Friday, May 05, 2006

jornal rascunho




DEUS NO ORVALHO
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(para Jorge Luis Borges)
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Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.
BÁRBARA LIA
*
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O QUE ME PERTENCE
O que é maior que eu
faz parte de mim.
A chuva cabe no mar,
a areia no deserto. Sempre foi assim.

O que é maior que eu
abraço feito fosse Deus.
As coisas pequenas vazam.
Choro por elas, uma noite talvez.

No outro dia
sol clareia a alma.
Descubro o que é meu

para sempre. Os sonhos, as lembranças.
Nossos passos calmos na areia.
O riso dos meus filhos, isto me pertence.
BÁRBARA LIA
*
Celulose pura -consiste em publicar no blog uma sequência de poesias que foram publicadas em revistas e jornais não virtuais.
Como estes dois poemas que foram publicados pelo Rascunho em junho/2.003.
*

Monday, May 01, 2006

jamil snege







Na primavera do ano dois mil eu estava no burburinho da Rua XV, meio ao tumulto de um ano eleitoral. Parei para falar com alguém e quando olhei à direita, eu o vi. Recebi aquele momento como um presente. Mesmo que ele tenha morrido sem saber do meu olhar cheio de reverência. Ele estava saindo da Livraria Ghignone. De camisa azul clara social e calça jeans. Magro, com um cigarro na mão, com um charme fatal, displicente. Ele esperou um senhor que saiu da Livraria logo após, e seguiram pela Rua XV, conversando. Eu lembro de ter pensado, enquanto guardava aquele instante carinhosamente dentro da minha alma:
- Lá vai o Escritor!





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trecho da crônica A Arte de Tocar Piano de Borracha:



A historinha retrata com alguma maldade a nossa velha Curitiba de guerra. Um piano de borracha à sombra dos pinheirais. Se você quiser tocar, pode. Mas não vá exigir que alguém escute. Ninguém viu, ninguém ouviu e quem ouviu fingiu que não viu... que estranha surdez é essa que congela a sensibilidade da nossa velhinha de 300 e tantos anos? Vocês conhecem outra, de igual porte e mesma faixa etária, que se comporta assim... Temos de conviver com a dissimulada vovó de ouvidos moucos, um cobertor sobre os joelhos, a dormitar ao lado de um fogão a lenha apagado. Vovó-ogre, inofensiva apenas na aparência. O grande Octavio Paz, que jamais veio a Curitiba, parece tê-la pressentido quando encerra assim um de seus poemas. 'Falo sobre a cidade, pastora de séculos, mãe que nos engendra e nos devora, nos inventa e nos esquece.'
- Como tornar-se invisível em Curitiba (Criaredições)
JAMIL SNEGE


Jamil Snege morreu em maio de 2.003.



Recortado da revista Caros Amigos - Leo Gilson Ribeiro escreveu (é mais ou menos esta a palavra que traduz uma leitura de contos de Jamil Snege)
"...o curitibano Jamil Snege, que li perante uma platéia de duzentos e tantos alunos e alunas em Diadema, cidade-dormitório em torno a São Paulo. Lembro-me que uma grande parte dos estudantes universitários ficou siderada com os contos de Jamil Snege."
Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo.
Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994)
Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000)
lançados pela Travessa dos Editores, entre outras publicações.
Publicitário, um dos maiores em marketing político do País.

Sunday, April 30, 2006

À MEIA-NOITE CHORAREI / Bárbara Lia

























ILUSTRAÇÃO
- HOPE -
ROGÉRIO TERUZ


À MEIA-NOITE CHORAREI


À meia-noite chorarei
Por que sou poeta c
horarei
No sonho verei velhos amores
Pensarei no infinito finitO
E seguirei
Vez ou outra lembrarei
A voz do irmão caçula:
Esta estrela de Davi
na palma esquerda
Significa - protegida pelos céus

Eu não sou mesmo uma folha perdida
Nem fera ferida
Nem livro esquecido na estante
Sou uma maluca elegante
Que bebe a vida bebe a vida bebe a vida...
E segue sede gritante gritante
Mochila gasta atrelada às costas
Poesia minha bagagem
Sendo apenas compreendida
Pelos que fazem a mesma viagem

BÁRBARA LIA in "A Última Chuva"

Friday, April 28, 2006

ferlinghetti

























Leonardo Da Vinci


10.

