Sunday, December 16, 2007

OS MENINOS E EU


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ilustração - Ane Fiuza


Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.

Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.

Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.

Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.

Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara

Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas


Tão tristes os meninos,
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
com café.

Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.

Eu,
desenho gravuras
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.

Não atravesso
o vidro frio do templo
moderno
- shopping center –

Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo

(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)

Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.

Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul
no “mar/
belo mar selvagem...”



BÁRBARA LIA


- OS MENINOS E EU - recebeu Menção honrosa no Concurso Nacional Helena Kolody - 2.007 - Secretaria da Cultura do Estado do Paraná.

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Foi lançado o - Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura - para quem não mora em Minas Gerais tem a chance de concorrer nas categorias Ficção e Poesia. Para quem é mineiro tem outra categoria - jovem escritor.

http://www.cultura.mg.gov.br/?task=interna&sec=1&cat=39&con=1206


Saturday, December 15, 2007

PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF

Edith Piaf diante do mar a tricotar. Uma menina cantando o hino de sua pátria. Uma mulher amando como só as mulheres livres sabem amar. Uma menina insubmissa e um poeta que a obriga a encontrar a postura no palco. Uma mulher que adoece quando morre o amado... Antes, La vie en rose - dois amantes perdidos em New York encontrando-se na luz difusa rosa que traz o amor.
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O filme de 2.007.
A canção que se canta agora com o coração, não mais com os lábios apenas, inteira, sem as certezas de placebo. Não me arrependo de nada.

Friday, December 14, 2007

Cassia Eller - Je ne regrette rien

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram, nem o mal
Tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Está pago, varrido, esquecido
Eu estou farta do passado

Com minhas lembranças,
eu alimentei o fogo
Eu não preciso mais delas

Varri meus amores
Junto a seus aborrecimentos
Varri para sempre
Eu volto ao zero

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram, nem o mal
Tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada Minha vida
Minhas alegrias
Hoje
Começam com você
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(M. Vacaurie)

Wednesday, December 12, 2007

OS MELHORES - APCA - 2007



Categoria Literatura
Ficção: O Filho Eterno/
Cristóvão Tezza
Não-Ficção: O Príncipe Maldito/Mary del Priore
Contos: A Copista de Kafka/Wilson Bueno
Memórias: Conspiração de Nuvens/Lygia Fagundes Telles
Reportagem: O Chão de Graciliano/Audálio Dantas e Tiago Santana
Poesia: Belvedere/Chacal
Votaram: Dirce Lorimier Fernandes, Marcelo Pen, Ricardo Nicola, Ubiratan Brasil e Luiz Costa Pereira Jr.


Parabéns aos escritores Wilson Bueno e Cristóvão Tezza. Paraná premiado na figura destes escritores que já nos premiaram com obras tão marcantes com oTrappo(Tezza) e Mar Paraguayo(Bueno).


- MEU BLOG ENLOUQUECEU - ESTA NOTÍCIA LI HOJE - 16/12 - (Não é do dia 12 esta postagem)

GÉNEROS EM VOLTA


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Encontrei a poesia - Águas de Alexandria - em um sítio de Portugal. Na página Géneros em volta.
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- Transportei um comentário aqui do blog sobre a poesia, do Marco que vive no Pará -
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MARCO GEMAQUE:
A despeito de "Águas de Alexandria"
"Numa analise Histórico-literário, é uma dedução poeticamente cinética. Assim tu transformas um fato histórico em enjambement simbolista que parece tragédia, mas percebo que uma tragédia fabricada somente na base do hiperbolismo verbal não é tragédia, é farsa. Ao contrario, nas águas de Alexandria, é verdade poética. Nenhuma água é tão pura. “Ut pictura poesis”, dizia o poeta Horácio: a poesia como pintura. Isso significa aderir ao rigor da pureza, sem relativismo, ainda que concreta: a escolha do vocábulo certo, cujo sentido vai-se desdobrando onda após onda, com o rio fazendo a opção certa do mar, da turbidez, do brilho, do pescador. Nada é gratuito, pois os fios das rimas e as profundezas das assonâncias revelam o sentido numa forma uno: Αλεξάνδρεια (Bibliotheca Alexandrina) Obrigado Bárbara Lia!"
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Cronópios:
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Edit on Web - Géneros em torno:

IN COLD BLOOD


















"Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda vida a um senhor nobre porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também lhe dá um chicote; e o chicote se destina apenas à auto-flagelação… Estou aqui sozinho na escuridão de minha loucura, sozinho com meu baralho - e, é claro, o chicote que Deus me deu". Truman Capote.


