Wednesday, February 04, 2009

Borgianas








DEUS NO ORVALHO

(para Jorge Luis Borges)


Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço - Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primaveras, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa.
A lágrima desce solar
ao lábio carmesim,
e o peito arde de amor e luz.

- do livro O Sal das Rosas

.


O ALEPH AZUL DE BORGES

.

Deixastes aqui teu coração
- Aleph azul
povoado de tigres brancos
e miragens,
que pulsa como esta Milonga Del Angel,
nesta primavera desprotegida
- acordes de Piazzola –

.
Nuvens brancas a acenar certezas:
teu coração Aleph azul
permanece – no suave ritmo del sul.
Deixastes um Livro de Areias
- tu’alma -
nós todos virando páginas
deste deserto metafísico - noturno e trágico -
que leva à aurora nítida do reino da poesia.

..
Deixastes aqui teu coração,
Aleph onde trafegam signos vários,
e mesmo que tenhas imprimido sonhos
em grego, sânscrito ou aramaico,
deciframos – em alfa –
tuas mensagens de estrelas.
És um vaso vazio de segredos,
pleno de sóis & luas & signos da nobreza,
em uma azul sinfonia que teces
entre seus dedos, enquanto apontas:
.

A eterna água, o ar eterno,
flanando em um vale de sombras
e a inscrição brilhante com fios de ouro
- não existe tempo –
Guardiões do impossível
levamos ao pescoço a ampulheta
como homens-bombas
explodindo a vida,
sem seguir teus passos-acordes.
.
.
Cegos, não percebemos,
a inutilidade da areia que cai em conta-gota,
teu coração quer nos gritar isto -
Aleph azul que guarda segredos rojos.
Alguns o folheiam em prece, como anjos.
Eu o folheio, deslumbrada,
com a mesma cálida e reverente ternura
com que olhava abismada a estrela Vésper.
.
.
Azul como teu Aleph coração.
Seta e sinal em meu caminho:
A estrela Vésper
e o Aleph azul de Borges.

Bárbara Lia

Monday, February 02, 2009

Claricianas




Para te escrever eu antes me perfumo toda.

Clarice Lispector (Àgua Viva)

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CLARICE
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Dois corações selvagens
na selva do impossível
tão perto que o respirar
deles é transfusão de sangue.
Depois da noite nuclear –
amantes

rompendo o ventre
da laranja mecânica -
a mostrar viva as entranhas

do céu,
nego-me a escrever versos

para amores lúgubres
plenos de tédio
de flacidez no olhar e no abraço
no passo e no sorriso
Depois de deus...
Quem me levará ao paraíso?
Prefiro o inferno na selva.
Dois corações selvagens

Perto.
Perto.
Perto.

(Barbara Lia - A Última Chuva - Mulheres Emergentes / 2007)

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p/ Rebecca Loise



A porta do elevador se abre e todas as paredes mostram o rosto dela e as palavras. Clarice jovem, Clarice adulta, Clarice em suas últimas fotografias. A penumbra azul traz de volta um pensamento recente: O céu não é baunilha, luz, campos e regatos. O céu é uma penumbra. As mais belas horas vivi na penumbra. E Clarice me sussurra na penumbra "sinto que sou muito mais completa quando não entendo" e "viver ultrapassa todo entendimento". Entrei na penumbra azul da exposição de Clarice sabendo que em mim, como em tantos, nada permanece igual depois que se respira "o mistério e a chave do ar" - Clarice.
E a Estação da Luz fechou por alguns instantes (segurança papal). Não eu não quero ver o Papa, quero ver a palavra viva, fluída, que são regatos escondidos em gavetas escuras. E chorar lendo o poema de Drummond, que resume Clarice no último verso: mistério e chave do ar.
Há que se escolher o ar, e respirar puro. A exposição no Museu da Língua Portuguesa - A hora da estrela - é pura penumbra, e ao mesmo tempo luz. As fotos que ela tirou em sua polaroide. E as inúmeras fotos de Clarice, sua obra, seus passos, seu itinerário completo. Não pude fotografar como fotografei a exposição da obra de Guimarães Rosa. Em um momento da entrevista dela, ela se confessa cansada. Impressiona. E como ela se mostra humana, frágil, impressiona. Então respiro o ar, a penumbra dos gestos e palavras e o pensamento volta. Vivi instantes de céu, na penumbra asséptica entre verdes lençóis, quando o filho nasceu e contra todos os prognósticos, viveu. A penumbra de um porão salpicado de pétalas e poesias, a penumbra sempre... E toda a atmosfera delineia esta ideia que anda vagando em mim - é bem estranho o céu, é uma penumbra, caminhei pelo céu esta tarde. pelas relíquias, documentos, acervo pessoal, cartas, e sorrisos discretos dela. Clarice, a estrela.


