Sunday, August 28, 2005

Ontem Choveu no Futuro
























Ontem Choveu no Futuro é o nome da nova revista literária sul-mato-grossense que será lançada segunda-feira, 29 de agosto, às 19h30, no Bazar Central. A revista reúne conversas por escrito, textos inéditos, críticas literárias, pesquisas e reflexões. O projeto foi pensado e realizado pelo escritor Douglas Diegues e pela jornalista Cristina Livramento, com financiamento do Fundo de Investimentos Culturais - FIC/MS.


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Neste edição inaugural, o "número nada", conforme informam os editores, a revista apresenta textos de escritores nascidos em MS ou que realizaram suas obras em território sul-mato-grossense, como Emmanuel Marinho, Rock Zanella, Luciano Serafim, Bosco Martins, Visconde de Taunay, Manoel de Barros, além de textos críticos, como o da crítica literária e professora da UFMS, Maria Adélia Menegazzo, sobre Representações Artísticas e Limites Espaciais. A revista publica também textos de escritores residentes em outros estados brasileiros, como o mato-grossense Joca Reiners Terrón, Glauco Mattoso e Rogério Eduardo Alves (SP); Bárbara Lia e Rodrigo Garcia Lopes (PR); Dirce Waltrick do Amarante (SC) que traduz um fragmento do Finnegans Wake, de James Joyce; Fabiano Calixto e Marcelino Freire (PE) e Sylvio Back, cineasta e poeta catarinense que reside no Rio de Janeiro. Há também participações de escritores que moram além das fronteiras nacionais, como Cristino Bogado e Monserrat Alvarez do Paraguai, e Heriberto Yépez, de Tijuana, na fronteira do México com os Estados Unidos. Reynaldo Jimenez que é peruano e mora em Buenos Aires e Ogwa-Flores Balbuena, índio ishir-chamacoco, xamã, mitólogo e pintor que mora nas selvas paraguaias.



A imagem é do convite para o lançamento - feito à mão - e no blog contos da camaleoa, divulgação dos livros feitos à mão:
- de Douglas Diegues - Uma flor na solapa da miséria - da editora argentina Eloisa Carbonera.
- livro de contos da jornalista Cristina Livramento.

Saturday, August 27, 2005

O CENTAURO NO JARDIM



Sou uma esfinge
leoa-mulher
e amo
um centauro em um jardim.
Morreria por ele.
De herança:
minha pata-leoa,
minha mão escritora.
A mesma que tocou os cabelos
do mitológico ser

e o amou
um amor enjaulado
um amor siderado.
Dói amar um ser que cavalga em poesia
que grita belezas no silêncio...



A esfinge se cala
e entrega
de mão beijada
o centauro amado
a quem jamais
o amou assim.


- Bárbara Lia -


imagem: Botticelli

Thursday, August 25, 2005

Espantalho e Anjo

Portinari




Minha mãe agasalhava espantalhos
(Pensava no trigo que seria pão)
Meu pai rasgava os véus da noite

- Descortinando anjos -
(Pensava no sonho – oxigênio da alma)


Décadas de ternura... e cá estou:


Mãos de palhas chamuscadas pelo fogo
Asas esgarçadas de noturnas danças
Abraçada ao poema-amante-teso
Percebendo com uma ternura gasta
Além de pai & mãe
Fui espantalho & anjo


Bárbara Lia

sinais

Tempo de girassóis... Sem saber que estou retirando do baú uma história que começa na noite em que fui até a Livraria Arcádia ver Ia Santanché no espetáculo "O consultório do Dr. Gachet", baseado nas cartas de Van Gogh a Theo, que gerou uma correspondência muito linda com a atriz e bailarina Ia Santanché e um romance que estou reescrevendo, a Cris me presenteou com um girassol.
A vida é feita de ciclos. Os últimos anos foram de aprendizado e sustos. Agora é tempo de priorizar a arte e, como Van Gogh, pintar muitos quadros, enlouquecer de girassóis, noite estrelada e campos de trigo. Virginianos são estranhos. Gostam de tudo no lugar. Eu vivo arrumando a toalha no banheiro, dobrando as roupas dos filhos e desvirando os tênis, essas coisas meio estranhas. A beleza é tudo o que interessa, como na outra tarde em que passeava pelo bairro e as quatro estações me abraçaram em uma única rua. A chuva de painas - neve curitibana -, algumas folhas do outono na calçada, os ipês que floriram antes da primavera, o sol de verão na pele. Quatro simbolos em um único instante. Um sinal de que tudo virá neste novo ciclo, que me fez acordar antes do sol na manhã dos meus cinquenta anos. Os sinais me seguem. Na tarde de ontem, o sol que adormece do lado de lá, jogou fogo sobre nuvens espessas. Da janela, vi um lençol róseo de paixão acima de mim. Gosto dos simbolos.
Bia chegou com um livro do Kafka - lindo - contos, e entre eles A metamorfose e A colônia penal.


