Selaram os cavalos, não sabem por quê mas selaram os cavalos na planície.
... O lugar estava preparado para seu nascimento: um monte feito com o manjericão dos avós, dando a leste e oeste. E uma oliveira perto de outra nos livros sagrados, a elevar os limites da língua... e fumaça lápis-lázuli a arrumar este dia por algo que só interessa a Deus. Março é criança mimada. Março espalha algodão nas amendoeiras. Faz banquete da malvinha para o pátio das igrejas. Março é terra para a noite das andorinhas, e para a mulher prestes a dar o grito nas pradarias... e estender-se nos carvalhos.
(...) MAHMOUD DARWICH tradução Michel Sleiman
Fragmento da poesia - Uma nuvem na minha mão. Uma das poesias que li na Noite de Poesia Árabe em 2006 e que termina com estes versos que eu adoro...
Selaram os cavalos,
não sabem por quê, mas selaram os cavalos no final da noite, e esperaram sair um fantasma das rachaduras...
Mahmoud Darwich, um dos mais expressivos poetas do nosso tempo.
Estiquei por mais de meio século minha força. Estiquei ao limite da força. Passei uma semana cortando e colando poesias e publicando alguns convites que recebi... Na verdade eu passei uma semana feito um zumbi. Nesta semana fiquei dando força para os três filhos meus que perderam o pai subitamente, vitima de um infarto fulminante aos 49 anos. Hoje decidi dar uma trégua, decidi falar da minha vida pessoal... Por mais que evite, neste momento é preciso. Normal mesmo eu nunca mais vou ser. Ninguém pode ser normal vivendo a experiência da Poesia. Tentei separar a minha experiência pessoal desta página. A humanidade falou mais alto. Não sou uma máquina que consegue triturar tudo. Talvez eu enfrente mais fácil quando dói em mim, tenho enfrentado muita coisa. Comentei com uma pessoa que tentava insinuar que eu não fui mesmo muito apegada ao pai dos meus filhos pós-separação e que ela não entendia o meu desabamento, a minha prostração. Então eu expliquei que ver a dor dos meus filhos por perder o pai era mais difícil para mim do que minha própria perda. Foi mesmo um momento complexo - cuidar de cada filho, contar a cada um a inesperada notícia, de amparar até passar o impacto e de esperar que de agora em diante eles tenham força para conviver com esta ausência. Fiquei nove anos casada com o pai deles. Considero sua família, minha família. A avó deles é minha sogra que insiste em ser minha sogra. Os irmãos dele dão mais atenção aos meus filhos que meus irmãos e ele esteve presente na vida dos filhos, mesmo que há quase vinte anos nosso casamento tenha ruído. Por isto, vou dar uma trégua e recuperar o fôlego. Estamos noivos nesta foto antiga, estamos felizes. Somos um casal, nada preparados e nem maduros para a experiência da vida a dois. Estivemos mais próximos neste ano por conta do nascimento do neto. Ele nunca entendeu os códigos de Bárbara Lia. Ninguém entende. A utopia incandescente de uma mulher que só consegue viver qualquer relação em harmonia. Geralmente, na maioria dos casos, não é possível.
No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros.
No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Hay un muerto en el cementerio más lejano
que se queja tres años
porque tiene un paisaje seco en la rodilla;
y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto
que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase.
No es sueño la vida. ¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta!
Nos caemos por las escaleras para comer la tierra húmeda
o subimos al filo de la nieve con el coro de las dalias muertas.
Pero no hay olvido, ni sueño:
carne viva. Los besos atan las bocas
en una maraña de venas recientes
y al que le duele su dolor le dolerá sin descanso
y al que teme la muerte la llevará sobre sus hombros.
Un día
los caballos vivirán en las tabernas
y las hormigas furiosas
atacarán los cielos amarillos que se refugian en los ojos de las vacas.
