Friday, July 24, 2009

Constelação de Ossos


Lynx Constellation

.

Acordei com o vento astuto a sacudir a cortina.

A fresta da janela concedia a chuva abrupta em meu corpo.

Corpo que já não tinha forças para estender a mão e fechar o vidro.

Desejei que toda a chuva carimbasse uma nova vida.

Uma vida na qual eu me tornasse o anjo d’água.

A realidade ressuscitou o gosto do ontem na garganta

– uísque com guaraná –

E a força das mãos de Heleno, que me subjugava na hora do sexo.

Sexo.

Sexo apenas.

Seus olhos verdes ejaculados e lascivos presos em mim

– a boneca de pano entorpecida de álcool –

Sopro de ternura em uma curva trouxe a última gota de dignidade.

O sexo dele extraído das entranhas ardendo entre as minhas carnes.

Pude ouvir o barulho da descarga do banheiro.

Era um rito que me deixava triste.

Como se ele me despejasse em jatos.

Como se eu fosse flor de cacto.

– última fonte de água em uma terra árida –

Mas, ele se livrava de mim após saciar a sede.

No silêncio das noites iguais um oco em minha alma.

E eu buscava a antiga e enterrada ânsia

– Um amor que me vivificasse –

As mãos de Heleno na braguilha a terminar de fechar o zíper.

O olhar blasé em minha pele chamuscada de desesperança.

Não ouvi minha voz, onda leve morrendo, um sopro em si bemol...

– Deixe a chave sobre a mesa da cozinha. Não volte nunca mais!

– Lyn?...

– Você ouviu. Deixe a chave.

– Esquece isto, Lyn, durma.

– Se sair com minha chave conto tudo para tua mulher.

– Duvido!

– Adeus sua mordomia. Vá, Heleno, e não volte nunca mais.

– Assim? Vá e pronto?

– Vá. Estou cansada demais para velhos refrões. Acabou.

A dor no olhar dele me fez acreditar que ele me amava, afinal.

Lívido, deu meia volta e saiu.

Bem mais simples do que eu pensava.

Indolor.

Ânsia infinita de ter dez anos.

Antes da noite da despedida na capela.

A dupla orfandade.

Antes, quando era só infância de mel e perfumes.

O jardim de seda de Layla e Amir.

A sagrada inocência entre as flores e o aroma do pão sírio.

Bárbara Lia

(Constelação de ossos - fragmento do romance inédito)

Wednesday, July 22, 2009

Os agentes B - L. Rafael Nolli

para Rodrigo de Souza Leão


1 – TOP SECRET

O poeta trazia um chip escondido no corpo.
Aos 23 soube que era rastreado –

numa sala escura um monitor Toshiba
piscava uma luz verde que era ele:

se súbito virasse à esquerda
e corresse até o tênis acabar eles saberiam.

Mergulhar por dias em piscina, de escafandro,
ou enfiar o dedo na tomada não adiantava –

era a prova d’água, imune ao curto-circuito.

A luz continuaria piscando, indicando
aos agentes que ele estava onde estava.

Com a faca arrancá-lo seria em vão.
Outro seria posto no lugar do primeiro –

à noite, pelo pai; ou num ato violento por eles.

Novamente internado, voltaria
com a tecnologia re-implantada –

up grade da versão dois ponto zero,
mais moderna, com sinal via satélite.

2 – Fuga e outros movimentos

Certo dia, perseguido por todos,
desceu correndo os treze andares da CEF,
contando cuidadosamente cada degrau.
(Diante do impasse, quase voltou para conferir)

Os macacos em seu encalço
– mordendo o calcanhar do tênis Nike –
seria uma prévia de tantas outras perseguições.
(Análogas às exibidas na Sessão da Tarde)

Aquele era o momento de lamentar não ter fu-
gido com Rimbaud – companheiro de manicômio
onde trocavam figurinhas do time do Flamengo.
(Álbum Campeonato Brasileiro, 1989)

3 – Necrológio

Acordou vinte anos depois
– ressaqueado de Haldol –
seu nome inscrito no obituário.

