Tuesday, November 06, 2007

O SAMIT BRANCO

O caixão coberto com o samit branco cai do barco. Nele, a moça da aldeia que morreu de tifo.
O caixão é levado pelas ondas à terra e lá inteiramente encoberto por ericáceas. Os que ficam no barco não sabem o que dizer. O pai desfia as contas de seu rosário fúnebre.
Adormecida, a morta não abre os olhos. É sempre a mesma moça que não apodrece.
FERNANDO KARL
Caderno de Mistérios - Letradágua-2001
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Fernando Karl é poeta e já lançou mais de dez livros de poesias, e alguns contos que estão nesta raridade - Caderno de Mistérios - Ele me presenteava - em cada livro com uma dedicatória-poesia:
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No altar das estrelas
teu nome mais antigo
que o primeiro nome da água
F. Karl
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ou, aquela de Brisa em Bizâncio:
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No altar da brisa
duas flores:
olhos teus.
F. Karl

Monday, November 05, 2007

OS POETAS MENORES

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Os poetas menores vão conversar nas livrarias,
frequentam palestras, congressos, seminários
e tardes de autógrafos pensando nas suas.
Os poetas menores participam de semanas culturais
e feiras do livro até no interior.

Só não estão em casa trabalhando.
Não têm tempo.
Os poetas menores fazem visitas e são visitados.
Assistem a sessões em que conhecem a mesa e a platéia
e cumprimentam cada um.

São os primeiros a abraçar pelo prêmio ou a homenagem
e apesar disso
têm emprego, mulher, filhos, fumam,
ou não fumam,
comem nas horas regulares
e escrevem.
Não sei como.

Já os poetas andam atrás da sua poesia.
Segundo Faulkner, por elas deixariam morrer as tias.
E tias é um eufemismo, a Bíblia diria pai e mãe.

Ninguém mais fácil de contentar que um poeta menor.
Lembre algo que ele publicou
e logo receberá em sua casa suas obras completas,
sempre mais numerosas do que previa
e com dedicatórias de enrubescer seu ego,
por desproporcional que seja, como é a regra.

Folheia os livros e viu tudo,
se aproximam, não chegam, repetem, não dizem.
Mas o autor deseja opiniões precisas
e se refere a páginas que não estão
entre as vinte e duas que não leu
e não gostou.

A sorte é que supõe a favor o que é reserva
e sorri.
Para o poeta basta o que escreve,
o poema dá sentido à sua vida.
Sem o poema, restam ao poeta menor os comentários.
Não estranha que seus tímpanos dobrem de sensibilidade
ao menor sinal de interesse.

O poeta menor ri, fala macio, é prestimoso,
evita problemas na vida como na arte.
Por isso justamente é menor,
embora sofra tratando de não sofrer.
Na arena das relações e das letras,
não enfrenta os leões,
mas não acaba menos devorado,
pois há leões onde menos se espera.

Não se pode dizer que o poeta menor viva uma vida atribulada.

Busca se preservar de riscos,
o que às vezes é tão incômodo como corrê-los,
mas a falsa poesia que faz mostra que leva uma vida falsa.
Vivesse para valer, podia não ser poeta,
mas não seria um poeta menor.
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O poeta menor não chora de noite como o poeta,

de noite ele dorme.
No outro dia, refeito, ocupa-se tanto
que não sobra espaço para o poema.
Já o poeta,
mesmo sem pensar no poema, o vive
e assim, quando vai ao seu encontro,
pode dar com ele.

Diante destes fatos, e outros de teor semelhante,
vê-se que os poetas não costumam ser agradáveis
e que os poetas menores são encantadores.

É ir ao poeta pelo poema
e folhar em pessoa o poeta menor.

PAULO HECKER FILHO
(1926-2005)
do livro Vento, Águia, Coelho
(Ed SMC-POA - Coleção Petit-Poa/1991)
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Wednesday, October 24, 2007

SOLIDÃO CALCINADA

2.008 vai ser o ano da minha estreia com uma publicação em prosa. O Conselho de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura aprovou a publicação do meu romance, que em 2.005 foi um dos finalistas do Prêmio Nacional do Sesc: Solidão Calcinada.
O universo das personagens femininas do meu livro: Pietra, Esperança, Serena e Bárbara ainda é desconhecido. Vai estar acessível em breve - até o final do próximo semestre.
E vamos em frente, nesta solidão iluminada.