Terrível
um cavalo em plena noite
sozinho atrelado
na rua silenciosa
e relinchando
como se alguém nu e triste
o houvesse molhado e cingido com pernas ardentes
e cantarolado
uma única sílaba
singela estridente e faminta.

LAWRENCE FERLINGHETTI
Um parque de diversões da cabeça.L&PM.
Tradução Eduardo Bueno.

Wednesday, April 26, 2006

Solidão Calcinada - Finalista do Prêmio SESC 2005

*

Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2.005
Romance
“Hoje está um dia morto”
Autor: André de Leones,
26 anos, de Silvânia, GO


FRAGMENTO DO ROMANCE "SOLIDÃO CALCINADA"

...
Sempre que pensava em Pietra via cenários antigos e rosas murchas em tapetes brancos, carruagens afastando-se meio à névoa, um espinho lacerando o dedo de uma donzela. Cenas de clássicos antigos, e sentia um nó na garganta. A mãe Serena, era uma figura em um cavalo, com um escudo invisível de segredos, uma lança apontada para o infinito, os cabelos soltos espalhados pela roupa transparente branca.
Ela era um Quixote moderno, uma deusa que Cervantes narraria com precisão e delírio. Ela não era Dulcinéia. Ela era o presságio daquilo que as mulheres se tornariam: As lutadoras do terceiro milênio, um sonho guardado na fenda dos seios, aquecido pelo coração.
Serena era a beleza mais nítida, ela inaugurava o antiromantismo, cravando em nosso tempo uma nova estátua, não mais Vênus de Milo, mas uma Diana, caçadora, audaz, cristalina e eternamente bela. Sentia saudades de Esperança, a avó Esperança, a mais normal das criaturas, a única que via os dias como esta gente comum que se levanta e vive e domina a rotina e não reclama. Ter uma avó normal permitiu à Bárbara viver, e crescer e ser alguém que sabe do porto seguro, da normalidade das horas. Esperança quieta como estes céus de inverno onde tudo brilha em silêncio espectral. Ela nunca saía de seu ritmo e quase nunca falava, só falava quando a neta precisava de carinho. Ou falava quando era outono, como se o sol frágil, a ausência de flores fosse preenchida pela necessidade de revelar a saudade...
BÁRBARA LIA

abril

Claude Monet:
















"Quando abril com suas chuvas gentis
ensopa as secas de março até a raiz..."

Chaucer



ABRIL


Cristal de fogo este sol de abril.

Felicidade ardida em oposição
à esta mágoa fendida.
Cerro negras cortinas,
na penumbra rasgo fotos
do passado.
Em rotação errada
nas paredes da memória

a mesma antiga declaração
dos homens sem imaginação:

"Bárbara Bárbara
Nunca é tarde
Nunca é demais”


Há que alguém me amar

sem desafinar letra e canção?
Como um barco sobre o Tejo,
como rosas se abrindo no chão.
Asas de colibri,
fogos de São João.

Uma canção
que não seja tarde;
nem demais.
Que seja abril
nada mais.

Bárbara Lia


Monday, April 24, 2006

transparência



















.

TRANSPARÊNCIA


No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.


Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.


Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.


BÁRBARA LIA

Pasolini






















Pier Paolo Pasolini

«O mundo ainda me foge, já não sei dominá-lo,
foge-me, ah, a cada instante que passa é diferente…
Outras modas, outros ídolos,
a massa, não o povo, a massa
decidida a deixar-se corromper
debruça-se agora para o mundo,
e transforma-o, mata a sede nos ecrãs,
nas televisões, horda impura que irrompe
com avidez pura, desejo informe
de participar na festa.»

