Wednesday, April 05, 2006

Asas de Nietzsche



















ASAS DE NIETZSCHE

A essência da felicidade é não ter medo.
(Nietzsche)

Em urdidura silenciosa
escondem o pássaro
no crânio branco
-arapuca tétrica-
caveira fria.
Asas em valsa
coloridas de raios
que entram pelos olhos vazados,
e aquecem feito o fogo
e as papoulas
da primeira primavera.
Asas de pluma se ferem
no osso-cárcere, sangram;
asas metafísicas
voam céus de antes.

BÁRBARA LIA

cop8 mop3














Durante o mês de março Curitiba recepcionou delegados da ONU de mais de 180 países, e discutiu Biossegurança e Biodiversidade em dois eventos MOP3 (Meeting of the Parties), que discutiu biossegurança, com os 132 países integrantes do Protocolo de Cartagena, e em seguida a COP8 - Convenção da Biodiversidade que acontece a cada dois anos, desde a Eco - 92 o Brasil é o País chave para o futuro, que detém os maiores mananciais de água e o maior número de biodiversidade em sua natureza. Foi para mim um aprendizado estar lá, entre os jornalistas, participando do evento e enviando matérias para o jornal virtual - Vejo São José - da cidade de São José dos Campos, a pedido do jornalista Ricardo Faria.
Um resumo destes dias de evento:
http://www.vejosaojose.com.br/adeuskarugua.htm

Karuguá é arco-íris em guarani. Como o mineiro que entra nas entranhas da gruta e só então descobre se há ou não diamantes, estar dentro, enfronhada entre os representantes dos países, ongs, indígenas, lobistas, jornalistas, e personalidades. Perceber o fluxo da vida, as discussões, leva a um baque: não está sendo dada a merecida atenção a este tema tão sério. 
Adeus arco-íris. Foi o que pensei. Adeus arco-íris, se as coisas continuarem assim neste ritmo e com este descaso.

Saturday, April 01, 2006

EU TRADUZO A TUA RESPIRAÇÃO PARA O GREGO


















EU TRADUZO A TUA RESPIRAÇÃO PARA O GREGO

Em alfa respiras
Farfalhando o sigma
De  tuas asas.
Pelas avenidas
Teu riso-ômega
Altera o ar
Só Afrodite traduz
O que respiras e vives

BÁRBARA LIA



Imagem: Olga

Thursday, March 30, 2006

Bishop / Hilst




















--
Dali

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo,
aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

Elizabeth Bishop
- Fragmento do poema - O banho de xampu.
- tradução Paulo Henriques Brito.
Poemas do Brasil, Cia. das Letras, 1999 - São Paulo, Brasil

*

Colada à tua boca a minha
desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas
escomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te
sôfrega

Como se fosses morrer colado à
minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do
amanhecer.
Hilda Hilst

Saturday, March 25, 2006

Barco de Lia no rio de Cora




















hugo pratt


BARCO DE LIA NO RIO DE CORA



No escuro escrevo como quem
Adora
Teu olhar que o passado inteiro
Descora
Zero duplicado em infinito
Ancora
- Istmo - o oceano dos medos
Deflora
Rasga em amor, imprime a tatuagem
Canora
Seres do Olimpo a ressuscitar
Pandora
Amor - linha e linho - como Gil e
Flora
Teu, meu corpo banhado em tesão na
Aurora
Teus, meus versos banhados no rio de
Cora.

BÁRBARA LIA
Noir (2006)

Friday, March 24, 2006

Leonardo Boff

- Sustentabilidade e Ética - Frei Leonardo Boff.
Aprendendo no Fórum Global da Sociedade Civil, sentindo que a vida é muito mais. Frei Leonardo Boff findou falando do arco-íris, tomei a maior chuva na volta para casa e mal entrei em minha sala - que descortina um céu só meu - havia um arco-íris.