Sunday, October 21, 2007

SYLVIA E O FALCÃO - DIA 30 NO PORÃO















Se as pessoas olhassem mais para a poesia de Sylvia Plath e menos para o fevereiro
de 1.963: Londres, duas jarras de leite para os filhos, neve, água congelada na torneira...
Veriam o quanto é intensa e rica sua obra. Que importa alguns tentarem levar adiante a sua obra, se há um exército inteiro na plateia esperando o instante em que ela vai colocar a cabeça no forno? Ela sabia disto quando escreveu Lady Lazarus.
Incomoda-me um pouco esta fixação na pessoa e não na sua obra. Foi assim com Orides Fontela. Cada pessoa que fala de Orides Fontela não diz apenas que era a poeta da síntese,
que conseguia concentrar em versos mínimos um universo metafísico e filosófico. Sempre evocam o gênio rude dela, sua pobreza. Sem lembrar que a Arte é uma espécie de alquimia onde é preciso saber a fórmula secreta e transformar o cascalho em ouro, ou no caso dos poetas, palavras em vida, espanto, grito, aleluias, protesto, tudo isto com fogo dentro e água e ar, pois existe também a palavra morta, construída em cima do nada, o tipo de "poesia"
que alguém lê e pensa - e daí?


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30 de OUTUBRO - Porão Loquax - Sylvia Plath
Dia 27 de outubro Sylvia completaria 75 anos.
No porão do Wonka Bar, os atores Andrew Knoll
e Carolina Maia - do Grupo Processo Artes
Mundiais - vão dar vida a um roteiro que estamos
compondo juntos, um roteiro com fragmentos
de poesias, uma mini-peça teatral.
Sylvia e o Falcão é o título de um texto
que escrevi depois de ler os livros de Sylvia,
o livro de Ted Hughes, a biografia de Sylvia
e seu romance - A Redoma de Vidro...
Desde já o convite para a homenagem à Poeta.

Thursday, October 18, 2007

ROSA CHÁ AZUL ANIL

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Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.

Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:

Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.

Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.

Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:

rosa chá + azul anil

Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.

E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.


- meu azul demorado!

BÁRBARA LIA

Wednesday, October 17, 2007

LA JAULA















Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.


Yo no sé del sol.
Yo sé la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.

Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.

ALEJANDRA PIZARNIK -
(1939-1972)
- Las aventuras perdidas, 1958

Sunday, October 14, 2007

AROMA DE ANIS








http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=2794

(Meu conto - AROMA DE ANIS - publicado no site
Literatura e Arte - Cronópios)

SYLVIA PLATH - 75 ANOS



















Vejo você ao luar
Andando pelo cais vazio de Alicante
Como uma alma aguardando a barca
Uma alma nova ainda sem compreender
Pensando que ainda é lua de mel
No mundo feliz a vida toda à sua espera
Feliz, os poemas ainda por achar...



TED HUGHES


tradução Paulo Henriques Brito


Em 27 de outubro Sylvia Plath completaria 75 anos. O fragmento acima é do livro - Cartas de aniversário - publicado pela Ed. Record.

PORÃO LOQUAX


Wednesday, October 10, 2007

ADAMARE






















Dante bebendo água do Lethes
Jean Delville


Yo sin ti:
Catedral de arcilla. Campo segado.
Esperanza de brisa. Ángel despistado.
Desnuda de luz y vida.

¡Adamare! ¡Adamare!
Mantra de medievales baladas.
¡Adamare! ¡Adamare!
Balcón de flores, manos con alas.

Velo en el balcón.
Cristales de lágrimas.
Estrellas que sigo callada.

Pájaro invisible - Pegaso.

¡Adamare!
Río que desagua en el adiós.


BÁRBARA LIA


Na aldeia de Montaillou - Sul da França - no final do século XII, a Inquisição prendeu metade da aldeia e os julgou por heresia. Nos arquivos da Inquisição o historiador Emmanuel Leroy Ladurie encontrou termos latinos utilizados pelos cátaros para definir o - querer bem: Quando alguém gostava apenas de outro utilizava-se a palavra - Amare. Quando gostava muito a palavra era Diligere. Para quem amava realmente a palavra era ADAMARE.

VIOLA NA VELA



Tuesday, October 09, 2007

LA NAVE VA...

