
Tuesday, January 20, 2009
Monday, January 19, 2009
estante #3

Interiores
A vida é substancialmente o que não se vê. Planta raízes no mais profundo de nós mesmos, no labirinto que, pelos meandros do espírito nos conduz ao jardim mais secreto.
Em 14 de junho de 2.006 fez 20 anos que Jorge Luis Borges, arquiteto de interiores, reencantou-se, anjo barroco que sempre foi. Resta-nos o inestimável legado literário, tecido em contos fantásticos, inquietações metafísicas, um saber repleto de sabor.
A literatura sobrevive a seus autores quando feita de interiores. A perenidade do teatro grego e também de Guimarães Rosa, Dante, Cervantes, Shakespeare, Púchkin, Dostoiévski, Eliot, Camus ou Machado de Assis reside no talento capaz de fazer da pena o estilete a penetrar interiores e pinçar, lá do fundo, os fantasmas que habitam os porões da alma humana.
Somos interiores exilados nessa sociedade do óbvio, onde tudo flutua à superfície, dejetos numa poça d'água infecta. O entretenimento, disfarçado de cultura pós-moderna, analfabeto em matéria de espiritualidade, objetiva e reifica-nos o ser, vulnerável ao estupro do que há em nós de mais essencial. As linhas do novo carro são tão sensuais quanto as da modelo exposta no sofisticado açougue do voyeurismo. Artistas transformam-se em meros acessórios de produtos, o político vale pelo visual, rompe-se o limite entre o necessário e o supérfluo.
Agora, tudo é produzido: O sorriso do empresário, o gesto do atleta, a postura da deputada. Devassados em nosso interior, deambulamos como ébrios pelas veredas da vida, cegos pelo excesso de luz. Há tantos ruídos que nossos ouvidos já não distinguem sons. Onde o murmurar do riacho, o gemido das pedras lavadas pela cachoeira, o rumor inconsolável da maré retornando suas ondas no limite da praia, o farfalhar das árvores escovadas pelo vento?
Perdemos a memória de nossos sabores ancestrais: O cheiro da calda açucarada, do pão quente e do assado gordurosamente temperado. Condenados ao fast-food, qual filme de Chaplin somos rápidos em tudo. Amamos sôfregos, trabalhamos ansiosos, conversamos gagos de preocupações, vivemos aprisionados pelo ritmo alucinado dessa sociedade que se vangloria estupidamente de ser competitiva. No horizonte oco sobressai o medo de que a doença nos atinja, os filhos sejam proscritos do futuro, o dinheiro escasseie, a violência nos vitime. Medos, no lugar de esperanças.
Quem edificou esta Torre de Babel? Borges, que na falta dos olhos para enxergar tanto aguçou o espírito, diria: nossa cegueira pontilhada de ilusões consumistas, de sonhos inatingíveis, de ambições ególatras. Aos 78 anos de idade, numa conferência na Universidade de Belgrano sobre "A imortalidade", ele acentuava que "se o tempo é infinito, em qualquer momento estamos no centro do tempo".
Saber disso é uma coisa. Vivê-lo é realizar a proposta de Teillard de Chardin: centrar-se em si mesmo para descentrar-se nos outros e, assim, concentrar-se em Deus.
A arte de semear estrelas
Frei Betto
Ed. Rocco 2007
estante #2

estante #1
Tuesday, January 13, 2009
momento solidão
Leonardo Fernandes Paiva
Monday, January 12, 2009
momento elegíaco

