Sunday, June 17, 2007

CLIFTON GIOVANINI

A inquietude de uma tarde monótona respira mais aliviada entre fumaças de cigarros e a pacata morbidez envolta nas agitações sem nome e sem desvio. Recolho-me para sofrer não sofrendo. Não existe tédio quando encontro a solidão perfeita. Tudo o que me resta de mais sombrio e remoto, rejuvenesce-me, pois sou feito de partes distantes que se entrelaçam para encontrar o sentido da menor ação e contemplamento. Sou lento demais para ouvir pegadas e prever seu futuro. Busco na pena o tempo que me sobra, o tempo que me falta. E quando parado vou mais rápido que pensando ou tentando pensar. A luz acompanha tudo o que vemos, até os sentimentos que não temos como classificar... não quero pensá-lo, sinto-me cansado. Mas as evidências logo darão razão ao que falo – meu orgulho é estúpido demais para perceber a mentira. Entrelaço-me entre o sono e os pensamentos que não tenho, e é por isso não me arrependo e insisto em desmentir. Seu único progresso – continuar enquanto alguém estiver dormindo - evitar sempre qualquer ruído, balançá-lo como um recém-nascido, daqueles tão frágeis que não se pode acender a forte luz. Contento-me com uma vela e um aquecedor. O que mais precisaria meu deus! Um papel quente para reclinar esta cabeça que insiste em ouvir o barulho das ondas. E não se apresse! Continue dizendo, continue mal-dizendo... mas continue. E meu lapso é brutal frente aos inimigos que não vejo. Duvido que me tragam algum dia a esperança da retomada. Um cálice! Por favor! Tragam-me o cálice e farei um brinde. A tudo que temos passado. A tudo que haveremos de sofrer. A tudo que viva em que haja poesia.. e uma noite um pouco menos solitária...
- Clifton Giovanini vive em Curitiba.

Saturday, June 16, 2007

MAHALO


MAHALO


 
Acordes de ukulele
Echarpé de meus braços 
Lânguidos
Em teu corpo másculo
Um colar!



Teu olhar
regenera
Minha alma fera
E a carne lacerada
De meus pés cansados
E seca a lágrima
Da infinita espera



Mahalo – sussurro
Em silêncio de prece
Mahalo à poesia
Que te trouxe 
À minha porta


BÁRBARA LIA

Tuesday, June 12, 2007

BATISMO DE SANGUE
















































Sair do cinema, depois de ver Batismo de Sangue, com a alma gelada, na cidade gelada, esperando um ônibus gelado, dentro de um tubo gelado, asséptico, diferente da vida acalorada dos anos sessenta, que engendrava morte - mas, era VIDA.
Eu esperava não ser surpreendida ao ver o filme. Eu sabia que ia cerrar os olhos nas cenas de tortura (foi o que fiz), que ia sangrar de novo a alma junto com Tito, que na França vê "fleurir" rosas do avesso, pétalas espinhosas a ressuscitar o carrasco. Para Tito, passear pela primavera na França era evocar Fleury, pois a palavra fleurir não trazia a magia do colorido que perfuma e atravessa cidades e jardins... Fleurir. Dura palavra. Eu pensava que estava ali para saber de que forma Helvécio Ratton havia construído os espisódios, depois daquela provocação de Frei Betto ao dizer - a vida supera a ficção - e o filme reproduziu fielmente cenas e até mesmo pessoas. Mesmo não sendo citados e mesmo como coadjuvantes, reconhece-se facilmente, José Dirceu e Wladimir Palmeira no episódio do congresso da UNE...
Os dois momentos que revelaram a força do filme. Reproduzir a solidão de Tito, a neve, a ausência dos seus e a saudade da Pátria, isto para mim elucidou um pouco mais a angústia do rapaz que antes de morrer disse a Frei Osvaldo - Já não creio em mais nada: nem em Cristo, nem em Marx, nem em Freud. A grande falha foi não deixar transparecer no filme que ele amava as canções de Milton Nascimento... E a grande hora, que sacudiu dentro em beleza, que fez a paz sentar-se ao meu lado na poltrona, que mostrou que sempre a arte surpreende. A hora de beleza estranha, quando os quatro freis pedem para rezar uma missa, e os carcereiros trazem uma caixa de papelão, dessas onde se colocam pizzas cheias de bolacha maria, e um pacote de Q-suco. E eles arrumam a mesa, e preparam o "vinho" e repartem o corpo de Cristo, com a trilha sonora que traduz mesmo uma certeza de paraíso, meio às grades e os presos, meio ao olhar de escárnio dos carcereiros, que pouco a pouco vai se tornando veneração, diante da fé dos quatro freis, a repartir o corpo de Deus, em profunda comunhão e certeza deste mistério... Foi sim, um reencontro com minha fé perdida, esquecida pelos caminhos, respingada pelo susto de não entender um Deus que não intervém... Assim como não interveio nos caminhos de Tito, nos caminhos de ninguém... Um Deus que se faz bolacha maria e ocupa a cela e espalha uma luz serena, uma paz amena ao redor, em um instante tão cru, se fazer verdade, na oração e na coragem dos frades... Eu pensava que ia segurar a onda, mas, eu estava lá, vivendo a missa verdadeira, aquela diferente das missas assépticas, aquela onde o sacrifício é verdadeiro, então eu chorei de reencontro e partilha e de encanto e de graças por que no mundo existem pessoas que ressuscitam, que acreditam, que não se abalam, nem mesmo na cela...