AS ÁRVORES (Franz Kafka)
Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentementem apenas estão apoiados na superfície, e com um pequeno empurrão seriam deslocados. Não, é impossível, porque estão firmemente unidos à terra. Mas atenção, isto é pura aparência.

Wednesday, August 24, 2005

LUZES DE MARFIM


para ouvir a poesia:
https://soundcloud.com/b-rbara-lia/luzes-de-marfim-barbara-lia


Agora a poesia segue
é só o que me segue, afinal.
Sentidos de sol.
Primaveras de cerejas.

A tarde tocando teus cabelos,
brisa ao redor. Teu lábio.
Aquele beijo paterno
na testa da menina.

Vôos meus que seguiam borboletas.
As belas horas tatuadas no espírito
liberto do grito inútil.

Fixado no etéreo, os sonhos
flanando quimeras em asas de seda,
o infinito aplaudindo em luzes de marfim.


- Bárbara Lia -

Uma didática da Invenção.



IX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.


Manoel de Barros.
Fragmento de Uma didática da Invenção.



Algumas coisas que me fazem feliz: Os alunos que me encontram e dizem – a professora dos poemas – e não, a professora de História. 
O vizinho do andar de cima que pergunta sempre: Quando sai o outro livro? Ele  amou os meus poemas “profundos e belos”. Os recados que recebo com carinho sincero... A minha poesia é aceita, amada e compreendida pelas pessoas comuns... A minha poesia já está alcançando a rua, ela já cruzou o portal de buganvilias que existe na frente do meu jardim... Não quero fama – enseada oca sem mérito algum – eu quero a bela cobra de vidro, o líquido vidro azul, as borboletas. A fama eu deixo para os tristes. As pessoas me ajudam a guardar as águas, a proteger a beleza. Completo cinquenta anos, ao lado dos que amo, de poetas na alma, que poetas na alma ainda existem, de raros amigos e esses três filhos de ouro – meus mais perfeitos poemas.

Tuesday, August 23, 2005

PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.





















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I


Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II


Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

Hilda Hilst


imagem - escultura de Rodin

Thursday, August 18, 2005

CATEDRAL DE VIDRO

























Avesso e direito, tudo é a mesma coisa.
Assim dizendo quero dizer
que és dentro e fora
sol e superfície.


Um espelho refletindo dos dois lados.
Uma catedral de vidro.

Anjos azuis exilados do eterno
vieram a ti e se colaram
à tua face, à tua voz
ao teu terreno coração, que eu amo.


Bárbara Lia in "O Sal das Rosas" 

Wednesday, August 17, 2005

O ENCANTADOR DE SEREIAS

ilustração Cesar Lobo - da série "Elas"



Pescando musas com sua voz
Azulmel. Pescando olhares
Com seus olhos águas de lírio.
Pescando a vida com seus versos


Únicos. Pescando horizontes -
Sóis ardendo em fogo.
Pescando mentes com seus
Verbos e miragens. Pescastes


A mim, infinita presa.
Teu corpo morno, tua beleza.
Sou teu troféu, vela acesa.


Sou tua em verso e prosa
Em sonho
E em pensamento.

(Bárbara Lia)

Saturday, August 13, 2005

memórias


Cai a tarde tristonha e serena
Em macio e suave langor
Despertando no meu coração
A saudade do primeiro amor