'SUSTENTABILIDADE E ÉTICA'

Frei Leonardo Boff

Dentro do Fórum Global da Sociedade Civil – Cujo lema é: Bem-vindo ao mundo real. Nesta manhã de quinta-feira, Frei Leonardo Boff fêz uma palestra cujo tema era – Sustentabilidade e Ética, quase toda a fala está reproduzida, de um pensamento lúcido e iluminado, que levou a platéia a um longo aplauso, ao final das palavras de Leonardo Boff:

Sustentabilidade está associada, nos últimos anos, ao tema – desenvolvimento sustentável. É como está nos documentos oficiais. Desde o começo esta expressão é um engodo.   Esta expressão associada à economia capitalista que se fixa sempre em três aspectos:
- aumentar a produção.
- potenciar o consumo.
- gerar riquezas.
Para isto ela devasta a natureza e cria desigualdades sociais. Esta economia consegue separar a economia da política, ética e sociedade. Agora a política é controlada pela economia, a economia é como um lobo no meio de ovelhas – devora. Explora de forma ilimitada o planeta Terra, de uma maneira devastadora e faz desaparecer 3.000 espécies/ano. Este sistema vive de duas ilusões – dois infinitos. Imaginar que os recursos são infinitos; e que podemos nos desenvolver infinitamente.
Jacques Chirac disse em Johannesburgo, no evento Rio + 10 – Se quisessemos universalizar este modelo, precisariamos de mais 3 Terras iguais a esta.
Jaques Lovelac, autor do livro – A vingança de Gaia – escreveu: "Ou nós mudamos ou vamos conhecer o destino dos dinossauros"
O ser humano com o sistema capitalista se comporta como um meteoro rascante que pode destruir vastas dimensões da natureza.
São assustadoras as revelações que estão detalhadas no Relatório de Avaliação Ecossistêmica do Milênio, encomendado pela ONU a 1.300 cientista do mundo todo, algumas conclusões como estas:
- As atividades antrópicas estão mudando de forma irreversível o cenário na vida do planeta Terra, é improvável que se sustente por muito tempo...
Cada dia mais pensadores, políticos e ecologistas se dão conta do que enfrentam... Nós seres humanos, ocupamos 83% do planeta e ocupamos devastando. Precisa-se de uma coalisão de forças ao redor de nossos valores. Um novo paradigma civilizatório. A forma atual vai nos levar a um impasse se não tomarmos medida agora, entre 2.030 e 2.035 a Terra não será mais sustentável, com mudança no clima e milhões de vitimas.
A palavra Ética nunca fez tanto sentido. Do grego – Ethos – que significa – A morada humana.
A casa humana não é nosso apartamento, é o planeta. A Ética tem que contemplar esta casa. Construimos uma máquina que pode destruir a espécie. Construimos 25 armas quimicas e biológicas, nós como espécie humana, podemos desaparecer.
Existem dois documentos que comportam este debate. Um documento é o Manifesto por la vida -  por una Ética por la Sustentabilidad,  E a Carta da Terra, que entre 1.992 e 2.000, envolvendo 42 países e populações, a partir de uma pergunta: - O que vocês querem da Terra? Este documento foi assumido pela UNESCO. Estes dois documentos se preocupam com alternativas. Uma Ética diferente da realidade, que nós aqui, em grande parte dos presentes compartilha:
- Visão holística de que não estamos sozinhos sobre a Terra. Todos os seres vivos usam este espaço.
- A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A terra é um super-organismo vivo e nos deu condições para que surgisse a vida e a reproduzisse. O ser humano é parte desta comunidade de vida, da bactéria originária, passando pelos dinossauros e colibris, até o homem possuem os mesmos 20 aminoácidos e 4 bases contastadas.
A missão do ser humano, como está no Gênesis, é ser jardineiro do éden. Especialmente nos últimos anos temos nos comportado como Satãs. Edmundo Wilson escreveu em seu livro – O futuro da vida: “Nós transformamos o Jardim do Éden em um matadouro”.
A Ética da Sustentabilidade é uma Ética para renovação da sustentabilidade da vida.
A nova Ética salvadora se funda em 4 Princípios e 4 Virtudes:
Princípios:
1.      Afetividade.
Dar centralidade à afetividade e à sensibilidade. Qual é a estrutura da base última do ser humano? A razão (logos) é a sua essência, mas a capacidade de sentir (pathos) é a estrutura da base do ser humano, é a afetividade. Somos empíricos, a primeira reação do ser humano em contato com a realidade é o sentimento, só quatro segundos depois é que a razão desperta. Sofremos uma lobotomia que nos impede de tomar medidas em benefício dos que morrem de fome.
2.      Cuidado
Tudo o que vive precisa de cuidado. Se o ser humano for abandonado depois que nasce – morre. A vida exige cuidado. Os ecossistemas, as águas. Até a própria morte exige cuidado, bem como a nossa espiritualidade. O projeto maior do Ministério do Meio-Ambiente é – Vamos cuidar do Brasil.
3.   Cooperação
Lei suprema do Universo. Dizem os cosmólogos e fisicos quânticos, contra Darwin – A cooperação é a lei suprema do processo da evolução. Tudo tem a ver com tudo. O mundo é feito de uma rede de relações, ninguém fica fora, desde os primeiros top-quarcs e átomos que se relacionaram, até os dias de hoje. Os ancestrais antropóides não comiam como animais, cada um para si. Eles dividiam entre eles, e foi a cooperação que desenvolveu a Humanidade.
4.  Responsabilidade
Dar-se conta da consequência de nossos atos. Com relação aos transgênicos, não sabemos o que pode acontecer em nosso organismo em contato com essas bactérias, os transgênicos podem atrapalhar o equilíbrio de nosso corpo. Quando algo se desestabiliza, recebemos sinais, e não sabemos se os transgênicos não podem alterar as bactérias que nos avisam da gripe ou de qualquer outro erro em nosso sistema interior.