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Pier Paolo Pasolini - Poemas
Assirio & Alvim


A SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE SÂO PAULO – BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE – COLÉGIO DE SÃO PAULO – APRESENTAM:

OS MALDITOS


Local: auditório da Biblioteca Mário de Andrade
– Rua da Consolação, Centro, São Paulo, SP
Datas e horário: às quintas-feiras,
de 23 de março a 18 de maio de 2006, às 19:30 h.
Inscrições e informações: tel. (11) 3256 5270, ramal 206, ou
kbocchi@prefeitura.sp.gov.br


27 de abril

Antonio Bivar – dramaturgo, narrador e ensaísta, autor entre outros das peças Cordélia Brasil e Alzira Power, e de O que é punk e Verdes Vales do Fim do Mundo, acabou de lançar Bivar na corte de Bloomsbury, ed. Girafa:


– Bloomsbury Babilônia
Roberto Piva – poeta, autor de Paranóia, Piazzas, Antologia Poétioca, Ciclones e vários outros livros, acaba de publicar Um Estrangeiro na Legião, volume 1 de sua obra reunida, pela Editora Globo.

-
Pasolini poeta maldito

Monday, April 17, 2006

Luzes de marfim

















Vincent Van Gogh


LUZES DE MARFIM


Agora a poesia segue

É só o que me segue, afinal
Sentidos de sol
Primaveras de cerejas

A tarde tocando teus cabelos
Brisa ao redor - teu lábio
Aquele beijo paterno
Na testa menina

Voos meus que seguiam borboletas
As belas horas tatuadas no espírito
Liberto do grito inútil

Fixado no etéreo, os sonhos
Flanando quimeras em asas de seda
O infinito aplaudindo em luzes de marfima

Bárbara Lia

- Estrada bifurcada, dúvida destas almas regidas por Mercúrio - ir prá Sampa ver minha irmã e amigos; ou isolar-me no sítio do meu irmão e começar a escrever um novo romance? Lá ou cá, sem acesso, vou dar um tempo no blog, enquanto os concursos não liberam os poemas todos, e romances, etc. etc. etc...

Friday, April 14, 2006

Sylvia Plath




























Electra on azalea path
(Electra na aléia de azaléias)
SYLVIA PLATH
Poemas extraídos da Biografia de Sylvia Plath - Amarga Fama (Anne Stenvenson).- Ed Rocco. Plath fêz uma correlação de seu nome Plath, com path - aléia.
In Plaster (18/03/61)
Jamais sairei disso! Agora há duas em mim:
Esta pessoa nova, absolutamente branca. e a antiga amarela,
E a pessoa branca é certamente a superior...
Sem mim ela não existiria, de modo que naturalmente estarei agradecida.
Eu lhe dei uma alma, desabrochei nela como uma rosa
Desabrocha num vaso de porcelana não muito valioso.
...
Electra on azalea path(1959)
Sou o fantasma de uma infame suicida,
Minha própria lâmina azul enferrujando em minha garganta.
Ó perdoa aquela que bate pedindo perdão no
Teu portão, pai - tua cadela, filha, amiga.
Foi meu amor que nos levou ambos à morte.
...
... Ó Deus, não sou como você
Em seu vazio negror
Estrelas fincadas por toda parte, brilhantes estúpidos confetes.
A eternidade me entedia,
Eu nunca a desejei...
...
... Saindo desta pele
De velhas ataduras, tédios, velhos rostos
Salto para você do carro negro do Letes
Pura como um bebê...
...

Monday, April 10, 2006

Dez anotações para não morrer de amor














Do filme Moça com brinco de pérola:
Scarlett Johansson (Griett) Colin Firth (Johannes Vermeer)



DEZ ANOTAÇÕES PARA NÃO MORRER DE AMOR.