(maio/2007)

...




LENDO CLARICE LISPECTOR
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Mulheres
Sofrem meio às rosas
Espinhos escondidos
Em seus cabelos
Seios nus
Beijados pelo amado
Lençóis ao vento
Vela de um barco
Onde o timão balança
Entre a neve
E a primavera


Todos sofrem:
A gota prata
Do orvalho na rosa
É lágrima fêmea
Que brilha
Enquanto sofre


Bárbara Lia - O sal das rosas - Lumme Editor / 2007.




Tuesday, January 27, 2009

À queima-roupa

Bárbara Lia à queima-roupa no site Poetas na oficina. Três perguntas que o Edson Cruz enviou e que ele define assim no seu blog

"Três perguntas para poetas
Estou fazendo um inquérito quase policial com os principais poetas em atividade, sejam novos, novíssimos, ou já tarimbados e carimbados pelo tempo ou pelo (des)reconhecimento."

minhas respostas aqui:
http://poetasnaoficina.blogspot.com/

para ler as entrevistas - no site acima e também no sambaquis:
http://sambaquis.blogspot.com/

rimbaudianas


Arthur Rimbaud, par Jean Ipoustéguy, 1984,
l'Homme aux semelles de vent
( Boulevard Morland)

quando ele corria
pelos telhados de ardósia
as pombas arrulhavam
em ventania
seu casaco - vela sacudida
estremecia
a maré da monotonia

.
.
Dans l’air
.
.
Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –
.
Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão
.
Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos
.
Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe
.
- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade
.
.

Mar/absinto
.

Nossos olhos de dezoito anos
acomodaram o mar
Sobrou a maré em torno
um sussurro de conchas
a nos acordar nas noites brancas
.
Nossos olhos de dezoito anos
beberem do mar/absinto
como ao vinho santo.
.
Nossos olhos embriagados.
Nossos olhos negros e azulados
Uma sereia recolhendo a rede
os corações de dois poetas ali
enredados
.
Nossos olhos de dezoito anos.
Nossas almas milenares.
Nossos amores fracos à soleira da incerteza.
Tanta beleza em ti, Rimbaud!
Tanta ausência em mim!
.
E nas marquises
bêbados ainda caminham
buscando o sol
que você guardou pra mim
Bárbara Lia
O rasurado azul de Paris

Sunday, January 25, 2009

leonardianas

tela- Leonardo Da Vinci







AVES DE ARREBENTAÇÃO
.
.
Pássaros renascentistas
Libertados por Da Vinci.
Invadem as minhas pálpebras
Que meditam em silêncio
De monja
Louvam as aves
Do terceiro milênio.
Mão destra de Leonardo
Pinta o sorriso
De uma Monalisa escura
A aurora ausente
Do meu olhar
Que ele colore
Com luz de Florença
E sobre músculo sofridos
Estriados de saudade
E febre de amor
Pulsa a inocência poética
Das mulheres que venceram
O jugo secular
E cruzaram as linhas
E romperam os laços
E abriram os braços
Aves de arrebentação
A flanar entre
As azaléias púrpuras
E o grito ardente
De libertação.