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Comecei a ler A SANGUE FRIO - Truman Capote - trad. de Ivan Lessa.
Amei o filme. Philip Seymour Hoffman é um dos casos de proximidade máxima intérprete-personagem. Capote tinha o poder de seduzir, levou ao seu lado a amiga de infância, a escritora Harper Lee, em sua viagem, mas, o mergulho na vida e mente dos assassinos ficou mesmo por conta de Capote. Uma abdução fatal foi o que Perry Smith produziu em Capote, e de certa forma isto iluminou o seu "romance sem ficção".
Tenho um pé nas páginas policiais pela total falta de censura na infância. Uma menina que aprende ler aos cinco anos e pode caminhar ao lado do FBI em casos tão tétricos quanto os de Holcomb com sete ou oito anos.
Das histórias que tenho escrito (novelas, romances), por duas vezes pendi ao tema e inclui a densa cena - crime.
(Sim, meu bem, vou reler Edgar Allan Poe)
Sem fechar as portas à poesia cintilou uma vontade fluorescente de adentrar as páginas policiais, descrever o suspense, o medo, a investigação. Não é tão simplista como alguém me disse - assista CSI. Qual o quê! É preciso voltar ao ambiente de formol e entranhas abertas das minhas aulas do curso de Psicologia, é preciso conhecer o corpo humano morto, a alma arrependida. Literatura e Ciência. Desmancha-se no ar o enredo como fumaça de marijuana, se não se tornar verossímel. Talvez minha prosa siga lerda como as nuvens diante da minha janela.
A poesia é pura brota dentro. A poesia sou eu, viva e inteira. Vida dentro dos signos. Uma imensidão de metáforas, minha roupa de festa, estas metáforas. A prosa exige.


Ontem, no Teatro Paiol, Marçal Aquino falou sobre seu trabalho e é mais um adendo. Mas, ele teve o trabalho de campo quando trabalhava com reportagens policiais. Oh! desejo imenso de ter este laboratório... Ainda assim é preciso sair de frente desta tela abrir o livro já com as mãos frias da neve de Holcomb. A sangue frio beber cada palavra de Capote, que me encanta, assim como me encantou aquele moço que ganhou o Oscar - Philip - baita encargo que ele tirou de letra.

DI CAVALCANTI






















Casario e barcos - Di Cavalcanti (1921-1964)
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Eles (os artistas) não amam a vida. Amam a arte como a um mito. E eu amo sobretudo a vida, esta vida que vem como os calores sexuais de baixo para cima.
DI CAVALCANTI
(Carta a Mário de Andrade - 1923)

Wednesday, December 05, 2007

A ARTE DE SEMEAR ESTRELAS

Frei Betto enviou-me o novo livro dele que saiu pela Rocco - A arte de semear estrelas.
(Cantos - Encantos - Recantos)
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Dentro destes pequenos cadernos fisguei nesta tarde poesia pura. Mais do que zonza com a dedicatória - para Bárbara que domina a arte de semear estrelas - Feliz Natal! Frei Betto.
Em um Natal nem lembro de que ano eu entrei em uma loja e fiquei pensando - o que a gente compra para o Natal de um Frei? E no final trocamos livros e livros e poesia, e a vida continua e eu vou continuar aqui, recolhento estrelas:
"Segue o conselho de Ulisses e foge dos que mastigam lótus em busca da amnésia que produz ilusão de felicidade"
(pg. 55)
"Só então compreendi por que René Descartes foi encontrado morto na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires. Uma fina espátula prateada atravessava-lhe o coração. Suspeita-se que o assassino chama-se Jorge Luis Borges, mais conhecido pelo alcunha de "El Brujo".
(pg. 25)
"A arte jamais alcança a plenitude de corpos celebrando a fusão de almas"
(pg.109)