Não há propaganda do filme, não há muito desejo de que se faça alarde, não há mesmo desejo algum, de que os homens sejam feito eles, assim corajosos, arrebatados por um sonho que eleva e não nivela... Então, o grande deus mercado é mesmo quem recebe os cultos, e por todos os séculos dos séculos amém os homens louvarão as marcas e só amarão as loiras lindas e peitudas e só andarão em carros importados e serão infelizes para sempre sem uma lancha e um helicóptero e uma casa de um milhão de dólares, então a vida vai ser sempre esta busca insana, do gozo leve e lerdo que a vida dá, quando é vivida assim - à margem do belo, sem derramar-se na loucura maior que é o amor, e amor em toda e qualquer dimensão exige alguma coisa que não mais existe - entrega.
Batismo de Sangue - dirigido por Helvécio Ratton - Daniel de Oliveira interpreta Frei Betto. Caio Blat, interpreta Frei Tito, frade dominicano que suicidou-se na França, depois de banido e atormentado pelas torturas sofridas.

PETRARCA






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Botticelli








Canzoniere LXI

Benedetto sia 'l giorno, e l'mese, e l'anno,
e la stagione, e 'l tempo, e l'ora, e 'l punto,
e 'l paese, e l' loco ov'io fui giunto
da' duo begli occhi che legato m'ànno;


e benedetto il primo dolce affanno
ch'i' ebbi ad esser con amor congiunto,
e l'arco e le saette ond'i' fui punto,
e le piaghe che 'nfin al cor mi vanno.


Benedette le voci tante ch'io,
chiamando il nome de mia donna, ò sparte,
e i sospiri, e le lagrime. e 'l desio;


e benedette sian tutte le carte
ov'io fama l'acquisto, e 'l pensier mio,
ch'è sol di lei, si ch'altra non v'à parte.

FRANCESCO PETRARCA
(1.304 - 1.374)

Sunday, June 10, 2007

Céu Curitibano













Céu curitibano
Nicotizado
Pela triste fumaça
Do teu cigarro
Céu quase-negro
Céu de corvos rejeitados

É o eco da tua fúria
Que estilhaça
Na minha vidraça


Bárbara Lia

SONHOS EM PRETO E BRANCO



Esta sou eu, descalça nas enxurradas
Em manhãs esperançadas
Esta sou eu, adolescente
Indo ao colégio, olhos fixos na estrela Vésper
Esta sou eu, lendo à luz da lamparina
Na madrugada,
Olhos percorrendo páginas amareladas
Passeando por poemas barrocos
Na companhia de estrelas foscas
Esta sou eu, espiando por entre balaústres
O sobrinho do professor de Francês
Na varanda da casa da esquina
Seus olhos verdes, sua pele jambo
Esta sou eu, à mesa do café da manhã
Ouvindo a pergunta diária do pai:
— Teve sonhos coloridos ou em preto e branco?