1. Procuro um sábio antigo, tradutor de silêncios.
2. Te ouço como alguém que coloca um estetoscópio em nuvens.
3. Você é o pintor silencioso, ama com aquele olhar do pintor holandês Vermeer.
4. Você é uma tempestade silenciosa, que me molha noite e dia, dia e noite.
5. Ando perguntando ao pó... das estrelas, qual caminho seguir para não te ferir.
6. Curar minha síndrome de Raskólnikov de saias: perdoar meus grandes crimes e dizer que os castigos foram merecidos.
7. Só você mesmo para virar o disco, e lembrar meu nome com outra canção...
8. As mulheres sempre sabem pra qual corpo se perfumam.
9. E foram “felizes” para sempre - a gente raramente encontra na Literatura, só na vida real e na pasteurizada rotina.
10. Aprendi a te olhar com olhos de brisa.


BÁRBARA LIA
Do livro NOIR (edição independente/2006)

Saturday, April 08, 2006

pergunte ao pó














.

Meu conselho a todos os escritores novos é completamente simples. Eu adverti-los-ia: Nunca fuja de uma experiência nova. Eu incitá-los-ia a viver a vida cruamente, para atacá-la com bravura, para atacá-la com punhos despidos.
Arturo Bandini
(Pergunte ao Pó – John Fante)


Arturo Bandini, sempre com uma revista verde embaixo do braço - a American Mercury - para quem conseguiu vender um único conto. Este homem que toca acidentalmente as moças e desculpa-se, depois passa horas infindas imaginando-as a heroína de seu grande livro. As cores do luminoso do hotel em frente jogando cores em sua cama, ele batucando sua velha máquina, até o dia em que entra naquele café, até o dia em que Camilla Lopez se aproxima, com as sandálias de couro e a flor vermelha nos cabelos, com sua mexicana beleza entrando pela sua respiração, dominando Arturo.
Arturo do lado de fora do café vê seus poemas lidos entre risos para Sam, o Bartender que Camilla ama. Que não ama Camilla, pois ele – the american boy – não amaria uma menina da raça inferior, mexicana. Bandini e Camilla, o mar, Arturo e Camilla ao luar, nus enlaçados em uma manta, esquecidos do desejo. Camilla a menina rejeitada por Sam, que sumiu no deserto do Mojave, com o cão Pancho. Pergunte ao pó, o livro de John Fante, que seduz, e nos leva a caminhar em 1933, por Los Angeles, e que agora virou filme.
Preciso reler Pergunte ao pó. Preciso ouvir o coração de Bandini. Preciso caminhar pela noite e nadar nua ao luar, dormir enlaçada ao amor sem fazer amor. Preciso acreditar que um escritor pode e deve ser quem trafega a vida para colher o fogo, depois filtrar o fogo em noites insones... E o nosso amor sempre nos braços de outro. E o deserto sempre escondendo miragens.

Colin Farrel e Salma Hayeck estão em Ask the Dust. A dúvida é ver o filme, ou, não ver o filme. O livro que tocou tão dentro pode ser nublado por esta produção, ou não. Mas, ver o trailer e ver a câmera focalizar as sandálias de Camilla... O grito de desespero dele, ao pó que nada responde. Talvez se traduza no filme a poesia do amor de Bandini por Camilla, talvez o Mojave traga o calor, talvez magia na tela... quem
sabe?

Friday, April 07, 2006

Rua XV































Rua de pedestres de Curitiba - Rua XV - pintada por João Carlos Moreira

Comprei este quadro na Feira do Largo da Ordem, há mais de uma década, minha rua amada. Em 1.997 eu escrevi - Se essa rua, se essa rua fosse minha - uma crônica que recebeu menção honrosa da UBE-RJ (Projeto Orpheu). Minha vida passa por esta rua. Gosto dela vazia, na madrugada, geralmente com as pedras da rua molhadas. 
No site Cronópios tem um poema - Saudades de Marcos Prado - que fala do GRANDE poeta e dedicado aos seus herdeiros poetas tão belos quanto, e fala, de novo, da rua que corre nas veias de todos  os curitibanos, ou como eu, quase curitibana.