UM TANGO COM DEUS


publicado no site www.lalupe.com

SANGRANDO


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Alva manhã. Aragem marinha.
O pássaro abre o bico em dardos:
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Bem-te-vi! Bem-te-vi! Antífona
que me acaricia. Canto sagrado.
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Seria felicidade não fosse o som antigo
do violão a lacrimar lembranças.
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Lápis-lázuli no coração, sangrando
tua melodia que anuncia trovão e raio.
BÁRBARA LIA
O sal das rosas (2.007 - Lumme)

BÁRBARA
























Cristal de fogo este sol de abril.
Felicidade ardida em oposição
à esta mágoa fendida.

Cerro negras cortinas,
na penumbra
rasgo fotos do passado.

Em rotação errada
nas paredes da memória
a mesma antiga declaração
dos homens sem imaginação...

"Bárbara, Bárbara.
Nunca é tarde
Nunca é demais”

Há que alguém me amar
sem desafinar letra e canção?
Como um barco sobre o Tejo,
como rosas se abrindo no chão.
Asas de colibri,
fogos de São João.


Uma canção
que não seja tarde,
nem demais.
Que seja abril
nada mais.
Bárbara Lia

A última chuva - ME. ed. alternativas (MG) - 2.007 -

Para ter - A última chuva - R$15,00
e-mails para barbaralia@gmail.com

Monday, December 03, 2007

ES LARGA LA TARDE





















tela: Ninfa Azul - Ana Luisa Kaminski
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Es larga la tarde
como el camino curvo hasta tu casa
por donde regreso arrastrando los pies
hasta mi cama sola
a dormir con tu olor engarzado en mi piel,
a dormir con tu sombra.
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Es larga la tarde
y el amor redondo como el gatillo de una pistola
me rodea de frente, de lado, de perfil.
El sueño pesa sobre mis hombros
y me acerca de nuevo a vos
al huequito de tu brazo,
a tu respiración,
a una continuación infinita de la batalla
de sábanas y almohadas que empezamos
y que pone risa
y energía
a nuestro cansacio.

GIOCONDA BELLI
Nicarágua

Saturday, December 01, 2007

MONJOLO DA INFÂNCIA




















http://www.conexaomaringa.com/novo/index.php

No site - Conexão Maringá - Revista de Literatura e Arte - uma poesia inédita de infância e presépio com um monjolo pequenino. Isto até parece que foi em outra vida.

A Comissão Julgadora do Concurso Nacional de Poesia - Helena Kolody, formada pelos poetas Affonso Romano de Sant’Anna, Geraldo Mattos e José Castello escolheram os três primeiros colocados da edição 2.007 - Primeiro Lugar - Douglas Kim (SP) Poesia: A língua. Segundo lugar: Paulo Silva Sampaio (SP) Poesia - Traição à estante e Terceiro lugar Luis Pimentel (RJ) Poesia: Partilha.
Minha poesia - OS MENINOS E EU - ficou com menção honrosa entre as dez outras que vão estar na antologia do concurso. Segundo a secretaria 2.015 poesias concorreram na edição deste ano.

Friday, November 30, 2007

SONHO DE OUTONO
















De 30 de Novembro a 16 de Dezembro
De Sexta a Domingo às 20h
Ingresso: 1 lata de leite em pó
Teatro Cleon Jacques
(Centro de Criatividade do Parque São Lourenço)
Rua Mateus Leme, 4700 –
Tel. (41) 3313-7190 / 3213-7525
Texto – Jon Fosse.
Direção – Marcos Damaceno.
Elenco – Richard Rebelo, Ludmila Nascarella, Rosana Stavis, Luiz Carlos Pazello e Laura Haddad.



Tuesday, November 27, 2007

PORÃO LOQUAX













27/11 - terça-feira

Porão Loquax apresenta Poemas em Prosa (de Baudelaire ao Século XXI)
Baudelaire iniciou o gênero poema em prosa em 1869 como forma literária capaz de captar a intensidade da vida moderna. Gênero que foge dos gêneros, classificado pelo que ele não é, ou tenta não ser, nem prosa, nem poesia em verso.

