
a arrastar o manto sobre os tristes
grão a grão toda beleza é triturada
o tempo agora é líquido - lacrimado

Bárbara Lia




Thursday, December 22, 2016

3 poemas de "forasteira" no site mallarmargens

Para encerrar o ano, três poemas do meu livro "Forasteira" no site Mallarmargens.

 Ilustração – Eleusis by Marcin Owczarek

link para as poesias;


http://www.mallarmargens.com/2016/12/3-poemas-de-forasteira-de-barbara-lia.html

Friday, December 09, 2016

Para Emily & Clarice






É incrível que elas tenham nascido na mesma data, Clarice em 10 de dezembro de 1920 em Chechelnyk, Ucrânia e Emily Dickinson em 10 de dezembro de 1830 em Amherst, Massachusetts.
Nossa grande Clarice e a inesgotável e inacreditável poeta Emily Dickinson, que eu amo e amo...
Meu amor por elas e minha homenagem neste dia. Diálogos que nunca terminam... 
Só resta dizer: vocês tem noção do que fizeram com a gente? 
Eu vou passar a vida a perfurar estes solos inesgotáveis: Emily & Clarice.






“A real cicatriz você tem?” *



Signo de Salomão
Na palma
Napalm na pele
Da alma
Tatuagem recebida
No berço
Caligrafia de Deus
- Risco estrela -
Que oblitera a pele canela
O mel de flor evaporada
Os traços arcaicos
Incinerados no espelho
Reflete
Em branca fogueira
Intacta
Minha alma
Ignorata

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore/2011

* o título do poema é um verso de Emily Dickinson,
assim como de todos os poemas deste livro



.
“Enquanto eu inventar Deus. Ele não existe.”
(Clarice Lispector)



.
Sempre a colidir com Deus
Nas horas incríveis
Nas horas túrgidas
Nas horas cruas
Mas, no dia a dia – Deus esfuma
Eu sempre quis ser íntima
Brincar com ele
Qual na infância
Como se ele fosse um vizinho
Que se chama pelo vão da cerca:
— Vê as amoras maduras?
Vamos devorá-las depois do pique esconde?
— Pena. Amanhã eu vou. Hoje fiquei de castigo
(A mãe dele o tira da janela e fecha a cortina.
Antes acenamos um ao outro, um pouco tristes)
Bárbara Lia
(Memento - 2016)

Friday, December 02, 2016

Pássaros ruins




INSÔNIA

Este é o século da nossa insônia
Mentes plugadas em telas isonômicas
Longe dos mitos e da cosmogonia
Dopados de “soma” e monotonia
Este é o século lavado à amônia
Escravos cardíacos da luz de néon
Escravos maníacos dos mantras
Escravos agônicos do abutre Mamon
E havia esperança no pássaro
Havia luz nas colmeias tardias
Havia ar nas barricadas de Paris
Havia armar-te. Havia amar-te... Havia.
BÁRBARA LIA
 



Ficha Técnica


Direção e Trilha: Adriano Esturilho I Curadoria: Ricardo Pozzo I Produção: Samara Bark I Ass. de produção: Gustavo Borralho I Montagem e Fotografia: Giuliano Andreso I Assistência de fotografia: Lucas Kosinski I Captação de Áudio: Lucas Maffini I Figuração: Bella Souza I Desenho de Som: João Caserta I Gravação Trilha: Estúdio AudioStamp I Realização: Processo Multiartes e Casazul

diálogo com Clarice Lispector




"mil luzes de orvalho"

"crucificada pela lassidão"

"arranho uma chaga"

Clarice Lispector


**


quem volta
para abraçar
um pássaro
não o encontra
mais


**

liquefaz o sangue do sol
em mil luzes de orvalho
ameniza!
estica o tempo
feito orgasmo
de rainha

**


diálogo poético com Clarice Lispector, a ideia era escrever poemas a partir da leitura dos contos dela, como garimpo, eu procurava palavras e frases poéticas dentro de cada conto e escrevia u poema, um exercício poético que rendeu doze poemas até aqui... mas veio a finalização de "Forasteira" e o lançamento, agora fico aqui sem saber se sigo na poesia dialogando com Clarice, se termino um romance estancado em sessenta páginas e que pretendo terminar até maio... a vida de quem escreve é - no mínimo - insana...
imagem - erika kuhn

