Tuesday, October 27, 2009

Constelação de Ossos

Pollock

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FÓSSEIS ROSAS PROFANADAS

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O ar raspando o sangue seco da alma.

Alma mutilada a minha.

Sangue incrustado em suas paredes desde a infância, algumas feridas já cicatrizadas.

Minha alma um painel de Pollock.

Nas partes não cicatrizadas a tinta escorria espessa.

Por muitas noites eu não dormia.

A cor que mais doía era o amarelo aflito, aquele amarelo gritante.

Não sei se algum dia vai esgotar o amarelo de Van Gogh.

Como se ele tivesse a chave secreta da desesperança, em forma de girassol.

O meu interior borrado, sangrado de cores ardia ao vento, o pulmão ardia ao respirar lufadas de ar puro entre medo e delírio.

Raul segue pela Estrada Graciosa, um caminho antigo calçado de pedras, onde abismos se abrem, onde um trem trafega, onde pássaros desnudam suas lágrimas.

Quatro passos necessários para aprumar o esqueleto.

As nuvens se ordenam atrás das bananeiras.

Olho o bangalô e sinto uma ternura de gênesis.

Projeto de éden, recanto de Nyx.

À entrada da varanda um tapete tecido em barbante azul cobalto.

As pedras da entrada são claras, justapostas formam um desenho branco assimétrico.

A varanda pequena adornada de bebedouros ao redor onde um beija-flor pousa, beija a água adocicada e se vai.

Uma rede da cor do trigo maduro.

Raul bate na porta, três toques, a porta está entreaberta.

Ela não está na casa, eu penso.

Silenciosa como um anjo, pousa das alturas ao nosso lado.

fragmento do romance - Constelação de Ossos - Bárbara Lia, 2009

Monday, October 26, 2009

"Autores Múltiplos: do teatro ao cinema, rádio e televisão"


Fernando Bonassi

Núcleo traz os ingleses Dollan e Neville e o brasileiro Fernando Bonassi

Os premiados diretores britânicos Chris Dolan e David Ian Neville, e o brasileiro Fernando Bonassi virão a Curitiba, a convite do Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná, em parceria com British Council. No dia 30 de outubro, eles participam da mesa-redonda "Autores Múltiplos: do teatro ao cinema, rádio e televisão", que acontece no auditório do Sesi, a partir das 19h30. O debate é aberto ao público, com entrada gratuita.

Detalhes no site do Núcleo de Dramaturgia - Sesi/Pr

http://www.sesipr.org.br/nucleodedramaturgia/FreeComponent9548content84589.shtml


Serviço:

Mesa-Redonda: "Autores Múltiplos: do teatro ao cinema, rádio e televisão"
Dia: 30 de outubro, sexta-feira
Horário: 19h30
Local: Auditório do SESI - Rua Cândido de Abreu, 200 - 7º andar
Entrada gratuita

Vagas limitadas Faça sua reserva antecipada através do link abaixo. http://www.fiepr.org.br/eventos/modules/external/inscricao.php?codEvento=2826

Sunday, October 25, 2009

Hart Crane


Brooklin Bridge com Lower Manhattan ao fundo - foto do site - http://www.skyscrapercity.com/

............ALVORADA NO PORTO (Hart Crane) - fragmento


. ..................Quatrocentos anos, mais de quatrocentos anos…
.....................será da margem silenciosa do sonho que o tempo…
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Insistentemente, uma maré de vozes
Vem ao teu encontro, algures a meio de um sonho.
São sons longos, fatigados, nebulosos,
Gongos em sobrepelizes brancas, gemidos de além-túmulo,
Sirenas de nevoeiro, sinais dispersos e tão velados.
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Um camião desloca-se preguiçosamente pelo cais,
Os guinchos vibram sobre o convés de um cargueiro,
Lá em baixo, as imprecações e os passos de um estivador bêbado
Ressoam através das ruas enevoadas pela neve.
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E se acaso te roubam o sono, por vezes
De novo te o devolvem. Suaves bolsas de som
Velam o porto escurecido, a baía aconchegada;
Algures lá fora, na claridade, o vapor
Em vapor se derrama, e vagueia, levado-lavado
.
perturbado pela sonoridade fria dos silvos, redemoinhando
Por entre distantes e as bóias tilintantes, à deriva. O céu
Fresco rebanho de plumagem, suspende, destila
Esta flutuante dormência... Vagarosamente -
Desde tempos imemoriais, a janela, a cadeira semi-nua
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Mais não pedem que esta bainha de pálido ar.
....................................…te regressa ao amor num sonho acordado
.............................................para fundir a tua semente…

(...)

pérolas da internet: um arquivo com sete traduções de Hart Crane
UMA TRADUÇÃO DE SETE POEMAS DE THE BRIDGE, DE HART CRANE
JOÃO DE MANCELOS:

http://www4.crb.ucp.pt/Biblioteca/Mathesis/Mat9/mathesis9_315.pdf

página de João de Mancelos
http://mancelos.com.sapo.pt/

Estante #28


Há noites a desviarem imperceptivelmente o podador enxameado de sol
para morderem o compromisso dos fluidos na estrada branca
como colérico Agosto coado nos cabelos combatentes das raparigas
Estes peixes luminosos enfaixados na aventura essencial das árvores
dançam na meditação das barragens
até se dissolverem na prosperidade dos olhos nocturnos
Estas vagas dilaceradas vergastam um alfabeto de iluminações
na penetração medicinal das sombras
e as difusas muralhas de orvalho levantam-se nas cinturas
de fruta para rolarem no areal argiloso das coxas
e uma das raparigas sustenta incompreendida
todo o corpo do verão nos peitos demasiadamente aromáticos porque
singra puramente nas virações das águas bravias
onde a cúpula lenta das espigas se cerra com os relâmpagos de nácar
cheios de pássaros pontiagudos