Serão lidos autores de várias procedências, como Rimbaud, Ponge, Haroldo de Campos, Manoel de Barros, Nuno Júdice etc.¨

ORGANIZAÇÃO: Ricardo Pedrosa Alves (vencedor do Prêmio Helena Kolody- 2006, autor de ¨Desencantos Mínimos¨ - ed. Iluminuras, SP)

PARTICIPAÇÃO: Ulisses Galeto, Keila Kern, Rodolfo Jaruga, Jussara Salazar, Paulo Bearzoti, Rodolfo Schneider, Ricardo Carvalho, Graziella Rollemberg, Ricardo Pedrosa Alves


Wonka Bar : Trajano Reis, 326
fones 3026 6272 : 9142 0810

Saturday, November 24, 2007

"O QUE AMAREI A NÃO SER O ENIGMA?"


- o que amarei a não ser o enigma?" - Sylvia Plath
NOITE 'SYLVIA E O FALCÃO"

30 de outubro no Porão Loquax
Um registro da homenagem à Sylvia Plath:
Carolina Maria e Andrew Knoll do Grupo Processo




PROCURA-SE UMA ESTRELA



















TEATRO PARA O POVO - 25/11 - 11h


A peça Procura-se uma Estrela, que se apresenta no auditório Salvador de Ferrante, Guairinha, do Grupo Processo - Artes Teatrais, foi criada especialmente para as campanhas de cadastramento de Doadores Voluntários de Medula Óssea.
O grupo utiliza a arte como forma de conscientização para esse importante ato de sensibilidade e cidadania. Na encenação uma dupla de artistas acostumada a visitar os pacientes em tratamento de leucemia no hospital de clínicas resolve ultrapassar o limite do hospital para cativar outra figura fundamental nessa estória: O doador de Medula Óssea.
Ingressos:
Entrada Franca
Postos de Venda: Os ingressos serão distribuidos na bilheteria uma hora antes das apresentações.
A apresentação é animada e interativa.
Texto e Direção: Adriano Esturilho. Elenco: Renato Perré, Rafael Barreiros e Carolina Maia. Sonoplastia ao vivo: Adriano Esturilho. Cenário e figurino: Lua Castilho. Iluminação: Judy Fioreze. Produção: Vão Livre – Arquitetura e Artes. Direção de Produção: Carolina Maia.

Thursday, November 22, 2007

REVISTA LITERÁRIA







Gustavo S. de Lima é o editor de uma nova revista literária.

Estamos mantendo um diálogo e estou fazendo parte deste novo projeto:

A Revista Literária da Editora Inverso será publicada a cada 2 meses a partir de fevereiro de 2008. Terá no seu conteúdo poesias, contos, crônicas e ensaios. A assinatura da revista é gratuita.
Se você for um escritor e quiser colaborar com a revista enviando material para publicação, deve entrar em contato pelo e-mail
revista@editorainverso.com
Queremos a colaboração e a criatividade de vocês, leitores e escritores, para definir o nome da nossa Revista Literária. As sugestões podem ser enviadas para o e-mail
revista@editorainverso.com com o título "Nome para a revista". Posteriormente, faremos uma votação com cinco nomes selecionados. Participe!




Wednesday, November 21, 2007

A PELE


























Em pouco tempo vou me afogar, sem sequer estar nadando…

Fur – An Imaginary Portrait Of Diane Arbus, EUA, 2.006.
(Nicole Kidman, Robert Downey Jr, Harry Yullin)
Direção Steven Shainberg.
Inspirado no livro de Patrícia Boswhorts – Diane Arbus, uma biografia.

