Sunday, March 11, 2007

TRANSPARÊNCIA


No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.

Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.

Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.


BÁRBARA LIA
(O sal das rosas - Lumme Editor)

www.lummeeditor.com

CORSÁRIO




Meu coração tropical está coberto de neve mas
Ferve em seu cofre gelado
E à voz vibra e a mão escreve mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais


Roserais nova granada de Espanha
Por você eu seu corsário preso
Vou partir na geleira azul da solidão
Me agarrar na mão do mar,
Me arrastar até o mar procurar o mar...


Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos
E as rosas partindo o ar
Meu coração tropical partirá esse gelo, irá...

João Bosco / Aldir Blanc

Thursday, March 08, 2007

AVES DE ARREBENTAÇÃO


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Pássaros renascentistas
Libertados por Da Vinci
Invadem as minhas pálpebras
Que meditam em silêncio
De monja e
Louvam as aves
Do terceiro milênio.
Mão destra de Leonardo
Pinta o sorriso
De uma Monalisa escura.
A aurora ausente
Do meu olhar
Que ele colore
Com luz de Florença.
E sobre músculos sofridos
Estriados de saudades
E febre de amor
Pulsa a inocência poética
Das mulheres que venceram
O jugo secular
E cruzaram as linhas
E romperam os laços
E abriram os braços
Aves de arrebentação
A flanar entre
As azaléias púrpuras
E o grito ardente
De libertação.
Bárbara Lia
- O sorriso de Leonardo (Kafka ed.)

Tuesday, March 06, 2007

PORÃO LOQUAX - O SAL DAS ROSAS




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Porão Loquax - Wonka Bar - fotos da noite de 27/02.
O livro - O sal das rosas - Lumme editor - publicação
possível graças ao editor Francisco dos Santos, que
recebeu o meu original e optou por tornar real um antigo
sonho. Março - em data a ser marcada - terá lançamento
em Curitiba - quem não mora em Curitiba pode adquirir
o livro diretamente com o editor:
www.lummeeditor.com
- As fotos da noite da poesia são de Elisandro Dalcin -
videomaker e fotógrafo.

DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL
























Testamento enterrado
à sombra do roseiral:

Deixo meu violão
para a balconista da padaria.
A erva benta
para a velha do sobrado.
A chaleira
que chia Villa-Lobos
para Frei Gustavo,
que costura almas
nas manhãs de quarta.
O livro de poesia
de Augusto dos Anjos,
para o cobrador do expresso 022.


Assinado:

A menina dos olhos tristes.
Chico me chamava de Carolina,
mas era só um disfarce.
Sou eu a menina
que viu o tempo passar na janela,
sem ver.

BÁRBARA LIA

- O SAL DAS ROSAS - Lumme Editor.

- Beliza Borba na noite do porão loquax - foto de Elisandro Dalcin

O QUE ME PERTENCE



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O que é maior que eu
abraço feito fosse Deus.
As coisas pequenas vazam.
Choro por elas, uma noite talvez.


(Demian Garcia (piano) - esta poeta)
porão loquax
o sal das rosas
foto - elisandro dalcin

TRENS TRITURANDO...


















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Tangência de ferros nos trilhos
rasga em uma ternura que ofende
de tão bela.
Existirá paisagem de dor mais fecunda
que trens rasgando trilhos?
Nuvem ao redor: que nuvem aquela?
Cenário trepida
por trás de uma cortina estremecida.
Até o ar se emociona
quando o trem se aproxima,
diante dele a ternura de açúcar fervido
balançando em dobras de olvido...
Esquecer!
Ser este trem que parte e vai levando
diante dele a cortina:
nossos corações diluídos
acima dos trilhos...

*

(Na foto - a atriz Beliza Borba)

...TRILHOS




Eu e você: recorda?
Recorda a fumaça do teu cigarro,
tua pele clara, o gozo líquido -
cortinas de açúcar.
Recorda?
Recordam – eternamente –
trens triturando trilhos.


Bárbara Lia

CÉU FULIGEM


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...
nuvens negras
o oriente geme
Krishna, Allah e os astros
nos deserdaram
estrelas apagadas
em um céu de fuligem
entre os cães e as carnes
de crianças do Iraque
uma lágrima rasga
em cicatriz, o poeta
(na selva-relva
acordes & solidão)
*
(No palco:
ADRIANO SMANIOTTO
Poeta - Professor de Literatura)

MÍSTICAS




















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LENDO CLARICE LISPECTOR
porão loquax - o sal das rosas

MAREJADAS


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Lençóis ao vento.
Vela de um barco
Onde o timão balança
Entre a neve
E a primavera.

poesia - Bárbara Lia
evento - porão loquax
o sal das rosas

Imagem do filme - Limite - Obra Prima de Mário Peixoto 

OUSADAS































Todos sofrem:
A gota prata
Do orvalho na rosa
É lágrima fêmea
Que brilha
Enquanto sofre.

Lendo Clarice Lispector
Bárbara Lia

imagem - projeção no palco do wonka bar - porão loquax - o sal das rosas

Monday, March 05, 2007

GRETA BENITEZ


MARCOS DE OLIVEIRA


























ladjane bandeira

REESTAÇÃO



Janeiro caiu
amarelo
do cajueiro.

Fevereiro se foi
em
redemoinho.

Março veio nublado e partiu
com
os olhos marejados.