Quatro são as virtudes necessárias a partir destes princípios:
     
1.      Hospitalidade
Emmanuel Kant em seu último livro – Paz Perpétua – foi o primeiro que pensou a globalização. Hoje existem trezentos milhões de refugiados por razões políticas no mundo, não recebendo hospitalidade, vivendo em navios, em acampamentos. A primeira virtude do ser humano – a hospitalidade.

2.      Convivência

Nós náo existimos. Nós coexistimos. Todos os seres possuem história, tem um jeito próprio de se relacionarem uns com os outros. Devemos pensar não só o pacto social, mas o pacto natural. A harmonia entre nós e a harmonia da natureza.  A Democracia não pode ser antropocêntrica, tem que ser sócio-cósmica. A cultura ocidental nunca teve abertura para o outro – a Hamburguerização do mundo.
Nossa cultura ocidental não se encanta pela diferença, ela a elimina.
      
3.      Respeito

Todos os seres são mais velhos que nós. 98% da Terra existia quando surgiu no cenário o ser humano. Nào estamos sobre os outros seres. Mas, na mesma casa. Albert Scheitzer o médico suiço que foi viver na África e construiu hospitais, grande pensador, que deixou esta lição – Ética é responsabilidade por tudo que existe e vive, pois tudo que existe e vive merece ser respeitado.

4.      Comensalidade

Poder comer. Poder sentar à mesa e desfrutar do que a Terra dá. Sermos comensais. Enquanto os seres humanos não tiverem a garantia da comensalidade, não vamos ter sustentabilidade.

Estes princípios fundam uma nova espiritualidade. Um novo sentido de vida. Uma nova cultura de paz. A paz perene, grande anseio do ser humano, que está longe de ser alcançada. Mas, que pode alterar a vida na terra, em um arco-íris que vai cobrir a todos. Como está escrito – Quando virdes este sinal, nunca mais o dilúvio.




 Bárbara Lia para o site Vejo São José

Friday, March 17, 2006

Garcia Lorca




Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana...
(Garcia Lorca)

Friday, March 10, 2006

Emily Dickinson

















emily dickinson:


A word is dead
when it is said,
some say.

I say it just
begins to live
that day.