Levantou da cama
– a hora havia chegado –
e comunicou a todos que iria morrer.
...

do blog Stalingrado III:
http://rafaelnolli.blogspot.com/


Saturday, July 18, 2009

estante #23


Horário do fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento
Fevereiro 1984
MIA COUTO



Pássaros de aço
no firmamento
acordam estrelas
com seu vôo
carente
Bárbara Lia

Monday, July 13, 2009

No caminho com Emily Dickinson


http://penelopeillustration.com



UM SENHOR DE IDADE DISSE QUE UMA VEZ ESTEVE COM EMILY DICKINSON

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Rosto inconsolado - rosto cheio tenso e pálido
Como de uma mulher bonita já morta - Ela olhou para
......mim.
Com suas mãos compridas ela segurava a garganta
Seus cabelos escuros sedosos deitados como morcegos no
......sono;
Não era a mim que ela estava olhando.
.
Ao me afastar ela ainda olhava para o mesmo lugar
...Mas nada havia para se olhar;
Quer dizer, nada que eu pudesse ver.


GREGORY CORSO
Gasolina & Lady Vestal
(poesia urbana)
Coleção Olho da Rua - L&PM

...

Friday, July 10, 2009



PEQUENO TRATADO DA DELICADEZA
.
p/Rodrigo de Souza Leão
.

Rimbaud te espera
No barco bêbado encalhado
Em um mar crespado de turmalinas
-lágrimas dos poetas-
Nas mãos, duas taças de absinto
Para brindar a vida fera
Dois homens de branco
Ancorados na beleza
A repartir
O fogo santo
O espanto
O canto
O eterno canto
Dos poetas...
-Por delicadeza
Perdi minha vida-
Por delicadeza
Entregamos a vida
Aos escarros
Por delicadeza
Entregamos a carne
Aos caninos ávidos
Por delicadeza
Atravessamos a bruma
Com lírios brancos
Nos braços
Rimbaud sempre à espera
Para brindar
A eterna primavera


Bárbara Lia

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O Portal Cronópios publicou uma homenagem ao Rodrigo de Souza Leão, várias vozes e
um único canto - saudades.

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4083


A poesia não quer adeptos, quer amantes.
Federico Garcia Lorca


Monday, July 06, 2009

Rebecca Loise

Foto - Mariana Alves

2 & 3

O punho no duro da mesa
E a pétala morta cai de cabeça
Se gravidade tivesse altura
A rosa ainda vive na angústia
'Que sem água existe às avessas
Sendo mistério p’ro detetive das certezas
Outro sem por que
É o início dos indícios
Que pra ela é discurso depois luxo
E pra ele é de nota sem papel
Sanfona indo e vindo p’ras cinturas do bordel
Satírica, lírica, quase sacra e estúpida
É a poesia que serve de broquel
Do ar pulmões e alvéolos
Dos dedos corda e véu
Da voz o que vem sai de mim feito fim
Que sem sim é assim
Meio não, meio de sentimento em gira-pião
Que tonteia em função de sentimento
Que direciona os olhares vesgos no segundo lento
O que é morrer para viver
Se a vida endurece se o tempo,
Ao invés de parar, só faz correr?
O que é a vida do ser
Se não se é só
Se só se é dois e três?
Rebecca Loise
Escritora, estudante de Psicologia. Vive em São Paulo

http://a-dibuk.blogspot.com/

A voz que se cala

Metamorfose - Tela de Rodrigo de Souza Leão


No JBonline de 27 de junho, uma matéria do Rodrigo de Souza Leão:

http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/06/27/e27064834.asp

Atiq Rahimi






Stand-up Literatura recebe o escritor afegão Atiq Rahimi



Data: 07/07 - Terça-feira
Local: Livraria Martins Fontes
Av. Paulista, 509 – Cerqueira César – Tel.: 2167-9900
Horário: das 19 às 21 horas
Estacionamento no local- entrada pela Rua Manoel da Nóbrega (gratuito a primeira hora)

