O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos e saudades? Como rasgar a onda sem cicatrizar em azul? Beber a ardência seminal de amantes afogados como quem engole segredos guardados entre debruns de ondas em seu giz rendado
Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011)
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ame quem te ama e conheça o inferno fogo a fogo no porão do medo fogo a fogo no cabelo da Medusa atiçando cobras atiçando demos. ame quem te ama e conheça a dor amputar pernas braços sexo e coração. ame quem te ama nesta luta cega boitatás no milharal não sobra espiga sobre espiga e o espantalho, mudo, tira o chapéu e dança triste no chão de palhas. ame quem te ama e conheça o inferno dois sustos travestidos de sons querendo narrar o que o humano não narra escrevendo em aramaico o avesso do vivido. ame quem te ama e se arrependa de viver rezando pelo amor. ame quem te ama e descubra a agulha fina e gelada do olhar o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca o que é não sentir o corpo do outro cópula de luz. o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos
Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul no vaso branco, dois cães cor da lua ao redor. Teus olhos se perdem na rosa nua. Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora. Gota de orvalho baila na pétala. Cristal. Ponto no espaço – Aleph descortina o universo. Sonhos enxertados de sóis, desertos, aromas, fauna, primavera, borrascas. Todo universo na gota clara que cobre a rosa. A lágrima desce solar ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.
Bárbara Lia in O sal das rosas (lumme editor)
este poema também integra a Antologia - Arqueologia da Palavra Anatomia da Língua (Literatas - Maputo)
Enamorar-se é criar uma religião cujo Deus é falível?
Jorge Luis Borges
Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco.
Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome.
Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos.
Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado.
Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam.
Creio na morte,la petite-mort que viverei em teus braços.
Bárbara Lia (Noir - 2006) Texto Criativo sobre "NOIR", da poeta e historiadora Barbara Lia
por Luis Serguilha
A Sonoridade dos tigres das metáforas mobilizam as homenagens solares e a Barbara encaminha as linfas dos elementos energéticos até à desvairada obscuridade das criptas. As palavras como cordas expansíveis desencarceram os pássaros loucos da sua interioridade. NOIR símbolo da febre submarina e dos silêncios das escamas incandescentes que flutuam sobre as abóbadas da angústia e do medo. NOIR PALAVRA INESGOTÁVEL tentando completar a Barbara em sucessivos renascimentos. O lugar inaugural da catarse canta a solidão da rebeldia e transpõe a diminuição dos abismos como a verdadeira arte da mudança. Barbara restaura os magnetismos das palavras para iluminar a decisão primordial do desejo, libertando o silêncio e a vida absoluta porque quer a manifestação sensual na incorruptibilidade do ser.
Barbara diz ´´que é a palavra´´, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. Os vestuários das inflexões atravessam os instantes do cromatismo das feridas, este circulo de crisálidas alucinantes que BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa "que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta".
. Luís Serguilha, poeta português, nasceu em Vila Nova de Famalicão, em 1966. Publicou, entre outros livros de poesia, O périplo do cacho, O outro, Embarcações, O externo tatuado da visão, Lorosa’e boca de sândalo eA Singradura do capinador
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no azul, como uma eterna vela!" Masa estrela, fitando a luz, com ciúme:
- "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
- "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
A trilha sonora é linda. Algumas cenas lavadas pela neblina, ou por uma espécie de - matéria do sonho - uma nitidez escassa que enlaça em uma aura encantatória. A certeza ao final de Carol é que não mudou quase nada a forma como o mundo age, neste desnível de olhar, onde os homens tudo podem e as mulheres quase nada. A salvação é o que o amor ainda brota, apesar de tudo, em longos olhares, estes que duram 5, 4, 3, 2, 1 segundos... E neste instante tão mínimo na régua do tempo, dá para desvelar um mundo. Carol é para os que já mergulharam - um dia - no olhar do amado (a)... único espaço maior que a palavra... Sempre bom ver Cate Blanchett, incrível neste filme de Todd Haynes... um oásis meio ao caos.
Dia 19 março, sábado Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)
10h: Oficina Lendo Mulheres: a potência da poesia feminina Com Jeanne Callegari Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas.
14h: Abertura
15h: Clube de Leitura Mediadoras: Lubi Prates e Pilar Bu Livro: Do desejo, Hilda Hilst Convidada: A confirmar Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas.
16h: Tradutoras Mediadora: Francesca Cricelli Convidadas: Ana Cecília, Sarah Valle e Maurício Santana Dias
18h: Sarau microfone aberto
Dia 20 de março, domingo Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)
10h: Oficina de fanzine: as línguas e os idiomas das mulheres Mediadora: Julia Francisca autora da zine [nectarina] Oficina para mulheres conhecerem a linguagem do fanzine e aprenderem a publicar seus escritos com autonomia. Espaço de diálogo e troca de escritos, referências visuais e técnicas de publicação. O objetivo é reconhecer as diferentes vozes das mulheres e encontrar meios para que nós possamos falar para o mundo, publicar textos, etc. Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas.
14h: Poesia é resistência? Mediadora: Juliana Bernardo Convidadas: Tula Pilar, Jarid Arraes, Geruza Zelnys e Jenyffer Nascimento
16h: Mulheres e invenção Mediadora: Maíra Mendes Galvão Convidadas: Fabiana Faleiros, Luisa Nóbrega, Julia Mendes e Dirceu Villa
Ao lado da incrível Norah Jones e de um conto do Luiz Alberto Machado, o meu poema - Amar é respirar em casas naufragadas - e esta homenagem... Começar bem o final de semana:
'Meu Oscar" vai para o Eddie Redmayne... Ele me assombra. Ele incorporou Stephen Hawking... Agora ele arrasa como Lili.
Que espetacular sensibilidade vive neste moço que o torna uma espécie de vaso virgem que se transforma quando derramam dentro dele uma qualquer alma.
O filme mostra os eventos da vida do pintor noruguês Einar Magnus Andreas Wegener, primeira pessoa que submeteu-se a uma cirurgia para
mudança de sexo, para - enfim - tornar-se Lili, aquela que gostaria de serdesde o início. Esta troca de amor palpável na tela é possível pela interação impecável dele com Alicia Vikander. Precisamos falar de Gerda...
Em um tempo em que tudo está tão na fala e longe da ação, ela amou. Ela AMOU. Ponto final. E penso no final daquele meu conto Mulher na Árvore. E a frase final fica batendo como sino. A certeza da beleza. Os esvoaçantes lenços claros sobre as charnecas, a coragem de transubstanciar o querer, por puro Amor... E a frase bate, como os pingos da tempestade no pátio lá fora:
- permaneço no amor.
As telas são de Gerda, que tocou meu coração de poeta com tanta beleza. Amei! Amei!