Tuesday, November 29, 2016

poema na revista gueto




A Revista Gueto é uma nova revista literária, editada por Jerome Knoxville e Amanda Sorrentino. Hoje a Gueto publicou um poema do livro "Forasteira", no link abaixo


https://gueto.wordpress.com/2016/11/29/poema-stitulo/

Thursday, November 24, 2016

algumas poesias no Paraná Imprensa




"Com seriedade e profundidade Bárbara Lia foi trabalhando o seu estilo até chegar à maturidade literária. Seus livros de poesia possuem técnica e essência." 
Isabel Furini publicou poemas meus lá no Paraná Imprensa. Gracias Isabel

link para os poemas:

http://www.paranaimprensa.com.br/isabel-furini-poesias-de-barbara-lia/



Thursday, November 10, 2016

De Amor e Revolução – A poesia libertária e anárquica de Jr Bellé







(Leitura poética de “Trato de Levante”)


Livre. O poeta é livre. Canta Neruda com amor revolucionário. Depois que tantos esqueceram Neruda e sua verve humana. Mesmo eu o esqueci em um escaninho triste, há vinte e dois anos e mais algumas auroras, deitada na solidão de um quarto, a ler o livro – Cartas de amor de Neruda – a caminhar ao lado do poeta pelas ruas de Santiago em seus vinte anos e seu amor desesperado. Com sua capa negra e o coração estourando o peito. Amava Neruda, sua biografia e seu canto amorável – geral e eterno. Como alguém que vem para te ajudar a atravessar a ponte perigosa, ele foi um irmão mais velho que segui por alguns anos e não mais visitei. Ingrata. Esta ingratidão não permeia a fronte de Jr Bellé. É o poeta chileno que ele leva para dentro de seu romance “Trato de Levante”, em um amalgama de poesia, ficção, grito anárquico, canção de amor... É tudo isto e é mais. É um livro surpreendente, onde não há medo, vergonha, ou pudor em cantar o que mora no coração de homens e mulheres, em tempos líquidos de perfis fabricados. Uma utopia rasga páginas e inaugura uma revolução em um lugar de araucárias e rio inventado - rio Varanda. Cada detalhe reverbera dentro em poesia: rio varanda. Ganhei o dia. Lorca vaticinou: a poesia é o impossível feito possível. E este romance escrito em poesia torna verossímil um engajamento, sem igual, de toda a natureza ao redor, a passos largos em uma narrativa épica poética a acompanhar os revolucionários. É de uma beleza impar este adendo de exército da natureza a incorporar o levante: “blocos de caramujos ressurretos” e o som da liberdade no “estardalhaço das gralhas” e na “dinastia aérea dos falcões”. Formigas como “agentes infiltradas”. 
O revolucionário e seus amores: Alice - o amor de ontem - envolve o corpo do poeta em um trotear de memórias. O livro infiltra enredos novos e reinventa, deixa de ser - a leitura sempre igual – de uma revolução. Traz dos confins de um poema de Ginsberg uma garota para o poeta amar: Valentina. O alter ego de Bellé não coloca amarras, nem no corpo nem na essência. Os personagens despidos de estereótipos são tão verdadeiros que é possível tocá-los. E quem viveu no Paraná se aconchega na paisagem a reconhecer as reentrâncias dos rincões, o rio a correr suave, o vapor da água que vai cair na erva. O mate, a partilha.
O poeta situou o levante em seu lugar de chegada ao mundo: sudoeste do Paraná. A revolução que teve êxito, e que inaugurou um lugar utópico sonhado. Pátria Livre. Sonho de tantos. As mais de trezentas páginas do livro não pesam neste mergulhar em momentos que dizem tanto a todos nós que somos os velhos sonhadores: a vida é mesmo feita de amor e revoluções. E uma coisa é a outra. Não existe amor que não seja revolucionário. Não existe revolução que não seja puro amor. Esta é apenas uma leitura poética de um livro inacreditável. Onde sexo = amor. Só isto eleva o livro a um patamar de maturidade interior que não se encontra em toda parte. Em um mundo onde sexo = pornografia, onde tiram a humanidade de uma beleza e a transformam em pecado, resta ler o encontro incendiado de Bellé e Valentina. Basta entrar naquele quarto. Basta percorrer o poema “o poente orgasmo de Valentina”. O poeta tece a vida como se fosse o último respiro. Esta urgência de tragar o sol. Esta agonia de ver o tempo escorrer sem que todos possam conhecer a aurora da Liberdade, e vivê-la e além, saber o que é preciso para forjá-la, com as mãos. Um poeta que ama um poeta comunista. Uma simbiose de autor/personagem e um lugar, todo meu por ser também o chão da minha chegada. Paraná, paranauês. Aqui onde concebi meus próprios sonhos, e por isto foi mais que terno ler o poema abaixo, bem antes de percorrer as páginas de “Trato de Levante”: 