Transmissão ao vivo no site, mais detalhes aqui:

http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4066

Sunday, July 05, 2009

Atiq Rahimi e uma rápida olhada na FLIP, via Metrópolis


Foto: Léa Crespi / site Télérama (www.telerama.fr)

Entrevistas com participantes da Flip no site do programa da TV Cultura - Metrópolis - Vi há pouco a entrevista com Atiq Rahimi e ele deu a conhecer o enredo do seu livro Pedra da Paciência (Syngué Sabour):

"Pedra da paciência é uma pedra imaginária que existe em lenda no Afeganistão e em países de cultura persa. As pessoas colocam os problemas e tristezas nesta pedra até ela explodir. É uma parábola, uma metáfora para o personagem central que é um homem ferido e paralisado na cama"

Atiq Rahimi é cineasta e rapidamente falou sobre os filmes mais famosos que tem como território o Afeganistão - O caçador de pipas - e - A caminho de Candahar. Preciso ler Atiq Rahimi e sua pedra da paciência.

Homens belos que escrevem bem, um tanto raro, como Rahimi e o nosso Chico Buarque, e que além de belos são generosos e poéticos e atenciosos. Os belos de Paraty, um Antonio Lobo Antunes descontraído e brincalhão e a mesa "Entre quatro paredes", que reuniu Sophie Calle e Grégoire Bouillier: O moço enviou um
e-mail acabando com o namoro e Sophie Calle transformou em uma instalação - Prenez soin de vous - é mesmo este o refrão no final dos e-mails dos amantes: cuide bem de você...
Alguns momentos que acessei agora, que já consigo olhar com olhos de mim ao redor, retomar a vida. Sempre externei meu carinho pessoalmente ao Rodrigo de Souza Leão, parece que foi ontem que recebi um e-mail para aquela entrevista que acabou sendo publicada na Germina. Parece que foi ontem que junto com votos de Feliz Natal ele me contou da felicidade ao ver que citei seu livro no cronópios como um dos que mais amei em 2008 - principalmente por ser você - ele disse. Ternura. Ternura. Matéria em falta. Esta ternura que a gente perdeu.
.
No blog do Cássio Amaral um papo vertiginoso - entre o Cássio, Rodrigo e Rafael Nolli:
http://cassioamaral.blogspot.com/2009/07/lero-lero-com-rodrigo-de-souza-leao.html


Para acessar a entrevista do Atiq ao programa Metrópolis:

http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/multi/2009/07/03/0402366AC4C16346.jhtm


Deus a cada pássaro deu um pão

Deus a cada pássaro deu um pão,
Mas apenas migalhas para mim;
Não ouso comê-las, mesmo esfaimada, -
Minha aguda luxúria
Possuí-las, tocá-las, constatar o feito
Que fez meu este bocado, -
Feliz demais em minha sorte de pardal
Para almejar mais.

Pode haver fome por aí,
Eu não deixarei de ouvir,
Tantos largos sorrisos à minha mesa,
Meu celeiro parece estar bem cheio.
Imagino como o rico deve se sentir, -
Um indiático – um barão?
Considero que eu, com apenas migalhas,
Sobre todos eles soberana sou.

Emily Dickinson

Morri pela Beleza

Emily Dickinson

Morri pela Beleza – e em minha Cova
Eu não me sentia a gosto
Quando Alguém que morreu pela Verdade
A Cova ao lado chegou –

Ele indagou gentil por que eu viera –
E eu disse – “Pela Beleza” –
“Eu vim pela Verdade – a Mesma Coisa –
Somos irmãos” – respondeu –

E quais Parentes juntos numa Noite
Conversamos nos Jazigos –
Até que o Musgo nos chegou aos lábios
E nossos nomes cobriu –

Fonte: Dickinson, E. 2006. Alguns poemas. SP, Iluminuras. Versão deste poema foi originalmente publicada em 1890.