O EXTERNO TATUADO DA VISÃO
LUIS SERGUILHA
editorausência, 2002

Friday, October 23, 2009

O erotismo na Literatura Árabe



Literatura: Em busca do prazer perdido
aula avulsa no dia 29/10/09
Aberta inscrição para esta aula com o Prof. Dr. Michel Sleiman
acessar o site icarabe

Thursday, October 22, 2009

HILDA HILST

Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastante
Para meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio Bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos nos muros.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda a solidão
E que todo silêncio.

Exercícios
Ed. Globo, São Paulo, 2001

Sunday, October 18, 2009

Canção dos Olhos


Meu Deus, o que será que tem
Nesses olhos teus
O que será que tem
Pra me seduzir
Pra me escravizar
Não sei
E não saberei também
Como resistir
A seu modo amar

Eu só estou sabendo
Que para te amar
Eu viverei sofrendo
Mas já não resiste
O coração
Quero viver triste
E então

E quando eu tiver os meus olhos chorando
Saberei então seu olhar ilusão


História de Canções - Chico Buarque





...


Este convite é fatal.
Uau!
Olhos de Chico Buarque de Hollanda.
Muita beleza em uma única fotografia.
Muita poesia em uma única mirada.
My god, nem vou dizer mais nada...

Thursday, October 15, 2009

Algo Existe

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Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.

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Algo, num meio-dia de verão
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.

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Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -

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E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.

Emily Dickinson
Tradução de Lucia Olinto


L’ÂGE MÛR



L'âge Mûr - A idade madura - escultura de Camille Claudel.

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Lá vem a Rosa fatídica

espectro no meu toucador

Rosa-sombra

fantasma na minha cama.

Rosas?

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As do jardim são belas

perfumam

o luar fendido.

Tu, Rosa inodora

madura e obscura

leva em surdina

na madrugada escura

o augusto corpo

do homem meu

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O deus voou?

.

Que nada!

Foi raptado

por uma Rosa

descarnada

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E nas suas pegadas

a flor humilhada

eterna suplicante

replicante

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MORTA!

.

Milhões de anos

escorrerão pelas ampulhetas

todas as estrelas derretidas

o universo líquido

tudo aniquilado em água

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O Deus Desconhecido

Este que hora me ignora

verá – incrédulo –

nadando no azul-olhos-de-Camille

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O casal que escapa

Rosa cruel o esconde em sua capa

esquálida face sem escrúpulos

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as mãos da suplicante – dor da dor -

querendo alcançar o deus de hoje

que a Rosa horrorosa leva

sem pudor.

Bárbara Lia

- Para Camille, com uma flor de pedra


...

Nesta escultura Camille Claudel é a -suplicante- O homem mais velho levado pela mulher mais velha - representada por um rosto descarnado - horrível. O homem é Rodin a mulher Rose. Camille a representa como uma figura velha, caquética, quase morta. Estas poesias da série - Para Camille, com uma flor de pedra - foram escritas usando a licença poética de me imaginar na pele de Camille. Todas as poesias tem por título uma obra de Camille.

Wednesday, October 14, 2009

Anos loucos



O relógio virou peça de decoração. O alívio neste tempo sem hora marcada, sem precisar bater o ponto. Pena que o cansaço daquela noite fez com que eu desmaiasse no sofá. O filme que começava era - Anos loucos - Kiefer Sutherland interpretando William Burroughs e a cena que vi antes de apagar - ele coloca o chapéu, despede-se da esposa (Courtney Love) e sai. A sala e a porta iguais as minhas. A imagem daquele homem de terno e chapéu e óculos. Ele diz tchau e sai pela porta. Acordo com a Tv desligada. Sempre tem algum filho que desliga o aparelho e eu fico ali, no meu sofá preferido, dormindo. Acordei com aquela sensação que o moço que saiu ia voltar. Lá estava eu acordando para a realidade misturada com a fantasia do cinema. Alguns segundos para perceber que aquele era um personagem. Que aquela porta da cena não era minha. Pena! Ia ser maravilhoso se ele retornasse, ali, na minha sala, na minha porta e sentasse alguns minutos para um café, bem brasileiro. Um café com William Burroughs. Esperar que o canal reprise, esperar para ver o filme. A crítica não é boa, é que nada consegue alcançar os mitos. Nada. O cinema tenta, mas, não é bom sentar para ver um filme dos beats, ou John Fante. Aquelas caras de Hollywood vestindo o imagem daquelas feras. Os caras. Eu pensei em uma estratégia que certamente os diretores não pensam - contratar atores novos, desconhecidos. Se eles soubessem como construímos no imaginário os nossos mitos, os escritores que admiramos, quiçá eles entendessem e não colocassem estes galãs na pele dos nossos caras. Quem sabe.

hoje em sampa

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia

Connor Storrie (Ilya Rozanov). Cenas da série canadense 'Heated Rivalry'. Baseada no livro de Rachel Reed. Direção e Adaptação do ge...