meus versos
são pinhão sapecado na brasa
de grimpa despencada
do alto da araucária
que a cada estalo
entalha-me
enfim
semente
de poesia
teu sangue, seiva de geada fria
paraná

tua alma de madeira forte e carpintaria impossível



*


O livro apresenta uma poética livre de uma poesia potente, sem máscaras, crua e nua, como deve ser a poesia. Capaz de chafurdar nossos sentires a cada instante. Li como quem vê um filme, que belo filme daria. Ainda que até aqui tenha apenas um curta inspirado no poema – o poente orgasmo de Valentina - pensei em como esta revolução brilharia nas telas com uma beleza rara, esta que permeei em um dia, lendo alucinadamente as páginas, sem descanso ou cansaço. Há um caminho que eleva, ele passa pela poesia, ele passa pelas mãos de um jovem poeta que tem algo a dizer. Acho que foi Leminski que disse que não existe escrever bem, mas pensar bem. O pensamento de um jovem anárquico somado a esta verve poética de qualidade, trouxe à luz dos nossos olhos esta pequena joia paranaense. No final, o poema de amor rasgado - mais forte e pungente - é a declaração de amor que ele faz à revolução. Sim é por ela e nela que o poeta caminha, com a exatidão e a inevitabilidade das velhas geadas, ou do fogo, que ferve a água para o mate, que ferve os corações para a vida... Esta que alguns vivem em Liberdade e plenos de Amor.


Bárbara Lia
Poeta e Escritora





o poeta que amo é comunista
não tenho dúvidas sobre meu coração anarquista
a assim seguimos de versos dados

apertamos o caudilho e disparo
meu pássaro negro vara a tempestade
num desespero libertário de vida
e de morte

rima no poente sangue de nosso povo sulamericano
as tintas sílabas em teu vermelho de oceano
rebelde que nunca se rende
não sei se somos
ou nos tornamos

tua poesia tem densidade e cobre
verve vulcânica aflora na altura dos Andes
pura lava de copihue
que lavra
a brava terra mapuche



****

link para Editora Patúa:







Jr Bellé, ou Bellé Jr

Autor do livro Trato de Levante, Bellé Jr. nasceu em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná. Viveu em Curitiba, graduou-se em Jornalismo na UEPG e há quase seis anos habita São Paulo. Vive de escrever histórias e estórias. Trato de Levante é sua segunda obra poética.


***


trailer de trato de levante - curta de Ale Paschoalini baseado no poema - o poente orgasmo de Valentina

Wednesday, November 09, 2016

poema para uma madrugada tétrica...



não há dança
que possa
libertar 

este mundo
apocalipse
em conta-gotas
posso tocar
a angústia
das flores
em seu último
suspiro
de beleza
desintegra
no ar
as arraias
de um pintor
futurista
que ainda
nem nasceu
não há
mais céu
para os ideogramas
da revolução
necessário
inventar 

outra língua
código secreto
para trocar 

táticas
de salvamento
este é o tempo
triste e frio
no qual
o amor
se aquecerá
em uma vela
clandestina
e o ódio
em usinas
em cada esquina
(e não
faltará
vela)
Bárbara Lia - novembro (2016)

Tuesday, November 08, 2016

filha do Vinícius de Moraes com a Florbela Espanca: texto de apresentação do livro Forasteira pelo poeta Fernando Koproski (filho de Vinícius de um outro casamento)