Friday, July 03, 2009

estante #22


página 44:

Sinto falta de Rimbaud. Parece que vou perder um amigo. Ele anda sumido. Baudelaire nunca foi de muito papo. Acho que realmente sou Charles Laughtom, Corcunda de Notre Dame.
Nunca soube quando está por perto.
Os astros estão lá em cima, Baudelaire.
Eles já se foram.
Espero que, quando ocorrer o Big-bang, uma nave espacial cheia de terráqueos seja expelida no espaço sideral, levando ao menos um quadro de Van Gogh.
Ele mascou sua orelha até o fim dos dias. Comeu o pão que o cujo amassou. Nasceu pra ser selvagem e herói.
Do branco ao negro. Vamos ser verossímil.
O que cada um inventa é uma fantasia de Carnaval. A fantasia pode ser melhor ou pior. Em alguns casos, pode até ser nefasta. Pior do que louco é ser uma pessoa nefasta. Nefasto e louco só o Temível Louco. Será que fui eu quem matou Temível?
Quero ser promovido à alucinação de alguém, por favor!
Voar de helicóptero. Vou ser piloto, pai. Por delicadeza, perdi minha vida.
Rodrigo de Souza Leão
todos os cachorros são azuis
7 Letras.

Livro incluido entre os cinquenta selecionados para a fase final - Premio Portugal Telecom
http://www.premioportugaltelecom.com.br/2009/

Thursday, July 02, 2009

Rodrigo de Souza Leão, descansa em paz hermano


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Você chora a vida, como chorei ontem no workshop do Luiz Alberto de Abreu, ao evocar o nascimento do meu filho caçula. Você chora a morte quando chega o recado do meu irmão Cássio Amaral contando que nosso poeta querido morreu. No instante assim, do impacto, é tudo mentira. É uma inverdade que vai sumir no ar como o canto das gralhas que riscam o céu de dia de inverno em Curitiba. O que elas cantam? O que cantava Rodrigo? Lembro a chegada do livro dele, a leitura que me deixou plena de interrogações e me sentindo humana. Vou ler e reler e reler o recado do Cássio, até que ele se apague. E a verdade desta perda empobrece infinitamente a nossa poesia. Como se aos verdadeiros poetas fosse negado o direito. De viver, de estar, de proclamar. Rodrigo foi o moço com quem eu sempre troquei palavras e poesia. Esparsas. Raramente. Mas, tudo fecundo, humano, tocado desta elevação que deve ter o trato da ARTE. A perda. A maior. Espero que a paz o alcance e que em algum lugar ele divida um quarto branco com Rimbaud e que veja não espectro de um cristo em um morro, mas a luz verdadeira, isto que chamamos Deus. Valeu, Rodrigo. Hoje coloquei a poesia Luzes de Marfim, ela nasceu de um momento em uma oficina de poesia -- do Karl - quando ele disse - escrevam algo pensando - o que vai ser depois que eu morrer - eu pensei nisto, na luz eterna, na lembrança das belezas que nos seguem, com certeza não apenas uma... Várias imagens, memória da beleza que vai estar lá, onde a BELEZA se faz possível. Como avisos lentos: a poesia que coloquei cinco minutos antes da notícia, o livro dele - todos os cachorros são azuis - ter saltado às minhas mãos, ontem, quando procurava algo na estante. Hoje, neste dia 02 de julho, o cenário poético empobreceu, subitamente.


...
mês passado pedi ao rodrigo autorização para publicar uma de suas telas e a coloquei com uma poesia que falava da realidade que rasga a alma dos poetas...
http://chaparaasborboletas.blogspot.com/2009/06/retrato-de-gregor-sampsa-ii-rodrigo-de.html
escrevo tudo isto no impacto de uma notícia... e a poesia segue, é só o que nos segue, afinal...

...
depoimento do Cássio Amaral...