Dos outros meses
nem mais lembro.
Só recordo
dos beija-flores
e da flor-de-lis nascendo na janela.

É setembro - pensei.

É setembro batendo à porta
da nova estação.

MARCOS DE OLIVEIRA
Coleção Ladjane Bandeira de Poesia
volume 1
(Prefeitura de Recife - Sec. de Cultura -
Fundação de Cultura Cidade do Recife)


Friday, March 02, 2007

DIÁFANA


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O som do oboé abafa
a melodia da caixa de música.
Cristal filtra o raio lilás
do sol que adormece.

Bicicleta atirada na calçada,
velhinho com olho antigo
no horizonte.

Abraço a vida, quando o dia acaba,
refrescante e calma...

Cerro cortinas diáfanas,
beijo tua foto desejando beijar tua alma.



BÁRBARA LIA
(O sal das rosas, 2.007
Lumme Editor)

Tuesday, February 20, 2007

CAOS DE PÉTALAS



(Rosas de Manhattan
desmoronam!
Hiroshima & Nagasaki
ao avesso)


Meus desmoronamentos,
assombros - apenas anjos malditos vêem -
recolhem estrelas despregadas da minha
pele-céu
em manhãs desgarradas.
Riem, em segredo,
da minha flor em pedra.


Anjo do avesso,
o que necessito,
pousa em meu ombro
como um raio de pétalas.


BÁRBARA LIA

- O sal das rosas - Lumme editor.

Monday, February 19, 2007

CHIEKO














Chieko (Rinko Kikuchi)
*BABEL. Um filme que você assiste mudo, como Chieko, que me toca a alma. O sonho de Chieko era o mais bonito, de todos do filme, o mais precioso: SER. A força de Chieko está na contestação. Ser é foda! Ser te aniquila. Ser te isola. Ser... Chieko É. Choca e toca mais que todas as cenas e todo o enredo, Chieko é a vida e seu grito, que espera nua na sacada pelo abraço do pai... E todos os pais do mundo abraçam a nudez dos filhos que não compreendem, ali, naquela sacada... Mais que a força do carisma do menino da aldeia do Marrocos - o que deu o tiro. Mais que a cena de beleza que impressiona, quando o casal se reencontra no beijo de amor, naquele lugar sujo, de sangue suor e urina. É ela que rouba a cena, em nome de todos os excluídos, contra todo preconceito – Chieko.
BABEL. Uma facada na artéria vital, de doer latente, esta certeza, de que mesmo no mesmo idioma ninguém se entende mais.
*
"Babel", de Alejandro Gonzalez Iñarritu (o mesmo de "21 gramas" e "Amore Brutos"), filmado no Marrocos, Tunísia, México e Japão. Globo de ouro de melhor filme -
Cate Blanchett (Susan) Brad Pitt (Richard) Gael García Bernal (Santiago) Adriana Barraza (Amelia) e Rinko Kikuchi (Chieko).

MIGUEL TORGA

DESFECHO


Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados, mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga



LETREIRO



Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatifação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuizo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

Miguel Torga



ÍCARO


O sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas.
E caiu lá do céu onde voava
Ao rés-do-chão da vida.
A um mar sem ondas onde navegava
A paz rasteira nunca desmentida...

Mas ainda dorida
No seio sedativo da planura,
A alma já lhe pede impenitente,
A graça urgente
De uma nova aventura.

Miguel Torga
, Diário, XII


MIGUEL TORGA
( 1.907-1.995) - Portugal
Prêmio Camões (1.985)

Sunday, February 18, 2007

CARLOS QUIROGA⁸









neurona


Lembro que antes lembrava um rostro
do qual nom lembrava o nome

Agora nem o rostro lembro
e em breve nem lembrarei que lembrava

Carlos Quiroga
G o n g -
mais de 20 poemas globais e um posfácio esperançado
Fundaçom Artábria, Ed. Ferrol, 1999

Carlos Quiroga nasceu em 1961, em Escairom, na Galiza, Espanha. É escritor e professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago de Compostela. Publicou g.o.n.g. - mais de 20 poemas globais... (1999), Periferias (1999), A espera crepuscular (2002), Il castello nello Stagno di Antela (2004) e O regresso a Arder (2005). Fundou e dirigiu a revista galega O mono da tinta e é o atual diretor da revista Agália.

Saturday, February 17, 2007

ADRIANO SMANIOTTO




comigo você não vai.
me desculpa
e vê se escuta desta vez:
estrelas não andam juntas.
só não percebe aquela que não vê

que muita luz também traz cegueira
fica queimando no teu canto
e avisa caso minhas pseudo-pontas
estiverem ficando agudas

por enquanto te mando esperança
e com um faz de conta sobrando
rumamos pra uma lua



****



me olhar cada vez menos.
cuidar para não refletir
nem ser refletido
ir me esquecendo.
até que um dia
alguém me grite nos tímpanos:
- porra, você é ou não é o Adriano?
e sereno então eu responda:
- acho o nome bonito
já ouvi outras vezes,
tem isqueiro?

esquecer-se de corpo e alma
não é projeto pra anjo.
é pra humano mesmo
porém sem o prejuízo dos anos
e a traição dos espelhos.

ADRIANO SMANIOTTO
(Curitiba, 1.975)

-do livro "Vinte vozes de uma mesma veia"

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...