Emily Dickinson
(1.830 - 1886)
Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.
Tradução: Aíla de Oliveira

Wednesday, March 08, 2006

porão loquax - wonka bar



Ontem no Wonka Bar - dentro do projeto Porão Loquax, concebido, executado com raça pelo poeta Mário Domingues, Melina Mulazani interpretou poemas de meu livro inédito. Uma catarse, apoteose lírica, muito linda. Uma feliz coincidência de adentrar o dia das mulheres, duas guerreiras bárbaras no palco, impossível não dedicar o recital às mulheres. Um abraço de carinho em quem esteve lá, e ouviu os cantos bárbaros, e dividiu a bela noite, de poesia e pizza de pão sírio... Registro do primeiro evento solo da Bárbara, da força que é a palavra quando salta das páginas e de tanta coisa boa, prenúncio de que muitas coisas vão passar por um rio de luz, assim, feito a XV - minha rua - na madrugada clareando meu Stalingrado coração.

cantos bárbaros - porão loquax

MELINA MULAZANI - CANTOS BÁRBAROS - PORÃO LOQUAX -
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- Melina Mulazani - Atriz, cantora, integrante do grupo Mundaréu - criado em 1997 na cidade de Curitiba- PR, é formado por músicos, atores, dançarinos, bonequeiros, pesquisadores e arte educadores, que com seus cantos, suas plasticidades, suas danças, teatralidades e contos, divulgam a arte popular brasileira.

Saturday, March 04, 2006

porão loquax 07.03.2006


















ilustração - Pointelim

CONVITE

Nesta terça 07/03
Dentro do Projeto do poeta Mário Domingues
- PORÃO LOQUAX -

CANTOS BÁRBAROS

- Poemas inéditos da Bárbara Lia -
performance da atriz, cantora Melina Mulazani


Serviço - Porão Loquax -
Wonka Bar - Trajano Reis, 326 -
23h - couvert 1,99

Friday, March 03, 2006

Ana Cristina Cesar



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Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
- Ana Cristina César (1952-1983)
A teus pés - Ed. Brasiliense
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Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
(T. S. Eliot)

Thursday, March 02, 2006

The dreams



















THE DREAMS


Eu tinha dezessete (eu tive dezessete)
Asas resvalando paredes de um quarto
Voz mortiça murmurando em engasgos:


home along the line of the skyway
for this dark and lonely room
projects a shadow castin’ gloom…



Eu tinha dezessete, esperança sempiterna
(Rasgaram em vão o ódio os que tentaram
matar em minh’alma a habitante mais antiga,
da caixa mais antiga)



Asas em mim, sempre esperando o dia
Farfalhar em estardalhaço
Das asas a rasgar as paredes negras



Fly away, skyline pigeon fly
Towards the dreams...




As pombas pisam as pedras da Praça Tiradentes,
O homem magro alimenta o bando que chega em voos
- Alegoria bela: voo em coreografia de abismos -
O céu baixou ao chão da minha cidade
Posso enfim caminhar na linha do horizonte
Bebendo poesia, recolhendo dos galhos das árvores:

The dreams...
The dreams...
The dreams...


BÁRBARA LIA

- em negrito - trechos de Skyline Pigeon Fly
Elton John

Monday, February 20, 2006

Bernardo Brayner














Em trânsito

Chuviscaía. O limpador dos pára-brisas dos carros negando: não, não,não, não. Atravessa na rua o homem, esse homem, apressadamente homem.
O fluxo de carros em mão. Espalmada. O fluxo de carros parado como um
rio seco. Não se vive duas vezes na mesma vida.

Bernardo Brayner - Recife (PE)
Publicou - Exercícios de Morrer (contos)
.