A POESIA CHORA


Cheguei da escola onde leciono de manhã.
Abri o email e vi que tinha um recado no orkut
da Maria Dulce. Não me toquei de cara quem era,
mas o recado me deixou muito triste e foi um golpe
fulminante. O irmão dela, meu amigo e irmão
Rodrigo de Souza Leão passou hoje para o mundo
espiritual.
Digão que recentemente me apresentou Olga Savary
que é minha leitura para elaborar meu projeto de mestrado.
Aquela tarde no Rio, onde Ricardo Wagner, L. Rafael Nolli
e eu o entrevistamos. Rimos, aprendemos e sacamos muita
coisa de literatura e poesia.
Na minha concepção ele é o melhor poeta da sua geração.
A geração anos 90.
Seu livro Todos os cachorros são azuis está concorrendo
entre os 50 livros do prêmio Telecom Portugal.
Mano véio estou muito triste porque achei que
em breve iria no Rio pra te dar um abraço e rir com você.
Sua obra fica e fala por si só.
Rodrigo de Souza Leão é uma luz no fim do túnel na época de vacas
magras, de consumismo acelerado, de poetas que só querem ser
considerados poetas pop stars e estrelinhas.
Digão é o corte, a espada, a lança , o grito e a equilibrada
sutileza da poesia. É muito além do que críticos possam
definir.
Estou triste,mas de onde estiver sei que sua poesia vai brilhar
sempre.


...
do blog
http://cassioamaral.blogspot.com/


...


Tuesday, June 30, 2009

Milk - A Voz da Igualdade


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Lembro de estar passeando por uma grande avenida de São Paulo, depois de passar a manhã com a poeta menina Rebecca Loise, entre a fumaça do café e as palavras que eu lia da escrita potente e bela de Rebecca. Lembro de passar diante de um cinema e ver o cartaz de Milk, da vontade de entrar, depois seguir adiante. Só vi Milk agora. E as comportas se abriram. Ressonâncias. O preconceito tem raiz eterna. Alguns avanços, mas, a mesma marca a mesma sanha a mesma manha mascarada de alguns que seguem com aquele olhar que escolhe. Milk libertou anjos e demônios. Na noite calada, outras cenas, outros tiros, outras manipulações, outras Anitas.


Viver é assustador

Em San Francisco

ou San Salvador

Milk queria viver

falar de amor

ao amanhecer.


Milk a Voz da Igualdade
Diretor: Gus Van Sant
Roteirista: Dustin Lance Black
Elenco: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, Diego Luna, James Franco, Alison Pill,

Monday, June 29, 2009

enquanto isto lá em Salvador...



Um convite do João Filho para o lançamento do seu novo livro - AO LONGO DA LINHA AMARELA, ao lado de mais dois autores - Marcos Dias e Aninha Franco.

Sunday, June 28, 2009

Emily!



Voltada cem por cento para o Universo de Emily Dickinson - Foto do quarto da poeta em - The Homestead - Casa onde Emily Dickinson viveu e onde atualmente é o Emily Dickinson Museum.


11



I’m Nobody! Who are you?

Are you — Nobody — Too?

Then there’s a pair of us?

Don’t tell! They’d advertise — you know!



How dreary — to be — Somebody!

How public — like a Frog —

To tell one’s name — the livelong June —

To an admiring Bog!



(c. 1861)

11

Não sou Ninguém! Quem é você?

Ninguém — Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!

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Que triste — ser — Alguém!

Que pública — a Fama —

Dizer seu nome — como a Rã —

Para as palmas da Lama!



Poesia de Emily Dickinson traduzida por Augusto de Campos - do livro NÃO SOU NINGUÉM (editora Unicamp). Matéria do Portal Cronópios:

http://www.cronopios.com.br/site/lancamentos.asp?id=3425

Diante da janela, o roseiral

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Testamento enterrado

à sombra do roseiral:
Deixo meu violão

para a balconista da padaria.

A erva benta

para a velha do sobrado.

A chaleira

que chia Villa-Lobos

para Frei Gustavo,

que costura almas

nas manhãs de quarta.

O livro de poesia

de Augusto dos Anjos,

para o cobrador do expresso 022.

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Assinado:
A menina dos olhos tristes.

Chico me chamava de Carolina,

mas era só um disfarce.

Sou eu a menina

que viu o tempo passar na janela,

sem ver.

Bárbara Lia

O sal das rosas - Lumme Editor, 2007

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Ontem pensei nesta poesia e tive saudades das roseiras da minha mãe - diante das janelas da sala.