Amanhã - um ano da morte da poeta Bia de Luna.
Uma mínima homenagem.
Alguma poesia dela:
.
-E é quando suor e lágrimas
momento imaginado
momento árabe
Ontem eu pensava em quando vou ler os livros de amigos que tem uma poesia plena e que ainda não lançaram livros - Stella de Resende, Luciana Cañete, Michel Sleiman...
A menos que a abelha bique o sol do girassol
Não saio das colinas de Golan
Ali espio a crista do Monte Líbano
A libar rios de mel da Gehena de Alá
Pela boca dos fuzis do Hisbolá
Arrancados ao colo de Ramala e às tendas de Sidon
Onde Samira cansada de esperar por Samir
Reabre a fenda ao soldado imberbe de Israel
E lhe serve a sicuta em beijos conta-gotas
Enquanto a ONU gorjeia na goela de Kufi Anan
Escoltada pelas bandeiras de um pós-sionismo
Politicamente edulcorado e educado e
Pretensamente viável
E no Brasil Pelé Ronaldos e Kaká
Driblam a auto-imagem do samba no pé
Bola murcha vazando ar de peixe podre da Baía de Guanabara
E meu tio Bechara rala no Kuweit instalando cortinas nas mansões sobre areia
E serve de babá mucamo de bunda de xeiques cagalhões
Em seus Mercedes e Rolls-Royce com maçanetas de ouro e fiações de prata.
Deixem-me deixai-me contar as romãs no colar de Jade e Sulaima
Eu, Salomão desterrado fodido descobiçado.
Michel Sleiman
fonte: Icarabe
Friday, January 09, 2009
Um livro. Um filme
este "livro exclusivo" ganhei do meu amigo Pedro Carrano - Dalton Trevizan - 77 Ais - literalmente 77 ais - este é o décimo:10
O casal brigado, de costas. Longo silêncio. De repente o velho:
- Sua diaba. Pára de ficar ouvindo o meu pensamento!
Thursday, January 08, 2009
O inverno de 1.969
Inverno é o ponto extremo do congelamento da alma. Frio cortante congelando artérias, susto de descobrir-se finito e abraçar a perda num gesto mudo, sem apelação, retrocesso, chance – Ponto final.
1.969 – o inverno mais triste de nossas vidas. Nem importa ser saltitante, vibrante, sapeca. Nem importa o futebol no fim de tarde com meu irmão caçula e amigos, nem se existem mil planos, suposições e hipóteses para uma vida que se descortina. Meu voar nos sonhos acalentando o futuro precioso – Sim, um dia terei um amado, filhos, vida em rosa. Erguer castelos com cortinas de rendas, tons pastéis em paredes imaginárias e belos risos de crianças.
Eu, criança ainda, sonhos aflorando, menina-moça-quase-mulher neste inverno que acena e brilha nas geadas das madrugadas. Cruzar avenidas com minha saia bordô, minha blusa branca, as meias ¾. Ir ao colégio sonhando a vida, naquelas ruas marrons de Peabiru.
Os amigos, as canções de Caetano, “Love and peace”, revoluções.
Noites de estrela feito véu cintilante cobrindo nossa cidadezinha.
Ao meu redor, minha avó aristocrática em seu eterno luto. Postura de realeza que me comovia com seu ritual diário de beleza. Mamãe, simples como todas as filhas de Iracema, olhos mel adoçando meu mundo. O seu perfil exato, perfeito. Uma luz etérea que percorria olhos e lábios iluminando tudo. Eu tinha espelhos de feminilidade por toda a casa... Sim! Eu também queria ser uma estrela e criei coragem. Tímida, franzina, eu decidi agir como as filhas de Eva. Naquele dia decidi depilar minhas pernas.
Trancada no banheiro, com o cortante aparelho de barbear de papai, pernas sobre a pia, ritual primeiro. Na primeira tentativa, carne lacerada, rasgada. A gilete cravada na batata da perna esquerda em insuportável dor. Eu que não suportava sangue iniciei os cuidados com o fundo corte. Ficaria ali, trancada, até estancar o sangue.
Fui até a casa dele. Queria ver para crer, torcendo por um engano. A poeira bebendo meu sangue em gotas ininterruptas.
Uma semana depois o homem pisou na lua. Em minha cabecinha inocente não cabia aquela verdade.
“Como ele pode morrer sem ver o homem pisar na lua?”.
Neil acenando dentro do macacão e só uma dolorida saudade. É carne lacerada com vida se apagando. Não consigo separar a lua desse momento. Cicatriz de lua em meu coração; meia-lua em minha perna esquerda. E pode passar uma vida não esqueço a beleza de um anjo que caminhou suave e me acena, ainda, de uma fictícia lua. Partiu conquistando outro mundo, deixando um eterno vácuo – cicatriz no coração e alma.
Wednesday, January 07, 2009
Os leões de Ramallah