- Depois do programa da Tv Cultura Roda Viva - José Padilha, diretor do filme Tropa de Elite na roda...
Ontem no programa Roda Viva o cineasta José Padilha demonstrou que é alguém que deseja ir além do entretenimento. Levantar um debate sobre a violência que assola não só Rio e São Paulo só pode ser positivo, e já passou da hora. Pode ser que alguns vejam o Capitão Nascimento como herói, eu o vejo como um fracassado, dentro de uma instituição fracassada. A violência é o primeiro sinal de fracasso do homem, e no final, somos mesmo uma sociedade fracassada. Uma sociedade soterrada e penso que sem saída. Tudo em uma sociedade fracassada tem um efeito contrário, então Tropa de Elite é mais um combustível para incendiar ainda mais as guerras das facções, a corrupção e o pior - a ausência total da lei. Consta que não há pena de morte no Brasil. Assim como constam muitas coisas na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos que são totalmente ignoradas. Vendo ontem o debate lembrei Gandhi - olho por olho e o mundo acabará cego.
As ações do Bope - no filme - demonstram que quem mora no morro já está devidamente condenado, julgado sumariamente, sem nenhuma dúvida. E neste instante sinto um gelo na alma - Como mudar este panorama? Dar aos moradores dos morros e das periferias o direito de ser gente, cidadãos, sem julgamento prévio?
Rousseau disse que a propriedade privada nasceu com o primeiro homem que colocou a primeira cerca ao redor de sua casa... Assim como os mandatários do morro nasceram com o primeiro traficante que se julgou dono do pedaço. Depois do primeiro passo, não há mais volta. E ao redor o consentimento institucionalizando o que poderia e deveria ser questionado... Mas, se um homem pré-histórico decidiu um dia tomar posse de um pedaço de terra, e um marginal olhou a redor e decidiu que ali ele seria a lei, o passo errado termina em uma procissão de erros. Mas, muitas teses e mestrados e doutorados vão dissecar de forma brilhante os motivos, sem resolver nunca o drama das favelas. Os policiais continuarão em suas noites de purgatório entre a cruz e a espada. Os viciados continuarão alimentando o tráfico... Uma roda viva, hecatombe de uma humanidade que esqueceu a felicidade pendurada atrás da porta e saiu a procurá-la em endereços que ela nunca visitou, em casas que ela nunca morou.

Monday, October 08, 2007

O NASCEDOR























Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre renascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam o traicionam,
mais renasce.
Ele é o mais renascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso,
que segue sendo
tão extraordinário,
num mundo
em que as palavras
e os fatos
raramente se encontram?
E quando se encontram,
raramente se saúdam,
porque não se reconhecem?


Eduardo Galeno (Uruguai)

- 1967, La Higuera, assassinaram Che, que ainda nasce,
a cada dia nasce.

Friday, October 05, 2007

PORÃO LOQUAX


O Ano em que Meus Pais Sairam de Ferias



1.970


O ano era 1.970.
1.970 era o telefone dele.
Minha pasta do colégio era decorada com fotos em preto e branco.
Puro charme dos meus jogadores mais amados - Clodoaldo e Tostão.
Eu parava na banca de revistas do pai dele e ficava olhando a revista Placar para olhar entre uma página e outra o seu olhar.
Um artista, escultor.
Um menino de pele clara que eu nunca beijei.
O papel carbono e a primeira poesia escrita na máquina de escrever Olivetti.
Tudo preto no branco.
Até o ar era preto e branco.
As fotos do jornal.
As cenas que eu via na TV.
Eu era a personagem Potira de uma novela em preto e branco. Tinha um a mor e uma mina de diamantes...

Vez ou outra, no túnel do tempo um diamante brilha no interior da gruta.
Tudo colore súbito: a chuva caindo no meu uniforme bordô, ele sorrindo no meio de umas revistas coloridas, arco-íris me esperando no final da rua quando eu voltava do colégio.
Depois, tudo volta a ser preto e branco, em 1.970.
1.970 era o telefone dele.
Os telefones eram antigos e negros como em um filme noir.
Bárbara Lia


- O ano em que meus pais saíram de férias foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2.008 - Particularmente voltei ao tema e ao ano colorido de um tempo que tudo era preto e branco. No filme o garoto é filho de um guerrilheiro. Eu sou filha de um partidário da direita, que chamava os revolucionários de terroristas, e que vibrou quando Petras - o jogador tcheco que fez o primeiro gol contra o Brasil se ajoelhou e fez o sinal da cruz - Meu pai dizia que um jogador de um país socialista havia rezado diante do mundo... Nada mais seria como 1.970, que por coincidência, era o nº do telefone do menino que despertou meu primeiro olhar de encanto. Eu tinha 14, era goleira no time de futebol da rua, para completar o time de rua do meu irmão caçula. Lia a Revista Placar, e vivi minuto a minuto o nosso ano de ouro da nossa melhor copa, e nem sabia que era o mais rígido ano nos porões da repressão...