Saturday, June 27, 2009

espaço leonardiano













clique na matéria para ler


Sopro de Deus

Sigo distraído e breve - piedade na alma,
opulência no calabouço.

Sigo sereno, neblina me abraça.
Meu corpo um jarro de esperanças.

O amor - única navalha que me corta.
Aprendi que somos sopros de Deus - instantes.
p. 18


O sorriso de Leonardo

Estou aglutinando em uma página as poesias e as alegrias do meu primeiro livro lançado em 2004. Enquanto escrevo um romance - sem título definido - e um livro de poesias que deve estar pronto até setembro... e participo da oficina do núcleo sesi de dramaturgia... é isto e otras cositas más.


http://www.barbaralia.blogspot.com/

Wednesday, June 24, 2009

estante #21

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Frei Betto enviou-me seu último livro, com a dedicatória:
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Bárbara,
Muita fome de justiça.
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No ritmo do tempo e da História o Brasil vai se acomodar e jamais os arquivos da ditadura serão abertos. Dizem em matérias parcas que a ditadura foi ditabranda. Os registros dos sobreviventes traz a realidade. Fernando de Brito, dominicano, encarcerado com Frei Betto e Ivo Lesbaupin, mantinha um diário na prisão. Publicado pela Rocco - Diário de Fernando - Nos cárceres da ditadura brasileira, abre o leque do cotidiano. Frei Fernando entregou ao amigo Betto o seu diário e Betto escreveu um novo livro. Difere do outro livro de Frei Betto - Batismo de Sangue. É uma câmera que segue os passos de Fernando, sua visão e os questionamentos de sua alma. Proibidos de celebrar missa, improvisavam. O momento sublime onde os frades celebram a missa com bolacha Maria e Ki-suco está no filme Batismo de Sangue de Helvécio Ratton. Batismo de Sangue abrange um universo amplo, a vida no convento, a decisão dos frades de aderir ao movimento de resistência, a prisão deles por estarem ligados à ALN de Marighela e sobretudo o desenlace cruel com a morte de Tito, que não suportou as rachaduras de sua alma, imposta pela tortura, pelo exílio. O diário de Fernando está contido entre as grades e isto traz um desconforto ao leitor, mas, também abre a cortina da dor e escancara a realidade crua e nua. Quatro décadas depois, os carcereiros e torturadores seguem suas vidas, sem responder pelos atos de crueldade. Abaixo, alguns fragmentos do livro, pinceladas de momentos dos frades na prisão. Não vou publicar aqui no meu azul cenas de torturas. Estão no livro, na pele dos torturados, estão inscritos no passado recente da Pátria como mancha que não se lava.
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fragmentos:
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(Um grupo de jovens frades dominicanos de São Paulo se engajou na resistência à ditadura. Presos em 1969, a tortura levou um deles à morte: Frei Tito de Alencar Lima. Outros três - Ivo, Fernando e Betto - permaneceram quatro anos na prisão)