Saturday, February 18, 2006

Primavera para Beethoven

















bosque em primavera - mary molvert


Também os bosques são sinfonias
No silêncio da bela arquitetura
Teias de aranhas são partituras
Por mais casta que seja a analogia


Em nítida alegria toda tessitura
De um concerto pleno de alegorias
Traçando entre o verde, harmonias,
Asas dos pássaros voam alturas


(Entre galhos notas do vento se ouve
E um exército de aves se levanta
Rasgando - em asas - o ar fuligem)


Uma paisagem etérea-sacrossanta
Primavera oferecida ao triste Beethoven
Que fulge entre o verde e - sorrindo - canta


BÁRBARA LIA

Thursday, February 16, 2006

a mosca azul


Betto fala e Lula ouve,
atento, 1.980 - O encontro.
...
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Recebi do meu amigo Frei Betto – A mosca Azul – reflexão sobre o poder. O livro é pleno de reflexões, à luz de filósofos e pensadores, desde Platão a Hanna Arendt. Um levantamento de várias questões - a crise da esquerda, e começa com a posse de Lula , o encontro de Frei Betto com Lula, o nascimento do PT... O livro é dedicado a Ivo Lesbaupin, um dos freis dominicanos que esteve preso durante os anos da ditadura. Helvécio Ratton está adaptando para o cinema o livro de Frei Betto - Batismo de Sangue, onde Daniel de Oliveira será Frei Betto, e Caio Blat, Frei Tito - o frei que teve sua alma quebrada por Fleury, humilhado, torturado, banido e exilado, enforcou-se em um álamo em L’arbresle há mais de trinta anos.
O prefácio do livro é um poema – de Machado de Assis - Nesta semana o livro deve ir para as livrarias. Vou me debruçar sobre os 31 tratados do livro, acrescentar algo, enquanto o Brasil inteiro fica ligando 0313131... Pensei nisto agora ao ler o número de capítulos, e de como eles se iniciam...
I - Trata da euforia pela vitória de Lula. Os sinais dos tempos. As lutas do povo brasileiro.
II - Trata da formação política do autor. Recorda Sócrates, o golpe militar e conquistas inovadoras.
III - Trata do primeiro encontro do autor com Lula. O carisma...
Não vou enumerar os XXXI tratados. O livro resume o pensamento de alguém que viveu a realidade deste tempo, que ficou dois anos preso ao lado de rebeldes dos anos sessenta e mais dois na mesma penitenciária de segurança máxima onde esteve Fernandinho Beiramar, em Presidente Venceslau, pela simples razão de que estava seguindo a sua vocação cristã - escoando pela fronteira sul do Brasil pessoas que poderiam ser perseguidas, torturadas, mortas... Nunca empunhou uma arma, é certo que é um homem polêmico, a ponto de dizer que o homem ideal seria filho de Che Guevara com Santa Tereza D'Ávila, e a única coisa que posso dizer é que concordo com o pensamento do Frei, admiro a sua coragem, pois ele se dilui em humanidade, sempre.
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A MOSCA AZUL
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Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão.
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E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua, - melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.
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Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
"Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que to ensinou?"
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Então ela, voando, e revoando, disse:
"Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor."
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E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
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Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,
Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, como todo o resplendor de um paço.
E viu um rosto, que era o seu.
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Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vichnu.
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Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.
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Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhe de mando os aromados seios,
Voluptuosamente nus.
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Vinha a glória depois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.
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Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpo os corações.
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Então ele estende a mão calosa e tosca,
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.
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Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.
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Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houvesse nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.
.
Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil,
Sucumbiu; e com isto, esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.
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Hoje, quando ele aí vai, de aloé e cardamomo
Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.
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MACHADO DE ASSIS, "Ocidentais",
in Poesias completas, 1.901
.
A MOSCA AZUL - REFLEXÃO SOBRE O PODER
ROCCO
FREI BETTO
.
Frei Betto -
Escritor, assessor de movimentos sociais e frade dominicano.
Nasceu em Belo Horizonte, estudou jornalismo, antropologia,
filosofia e teologia. Lider estudantil, preso político, morou em
favelas no Espírito Santo, quando deixou a prisão,
publicou 53 livros, foi um dos premiados com o Prêmio Jabuti,
no ano passado, com seu livro Típicos Tipos.
Na minha coluna semanal - SITE VEJO SÃO JOSÉ - minhas primeiras
impressões sobre o livro - A mosca azul:

Friday, February 10, 2006

LESSONS IN LOVE’S SEASON


























tristán & isolde - ernst fuchs




LESSONS IN LOVE’S SEASON


Cortar ao meio
a gota d’água
com uma adaga.