Dez anos, pequenina cidade de Peabiru
Quantas mentiras meus olhinhos beberam
No Cine Vera?
Amor passeando de lambreta
Rasgando ruas de Roma
A beleza exótica de Troy Donahue
A professorinha enamorada na garupa
O amor idealizado "Candelabro italiano"


Esfarrapado e imundo
Dei de cara com ele, enfim
Mendigo extraviado
Que implora pra ser notado.
Eis o amor:
Despejado
Humilhado
Não vive em estrelas
Nem no mar profundo
Nem no limite do mundo
Está sempre no meio do caminho
Pedra
Poema
Estirado
Cão sublime à espera
De um dono franciscano
Que o acolha
Com todas as chagas
E enganos

BÁRBARA LIA


Saturday, June 09, 2007

PORÃO LOQUAX

























Loraine Thais

























Bianca Lima





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Gabriela Caramuru
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As poetas no palco do Wonka Bar, fotos gentilmente enviadas pelo poeta Ricardo Pozzo. Noite do lançamento do trio Bárbara Lia, Márcio Claudino, Rodrigo Madeira. Lançamento curitibano do meu livro - A última chuva (ME-ed. alternativas, 2.007) - no último dia 22/05.

Wednesday, June 06, 2007

TÁ CHOVENDO NA ROSEIRA















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Lançamento - A última chuva (ME ed. alternativas - MG)
Bartêlie - 11 de maio - Rio de Janeiro
Eu e Clauky Saba fazendo pose.
















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10 de Maio

Recital de Poesia dos poetas que fazem parte do jornal
- Café Literário -- Rua Oscar Freire.
Cecília lendo - A última chuva - ela estuda canto lírico.





















Ancorada na parede ao lado da atriz Bia Fusko, como
disse a Camaleoa - efeitos do vinho.





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A poeta colombiana Catalina, o poeta Celso de Alencar,
Camaleoa (em pé) dormindo de tanto vinho, e Jocely
- foto do Rio - Gustavo Saba. fotos de Sampa - Eduardo Barrox
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O editor Francisco dos Santos contou-me da boa recepção do livro "O sal das rosas", por parte de alguns autores que fazem parte do Universo da LUMME. Viva! 
Rebecca Loise comentou outro dia a sua impressão positiva sobre o livro - a poesia, o formato, a leveza. 
Além dela o Frei Betto que sempre me dá retorno quando mando poesias e textos para ele, os poemas que ele "gostou especialmente" foram - Kamikazes, Tangência de ferros nos trilhos, Deus no orvalho... 
Quando lancei "O sal das rosas" pude registrar o lançamento e o recital foi amplamente fotografado pelo Elisandro Dalcin. Dos lançamentos e recitais que fiz em Sampa e Rio, recebi algumas fotos da Clauky Saba e da Camaleoa, mas, aqui em Curitiba, a máquina pifou e não registrei nossa festa (minha do Márcio Claudino e Rodrigo Madeira) lá no Porão do Wonka, uma pena! 

Hoje estou coberta de orvalho.
Sonhei com galhos de rosas quase-abertas, lindas, vermelhas, tantas.
Diante do prédio e das rosas eu falava com o amor do passado.
O poeta da praia com areia escura, onde se refletiam as nuvens
Falava com ele ao celular, mas, ao mesmo tempo estava diante dele
E do meu prédio 
E das rosas. 
Acordei com uma leveza de nuvem costurada
Com uma leveza de que no sonho é possível reunir as almas estranhadas
De que o sorriso dele era real 
Como quando atravessamos um outono em silêncio cinza partilhado. 

Hoje estou verborrágica, e com a poesia _O sal das rosas_ e com tantas e tantas imagens e palcos e gente linda que conheci nas andanças, e amores lindos destrançados. Como se os cabelos da saudade nunca mais pudessem se unir amalgamados para atar no final um laço de nuvem, da cor daquelas nuvens que me seguiram naquela viagem - rosas pálidas embebidas na luz do sol.
























ilustração - Brenda Santos

O SAL DAS ROSAS


Leito de um rio de sal.
Cresce em mim
o desnecessário.


Apodreço em rosas.
Rio sem foz.
Lua duplo espelho
no coração das águas.


Lembranças,
esperanças
naufragam abraçadas
no involuntário rio
onde acordo.
Bárbara Lia
- O sal das rosas (Lumme editor-2.007)