       Fernando Koproski: poeta paranaense, escritor e tradutor





Bárbara é minha irmã por parte de pai. Ainda que hoje ela negue veementemente isso, e diga que é filha do seu Ladercio com a dona Patrocínia, tenho certeza que ela é filha do Vinicius de Moraes com a Florbela Espanca. Daí vem nosso parentesco. Só não me perguntem como meu pai Vinicius pode ter tido em agosto de 1955 uma filha com a poeta Florbela Espanca que uns dizem morreu em 8 de dezembro de 1930... Esse tipo de coisa não se explica, pelo menos não no nosso mundo. Mas é o tipo da coisa mais natural que pode acontecer no mundo de Alice. No país das maravilhas, de onde ela veio, deve haver uma centena de explicações razoáveis para que tal encontro aconteça. Posso até imaginar essa e outras questões, completamente plausíveis na boca do Chapeleiro, enquanto ele toma um tradicional chá das cinco com a Lebre de Março. Enfim, mas não é de Alice que falamos aqui e sim de Bárbara. Embora a menina Bárbara, na seção que abre este livro, intitulada “a menina de sua mãe” guarde muito da menina Alice, dançando entre assombros e deslumbramentos, em seu percurso de descobertas pelo país das maravilhas que é a infância. Sim, a infância é este país de saudades doces onde a menina poeta se inaugura em versos e se descobre num mundo de magia, afetividades e delicadezas. A magia da poesia, nessa instância é regida pela beleza, ternura e o mais puro encantamento (naquele tempo eu colhia o sol mesmo nos dias cinza). Não à toa, a autora quando encontra a ternura revisitada na fase adulta, a abraça de forma irreversível, pois sabe o valor que ela tem e, sobretudo, compreende a raridade e a preciosidade que há nessa ternura em tempos de caos e decadência: quando alguém rasga uma nesga de humanidade terna/ você quer sugar esta veia/ comer pelas bordas a pessoa inteira/ guardá-la em ti de todas as maneiras.

Mesmo quando se revolta diante da ríspida realidade da fase adulta, e é atirada na dimensão angústia, isto é, nesta dimensão onde se descobre que os poetas mentem e tudo que é belo se deteriora, Bárbara ainda é impulsionada pela magia e não se conforma com a decadência humana. Em certo sentido, sua busca por compreender e rastrear a beleza em tempos de pobreza, e de empunhar buquês de delicadeza em meio ao terror de nossos tempos, é ainda uma forma de ver Alice revisitada na fase adulta, lutando por nossos últimos resquícios de humanidade. Essa nova Alice, já senhora e ainda menina, veste uma armadura delicada, se arma de fragilidades e de compaixão, e com certeza sabe de suas impossibilidades... mas isso pouco importa. Nada vai convencer Bárbara a ser de outra maneira. Ela há muito já atravessou as grandes águas e desvendou o poder transformador da Arte. Tanto que sente na maior naturalidade que sua casa é o olhar azul de Van Gogh/ dentro dele as estrelas enlouquecem/ e o girassol incorpora o sol. Assim é que a encontramos nesse livro, como uma bárbara Alice disposta a experimentar, escrever, se reescrever e amar, e principalmente isso: Amar em tempos inamáveis. Como ela mesma diz, como um rouxinol eletrocutado, temo partituras/ ainda que siga amando loucamente a música.

Como o bolo mágico que faz Alice crescer, essa crença na poesia como profissão de fé (e de febre) faz o texto poético de Bárbara crescer aos olhos incrédulos do leitor e o convida a uma incrível jornada noite e dia adentro de uma menina, que um belo dia surgiu em Assaí em 1955 e de lá partiu para deliciar o mundo. Portanto, ao entrar nesse livro, se preparem para provar várias delícias em versos. Pois minha irmã é ótima confeiteira. Disso eu tenho certeza. Digamos que ela tem uma mão boa pra isso. Ou talvez isso seja coisa de família mesmo... E por falar em família: pra finalizar digo que seus versos têm a grandeza dos versos de Vinicius conciliada com a espontaneidade das melodias do canto da Florbela Espanca. Tanto que é possível sair desse livro, com pelo menos um coração em flor, abraçado por seus poemas ou acarinhado por suas músicas de ideias.

Um abraço do seu irmão,
Fernando Koproski

(filho do Vinicius de um outro casamento...)


Forasteira
Poesia 
Vidráguas 

Coleção VentreLinhas
(2016)
80 páginas


link para editora vidráguas:
https://www.facebook.com/vidraguas/app/206803572685797/