Thursday, April 06, 2006

Wednesday, April 05, 2006

Asas de Nietzsche



















ASAS DE NIETZSCHE

A essência da felicidade é não ter medo.
(Nietzsche)

Em urdidura silenciosa
escondem o pássaro
no crânio branco
-arapuca tétrica-
caveira fria.
Asas em valsa
coloridas de raios
que entram pelos olhos vazados,
e aquecem feito o fogo
e as papoulas
da primeira primavera.
Asas de pluma se ferem
no osso-cárcere, sangram;
asas metafísicas
voam céus de antes.

BÁRBARA LIA

cop8 mop3














Durante o mês de março Curitiba recepcionou delegados da ONU de mais de 180 países, e discutiu Biossegurança e Biodiversidade em dois eventos MOP3 (Meeting of the Parties), que discutiu biossegurança, com os 132 países integrantes do Protocolo de Cartagena, e em seguida a COP8 - Convenção da Biodiversidade que acontece a cada dois anos, desde a Eco - 92 o Brasil é o País chave para o futuro, que detém os maiores mananciais de água e o maior número de biodiversidade em sua natureza. Foi para mim um aprendizado estar lá, entre os jornalistas, participando do evento e enviando matérias para o jornal virtual - Vejo São José - da cidade de São José dos Campos, a pedido do jornalista Ricardo Faria.
Um resumo destes dias de evento:
http://www.vejosaojose.com.br/adeuskarugua.htm

Karuguá é arco-íris em guarani. Como o mineiro que entra nas entranhas da gruta e só então descobre se há ou não diamantes, estar dentro, enfronhada entre os representantes dos países, ongs, indígenas, lobistas, jornalistas, e personalidades. Perceber o fluxo da vida, as discussões, leva a um baque: não está sendo dada a merecida atenção a este tema tão sério. 
Adeus arco-íris. Foi o que pensei. Adeus arco-íris, se as coisas continuarem assim neste ritmo e com este descaso.

Saturday, April 01, 2006

EU TRADUZO A TUA RESPIRAÇÃO PARA O GREGO


















EU TRADUZO A TUA RESPIRAÇÃO PARA O GREGO

Em alfa respiras
Farfalhando o sigma
De  tuas asas.
Pelas avenidas
Teu riso-ômega
Altera o ar
Só Afrodite traduz
O que respiras e vives

BÁRBARA LIA



Imagem: Olga

Thursday, March 30, 2006

Bishop / Hilst




















--
Dali

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo,
aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

Elizabeth Bishop
- Fragmento do poema - O banho de xampu.
- tradução Paulo Henriques Brito.
Poemas do Brasil, Cia. das Letras, 1999 - São Paulo, Brasil

*

Colada à tua boca a minha
desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas
escomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te
sôfrega

Como se fosses morrer colado à
minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do
amanhecer.
Hilda Hilst

Saturday, March 25, 2006

Barco de Lia no rio de Cora




















hugo pratt


BARCO DE LIA NO RIO DE CORA



No escuro escrevo como quem
Adora
Teu olhar que o passado inteiro
Descora
Zero duplicado em infinito
Ancora
- Istmo - o oceano dos medos
Deflora
Rasga em amor, imprime a tatuagem
Canora
Seres do Olimpo a ressuscitar
Pandora
Amor - linha e linho - como Gil e
Flora
Teu, meu corpo banhado em tesão na
Aurora
Teus, meus versos banhados no rio de
Cora.

BÁRBARA LIA
Noir (2006)

Friday, March 24, 2006

Leonardo Boff

- Sustentabilidade e Ética - Frei Leonardo Boff.
Aprendendo no Fórum Global da Sociedade Civil, sentindo que a vida é muito mais. Frei Leonardo Boff findou falando do arco-íris, tomei a maior chuva na volta para casa e mal entrei em minha sala - que descortina um céu só meu - havia um arco-íris.