Wednesday, October 03, 2007

TRANS/BORDAR!




Sinto desejo de desaparecer na aragem
Um rosto rima em viagem
Anagramas ao invés de alma ferida

A poesia era hipótese escondida
Vida - mais que vida -
que engendrou versos da mulher alada

Fluía em mim um rio uma enxurrada
Não me cortava guilhotina afiada
que ora me degola

Ando escondendo versos na gola
Querendo engolí-los com coca-cola
Para não dizer de mim e sem pudor
delatar meu mais sublime amor.
BÁRBARA LIA

Sunday, September 30, 2007

AROMA DE ANIS





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Lá nota musical. Lá como eu chamo Laura. Assim como Letícia é Lê ou Bárbara é Bá. Lá. Lá e seus cabelos com perfume de anis. De todo o anis estrelado que ela atirava embaixo do travesseiro para acalmar a alma fera e dormir. Simpatia que a cigana ensinou. Lá agita os cabelos espalhando estrelas de anis pela sala. O moço do trompete no quadro da parede se embriaga, quase cai sobre as letras abaixo de seus pés.

J
A
Z
Z


Lá e suas crises sem hora marcada. Perdi a única montagem da peça do melhor amigo. “Memórias do Subterrâneo” soterradas no amparo da líquida ternura dela. Os olhos castanhos esverdeados mergulhados em uma mistura de vida/sal – lágrimas ininterruptas.
Recostar, como bom namorado, sua cabeça cansada em meu peito e ficar imóvel até que ela adormeça. Esqueça Dostoiévski!
Lá na absurda curva de suas estranhezas. Sentada à mesa do Café Express diante da porta de vidro que dá para a Praça Santos Andrade hipnotizada pelo balé das pombas.
Pombas em bando, dezenas de pombas. Não apenas uma, e outra,
e mais outra, como no poema antigo...
Vão-se em bandos as pombas despertadas...
Não li entre as notas musicais da sua agonia. Nem nas pequenas metáforas suas. Nem nas flores que ela me trazia, o seu pedido de socorro.
Uma rosa artificial desbotada - de papel machê. Ou uma flor daquelas que a gente sopra e ela se dissolve branca... Era seu jeito de dizer que o sopro da vida poderia desfazer a flor em lá menor. Lá e suas insinuações mudas. 

Não li os signos.
Ela andava a ouvir boleros de Luis Miguel...

"Te vas porque yo quiero que te vayas

A la hora que yo quiera te detengo,

Yo sé que mi cariño te hace falta

Porque quieras o no Yo soy tu dueño"

...

Me encanta "la media vuelta", angel...

E me torturava com um bolero triste a tarde toda.
Eu ignorava o brega e o triste quando ela me atirava ao chão com beijos de halls cereja me asfixiando de estrelas sabor anis quando seus cabelos caiam sobre meu rosto e ela gemia constelações inteiras como um cometa perdido procurando um lugar, um lugar para pousar e era a metamorfose cristalina: o rostinho dela molhado de suor encaixado no meu peito e ela adormecida. Linda! Longe dos boleros e fantasmas e rosas suicidas e flores que se desfazem em um sopro.
Por isto, não pensei em mais nada para depositar aqui nesta lápide branca além de um sachê perfumado de anis estrelado.
Em algum lugar Lá dança espalhando estrelas azuis.
Lá aonde eu nunca mais irei acalmá-la recostando no meu peito estraçalhado de amor sua cabecinha atordoada, enquanto ela repetia até adormecer:

Dói viver, dói viver, dói viver, dói viver...

Lá dizia que o gosto do céu é menta com chocolate.
Inverno de quase neve na cidade gélida, nossas bicicletas encostadas em algum lugar à nossa espera enquanto o sorvete derretia em nossas bocas ela repetia...

Céu! Este é o gosto céu: Menta com chocolate.