Tuesday, June 05, 2007

FREI BETTO
















Hoje pela manhã fui surpreendida pela chegada do novo livro de Frei Betto - Calendário do poder. Um resumo da passagem de Frei Betto pelo Palácio do Planalto, quando foi responsável pela Mobilização Social do Programa Fome Zero e Assessor Especial do Presidente Lula, a quem ele chama Luiz Inácio e a quem Lula chama, Carlos Alberto.
Frei Betto não deixou de escrever diários e cartas. Seu livro As Cartas da Prisão, foi publicado primeiro fora do Brasil, reunia cartas do Frei durante os quatro anos que esteve preso.
E o diário e as cartas que geraram Calendário do Poder - é a catarse de Frei Betto, que na mesma linha de Cesar Aira, escreve para libertar-se. Escrever foi uma das razões que o levou a pedir demissão, e no livro ele publicou a carta que enviou ao Presidente solicitando sua demissão.
Continua tudo como sempre foi, fazer parte da vida de um escritor é um risco. Pode-se virar personagem, mesmo que envolvidos em disfarces de ficção, mas, neste livro, Frei Betto narra de forma corajosa os acontecimentos, com nomes e com detalhes, e no final, é apenas uma catarse, uma mágoa, pelos rumos que tomaram o Programa Fome Zero, em alguns trechos o susto ao perceber os meandros da política, em outros a reafirmação da amizade verdadeira pelo Presidente. No final é mesmo um documento histórico, mas, apenas comecei a ler, e ainda não desvendei o dia-a-dia do Planalto e as considerações do Frei que continua em sua luta embebida de utopia, uma utopia santa, regada de poesia e uma certa coragem, ou eu diria, muita coragem.

Calendário do poder
Frei Betto
Rocco, 2007




DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE










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Terra
Caetano Veloso

Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia

Foi que vi pela primeira vez as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens
Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Ninguém supõe a morena dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba
Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Eu estou apaixonado por uma menina terra
Signo de elemento terra do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria
Diferente das estrelas
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada, através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Na sacadas dos sobrados, das cenas do salvador
Há lembranças de donzelas do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Sunday, June 03, 2007

ORGULHO DA HOLANDA























TECENDO ESTRELAS DE VAN GOGH


Estrelas escorriam da tela,
na solidão do museu.
Aparei gotas de céu em minhas mãos.
Enovelei-as.
Possui por um tempo,
Estrelas abrasadas de loucura
e o azul mais azul que pode o azul ser.


Museu de Nova Iorque
em delírio.
Corre-corre. Alarmes. Vigias.
Não revistaram minhas mãos.
Um céu enovelado que me aquece
e apaga – primaveras sem teus beijos,
invernos de angústias.


Teci um manto azul
de estrelas emaranhadas,
um manto enfeitiçado.
Das estrelas da noite do artista.
Tenho mãos de fada.
e tenho tanto amor,
quanto estas estrelas deslumbradas.


Quando chegar aquele que amo.
Com seus olhos
que são para mim, música;
e para outros, mel.
Quando ultrapassar a escura porta
e se quedar no branco leito.
Eu o cobrirei com o céu.
















CAMPOS DE TRIGO


Os campos de trigo continuam azuis a florescer pássaros
e acalentar o pão que aquece a alma
de quem ama e de quem não ama.
Os campos de trigo seguem embalando a lua
com uma sonata ao futuro sem fome.
Os campos de trigo esqueceram Van Gogh,
pois não há mais dor no homem.
É tudo realidade consentida.
Ninguém mais ergue sua obra para que o mundo
floresça em primaveras
que o artista não pode viver.
Nem mil girassóis de Van Gogh
vão calar a dor que assola
Ninive, Candahar, Bagdad,
o sertão, o chão desumano da Pátria,
Nigéria, Haiti, Etiópia...
Os campos de trigo não necessitam mais espantalhos.
O homem não necessita mais proteger o coração
para que o amor não o devore.
Pois o amor foi sepultado na última primavera.
Espantalho colorido
alardeando um campo-minado-coração,
varrido pelas máquinas da indiferença que regem
o sarcástico-mundo-cão.

Os campos de trigo, indiferentes,
seguem solares,
seguem em chama,
espalhando grãos,
dançando ao vento das almas ignaras.





























O ARTISTA E A ARTE


Século XIX
Vincent,
O vento mistral derruba tuas telas.
Não tens dinheiro para as aquarelas.
Théo vendeu um único quadro teu.
Todas as amadas te dizem adeus.

As estrelas não são como as pintas...
Arlens não te suporta, louco artista!
Há em ti um fulgor que ninguém alcança.
Nem sabem que és louco de tanta esperança.


Século XX
Van Gogh,
Teus quadros valem milhões.
Teus girassóis estão em toda parte.
Nos museus do mundo.
Na sétima arte.

Orgulho da Holanda.
Tua ruiva fisionomia, o triste olhar.

A mensagem implícita na vida, nas telas, nas cartas.
A todos que perseguem a arte.

NÃO DESISTA!