'SUSTENTABILIDADE E ÉTICA'

Frei Leonardo Boff

Dentro do Fórum Global da Sociedade Civil – Cujo lema é: Bem-vindo ao mundo real. Nesta manhã de quinta-feira, Frei Leonardo Boff fêz uma palestra cujo tema era – Sustentabilidade e Ética, quase toda a fala está reproduzida, de um pensamento lúcido e iluminado, que levou a platéia a um longo aplauso, ao final das palavras de Leonardo Boff:

Sustentabilidade está associada, nos últimos anos, ao tema – desenvolvimento sustentável. É como está nos documentos oficiais. Desde o começo esta expressão é um engodo.   Esta expressão associada à economia capitalista que se fixa sempre em três aspectos:
- aumentar a produção.
- potenciar o consumo.
- gerar riquezas.
Para isto ela devasta a natureza e cria desigualdades sociais. Esta economia consegue separar a economia da política, ética e sociedade. Agora a política é controlada pela economia, a economia é como um lobo no meio de ovelhas – devora. Explora de forma ilimitada o planeta Terra, de uma maneira devastadora e faz desaparecer 3.000 espécies/ano. Este sistema vive de duas ilusões – dois infinitos. Imaginar que os recursos são infinitos; e que podemos nos desenvolver infinitamente.
Jacques Chirac disse em Johannesburgo, no evento Rio + 10 – Se quisessemos universalizar este modelo, precisariamos de mais 3 Terras iguais a esta.
Jaques Lovelac, autor do livro – A vingança de Gaia – escreveu: "Ou nós mudamos ou vamos conhecer o destino dos dinossauros"
O ser humano com o sistema capitalista se comporta como um meteoro rascante que pode destruir vastas dimensões da natureza.
São assustadoras as revelações que estão detalhadas no Relatório de Avaliação Ecossistêmica do Milênio, encomendado pela ONU a 1.300 cientista do mundo todo, algumas conclusões como estas:
- As atividades antrópicas estão mudando de forma irreversível o cenário na vida do planeta Terra, é improvável que se sustente por muito tempo...
Cada dia mais pensadores, políticos e ecologistas se dão conta do que enfrentam... Nós seres humanos, ocupamos 83% do planeta e ocupamos devastando. Precisa-se de uma coalisão de forças ao redor de nossos valores. Um novo paradigma civilizatório. A forma atual vai nos levar a um impasse se não tomarmos medida agora, entre 2.030 e 2.035 a Terra não será mais sustentável, com mudança no clima e milhões de vitimas.
A palavra Ética nunca fez tanto sentido. Do grego – Ethos – que significa – A morada humana.
A casa humana não é nosso apartamento, é o planeta. A Ética tem que contemplar esta casa. Construimos uma máquina que pode destruir a espécie. Construimos 25 armas quimicas e biológicas, nós como espécie humana, podemos desaparecer.
Existem dois documentos que comportam este debate. Um documento é o Manifesto por la vida -  por una Ética por la Sustentabilidad,  E a Carta da Terra, que entre 1.992 e 2.000, envolvendo 42 países e populações, a partir de uma pergunta: - O que vocês querem da Terra? Este documento foi assumido pela UNESCO. Estes dois documentos se preocupam com alternativas. Uma Ética diferente da realidade, que nós aqui, em grande parte dos presentes compartilha:
- Visão holística de que não estamos sozinhos sobre a Terra. Todos os seres vivos usam este espaço.
- A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A terra é um super-organismo vivo e nos deu condições para que surgisse a vida e a reproduzisse. O ser humano é parte desta comunidade de vida, da bactéria originária, passando pelos dinossauros e colibris, até o homem possuem os mesmos 20 aminoácidos e 4 bases contastadas.
A missão do ser humano, como está no Gênesis, é ser jardineiro do éden. Especialmente nos últimos anos temos nos comportado como Satãs. Edmundo Wilson escreveu em seu livro – O futuro da vida: “Nós transformamos o Jardim do Éden em um matadouro”.
A Ética da Sustentabilidade é uma Ética para renovação da sustentabilidade da vida.
A nova Ética salvadora se funda em 4 Princípios e 4 Virtudes:
Princípios:
1.      Afetividade.
Dar centralidade à afetividade e à sensibilidade. Qual é a estrutura da base última do ser humano? A razão (logos) é a sua essência, mas a capacidade de sentir (pathos) é a estrutura da base do ser humano, é a afetividade. Somos empíricos, a primeira reação do ser humano em contato com a realidade é o sentimento, só quatro segundos depois é que a razão desperta. Sofremos uma lobotomia que nos impede de tomar medidas em benefício dos que morrem de fome.
2.      Cuidado
Tudo o que vive precisa de cuidado. Se o ser humano for abandonado depois que nasce – morre. A vida exige cuidado. Os ecossistemas, as águas. Até a própria morte exige cuidado, bem como a nossa espiritualidade. O projeto maior do Ministério do Meio-Ambiente é – Vamos cuidar do Brasil.
3.   Cooperação
Lei suprema do Universo. Dizem os cosmólogos e fisicos quânticos, contra Darwin – A cooperação é a lei suprema do processo da evolução. Tudo tem a ver com tudo. O mundo é feito de uma rede de relações, ninguém fica fora, desde os primeiros top-quarcs e átomos que se relacionaram, até os dias de hoje. Os ancestrais antropóides não comiam como animais, cada um para si. Eles dividiam entre eles, e foi a cooperação que desenvolveu a Humanidade.
4.  Responsabilidade
Dar-se conta da consequência de nossos atos. Com relação aos transgênicos, não sabemos o que pode acontecer em nosso organismo em contato com essas bactérias, os transgênicos podem atrapalhar o equilíbrio de nosso corpo. Quando algo se desestabiliza, recebemos sinais, e não sabemos se os transgênicos não podem alterar as bactérias que nos avisam da gripe ou de qualquer outro erro em nosso sistema interior.