Monday, January 05, 2009
como a flor e a guerra



Sim, direi ao mundo as palavras de um poeta morto há muitos séculos.
Chegam até as palavras daquele verão como ondas cansadas.
A glória de quem move todo o mundo escrevia,
Só em todas as madrugadas como a flor e a guerra.
Como a flor e a guerra.”
Do filme: El camino de los Ingleses
De Antonio Banderas
Sunday, January 04, 2009
Maysa
..."Se sou feliz? Felicidade é coisa de gente burra"
Maysa
...
qualquer um o sabe
- O coração tem domicílio
no peito.
Comigo
a anatomia ficou louca.
Sou todo coração -
Maiakóvski
Thursday, January 01, 2009
à espera do búfalo
O homem marca o tempo
O tempo marca o homem
.
O homem sonha as estrelas
As estrelas sonham o homem
(despencam carentes cadentes)
.
O homem vem do (e volta ao) pó
O pó (de alguns) gruda nas sandálias
da eternidade.
Bárbara Lia
Monday, December 29, 2008
o nove
Certa noite eu estava em uma platéia e ouvi Ana Miranda dizer que ficou nove anos mergulhada nos arquivos de bibliotecas pesquisando sobre Gregório de Matos. Ela encontrava as pessoas e elas perguntavam - o que você anda fazendo? indagavam do seu sumiço e ela dizia - estou escrevendo um livro. "Boca do inferno" é um dos melhores livros que li. Gosto deste caminho que Ana trilhou. Impossível um poeta não amar um livro sobre outro poeta. Ana Miranda repetiu a dose com Augusto dos Anjos e Gonçalves Dias. "A última quimera" e "Dias & dias". Ela consegue trazer para dentro do livro o clima, o ambiente pesado que cercava Augusto dos Anjos, a dor do amor de Gonçalves Dias - Enfim te vejo! — enfim posso, / Curvado a teus pés, dizer-te, / Que não cessei de querer-te, / Pesar de quanto sofri. - A cena surreal onde o outro poeta queima todos os seus escritos depois de ler os poemas de Augusto.
*
O nove chega e com ele a lembrança de Joaquim Nabuco. Um dia copiei esta carta de Nabuco onde ele diz do nove - O último ano de sua vida, o ano que ele percorreu inteiro foi 1.909. Ele morreu no início de 1.910. O que será o 09?
Nabuco enviou a Graça Aranha no dia 1° de dezembro de 1.908:
Eu já começo a ver a sombra do novo nove. Já lhe disse que os nove marcam sempre novas fases de minha vida desde 1.849, o nascimento.
É curioso lembrar: 49, o nascimento; 59, o internato (a separação de casa); 69, o Recife; 79, o Parlamento e a Abolição; 89 o casamento e a queda da Monarquia; 99, a diplomacia.
Que será o novo sem mais nada, o 09?
.
*
Pablo Arrabal é personagem do livro Solidão Calcinada. Um poeta que se uniu aos rebeldes revolucionários no final dos anos sessenta. Pablo Arrabal é meu primeiro heterônimo, pois lhe dei uma vida e escrevi versos vestindo a sua carne. Mesmo alguns poemas que emprestei a ele parece não serem mais meus.
Alguma poesia do livro que lancei este ano:
.
MINUANO NO SUL SOMBRIO
Teu olhar por entre as frestas da veneziana – um sinal.
Jamais eu teria inteira a tua figura que me assola.
Jamais estaria contigo amor em chama em todas as horas.
Ainda assim no sul sombrio um amor sem igual.
Um jardim de poltronas de ferros – brancos.
Uma noite de estrelas em desalinho – brancas.
Duas taças tilintando em vida & vinho - branco.
E aquele teu jeito precioso de cruzar as tuas pernas – brancas.
Mas sempre que o amor ardia em teu olhar azul,
Sabia que o amor eu só o teria ali, pleno amor ardente no sul.
Vento minuano no sul sombrio.
Chuí inteiro abraçando tua partida e o meu vazio.
pg. 12
.
GERÂNIOS
Pessoas regam gerânios
Na manhã de primavera.
A voz do repórter Esso
Informa meias-verdades.
Não diz da minha carne
Costurada pelas chamas
Nesta masmorra.
A minha voz quer ser a voz
Que propala
Romper os muros. Pisar
Em parapeitos inocentes
Regar com meu sangue
As flores brancas.
Delatar o que não sabem.
Dizer das catacumbas tristes.
Que o repórter Esso não conta.
Os gerânios sabem
E choram no solo da Pátria.
Ninguém entende a flor.
Não aprenderam o idioma do gerânio
Nem percebem seu pranto.
pg. 17
.
SHANGRILÁ
Luz exangue do dia que se vai
Lençóis de estrelas
Perfume suave
Da malha negra
Espia nosso amor
Azul intolerável me abraça
Ouço uma canção africana
Sonho uma cena:
Brancas melenas
Cigarro bailando em seus dedos
Charme cruel.
Tempo marcando a seqüência
Inexata, sinuosa:
Dois pássaros
Unidos pelo fio invisível
Do amor real.
pg. 20
.
Sunday, December 28, 2008
os livros que mais gostei em 2.008
Saturday, December 27, 2008
por Darwich e Fausto Wolff pelas crianças da Palestina


Uma nuvem na minha mão
Fere-me uma nuvem na mão: não
quero da terra mais do que
esta terra: o cheiro do cardamomo e da palha
entre o meu pai e o cavalo.
Na minha mão há uma nuvem que me feriu, mas
não quero do sol mais do
que a bola laranja, mais do que
o ouro que derramam as palavras ouvidas.
***
Selaram os cavalos,
não sabem por quê,
mas selaram os cavalos
no final da noite, e esperaram
sair um fantasma das rachaduras...
traducao de Michel Sleiman
-minimo fragmento do poema - uma nuvem na minha mao.
PARA CESSAR-FOGO NA FAIXA DE GAZA - abaixo assinado para o Conselho de Segurança da ONU, União Européia, Liga Árabe e EUA:
http://www.avaaz.org/po/gaza_time_for_peace/97.php?cl_tf_sign=1
Friday, December 19, 2008
À sombra de um rio I

À sombra de um rio II

de fogo
onde queima
a aurora.
.
Tudo isto
é mármore!
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado
.
Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore
Bárbara Lia
(Fragmento de "Sakountala")
À sombra de um rio III

Tuesday, December 16, 2008
La nave va...
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