.
CHIAR(O)SCURO
.
.
Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.
.
Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.
.
Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.
.
Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.
.
Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.
.
Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.
.
O eco da flauta aos puros adormece.
.
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BEM-TE-VI
.
.
Ramagem arranha janela.
Sonho: Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.
.
Seqüência horripilante:
A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.
.
Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.
.
.
DEUS SORRINDO NA VARANDA
.
.
O quintal de Deus é o céu.
Um paraíso em uma ilha.
Alcançaremos quando formos náufragos.
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Aguaçal encoberto de dor,
nascituro rompendo em harmonia a eternidade
.
- Deus sorrindo na varanda.
.
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BRISA
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Entardecer lilás
brisa de raro fôlego
.
do deus das nuvens.
Pés descalços
.
liberdade de estar amando
na era dos mísseis.
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BÁRBARA LIA

- Poemas do livro “O sorriso de Leonardo” – Kafka edições baratas. - 2004

Friday, January 23, 2009

goya's ghosts

Javier! Javier! Javier!


sleep - goya
goya - los desastres de la guerra
.
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Quem homem é esse? Javier Bardem. Rouba a cena em todos os filmes. "Antes que anoiteça" me apresentou Javier, depois "Mar adentro". "O amor nos tempos do cólera" onde ele incorpora o triste Florentino Ariza. Meu personagem mais amado a dizer que o amor vale a espera de meio século.
Tem aquele momento do encontro, quando você e o teu "ator mais amado" ficam frente a frente pela primeira vez - Javier na pele do escritor cubano homossexual - Reynaldo Arenas. Liguei a tv ao acaso em uma madrugada insone e o título do filme lembrou aquele livro que eu li e amei, fiquei o filme inteiro sugada pela imagem áspera e doce que ele carrega, e filme a filme
Javier se impõem como um mito. Roubando a cena de Goya - Frei Lorenzo - o que é aquilo?
Neste filme de Milos Forman, Goya é obcecado pela imagem de Inés, presa pela inquisição espanhola, de quem ele pintou um quadro. O filme retrata os horrores da Inquisição Espanhola, e as loucuras - do amor e da guerra. Goya recolhendo as imagens do seu tempo, registrando o horror como um cinegrafista antigo, com a perícia de um dos maiores pintores do mundo.
Javier Bardem (Irmão Lorenzo)Natalie Portman (Inés / Alicia)Stellan Skarsgard (Francisco Goya)

Thursday, January 22, 2009

Wandula



Wandula canta Nara
Um show especial em homenagem a musa da bossa nova Nara Leão elaborado pelo grupo de música contemporânea Wandula, com releituras originais e curiosas do repertório da cantora.

Sesc da Esquina
Rua Visconde do Rio Branco, 969
Curitiba - Paraná

41 3322 6500
R$10

R$5 + 1kg de alimento não perecível
R$0 = alunos da Oficina de Música
http://www.wandula.com/

Wednesday, January 21, 2009

guantánamo



Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo
José Marti

Gosto do tom da voz do novo presidente norte-americano - Obama - temia que a força de seu discurso morresse na areia da posse, mas, chega com a força dos que escolheram os mais fracos e vão em frente, quando li que ele optou por estar entre as comunidades carentes como um lider comunitário - em detrimento de advogar em Washington - tive esperança. Meu amigo Frei Betto ao deixar a prisão no início dos anos setenta foi para o Espírito Santo viver entre as comunidades de base. Um homem que quer uma humanidade mais livre e que honra a sua luz interior não vai direto ao topo, ele vai buscar a raiz e vai se irmanar e buscar um caminho que comece a escalada da igualdade. Igualdade, quando? Talvez jamais. Mas, o mínimo de direitos partilhados e de justiça. Um olhar de amor sobre este moço de alma bonita nesta manhã e um desejo de que ele não ceda à pressão que virá... Que ele não esqueça seus heróis - Lincoln e Luther King, jamais.
Como quem sabe que o aliado cruel deixou o trono, Israel debandou da Faixa de Gaza. Qualquer coisa que se diga contra os atos do povo judeu pode levar a um carimbo na testa de anti-semita. É preciso ampliar o horizonte da visão e dizer da covardia de Israel, parar de martelar com martelo alheio, saber primeiro o que acontece realmente, quem é o invasor e quem é o invadido, quem é humilhado e tratado como tem sido tratado o povo palestino, quem utiliza deste poderio bélico e sitia um povo e o cerca e o elimina, com requintes de crueldade. Li no blog do Georges Bourdokan textos de arrepiar.