BÁRBARA LIA

p/Vincent

Estas poesias inspiradas em Van Gogh foram publicadas em 2.005 nos Sites Literários Cronópios e Blocosonline.

Friday, June 01, 2007

RELEITURAS DE FRIDA






Julien Levy (EUA, 1906-1981), Frida Kahlo, c. 1938.
foto extraída do blog
www.letracorrida.blogspot.com



Releitura de cena do filme FRIDA
Loraine Thais e Luana Godinho
Loraine Thais nas fotografias


*




À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR

(para Frida Kahlo)



(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crucis
expiação)

Pinto em palavras
A tua dor.
Sonho teus sonhos.
Vivo os maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.

Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela

(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)
BÁRBARA LIA
- O SAL DAS ROSAS -
Lumme Editor, 2.007

CONEXÃO MARINGÁ


















Valéria Nogueira Eik edita o site Conexão Maringá, o poeta Luis Serguilha, de Portugal, nos apresentou, virtualmente. Na edição de junho Valéria publicou o meu conto (Paloma negra).


o Texto criativo sobre "Noir" de Bárbara Lia, escrito por Luis Serguilha.


e apresentou o meu livro "A última chuva" na página Mosaicos:

Sunday, May 27, 2007

CAMALEOA
















phBarrox, 2006

LiTeratuRAMarGinal
Será Que Será?

Onde está o poeta marginal que eu procuro entre paulistanos, estrangeiros, caipiras, nordestinos, sambistas, funkeiros, metroviários, dentro e fora da Paulicéia Desvairada, sim, ó Oswald, me conta, me explica o que se passa nas entrelinhas das (não)-críticas literárias em revistas e jornais de cultura, uai, sô, sim, porque eu tô por fora de tudo isso, mas tem gente, tem tanta gente pelas esquinas e bares com livros debaixo do braço que chego até ficar contente de ver toda essa literatura produzida sem apelo de editoras, de agentes literários, mas os caras estão no folder, no panfleto, na boca do povo, em manchetes de jornais e eu fico tentando entender o que é essa tal literatura marginal se a pegada tá na escrita, tá na gíria, tá no excesso de palavrão, tá na atitude largada, tá no estilo urgente de viver, tudo hoje, tudo agora, lascando o foda-se pra todo lado e – AH! – mas isso não é falar de literatura ou eu tô ficando doida? Vestuário também virou elemento literário? Literatura marginal! Li-te-ra-tu-ra. MARGINAL! Isso me lembra estar à margem de alguma coisa, de algum processo, de algum lugar, e será que não é isso, todo poeta, de qualquer parte, com qualquer corte de cabelo, com qualquer coisa no papel, escrevendo, escrevendo sem parar sobre corações apaixonados, sobre a revolta dos plânctons, sobre guerras intergalácticas lá no cu do mundo ou aqui, ali, bem debaixo do nosso nariz? Então perguntei a uma acadêmica, uma doutora das letras, uma professora universitária, lá entre araras e tuiuiús, lá de Mato Grosso do Sul e Rosana Zanelatto me explicou que intitular-se poeta marginal é mais uma rubrica socioeconômica do que artística, uma rubrica que indica o não-estar no mercado editorial, uma denominação que encarna um processo que extrapola o viés do artístico, do literário. Pra ela, isso é uma espécie de marketing, e lembra Cidade de Deus, de Paulo Lins, obra que deu força a uma linguagem de escritores cujo principal apelo é o fato de terem nascido, se criado ou convivido com as ditas comunidades e colocarem em cena essa realidade, numa literatura marginal. Rosana me diz que já viu e leu isso antes e foi n’O Cortiço, de Aluízio Azevedo. Eu sei, às vezes nem eu entendo o que esse pessoal quer dizer, às vezes eles são muito chatos, até insuportáveis, mas aí veio a menina que prepara Chá para Borboletas e perguntei pra ela, poeta curitibana, o que ela entendia por literatura marginal. Bárbara Lia me disse, entre uma música árabe e outra, entre pontes e mulheres profanas, entre toda sua poesia extremamente lírica que ser um poeta marginal é estar à margem dos bastidores, das colunas literárias, à margem do respeito muitas vezes, à margem do reconhecimento inclusive dos outros colegas poetas, à margem, sempre à margem geralmente porque você faz perguntas demais, à margem porque geralmente você não é de grupinhos, à margem porque você quer ter a liberdade de escolha de publicar e escrever o que achar melhor, à margem porque você não se encaixa naquilo que atualmente é considerado bacana, legal, cool, hiper, jóia rara. Literatura! MARGINAL! Às vezes eu acho que tudo virou um rótulo, ser marginal é um rótulo, um marketing pra vender livros a preços módicos porque o cara que tá lá na roça e não se encaixa naquela caminhonete, naquele pasto imenso, não se vê sentado na cadeira contabilizando gado ou soja, ele é... Manoel de Barros que conversa com formigas, que fala a língua das árvores, das rãs, já foi durante muito tempo um poeta marginal, esteve à margem, não se encaixava em nada, queria apenas brincar com as palavras e talvez, não sei, um dia eu descubra se falar palavrão aos berros em poema ou prosa faz alguma diferença, ou se tudo bem ser uma romântica com flores enormes em broches na saia ou na blusa e fazer uma puta literatura fragmentada, urgente, dançante, com muito sexo e guloseimas, acompanhada sempre de personagens meio homem, meio animais e entender que ser marginal não é um estilo de vida, que ser marginal não é uma opção, que ser marginal não tem regionalismos, que ser marginal é atemporal, que ser marginal é correr riscos, seus próprios riscos porque, no fim das contas, quando estivermos bem velhinhos ou talvez nem mais aqui, o que fica é literatura, somente literatura.
Camaleoa