Otro día
veremos la resurrección de las mariposas disecadas
y aún andando por un paisaje de esponjas grises y barcos mudos
veremos brillar nuestro anillo y manar rosas de nuestra lengua.
¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta!
A los que guardan todavía huellas de zarpa y aguacero,
a aquel muchacho que llora porque no sabe la invención del puente
o a aquel muerto que ya no tiene más que la cabeza y un zapato,
hay que llevarlos al muro donde iguanas y sierpes esperan,
donde espera la dentadura del oso,
donde espera la mano momificada del niño
y la piel del camello se eriza con un violento escalofrío azul.
No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Pero si alguien cierra los ojos,
¡azotadlo, hijos míos, azotadlo!
Haya un panorama de ojos abiertos
y amargas llagas encendidas.
No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie.
Ya lo he dicho.
No duerme nadie.
Pero si alguien tiene por la noche exceso de musgo en las sienes,
abrid los escotillones para que vea bajo la luna
las copas falsas, el veneno y la calavera de los teatros.
Baile das harpias
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada. “Toda coberta de insidioso musgo”
Sol magenta de maio Alma dos ancestrais No corredor As goiabeiras O relógio cuco O mundo tinha musgo No chão Nas paredes No vão das cercas Nos alfarrábios O mundo inabitado - Esquecido Que se fecha sem ruído Em saudade - Evapora Azul de signos Molhado de lágrimas Bárbara Lia + 2 Poesias do Prêmio Ufes
Fumo de tabaco rói o ar. O quarto – um capítulo do inferno de Krutchônikh. Recorda – atrás desta janela pela primeira vez apertei tuas mãos, atônito. Hoje te sentas, no coração – aço. Um dia mais e me expulsarás, talvez, com zanga. No teu “hall” escuro longamente o braço, trêmulo, se recusa a entrar na manga. Sairei correndo, Lançarei meu corpo à rua. Transtornado, tornado louco pelo desespero. Não o consintas, meu amor,
meu bem, digamos até logo agora. De qualquer forma O meu amor – duro fardo por certo – pesará sobre ti onde quer que ti encontres. Deixa que o fel da mágoa ressentida Num último grito estronde. Quando um boi está morto de trabalho ele se vai e se deita na água fria. Afora o teu amor para mim não há mar, e a dor do teu amor nem a lágrima alivia. Quando o elefante cansado quer repouso Ele jaz como um rei na areia ardente. Afora o teu amor Para mim Não há sol, E eu não sei onde estás e com quem. Se ela assim torturasse um poeta, ele trocaria sua amada por dinheiro e glória, mas a mim nenhum som me importa afora o som do teu nome que eu adoro. E não me lançarei no abismo, e não beberei veneno, e não poderei apertar na têmpora o gatilho. Afora o teu olhar nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho. Amanhã esquecerás que eu te pus num pedestal, que incendiei de amor uma alma livre, e os dias vãos – rodopiante carnaval – dispersarão as folhas dos meus livros... Acaso as folhas secas destes versos far-te-ão parar, respiração opressa?
Deixa-me ao menos arrelvar numa última carícia teu passo que se apressa.
Vladímir Maiakóvski 26 de maio de 1916. Petrogrado.
Acasos são poesias de Deus. Ele vive a tecer estas rimas urgentes. Trazendo a paz ou o caos de presente. Fazendo a gente rimar com outra gente. Trombadas. Acidentes. Malas Perdidas.
( Estas postagens das minhas poesias preferidas - na verdade é uma pequena seleção para lembrar alguns poetas que sacudiram dentro e que eu recordo com poesias esparsas. A obra é muito maior e cada qual verteu belezas neste legado maravilhoso )
Data: 7 de novembro a 18 de dezembro de 2010 Local: Oi Futuro Ipanema Endereço: R. Visconde de Pirajá, 54/3º and - Ipanema Tel para informações: (21) 3201-3010 Horário de Funcionamento: De terça a domingo, das 13h às 21h
Entrada Franca Classificação etária: livre Acesso para pessoas portadoras de necessidades especiais em cadeira de rodas.
Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakóvski. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem.
Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante; mas amanhã, diante do juiz, talvez meus lábios calem a verdade como um foco de germes capaz de me destruir.
Olho ao redor e o que vejo e acabo por repetir são mentiras. Mal sabe a criança dizer mãe e a propaganda lhe destrói a consciência. A mim, quase me arrastam pela gola do paletó à porta do templo e me pedem que aguarde até que a Democracia se digne aparecer no balcão. Mas eu sei, porque não estou amedrontado a ponto de cegar, que ela tem uma espada a lhe espetar as costelas e o riso que nos mostra é uma tênue cortina lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo e não os vemos ao nosso lado, no plantio. Mas ao tempo da colheita lá estão e acabam por nos roubar até o último grão de trigo. Dizem-nos que de nós emana o poder mas sempre o temos contra nós. Dizem-nos que é preciso defender nossos lares mas se nos rebelamos contra a opressão é sobre nós que marcham os soldados. E por temor eu me calo, por temor aceito a condição de falso democrata e rotulo meus gestos com a palavra liberdade, procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores. Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita - MENTIRA!
"Foi um daqueles em que termino sorrindo (por ter lido uma história boa, riso de saudade de personagem). Não gosto de comparações, mas em certos momentos "Constelação" me levou aos livros de Nélida Piñon. Não que sua escrita seja parecida com a dela, muito menos o enredo ou os personagens, mas o modo como trabalha a linguagem. Achei belíssimo."
"Nossa, Bárbara, eu adorei teu livro. Você fez algumas alterações, não é? O final está diferente. Enfim, eu o tinha lido no computador aquela vez, não tinha percebido o quanto é legal. Lendo assim, impresso, achei muito bom. Você está escrevendo muito bem. Você sabe que eu leio bastante, e sei o que estou dizendo. Você deve saber que eu não sou de ficar fazendo falsos elogios. Você tem publicado e ganhado prêmios, e sabe que teus escritos têm muito valor. Mas não abro mão de dar minha opinião sincera: teu livro me comoveu e me prendeu do começo ao fim, tua Lyn é uma criatura fascinante."
Luciane Heleno - Curitiba
"Amei, amei.................parabéns, Bárbara Lia, bicho do PR!!!!!!!...:))"
Algumas considerações dos leitores sobre meu novo livro _ Constelação de Ossos _ o depoimento da Luciane Heleno surpreendeu, por ser a pessoa que revisou o livro. As pessoas dizem que o futuro é a publicação na Internet. Mas, é certo que a palavra impressa, que um livro nas mãos abre portas mágicas. Que a concentrada leitura é um rito, este sagrado rito, pórtico para um outro lugar. Recebo críticas por não enviar livros aos críticos. Por não procurar um grande editor, mas, o escritor só existe através dos olhos e alma de quem palmilha as páginas. Já é desgastante demais ser escritor neste País, então, eu quero mesmo esta partilha sublime, quiçá eu me esforce em ser uma escritora - normal - eu que sou poeta, poeta apenas.
E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me. (Do Desejo - 1992)
* * *
Que canto há de cantar o que perdura? A sombra, o sonho, o labirinto, o caos A vertigem de ser, a asa, o grito. Que mitos, meu amor, entre os lençóis: O que tu pensas gozo é tão finito E o que pensas amor é muito mais. Como cobrir-te de pássaros e plumas E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível? O toque sem tocar, o olhar sem ver A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis. Como te amar, sem nunca merecer? (Da Noite - 1992)
HILDA HILST
Hilda Hilst (1930 — 2004) foi poeta, escritora e dramaturga brasileira.
Não sou nada.
Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens. Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu , E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo. Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando. Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 0 mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num paço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) Vivi, estudei, amei, e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. 0 dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra , Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (0 Dono da Tabacaria chegou á porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu. ÁLVARO DE CAMPOS
Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.