Cortar meus medos
com teu olhar
-canção de folhas-

Amar quem ama
Orwel e brownie
com igual ternura,

e lê pensamentos
tornando-os vivos:

Cenas no Café Express.

Lessons in love’s season
of a Jewish boy

That I love.

Bárbara Lia



Wednesday, February 08, 2006

o sorriso de leonardo




















-

O SORRISO DE LEONARDO


Bárbara Lia


Dissecar cadáveres
para buscar
a perfeita anatomia.
Libertar pássaros
nos mercados
da Itália renascentista.
Beleza clara
cabelos e barba
emaranhados
luz em desalinho.
Toga cor-de-rosa
levita na pele
suntuosa de gênio
-inocência serena-
Leonardo, in carbon,
copiando a própria beleza,
em sorrisos negados.
Sorriso de Leonardo
inauguraria um novo sol
aplacaria o brilho do astro.
-seu sorriso imaginado
seus quadros incendiados-
nos conduzem enquanto
vamos dissecando o verbo
com fúria encantada.
Desejo leonardiano
de libertar o poema
e revelar a musculatura
exata de cada palavra.

Sunday, February 05, 2006

ancorando estrelas

ilustração - claude théberge

ANCORANDO ESTRELAS


Sonhei com Dian Fossey.
Aquela que vivia entre orangotangos.
Comprarei um peixe dourado


e sorrirei para ele
no café da manhã.
Poetas são marinheiros,


a diferença é que seus portos são estrelas
e nunca ancoram
no meu coração – cais.


Aparição sonhada:
Teus olhos negros na soleira.
Seremos dois a sorrir para o peixe dourado.

BÁRBARA LIA




Sunday, January 29, 2006

karl e Norek



















Tristan - Claude Théberge



O ENIGMA DE MO-TSI
O filósofo Mo-tsi escondeu as palavras. Depois foi ao centro da cidade ver as pessoas que andavam de lá para cá, incomunicáveis. Sentiu remorso, pena, medo, pois até ele ficou mudo.
Pensou em libertá-las. Mas cadê a chave? Procurou entre as flores, nos olhos, no semáforo, no vento que levantava saias, e nada de palavras. Foi aí que percebeu que se as palavras não estavam por perto, pelo menos as coisas estavam, e decidiu morar em todas as coisas.
FERNANDO JOSÉ KARL (SC)- do livro - Cadernos de Mistérios - Letra D'água Editora.
*
*
NOTAS À MARGEM
6.Rezava um verso, ele não era meu, mas raptava todo meu amor em seus enigmas,
mais que suas luzes seus enigmas e eu só pensava em roubá-lo, roubar
o verso e ir pra Calicute, Serendipti ou qualquer destino de nome impronunciável,
tanto que lhe impedisse o aceso às almas não iniciadas,
almas que batem portas quando passam, àquelas que olhando a si mesmas
não vêem que delicadeza lhes estende um gesto. E por me disfarçar
na viagem, vesti o verso roubado até perceber que nele me tornara,
sua melodia na música de meus dias, seus silêncios em meu silêncio e
seu enigma em meus olhos, indelével marca. Agora, no meio do caminho,
Serendipti não existe, Calicute, ou que Oriente além de nunca termos sido –
Só esta lembrança de um verso que rezava um mistério, e nunca houve mistério
que não fosse eu – e o mais é uma lembrança de peixes
aos quais nada importa, o gélido futuro em que tornados fósseis
farão visada à poeira das estrelas
e seu olhar será apenas um oco onde se irá perguntar imagens tão belas,
imagens belas, abissais e belas, e sal e areia
e espuma.
ALDEMAR NOREK- Rio de Janeiro (RJ)

La nave va...

Não há mais céu - Poesia - Bárbara Lia

NÃO HÁ MAIS CÉU Não há dança que possa Salvar o mundo Do apocalipse Em conta-gotas Posso tocar A angústia das flores Em seu último suspiro A...