JdP#51
http://plazajornal.blogspot.com/
Este texto está na edição nº 51 do Jornal da Praça, editado por Eduardo Barrox e Camaleoa:
http://contosdacamaleoa.blogspot.com
http://umanoesquisito.blogspot.com/
http://pretoebrancoemcor.blogspot.com/

FAUSTO WOLFF









LACUNA
Quando caí do cavalo
Havia um cavalo.
Quando caí da cama
Havia uma cama.
Quando caí de mim,
Só havia a noite
Dizendo não
Para o meu sim.
*



TERROR

Estou cansado de encontrar mortos.
Estão na praia, nos bailes, no Joquey,
Nos botequins,
Nas redações e editoras.
Falam comigo com uma naturalidade
Assustadoramente viva.
Devem tê-los condenado
À vida.
Não posso negar, porém, que são
Simpáticos, discretos e gentis
Como padres numa biblioteca
Medieval.

*

- do livro "O pacto de Wollfenbüttel e a recriação do homem"
Bertrand Brasil, 2.001


Saturday, May 26, 2007

BEATRIZ


29/05 - Terça-feira - Lançamento de Beatriz, revista mural de poesia.
Neste mesmo dia, Rodolfo Brandão de Proença Jaruga lerá poemas seus inéditos.
Os poemas a serem lidos são invenções sobre argumentos consagrados.
Rodolfo, editor de Beatriz, mantém o blog www.rodolfojaruga.blogspot.com
Terça, a partir de 22h, Porão do Wonka Bar - Trajano Reis, 326 - Curitiba

EXTRACÉU

Ontem, no extracéu, tomamos chá de anis,
Diante de um poente branco.
No extracéu não há noites e pássaros pousam
Em nossa janela, enquanto tecemos mantos.
Você sorri, mais do que sorris agora, e estrelas
Fogem do céu-matéria para matarem a saudade
Do teu belo riso italiano.
Vez por outra, congelamos uma estrela fugidia
E a colocamos na parede de nossa sala.

BÁRBARA LIA
- O sal das rosas, Lumme Editor (2.007)


ilustração - Ana Luisa Kaminski
http://www.ancoraseasas.blogspot.com/

Wednesday, May 23, 2007

LAURO BORGES


















São as mães que
fazem
a carne de seus filhos
por dentro e por fora
da maizena ao tricô
ponto por ponto
gota a gota
do coração até a boca.

Lauro Borges
Bife Sujo
Coletânea

EDU HOFFMANN


















LOBA

Só quem me toca a fundo
pode saber
a quantos rios me transbordo
ao molhar tuas margens de sol

só quem me toca assim
tão calor ao me respirar
me faz pensar algodão
teu jeito algodão de me olhar

só quem me redemoinha em tantos dons
me faz teu cavaleiro
bons ventos que venham incendiar
nossas armaduras
que venham incendiar
nossas bocas nossas peles nossa alma
até o osso

só quem me toca tão loba
me faz uivar luas em teu corpo
me faz navegar como bom barqueiro
o nosso velho rio chamado amor
Edu Hoffmann
Coletânea Bife Sujo

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...