Diane Arbus é assistente do marido fotógrafo Allan Arbus quando Lionel muda-se para o andar de cima e a atrai, mosca no mel. O vizinho que tem a pele recoberta de pelos. O olhar dela desvenda o bizarro. A lente do olho que segue e enquadra antes da lente da câmera. O filme não é a biografia fiel da fotógrafa, é um passeio por seu imaginário. Embora tenha lido críticas desfavoráveis é o tipo de filme que me captura. Tem a coragem de mostrar alguém que vive o estranhamento de si mesmo. O estranhamento do outro. O outro, por quem ela se apaixona, acaba contornando as arestas da estranheza da mulher, raptando-a para um mundo onde ela se enquadra. Uma vez que ela não se enquadra no glamour de filha de milionário, esposa americana perfeita dos anos cinqüenta. Amo Robert Downey Jr. Sua fragilidade sempre me comove. O olhar triste que ele não consegue despir em nenhum filme cai como luva na pele neste filme. No Brasil o filme tem este título – A Pele. Personagem instigante Diane. O filme não mostra o suicídio dela aos 48 anos. O filme narra apenas o encontro dela com o homem que se cobre e se esconde e que ela desnuda para poder amar, e depois o liberta nas ondas do mar, enquanto ela se liberta para clicar o inusitado, o bizarro, o que incomoda.

Sunday, November 18, 2007

GLOBOCOLONIZAÇÃO

























Terra vista do espaço pela Apollo 17
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Quando o tema é globalização, Frei Betto simplifica e coloca o adendo nítido do que vivemos nestes novos tempos – Globocolonização. Esta realidade é tão implícita que não dá mais para desvincular globalização de colonização, o que não acontece apenas pela via econômica, ela se processa de forma mental, através de uma postura pré-estabelecida, made in Usa. Isto lembra um poema de Fausto Wolff:

DOCE LAR

Nos Anos quarenta
Quando as mocinhas
Queriam se chamar Mary
E os rapazes Joe,
Como os americanos
Escondiam bem
Os planos horríveis
Que tinham
Para os anos noventa. (1)

Antes era o velho oeste, belos índios sendo assassinados, diante do delírio da garotada no cinema, fiz parte destas cenas e me perdôo. Perdôo a inocência dos meus oitos anos, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. (2) Hoje as crianças não sabem declamar Casimiro de Abreu e sua aurora é uma jornada nas estrelas, seu astro é um super-man que salva o planeta inteiro, menos os três estrangeiros (vilões) com nítidas fisionomias árabes, ou um Rei Leão que tem como rival um Leão cruel com feições do deserto. Pílulas da mentira plantadas no dia-a-dia. Muitos morrem sem saber que não existem bandidos ou mocinhos, apenas uma Humanidade que deveria encontrar um caminho e dividir a Terra, suas fontes, mares e desertos. Nas Leis e nas Cartas Magnas dos Países, poeticamente se propala a igualdade. Basta lançar um olhar sobre os acontecimentos para ter certeza que as Leis existem apenas na grafia, não no dia a dia. A exploração do mais fraco é gritante.

Os grandes laboratórios farmacêuticos utilizam africanos em seus experimentos, como se eles fossem ratos de laboratório. As grandes plantações com sementes geneticamente modificadas vicejam na pobre África, e em outros países, mais notadamente na África com a desculpa de exterminar a fome e a pobreza, breve um continente exterminado, pela AIDS, a fome, a alienação. As grandes corporações, como Nike implantam fábricas em países subdesenvolvidos, utilizando e escravizando a mão-de-obra, e uma centena de outras manobras legais, mas, totalmente desumanas, imorais, e prejudiciais ao equilíbrio global. Totalmente na contramão de todos os Grandes Sonhos dos Grandes Homens, que parecem a cada dia, mais extintos - tantos os sonhos, quantos os homens.
A colonização enraizada, aquela que citei - a mental - que se fixa em eternidade nos costumes e desejos e sonhos de consumo.

Não surgem pacificadores – como Gandhi – um líder que consiga alterar a rota da Humanidade. Ninguém tem força ou voz para fazer retroceder o caos, re-estabelecer os acordos, aqueles que floriram ao final da Segunda Guerra. Que não veríamos mais campos de concentração. E eles existem e somados a eles um número imenso de refugiados pelo mundo inteiro, sem lar, sem pátria.

Em uma palestra, Adolfo Pérez Esquivel – Prêmio Nobel da Paz - contou sobre sua ida a Bagdad, e de que foi chamado a uma outra cidade do Iraque. E ele foi ver com seus olhos o apocalipse. Um galpão e muitas famílias abrigadas, e enquanto as mães saíram para lavar a roupa e buscar uma forma de abastecer os filhos um míssil americano atingiu o abrigo e seiscentos meninos e meninas iraquianas foram mortas. Não me recordo de uma notícia sobre seiscentas crianças iraquianas mortas, não se propala como a morte de um único soldado americano.