Em todos os invernos provarei o gosto do céu olhando o voo das pombas sentindo o aroma de anis de seus cabelos espalhados. E um sopro suave à saída do Café Express me trará esta certeza: dela ao meu lado espalhando anis no ar com a ternura dos naufragados.
BÁRBARA LIA

Monday, September 24, 2007

PRIMAVERA


Fique em silêncio
como um ramo seco
vem aí
uma primavera
a te florir

(Bárbara Lia)

Sunday, September 23, 2007

'AS PONTES DE MADISON'










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Fátuos amores persistem
na rotina fosca.
Eternos amores diluem-se em
........Cenas
........Poemas
........Sangue-açucena.
(Estrelas agregadas
à constelação
invisível)
.......Acima da cartografia
.......celeste,
.......cada amor postergado — uma estrela.
.......Via-Láctea invisível que nutre Deus.
Francesca!
Tua cena;
minha cena.
Um éden secreto
plantado
ao lado de uma ponte...
.......((belgas, romanas
.......suspensas
.......ou cobertas
.......como tua Roseman Bridge)
Beija-flores à flor da pele
bicando dentro
a orquídea de fogo
que se hospeda
após as horas mornas
breveternas.
.......Francesca!
.......Tua sina;
.......minha sina.
.......O infinito que cabe
.......Em um dia ou dois,
.......três ou quatro...
E a vida inteira a beber
as águas da estação do amor.
Até tornar-se pó e diluir-se
acima das águas onde imperam
pontes de leveza rústica e bela —
Velha Iwoa e suas pontes de Madison...

BÁRBARA LIA
Meryl Streep (Francesca)
Clint Eastwood (Robert)
- cena do filme - As Pontes de Madison

Sunday, September 16, 2007

Aurora

LORCA EN MI CORAZÓN

Gazal de espumas
treze constelações rimadas
clave de Fá escondida
na estrela mais clara.

Touro triste dança
ao manto de mariposas
vomita rosas
chora arraias.

Lua de Lorca
desfia-se à morte
incinera seus raios
em luto andaluz.

Corcéis golpeiam
o vento perfumado
que acariciou o poeta
em noites lendárias:

guitarras
pianos
poesias
títeres
Dali
verde
que te quis
azul
do(amo)res
castanholas
flores
flores
(vida em Granada)

- BÁRBARA LIA -

... pequena homenagem ao final da semana Lorca...
in mi corazón

Wednesday, September 12, 2007

GARCIA LORCA













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A - Semana Garcia Lorca - promovida pelo
TUT - Teatro da Universidade Tecnológica do PR
está me fazendo um bem incrível.
Mergulhar em Lorca.
Minhas tentativas de debandar do mundo virtual
é por que sou visceral.
Gosto de ver, ouvir e tocar.
Ouvir alguém falar sobre Garcia Lorca,
perceber sua respiração enquanto fala,
uma lágrima furtiva, como ontem.
Ontem Ilo Krugli abriu a janela atemporal.
O diretor de teatro que contou sua experiência
com o Grupo de Teatro Vento Forte...
Bastou cantar uma ciranda de Lia de Itamaracá,
e flores novas da primavera que chega caíram
dentro do meu coração.
É isto!
A ARTE!
Não é o que tenho visto
e que me causa estranhamento.
Ando muito triste com o panorama literário.
Fico mesmo triste quando é a imagem
que vale mais que a palavra.
Não a imagem da palavra dentro do poema,
mas, a imagem de quem escreveu o poema.
Por isto, ver alguém que faz Teatro
apaixonado por Lorca rasgou o tempo
e jogou de novo toda a poesia, sangue nas veias.
Lorca vive!


Vida nova. Tal e qual Chico Buarque escreveu em - Vitrines -
- catando a poesia que entornas no chão -
Quem entorna?
Poucos.
A estes poucos eu vou seguir alucinada.
Nesta dimensão onde eu posso seguir uma caravana gitana,
e colher palavras de Federico Garcia Lorca...
Ou abrir um livro e ler o poema
que o Rodrigo Madeira fêz para ele...



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No porão loquax segue a poesia na madrugada
- ontem o tema era - O inferno.
O inferno são os outros. Uma cidade.
O inferno existe? Não existe?
Ontem, cada qual deu sua versão de inferno
- Ontem Paulo Bearzotti e Keila Kern
foram Paolo e Francesca e leram Dante.
Rodolfo Brandão interpretou Homero,
enquanto o Octávio Camargo tocava ao piano.
Marcos Cordiolli encontrou referências na obra de Borges...



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a programação da Semana Garcia Lorca









La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia

Connor Storrie (Ilya Rozanov). Cenas da série canadense 'Heated Rivalry'. Baseada no livro de Rachel Reed. Direção e Adaptação do ge...