Vejo em alguns lugares textos falando sobre o momento que vive a Palestina sem saber nada sobre... Muito antes das primeiras explosões como última forma de defesa, Israel já era o opressor há decadas... os primeiros homens-bombas surgiram nos anos oitenta, sendo que desde 1948 Israel pratica esta invasão de extermínio e ocupação forçando os palestinos a se refugiarem e serem o único povo que tem mais habitantes fora que dentro de seu próprio país. Israel tem como justificativa a -herança de Abraão - a terra de Israel é um legado bíblico, mas, é também de Ismael - e então? Se o filho de Abraão e Sarah deve herdar a terra, também deve herdar o filho de Agar... ou não? Os decendentes de Agar vivem sua modéstia entre as oliveiras e não querem nada mais que o ar e o mar e o desejo de viver... o povo judeu quer avançar até que nada mais reste, no blog de Bourdokan há o mapa da escalada de Israel.
Um momento difícil este e uma esperança que não esmoreça o discurso da ONU e as medidas contra o governo prepotente de Israel:
"O secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, exigiu ontem que os responsáveis pelos ataques contra civis sejam julgados, durante a visita a uma escola da ONU em Gaza, bombardeada durante a ofensiva e onde morreram pelo menos 42 palestinianos.
Várias organizações humanitárias preparam-se para interceder junto do Tribunal Penal Internacional, para denunciar a utilização de bombas de fósforo contra zonas civis, proibida pelas convenções internacionais.
Vários diplomatas de países árabes exigiram um inquérito paralelo à Agência Internacional de Energia Atómica, sobre a alegada utilização de ogivas com urânio.
O exército israelita abriu um inquérito interno, mas as acusações arriscam-se a ficar sem efeito, Israel não está sob a jurisdição do Tribunal Penal Internacional.
A questão repousa agora sobre a pressão diplomática de Washington, quando Obama se prepara para nomear o novo enviado do país para o Médio Oriente."
... luz de lua amena em torno deste novo secretário da ONU, com nome de lua no final, luz de sol para Obama que pode clarear um novo tempo, mas, é só o primeiro dia, de qualquer forma é um sopro de vento que cura a pele endurecida por tantos golpes contra a humanidade. Fechar Guantánamo, julgar Israel, dizer afinal que é preciso nivelar os direitos humanos, acabar com o abuso e a prepotência, já é um grande passo.

Tuesday, January 20, 2009

O caderno negro de Bárbara Lia





(clicar para ler)

O poeta Cássio Amaral trouxe doce de leite de Araxá de presente e eu fico olhando a galeria de carinho que recebo. Este caderno negro ganhei de Luiza Chagas e amei. Kit de aniversário do MAM. Olhei o caderno de desenho e pensei no meu sonho de aprender a desenhar. Por enquanto fico tecendo palavras e o caderno de desenho virgem ali me olhando. Um dia desenharei um poema. Por enquanto guardo a flor que recebi das crianças do colégio, os quadros da Analu e da Ane e o carinho patchouli da Marina, e livros que recebo, alguns cds e todo o carinho que recolho...

estante #7





Teia

.
Se nesta cama te ensino a morrer
é porque a morte é febre que tece
- tempestade que anuncia mundos de seda
.