Quatro são as virtudes necessárias a partir destes princípios:
     
1.      Hospitalidade
Emmanuel Kant em seu último livro – Paz Perpétua – foi o primeiro que pensou a globalização. Hoje existem trezentos milhões de refugiados por razões políticas no mundo, não recebendo hospitalidade, vivendo em navios, em acampamentos. A primeira virtude do ser humano – a hospitalidade.

2.      Convivência

Nós náo existimos. Nós coexistimos. Todos os seres possuem história, tem um jeito próprio de se relacionarem uns com os outros. Devemos pensar não só o pacto social, mas o pacto natural. A harmonia entre nós e a harmonia da natureza.  A Democracia não pode ser antropocêntrica, tem que ser sócio-cósmica. A cultura ocidental nunca teve abertura para o outro – a Hamburguerização do mundo.
Nossa cultura ocidental não se encanta pela diferença, ela a elimina.
      
3.      Respeito

Todos os seres são mais velhos que nós. 98% da Terra existia quando surgiu no cenário o ser humano. Nào estamos sobre os outros seres. Mas, na mesma casa. Albert Scheitzer o médico suiço que foi viver na África e construiu hospitais, grande pensador, que deixou esta lição – Ética é responsabilidade por tudo que existe e vive, pois tudo que existe e vive merece ser respeitado.

4.      Comensalidade

Poder comer. Poder sentar à mesa e desfrutar do que a Terra dá. Sermos comensais. Enquanto os seres humanos não tiverem a garantia da comensalidade, não vamos ter sustentabilidade.

Estes princípios fundam uma nova espiritualidade. Um novo sentido de vida. Uma nova cultura de paz. A paz perene, grande anseio do ser humano, que está longe de ser alcançada. Mas, que pode alterar a vida na terra, em um arco-íris que vai cobrir a todos. Como está escrito – Quando virdes este sinal, nunca mais o dilúvio.




 Bárbara Lia para o site Vejo São José

Friday, March 17, 2006

Garcia Lorca




Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana...
(Garcia Lorca)

La nave va...

Não há mais céu - Poesia - Bárbara Lia

NÃO HÁ MAIS CÉU Não há dança que possa Salvar o mundo Do apocalipse Em conta-gotas Posso tocar A angústia das flores Em seu último suspiro A...