Ouvi esta música durante a semana inteira, era uma das muitas canções de seresta que meu pai cantava. Em pleno inferno astral, com TPM e os olhos inchados vou passar mais um ano destes doze anos sem poder estar perto do meu pai. Queria que nosso amor tivesse sido como era aquele que eu vivi com minha mãe, pois era tão simples e tão intenso e foi tão consumado naquilo que se chama entrega de ambas as partes, que a saudade dela não remexe as areias profundas do mar. Ontem, talvez a data não tenha sido bem escolhida, eu comecei a escrever a primeira página de uma história que vai contar a vida de meu pai, e bastou escrever uma única página para chorar uma noite inteira, e completar esta semana regada com a sua visita, pois ele só me visita com poemas e canções e foram os versos desta música que se chama Ave Maria e foi escrita por Erothides Campos, que eu ouvi a semana inteira. Talvez eu seja a única que contenha a memória viva de meu pai e que possa contar a sua história, e não devo mais perder tempo pois mesmo os jovens morrem, mesmo as crianças e não sei se terei tempo de narrar os setenta e sete anos de vida de alguém que viveu no sertão em meio aos indígenas, lutou ao lado dos integralistas, foi um camisa verde, e quis lutar na Itália e foi barrado pois os médicos deram a ele seis meses de vida... Então, barbudo e derrotado, ele foi tomar sorvete com a sobrinha no pequeno povoado e deu de cara com minha mãe e a paixão foi fulminante. Ele não morreu, como se o amor lhe concedesse o bônus de estar com ela, ele morreu dois anos depois dela e morreu de saudade. Foi a única pessoa que conheci que morreu de amor.
Ontem eu decidi escrever sobre esta pessoa que viveu cantando, lendo poesia e os filósofos, e que nunca deixou de me dar uma resposta. É claro que ele dizia que Neruda não era bom poeta, só por que Neruda era comunista, mas, se hoje ele estivesse aqui eu diria que um dos versos que mais gravei foi de Neruda pois ainda estou procurando um lugar que fica entre a sombra e a alma, e é lá que eu amo alguém, neste sábado de sol, com uma certeza de sinos de cristal e amplitude de astros.


Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, e
graças a teu amor vive escuro em meu corpo o
apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

A única herança que meu pai deixou foram palavras. A primeira lembrança dele é me embalando em uma rede branca e cantando versos de Castro Alves: Teus olhos são negros negros como as noites sem luar / São ardentes são profundos como o negrume do mar. Ele media terras e tinha um teodolito, em noites claras armava o teodolito no quintal e nos mostrava as crateras da lua. À noite me contava lendas gregas e lendas indígenas e me ensinou a utilizar o ábaco e a ver as constelações e a acreditar que a liberdade é o bem mais precioso. Controvertido apoiou o regime militar, magoou minha alma de menina com a versão oficial e isto plantou em mim o desejo de escrever sobre aqueles que viveram na clandestinidade e ele chamava de terroristas...
Frei Betto liberou minha angústia de ser tão à esquerda e amar um pai integralista, ele sugeriu que eu não usasse meu sobrenome, então eu não sou dele quando escrevo sobre as minhas idéias, eu sou apenas eu, livre como ele me ensinou a ser, sou apenas Bárbara Lia, e graças a Frei Betto até meu nome se tornou poesia. Ontem eu pensei que devo ir primeiro aquele lugar onde ele nasceu – Tibagi. Ver o rio onde ele nadou, e visitar o canyon Guartelá, e mesmo que demore a minha vida inteira, devo recuperar os passos, o desmesurado amor que o deixou vivo, e lembrá-lo chamando mamãe de minha velha, mesmo quando ela tinha quarenta, ela sempre era – minha velha – E às vezes me parece que ela nem teve noção do quanto foi amada. Sinto falta de acordar nas manhãs e ouvir aquela pergunta sempre que eu me sentava à mesa:
- Bom dia! Teve sonhos coloridos ou em preto e branco?
*
- imagem: partitura da Ave Maria de Bach

Friday, August 12, 2005

Habib























Cedros do Líbano –entre folhas secretas
gravam nosso idílio – Saara incendiado.
Dança-do-ventre – teu olhar tâmara ardente.
Corpos reluzindo azeite, deleite - estrelas
do deserto espiam. Alah, me guia!
Tens sabor de damasco
olhos egípcios, pele de sol.
Habib. Habib.
Sussurro no auge.
Luz bruxuleia – tenda ao luar.
Luar a nos enlaçar
na luz azul.
Guardar o gozo etéreo – eterno.
Habib – murmuro. Teu corpo se queda
saciado, em meu corpo – movendo astros.

*
Bárbara Lia.

Thursday, August 11, 2005

Leonardo























Seda púrpura acaricía pele
Mãos dormentes de apoiar
O gesto de abandono a Eros
Flores colorem o leito embalsamado
Dos odores de outras musas
Pouso o olhar em Leonardo:
Olhos claros
Mão destra a copiar meus traços
A toga cor-de-rosa
Que esconde a beleza nata
Inocência serena
Barba e cabelos
Emaranhados de sol
Luz de Florença a me perscrutar
Um risco. Um gesto.
A mão de sábio antigo
A traçar meus contornos

De musa morena

- Bárbara Lia


O poema acima não entrou em meu livro "O sorriso de Leonardo"
O primeiro poema escrito em homenagem a Leonardo Da Vinci.
Achei Da Vinci tão encantador que adoraria ser pintada por ele em uma cama de dossel com lençóis de seda púrpura.