Marize Castro
Esperado Ouro
UNA - 2005

estante #6




Urgente
.
"Bajaremos del Himalaya en bicicletas
silenciosas y perfumadas, a las doce de la noche"
Vicente Huidobro-Jean Arp
.
Traer a los hospitales el agua bendita de la luna
bailar descalzos en los museos
encontrarnos en el Océano Pacífico del piano
jugar ajedrez en cumbres nevadas
recordar la danza de panecillos de Charlot
celebrar la noche mundial del gong
contemplar el mundo desde las ramas de Yggdrasil
hacer el amor en constelaciones de jazz
.
Luis Eduardo Rendón
La velocidad de las piedras es azul
Colección de Poesia Prometeo
série hipnos, número nueve
1997

estante #4




Monday, January 19, 2009

estante #3





Interiores

A vida é substancialmente o que não se vê. Planta raízes no mais profundo de nós mesmos, no labirinto que, pelos meandros do espírito nos conduz ao jardim mais secreto.

Em 14 de junho de 2.006 fez 20 anos que Jorge Luis Borges, arquiteto de interiores, reencantou-se, anjo barroco que sempre foi. Resta-nos o inestimável legado literário, tecido em contos fantásticos, inquietações metafísicas, um saber repleto de sabor.

A literatura sobrevive a seus autores quando feita de interiores. A perenidade do teatro grego e também de Guimarães Rosa, Dante, Cervantes, Shakespeare, Púchkin, Dostoiévski, Eliot, Camus ou Machado de Assis reside no talento capaz de fazer da pena o estilete a penetrar interiores e pinçar, lá do fundo, os fantasmas que habitam os porões da alma humana.

Somos interiores exilados nessa sociedade do óbvio, onde tudo flutua à superfície, dejetos numa poça d'água infecta. O entretenimento, disfarçado de cultura pós-moderna, analfabeto em matéria de espiritualidade, objetiva e reifica-nos o ser, vulnerável ao estupro do que há em nós de mais essencial. As linhas do novo carro são tão sensuais quanto as da modelo exposta no sofisticado açougue do voyeurismo. Artistas transformam-se em meros acessórios de produtos, o político vale pelo visual, rompe-se o limite entre o necessário e o supérfluo.

Agora, tudo é produzido: O sorriso do empresário, o gesto do atleta, a postura da deputada. Devassados em nosso interior, deambulamos como ébrios pelas veredas da vida, cegos pelo excesso de luz. Há tantos ruídos que nossos ouvidos já não distinguem sons. Onde o murmurar do riacho, o gemido das pedras lavadas pela cachoeira, o rumor inconsolável da maré retornando suas ondas no limite da praia, o farfalhar das árvores escovadas pelo vento?

Perdemos a memória de nossos sabores ancestrais: O cheiro da calda açucarada, do pão quente e do assado gordurosamente temperado. Condenados ao fast-food, qual filme de Chaplin somos rápidos em tudo. Amamos sôfregos, trabalhamos ansiosos, conversamos gagos de preocupações, vivemos aprisionados pelo ritmo alucinado dessa sociedade que se vangloria estupidamente de ser competitiva. No horizonte oco sobressai o medo de que a doença nos atinja, os filhos sejam proscritos do futuro, o dinheiro escasseie, a violência nos vitime. Medos, no lugar de esperanças.

Quem edificou esta Torre de Babel? Borges, que na falta dos olhos para enxergar tanto aguçou o espírito, diria: nossa cegueira pontilhada de ilusões consumistas, de sonhos inatingíveis, de ambições ególatras. Aos 78 anos de idade, numa conferência na Universidade de Belgrano sobre "A imortalidade", ele acentuava que "se o tempo é infinito, em qualquer momento estamos no centro do tempo".

Saber disso é uma coisa. Vivê-lo é realizar a proposta de Teillard de Chardin: centrar-se em si mesmo para descentrar-se nos outros e, assim, concentrar-se em Deus.