Em março deste ano me vesti de verde e fiz a cobertura do evento da ONU sobre biodiversidade que aconteceu em Curitiba. No coração do evento pude perceber como se definem os rumos da História do Mundo, os caminhos. Quem barra interesses mundiais, humanitários e primordiais. Os não signatários do Protocolo de Cartagena fazendo o seu lobby, que resultou em adiar por mais seis anos acordos que ajudariam a amenizar a rota da degradação, mesmo sabendo, após um relatório que a ONU encomendou a 1.300 cientistas do mundo inteiro, que se não determos a agressão ao Meio Ambiente, o Planeta Terra entrará em colapso dentro de trinta anos. Isto focando apenas a questão do Meio Ambiente, e deve ser assim, em cada setor em escala mundial, um retrocesso à evolução do homem como Ser, como o Centro, única forma de evitar o dano, a deterioração de uma raça inteira.

Como membro voluntário da Anistia Internacional, em alguns dias se materializa em minhas mãos aquela pequena vela branca, símbolo da Anistia, cercada de arames farpados ferindo as mãos em teclas eriçadas, nesta tarefa de tentativa de ajudar os que lutam pelos Direitos Humanos. Única que posso realizar por ser tão pobre quanto os pobres do mundo. Enviar e-mails mundo afora em nome de todos que estão presos por lutarem ainda. Tomada por certo desencanto, passeando pelos escombros do mundo, que a mídia não mostra. Ouvindo os resistentes que são tão poucos, os lúcidos que são calados pelo poder, os guerreiros do arco-íris e os médicos sem fronteiras, lavando as chagas do Universo com sua alma de água eterna. Apenas ali, nos pequenos focos de resistência se pode conhecer e se desencantar e ao mesmo tempo queimar as últimas esperanças neste rastro dos iluminados acreditando que um dia a dominação vai dar espaço à Humanidade repartida.

Quantos caminhos um homem deve andar até que seja aceito como homem? (3) A globalização é uma forma de colonização, mais que econômica, ela é mental, o mundo todo é cúmplice deste momento negro da Humanidade, considerando que nenhuma voz se levanta e que todos apenas dizem seu sim. Vamos dormir depois de uma coca-cola gelada e um enlatado americano. Os selvagens são na verdade os únicos verdadeiramente livres. Os povos da Floresta, guardiões da respiração da Terra, da água de suas veias, de toda a sua grandeza infinita. Eles se reúnem em Fóruns Indígenas de resistência à globalização econômica, vivem em comunhão com a Natureza, e são os nossos anjos neste paraíso perdido. Enquanto os civilizados, à sombra da águia estranha se contentam em salvar a sua pele. Até amanhã, até amanhã, antes que o Sul seja sugado inteiro pelo Norte: petróleo, água, rios e florestas, e nós ocos como as crianças da Etiópia, de olhar vazado espiando o fim. Se diluindo diante da colonização mais cruel.

A conscientização política e até mesmo os Direitos Humanos não chega até a grande maioria da população carente, destes países subdesenvolvidos.

Sem acesso aos conhecimentos básicos, tendo dentro de si apenas aquela centelha de grandeza que todo ser humano tem. Poucos conseguem romper esta corrente, e trilhar uma vida que lhe permita analisar, discutir, questionar. Esta falta de conhecimento da realidade circundante, esta alienação promovida via massificação que distribui as pílulas do consumismo, via rádio, televisão, cinema. Este pensamento em bloco, de uma humanidade que vive em bloco, comunidades, cada dia mais centrados em temporalidades, sem olhar como os Grandes Homens, do alto, feito mesmo um Deus, todos os caminhos intrincados, daquilo que Borges uma vez confidenciou a sua amada Estela Canto - que ele acreditava que um homem é a Humanidade Inteira. E a globalização cortou o Planeta Terra ao meio, enquanto Deus dormia, e alguém está sugando até o fim a parte sul desta laranja, seu sangue, seu néctar imprescindível.