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Durante quase quatro décadas, apenas duas ou três pessoas sabiam da existência de um outro documento, inédito, de inestimável valor histórico: o diário de prisão de Frei Fernando de Brito. Ao longo de quase quatro anos, Fernando muniu-se de coragem e dedicação para registrar o dia a dia no cárcere. Obstinado monge das catacumbas anotava em papel de seda, em letras microscópicas, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica levada por um dos frades do convento. O risco era permanente, sobretudo em decorrência das frequentes revistas a que éramos submetidos, em especial ao nos dirigir às visistas e nos retirar de volta à cela. (...)
Como registra Fernando neste diário, ainda que desconfiassem da caneta que o acompanhava às visitas, ela escrevia, e as suspeitas dos carcereiros estão longe de superar a imaginação criativa dos encarcerados. Do mesmo modo que se deu vazão a este diário, saíram também através de nós denúncias de torturas, de assassinatos e das condições prisionais.
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Betto passou vinte dias como eremita involuntário em cela solitária. No cômodo de 3x1 cabia apenas uma cama. Não havia água nem sanitário; era-lhe permitido ir ao banheiro apenas uma vez ao dia, às 8h. Para controlar os intestinos, amassava a comida até virar papa. Nos primeiros dias, urinava num canto da cela. Depois, graças à embalagem de plástico da firma que fornece laranja à PM, sobremesa de todos os dias, passou a colecionar saquinhos, que cheios de urina, retornavam vaziaos de sua única ida ao sanitário.
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Com o laudo deste médico, o juiz autorizou o diretor a permitir que, durante o dia, eu fique fora da cela e ajude na enfermaria.
Para minha saúde, o efeito não tem sido promissor. Os fantasmas que povoam a minha mente persistem. No entanto, facilito o contato clandestino entre os presos políticos. Levo recados orais e bilhetes entre os pavilhões, inclusive para a ala feminina. Marlene Soccas, a dentista, fixa o bilhete em minha arcada dentária, no espaço antes ocupado pelo molar, arrancado há tempos.
Semana passada vivi um aperto. No banho de sol um companheiro entregou-me um bilhete; ajustei-o no lugar do molar. Zezinho, chefe da carceragem apareceu; irônico pediu o bilhete que eu tinha na boca. Como insistisse, fiquei bravo, reagi sério: "Eu exijo respeito. Se acha que estou com o bilhete, me denuncie ao diretor. Mas pare com essa provocação!" Ele afinou e deu as costas; mais que depressa, engoli o bilhete.
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.*
Ivo escreveu carta de quatro folhas. O censor o convocou, disse que o regulamento só permite duas. Ele dividiu as quatro em dois envelopes. Pagou selo em dobro, mas o regulamento foi cumprido! E depois dizem que Kafka exagerou em seus escritos...
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Julho de 1971
Morreu o pai de Elza Lobo. Dr. Marconi Júnior permitiu-lhe passar ao pátio da ala masculina e autorizou a descida do Betto para consolá-la. Os dois caminharam juntos cerca de uma hora. Dia seguinte, levada à Auditoria Militar, Elza foi interrogada pelo juiz. Queria saber detalhes da conversa com Betto. Não acredita que falaram da fé na vida eterna.
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Setembro de 1971
Nosso julgamento iniciou-se às 10h de segunda, 13. O promotor falou duas horas; os advogados das 14h às 17h30. A defesa prosseguiu, dia seguinte, por mais quatro horas. Mário Simas encerrou com a leitura do poema de Drummond, "A noite dissolve os homens", dedicado a Portinari.
O juiz não permitiu a apresentação de nossas testemunhas de defesa: alegou "escassez de tempo".
Viva a ditadura!
...
*
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Todos sentiríamos como inestimável prêmio lotérico ver o próprio nome incluído na lista de presos a serem trocados pelo embaixador suiço. Exceto Tito. Recebeu a notícia como mau agouro. Nenhum traço de alegria relampeja em seu rosto, em contrataste com a euforia dos demais contemplados com a iminente liberdade. Nosso confrade reflui-se a uma tristeza muda. A tartaruga mantém o pescoço encolhido dentro do casco. Enquanto o governo cuida das providências para embarcar os que figuram na lista e bani-los do território nacional, Tito passa o dia na cama, ocupado em orar, ler, fazer yoga e, de vez em quando, dedilhar o violão para que notas soltas deem ressonância ao seu lamento gutural. Sabe que sua resistencia às sevícias serve-lhe, agora, de alvará de soltura. Mas não quer arredar o pé do Brasil. Aqui a sua terra, o seu povo, as suas raízes. O exílio parece-lhe um imenso deserto no qual se pode caminhar com liberdade, sem contudo saber a direção certa e muito menos o destino.

Diário de Fernando - Nos cárceres da ditadura brasileira
Frei Betto
(Editora Rocco, 2009)
288p

-
site do filme Batismo de Sangue:

http://www.batismodesangue.com.br/

...
poesia de Drummond citada no livro:

http://www.astormentas.com/din/poema.asp?key=9470&titulo=%C0+Noite+Dissolve+os+Homens

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...