A arte de semear estrelas

Frei Betto

Ed. Rocco 2007

estante #2


Maiakovski
que era todo coração foi embora
num dia de mil novecentos e trinta
Teriam sido estas
as últimas palavras do poeta?
"Senhores
deixo-vos um punhado de metáforas
e outras figuras de linguagem
'Nete é um navio
mas já foi um camarada raro
Lilia Brik era uma mulher como poucas
hoje é apenas memória ferida
som que espanca
Com alguma dor
posso tirar música de minhas vértebras
solo de quase flauta
Eu sou uma nuvem de calças
e quero o impossível
o vôo de asa quebrada'
Povo da Rússia
deixo-vos meu coração
metástase insuportável de mim mesmo
Lembrai-vos Senhores
Qualquer homem
em qualquer lugar
e em qualquer tempo alimenta-se
sobretudo
de pão e metafísica"
dois Santos dos Santos
A cidade noturna
coleção Petit Poa
Pref. de Porto Alegre -1997

estante #1

O que é aquilo no cabelo de Marga?
Aquele hebreu vivia num bonde. Plantava cactos no bonde. E abraçava as pessoas quando entravam, taciturnas, as pernas excessivamente cruzadas.
Aquele hebreu vivia e pintava o bonde de laranja, de pêssego, de melancia.
Seus desejos eram simples. Exemplo: fazia gestos movendo dedos. Fazia dedos movendo gestos. Como não conseguia mais morrer, foi à esquina comprar cigarros Gauloises e no maço escreveu que há linhas na cidade, invisíveis.
Quem tocar, morre.
Por isto os homens andam pé ante pé: olhos tensos, pele, cenário, frutas, lâminas, e só não é tensa a flor no cabelo de Marga - seus limites por fora iluminando meus confins por dentro.
FERNANDO JOSÉ KARL
Caderno de Mistérios
Editora Letra D'água 2002

Tuesday, January 13, 2009

momento solidão

Sobre "Solidão Calcinada"
.
"Pode ter certeza que foi uma das coisas mais belas que li nos últimos tempos. Como é que vocês, escritores "del sul", conseguem trabalhar bem questões familiares e pessoais, reunindo-as num liquidificador moderno que separa semente e polpa - vide Cristovão Tezza, Lya Luft, Caio Fernando. Tem hora pra tudo: para o pessoal, para o todo. E sai o suco limpinho, sem bagaço (os ditos excessos).
Eu adorei.
Beijos.
Obs.: E que venham outros romances. Quero te ler muito ainda. Quando é que sai o próximo? "
Leonardo Fernandes Paiva
Minas Gerais
.
Recebi estas palavras do Leonardo, que vive em Minas e escreve contos. Gosto deste contato - leitor-escritor. No caso de novos autores a maioria dos leitores é escritor também. Embora o meu vizinho do 506 e a moça do correio tenham perguntado o mesmo que o Leonardo - Quando sai o próximo? Ainda não posso responder isto, aliás esta é a grande incógnita que gira em torno dos livros. Quando tiver uma boa notícia aviso, receio que demore.
Quero agradecer as inúmeras palavras que recebi sobre o livro. Uma frase, uma palavra, este sopro que faz reavivar o ânimo.

Monday, January 12, 2009

momento elegíaco


Amanhã - um ano da morte da poeta Bia de Luna.
Uma mínima homenagem.



Alguma poesia dela:
.

Não estou mais triste
tenho arroz
feijão
e alpiste
.
*

De tudo restou
Uma solidão amarga
E corrosiva.
Poro a Poro.

-E é quando suor e lágrimas
Se encontram numa pororoca
Larga e amiga que
A saudade bate.
Choro.

.