Tuesday, August 09, 2005

ontem choveu no futuro



Ontem choveu no futuro:
Emanoel Marinho (MS) Marcelino Freire (PE) Maria Adélia Menegazzo (MS) Cristino Bogado (PY) Heriberto Yépez (MX) Rogério Eduardo Alves (SP) Luciano Serafim (MS) Bárbara Lia (PR) Rodrigo Garcia Lopes (PR) Reynaldo Jimenez (ARG) Sylvio Back (RJ) Joca Reiners Terron (MT) Manoel de Barros (MS) Monteserrat Alvarez (PY) Rock Zanella (MS) James Joyce (IRLANDA) Fabiano Calixto (PE) Ogwa (PY) Bosco Martins (SP) Visconde de Taunay (MS) Glauco Mattoso (SP)

Friday, August 05, 2005

O rio da minha aldeia



O rio da minha aldeia

Bárbara Lia

O Tejo nunca passou pela minha aldeia. 
Terra vermelha e sol. 
O rio que me batizou 
Ficava na chácara do leiteiro. 
Primeiro abraço gelou as magras pernas. 
Revelou mistérios - riacho com gosto de Deus. 
Adulta, cruzei rios de dimensões imensas. 
Pontes largas que não trouxeram Deus. 
Deus vive nas pequenas coisas. 
Os grandes rios são catedrais. 
Deus às vezes se exila e percorre milhas
Para acariciar anjos em riachos tristes.

Wednesday, August 03, 2005

Campos de trigo








Os campos de trigo continuam azuis a florescer pássaros
e acalentar o pão que aquece a alma de quem ama
e de quem não ama.
Os campos de trigo seguem embalando a lua com
uma sonata ao futuro sem fome.
Os campos de trigo esqueceram Van Gogh e seus corvos
pois não há mais dor no homem, é tudo realidade consentida.
Não há mais um espanto diante do existir,
morreu o sorriso sábio de quem ergue sua obra para que o mundo
floresça em primaveras, que o artista não pôde viver.
O maestro com a batuta, o poeta com sua lapiseira grafite nº7,
Van Gogh e seu pincel derramando estrelas e sustos.
Nem mil girassóis de Van Gogh vão calar a dor que assola
Ninive, Candahar, Bagdad, O sertão, O chão desumano da Pátria,
Nigéria, Haiti, Etiópia...
Os campos de trigo não aceitam mais espantalhos,
como os homens não precisam mais proteger o coração
para que o amor não os atinja,
pois o amor foi sepultado na última primavera.
Espantalho de braços abertos,
colorido, alardeando um campo-minado-coração,
foi varrido pelas máquinas da indiferença que regem
o sarcástico-mundo-cão.
Os campos de trigo...
Indiferentes, seguem solares, seguem em chama,
espalhando grãos, dançando ao vento das almas ignaras.

Bárbara Lia

Sunday, July 24, 2005

NA VARANDA DE FLORBELA




Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

(Eugénio de Andrade)
Portugal.


Sunday, July 17, 2005

SEGUNDA MORTE



O pelotão avança, cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.

Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.

Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.
Bárbara Lia
O sorriso de Leonardo 


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Em janeiro vivi uma emoção muito bela quando estive na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Agora o Sidnei Schneider, poeta de Porto Alegre, me conta que vai ler três poemas meus e três dele no Recital da Casa de Cultura Mário Quintana neste domingo. O poema acima, Transparência e Concha Rossa. Estas horas de cálida ternura é que ponteiam a minha estrada, a rota, a travessia. Meus poemas lidos no sul, ter os filhos mais tempo em casa por causa das férias. A felicidade é feita de milionésimos de segundos. Mano Melo terminou o poema - A moreninha- que escreveu para mim com uma frase tal qual esta...
"...a eternidade é feita de milionésimos de segundos"
Esta feliz eternidade destes milionésimos de segundos, que são a notícia do recital, os beijos a mais que tenho nas manhãs, já que o Thomas está de férias e a Tahiana acorda com cara de gatinha dengosa, e na noite eu tenho a companhia da Paula, que ri muito vendo tv e eu fico aqui do quarto ouvindo a gargalhada dela e pensando, em milionésimos de segundos que tenho desta eterna felicidade. De ser poeta - mãe e amiga de pessoas eternamente belas...


photo by Hartmuth Tobies

Friday, July 15, 2005

Cinéfila - "Bom dia, noite"