Ontem li uma frase de Mia Couto, e fiquei com esta impressão de que Deus cochilou um tempo e permitiu que a globalização se instalasse, em forma de colonização mesmo. Fiquei meditando a frase do Escritor “A terra é a página onde Deus lê” (4). Ou, talvez Deus esteja interessado em um pequeno filme de horror, ou quem sabe ele altere tudo, e se arrependa de ter colocado dentro da centelha da alma humana o livre arbítrio, quando acreditou que viveríamos ansiosamente em busca do Éden Perdido.

Vemos os interesses econômicos serem colocados acima de tudo. Vemos que a colonização se faz necessária para que alguns países detentores deste poderio consigam atingir seus objetivos. Sem um organismo de repressão que tenha força suficiente para barrar, nem mesmo a ONU, que nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial, quando surgiu a Declaração Universal dos Direitos Humano
s. Ouvi uma palestra de Saramago e ele dizia que se os países obedecessem ao primeiro artigo da Declaração não haveria guerras. Mas, a ONU ignora a imparcialidade.

A Onu adotou como símbolo uma projeção azimutal centrada no pólo norte. Um ideal de neutralidade sem colocar nenhum país no centro, apenas o pólo norte onde só existe gelo. No entanto, o pêndulo na hora das decisões oscila e não detém a ofensiva contra os Direitos Humanos, e permite que o forte explore o fraco, invada seus territórios, aniquile tudo enquanto não cessar a fome da negra águia e seus adeptos, presos em suas penas metálicas e frias, seguindo o indiferente e cinza olhar cifrado da águia estranha.

BÁRBARA LIA
- escrito em 2.006 para a coluna de debates da Revista Zunái.


1. Do livro – O pacto de Wolffenbüttel e a recriação do homem. Fausto Wolff (2.001, Bertrand Brasil)
2. Verso do poema – Meus oito anos – Casimiro de Abreu.
3. Verso de Bob Dylan da canção - Blowin’ in the wind –
4. Do livro – O outro pé da sereia – Mia Couto (Companhia das Letras)

Friday, November 16, 2007

NOVEMBROS


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SOL NO CIO

p/minha mãe


A mulher coloca a laranja-da-terra no orvalho.
Corta o mamão verde em talhos,
esquenta o tacho em ternura e açúcar.
Mexe até que torne
sol transparente no cio
ou verde-éden passeando no céu da boca.
Também ela, translúcida e doce.
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Minha transparência retira véus e inaugura farpas...
Não sei tornar frutas verdes em delícias vítreas.
Não deito no fogo o espírito indócil.
Não aprendi com ela
a deixar as dores de molho no orvalho,
a calar as palavras que derrubo no amado,
como um branco leite de fogo sem juízo.
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E isto é tudo o que sonho:
Ser bela morena ao redor do tacho,
mudando o duro amargo das frutas e das horas
em verde-éden passeando no céu da memória,
e sol no cio desnudando labaredas de açúcar.
BÁRBARA LIA
(A última chuva - ME ed. alternativas, 2.007)
...
Dezesseis novembros e uma saudade. Novembros. Tantos e tantos depois deles. Meu pai morreu dois anos depois - de saudade. Parou de viver e esperou solenemente o corpo definhar. Meu pai que amou mais que o amor. Ele não conseguiu viver sem a sua querida. Eu que sou leoa, pela primeira vez e única fiquei dias e dias prostrada. Que falta faz o sol!! Uma metáfora talvez dos ciclos da vida, morte-vida, meus três filhos nasceram em dezembro. E eu que não ligo a mínima para datas sofro novembros, fico frágil, órfã.
Na foto minha mãe tem uma menininha adormecida em seu colo. A praça é empoeirada. Campo Mourão é uma cidade de poeira vermelha. Minha mãe tinha uma adoração pelos netos. Eu sempre a visitava para que ela pudesse ver as crianças. Ela está sentada na escadaria da praça e tem a Tahiana adormecida no colo. A Paula vermelha de sol na sua pele clara. E a menininha que dorme acaba de se transferir para São Paulo, vai voar por aí, minha comissária de bordo.

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...