PALAVRAS CRUZADAS
.
Palavras urgentes
Transbordando a urgência
De um mergulho
Da lucidez o transporte.
- Palavras que açoitaram até a
exaustão do momento.
despertando as extremidades e
aquecendo as eternidades
translúcidas.
.
BIA de LUNA - In: "CLIVAGENS"

momento imaginado


Meu momento imaginado de 2.008 é lindo. Eu imaginei um recital. Bem ali, ao lado da Maria Fumaça antiga do Shopping Estação. Eu pensava lembrar Ana C no mês de sua morte. Imaginei uma apresentação de Luvas de Pelica - com direito a cartões postais, malas e até mesmo luvas de pelica. Um recital imaginado. A poesia de Ana C escorrendo pelos trilhos, arrepiando os ferros e as calçadas, na voz suave da Lu Cañete, talvez... Pensei isto uma única vez, mas, foi um pensamento tão forte que creio que o recital aconteceu em algum lugar. Onde habitam poemas imaginados, suspiros bloqueados e as almas das flores de todas as primaveras.
...
Digamos que um dia você percebesse que o seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão. Digamos que você percebesse que 40% de álcool apenas te garantia emoção concentrada como Sopa Knorr, envergonhada, arriscando o telefonema internacional que dá margem a suores contrariando o I Ching que manda que eu me cale, ou diga pouco, ou pelo menos respeite esse silêncio.
Ana Cristina Cesar - do livro Luvas de Pelica

momento árabe

com Michel Sleiman





Na noite de 04 de setembro de 2.006, em solidariedade ao Libano, organizei um recital em Curitiba. Desta noite, creio que a mais gelada daquele ano, guardei a memória do som do alaúde, da presença de alguns amigos e de uma pequena platéia que parou um momento para ouvir os poetas árabes. Foi como uma silenciosa prece em um templo escondido. Convidei os meninos - Adriano Smaniotto e Alexandre França, e ao lado de Michel apresentamos Darwich, Raduan Nassar, Wally Salomão e Adonis... O mundo não quer ouvir o lamento árabe, isto está claro a cada dia. Sei que a nossa noite de solidariedade foi possível graças ao apoio do poeta Michel Sleiman.
Ontem eu pensava em quando vou ler os livros de amigos que tem uma poesia plena e que ainda não lançaram livros - Stella de Resende, Luciana Cañete, Michel Sleiman...


A menos que a abelha bique o sol do girassol


A menos que a abelha bique o sol do girassol

Não saio das colinas de Golan

Ali espio a crista do Monte Líbano

A libar rios de mel da Gehena de Alá

Pela boca dos fuzis do Hisbolá

Arrancados ao colo de Ramala e às tendas de Sidon

Onde Samira cansada de esperar por Samir

Reabre a fenda ao soldado imberbe de Israel

E lhe serve a sicuta em beijos conta-gotas

Enquanto a ONU gorjeia na goela de Kufi Anan

Escoltada pelas bandeiras de um pós-sionismo

Politicamente edulcorado e educado e

Pretensamente viável

E no Brasil Pelé Ronaldos e Kaká

Driblam a auto-imagem do samba no pé

Bola murcha vazando ar de peixe podre da Baía de Guanabara

E meu tio Bechara rala no Kuweit instalando cortinas nas mansões sobre areia

E serve de babá mucamo de bunda de xeiques cagalhões

Em seus Mercedes e Rolls-Royce com maçanetas de ouro e fiações de prata.

Deixem-me deixai-me contar as romãs no colar de Jade e Sulaima

Eu, Salomão desterrado fodido descobiçado.

Michel Sleiman

fonte: Icarabe

Friday, January 09, 2009

Um livro. Um filme

este "livro exclusivo" ganhei do meu amigo Pedro Carrano - Dalton Trevizan - 77 Ais - literalmente 77 ais - este é o décimo:


10

O casal brigado, de costas. Longo silêncio. De repente o velho:
- Sua diaba. Pára de ficar ouvindo o meu pensamento!




Mark Ruffalo e Julianne Moore

.

Blindness - finalmente eu vi. O ensaio sobre a cegueira, do Fernando Meirelles baseado no livro do Saramago. Retrata bem o gênero humano. Na falta de um sistema cria-se outro mais cruel que o primeiro. E la nave va... Até chegarmos ao sistema perfeito - a Anarquia.