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BOM DIA, NOITE

Há alguns anos fui em uma tarde de domingo ao Cine Luz. Gratas surpresas e emoções vividas ali, e uma delas foi Juliette Binoche no filme – A Liberdade é Azul, de Kyalowski. Eu sai do cinema sob o impacto da arte de Juliette e ela passou a ser admirada por mim, bem antes do Oscar. Ontem eu sofri o mesmo impacto, no mesmo cine, diante de Maya Sansa. A atriz italiana que interpreta a guerrilheira Chiara do filme “ Bom dia, noite”. Esquecendo o julgamento histórico e o drama do sequestro de Aldo Moro, o filme revela a arte de Maya, e a bela trama dirigida por Marco Bellocchio, choca. A semelhança do ator Roberto Herlitzka com Aldo Moro e a condução da história conseguem transformar a maratona densa de sequestradores confinados em um filme que merece ser visto. Acreditando ser recurso de cinema terem colocado uma tão bela atriz para interpretar Chiara, fui buscar os fatos, os mesmos que prendiam minha atenção diante do noticiário quando ocorreu o sequestro de Aldo Moro. A militante mulher que era integrante da Brigada Vermelha – Ana Laura Braghetti – é o retrato de Maya Sansa. Foi ela que forneceu, na história real, a própria casa – via Montalcini 8 – para a prisão de Aldo Moro. O filme conta os 55 dias de confinamento de Aldo Moro, baseado em depoimentos de Anna Laura, que conseguiu liberdade condicional em 2.002. Uma pequena burguesa, uma funcionária que saia para ir  ao trabalho, enquanto seus companheiros ficavam em casa com presidente da Democracia Cristã da Itália. Assassinado pelo grupo ao final de uma história que incluiu o Papa Paulo VI se propondo a se por de joelhos diante dos sequestradores. Nenhuma reivindicação do grupo foi atendida, Aldo Moro - executado. Anna Laura Braghetti, uma mulher nascida em Roma, que tem apenas dois anos a mais que esta poeta, acreditava na luta do movimento que se envolveu – Brigate Rosse – Brigada Vermelha, que por um erro de tradução aparecia na legenda ora como BV, ora como BR. Como demonstra o filme, o livro que foi escrito por ela narra exatamente o que as telas tentaram mostrar - a passagem para o arrependimento diante da morte de Aldo Moro - Para mim revelou uma interpretação que relembrou Juliette Binoche, um olhar onde se pode ler inúmeras mensagens. Interpretar, sem dizer.


"Bom Dia, Noite", o título do filme faz referência a poema homônimo de Emily Dickinson:

Bom dia noite/Estou voltando a casa/O dia se cansou de mim/Como poderia eu dele.

O livro - Il Prigioniero - escrito por Anna Laura Braghetti e a jornalista Paola Tavella, deu origem ao filme.

sereia alada




A gralha azul lava as asas no tanque de açucenas. O marajá de Yankipur espia os gestos da ave. Possui reinos, mas não possui o voo. Só o ouro pesa nas mãos - ópio que engana. Admira as asas abertas azuis e pensa:
- Quero teu voo!
A sereia na pedra sonha serem os negros cabelos - asas, e reclama:
- Não quero a úmida pedra e este canto que enfeitiça os habitantes das naus. Não quero raptá-los à lua, enamorados. - Quero asas!
Entre o marajá e a sereia, a gralha azul voeja e batiza o sonho de um deles com espumas de prata. O marajá olha insolente, mas, volta as costas ao milagre, preso ao peso do ouro, reclama:
- Quero asas!
Sonha raptar a sereia, adornar seu tanque de vidro e águas perfumadas. A sereia sorri e voa para longe das mãos ferinas, feliz por haver, no ritual da tarde, recebido asas azuis de vidro.

Bárbara Lia.
Ilustrado por Ane Fiuza

Wednesday, July 13, 2005

Álvaro Alves de Farias




A primeira vez que Sylvia Plath
Se aproximou de mim
Trazia nas mãos um poema sem palavras
Com um beijo morto na boca
Ela beijou meus dentes
E se deitou comigo
Num beco sem saída.



(Álvaro Alves de Farias)


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Poeta paulista que me seduziu para sempre,
depois que li "O sermão do viaduto" e "Lindas
mulheres mortas".


photo by Austin Ban



Friday, July 08, 2005

blocos portal de literatura e cultura




TRANSPARÊNCIA 
No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.
Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.
Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.
                                              Bárbara Lia
Do livro: “O sorriso de Leonardo”, Kafka edições baratas, 2004, PR


Há algumas semanas recebi um e-mail de Leila Míccolis dizendo
que eu estava entrando na lista dos mais de oito mil poetas que
tem lá no Blocos Online... ela solicitou poemas e estão lá no blocos
online, no endereço abaixo.


http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=2823&flag=nacional


La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...