Thursday, January 08, 2009

O inverno de 1.969

Outono lembra despedidas, folhas a cair, árvores desnudas com braços estagnados. Mas, outono ainda tem brisa suave e um certo encanto a embalar as almas. O inverno, este sim, é implacável. Desesperança de gelo, crianças congeladas nas calçadas, campos brancos como lenços de despedida. Noites tristes de quem não tem o calor de um abraço.
Inverno é o ponto extremo do congelamento da alma. Frio cortante congelando artérias, susto de descobrir-se finito e abraçar a perda num gesto mudo, sem apelação, retrocesso, chance – Ponto final.
1.969 – o inverno mais triste de nossas vidas. Nem importa ser saltitante, vibrante, sapeca. Nem importa o futebol no fim de tarde com meu irmão caçula e amigos, nem se existem mil planos, suposições e hipóteses para uma vida que se descortina. Meu voar nos sonhos acalentando o futuro precioso – Sim, um dia terei um amado, filhos, vida em rosa. Erguer castelos com cortinas de rendas, tons pastéis em paredes imaginárias e belos risos de crianças.
Eu, criança ainda, sonhos aflorando, menina-moça-quase-mulher neste inverno que acena e brilha nas geadas das madrugadas. Cruzar avenidas com minha saia bordô, minha blusa branca, as meias ¾. Ir ao colégio sonhando a vida, naquelas ruas marrons de Peabiru.
Os amigos, as canções de Caetano, “Love and peace”, revoluções.
Noites de estrela feito véu cintilante cobrindo nossa cidadezinha.
Ao meu redor, minha avó aristocrática em seu eterno luto. Postura de realeza que me comovia com seu ritual diário de beleza. Mamãe, simples como todas as filhas de Iracema, olhos mel adoçando meu mundo. O seu perfil exato, perfeito. Uma luz etérea que percorria olhos e lábios iluminando tudo. Eu tinha espelhos de feminilidade por toda a casa... Sim! Eu também queria ser uma estrela e criei coragem. Tímida, franzina, eu decidi agir como as filhas de Eva. Naquele dia decidi depilar minhas pernas.
Trancada no banheiro, com o cortante aparelho de barbear de papai, pernas sobre a pia, ritual primeiro. Na primeira tentativa, carne lacerada, rasgada. A gilete cravada na batata da perna esquerda em insuportável dor. Eu que não suportava sangue iniciei os cuidados com o fundo corte. Ficaria ali, trancada, até estancar o sangue.
Foi então que ouvi o choro na varanda ao lado. Como quem ouve uma notícia distante. Como quem quer inverter as palavras, mudá-las. Querendo não acreditar. O curativo que coloquei às pressas não cobria o corte e não estancava o sangue. A dor ficou esquecida. Doía mais e mais o coração. Alguém dizia que meu primo estava morto. Mentira!... Eu pensava. A dor foi rasgando meu coração e alma ouvindo uma história entrecortada de soluços – Um caminhão estacionado em local proibido, uma curva rápida e a vida se apaga aos vinte e três anos. E aquele olhar calmo? E os cabelos de anjo, anelados, castanhos? E a presença bonita em nossas vidas?
Fui até a casa dele. Queria ver para crer, torcendo por um engano. A poeira bebendo meu sangue em gotas ininterruptas.
Uma semana depois o homem pisou na lua. Em minha cabecinha inocente não cabia aquela verdade.
“Como ele pode morrer sem ver o homem pisar na lua?”.
Neil acenando dentro do macacão e só uma dolorida saudade. É carne lacerada com vida se apagando. Não consigo separar a lua desse momento. Cicatriz de lua em meu coração; meia-lua em minha perna esquerda. E pode passar uma vida não esqueço a beleza de um anjo que caminhou suave e me acena, ainda, de uma fictícia lua. Partiu conquistando outro mundo, deixando um eterno vácuo – cicatriz no coração e alma.
Bárbara Lia

La nave va...

Não há mais céu - Poesia - Bárbara Lia

NÃO HÁ MAIS CÉU Não há dança que possa Salvar o mundo Do apocalipse Em conta-gotas Posso tocar A angústia das flores Em seu último suspiro A...