Wednesday, September 06, 2006

Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.






























Michel Sleiman, lendo fragmento do poema longo "Um túmulo por Nova York", do poeta Adonis. 
Ao fundo uma sala árabe, com tapetes, almofadas, o narguilé.

Mínimo fragmento da poesia - Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.



"Aqui
no lado musgoso do rochedo do mundo, o único a ver-me é um negro a ponto de ser morto ou um pássaro a ponto de morrer. Pensei:
planta em vaso vermelho em metamorfose enquanto me afasto do umbral, e li:
sobre ratos em Beirute e outras localidades pavoneando-se na seda da Casa Branca, a armar-se com folhas e a roer os humanos,
sobre porcos restantes no jardim do alfabeto a pisotear a poesia"


diwan



A platéia - o poeta Adriano Smaniotto em primeiro plano, o sheik de Curitiba, à caráter e o outro sheik - seu convidado.

diwan


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DIWAN - PAZ PARA A ROSA ENTRE TREVAS E POEIRA
04.09.06
Alaúde - Jorge, um mestre.

Tuesday, September 05, 2006

uma nuvem na minha mão

Rouca de aulas e recitais, sem voz, mas sabendo que poemas devem estar ainda valsando as paredes enormes do local do recital. Percebi esta noite de ontem em mim um horizonte aberto. Lembrei de aconchegantes concertos de palavras, as noites do porão, as poesias dos bares. Ontem, foi uma experiência diferente, miscigenada com outra cultura, com um enredo de areias e algumas lágrimas, com erotismo que valsa no sangue árabe, com poetas de várias idades e raças, com música de alaúde e com direito a uma elegia escrita pelo sheik para a primeira família assassinada no Libano, neste último confronto. Noite árabe, de quem se dispôs a enfrentar a fria noite e ouvir o som das cordas santas, dos poços com lua dentro, da poesia flanando entre trevas e poeira. Beirute - flor sonora.
Breve terei as fotos da noite de poesia e música árabe na gelada noite de quatro de setembro.





UMA NUVEM NA MINHA MÃO

... O lugar estava preparado para seu nascimento: um monte
feito com o manjericão dos avós, dando a leste e oeste. E uma oliveira
perto de outra nos livros sagrados, a elevar os limites da língua...
e fumaça lápis-lázuli a arrumar este dia por algo
que só interessa a Deus. Março é criança
mimada. Março espalha algodão nas
amendoeiras. Faz banquete da malvinha para o pátio das igrejas.
Março é terra para a noite das andorinhas, e para a mulher
prestes a dar o grito nas pradarias... e estender-se nos
carvalhos.
MAHMOUD DARWICH (fragmento de um dos poemas de ontem)

Sunday, September 03, 2006

diwan

TEMPO DE POESIA
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DIWAN
PAZ PARA A ROSA ENTRE TREVAS E POEIRA
POESIA E MÚSICA ÁRABE
DIA 04/09/2006- 20H
SOCIEDADE BENEFICENTE MUÇULMANA DO PARANÁ
Rua Kellers, 473 – Alto São Francisco - fone – 3222.4515
CURITIBA - PR
Adriano Smaniotto, Alexandre França, Bárbara Lia, Maria de Lourdes Jaude, Michel Sleiman lerão poesias de poetas e escritores árabes: Adonis, Mahmoud Darwich, Milton Hatoum, Nizar Qábanni, Waly Salomão, entre outros.
Raduan Nassar (em vídeo)
Música árabe (Alaúde)
informações- barbaralia@gmail.com / mesquitaimamali@yahoo.com.br

Saturday, September 02, 2006

Darwich
























Mahmoud Darwich - poeta palestino (1.942-)

- Na noite de poesia e música árabe, lerei poesias de Mahmoud Darwich, e o escasso tempo nestas semanas, deixou em suspenso a tradução de uma poesia - O inverno de Rita - Rita, a amada judia de Darwich, um longo e belo poema, com um fragmento abaixo. Esta poesia não irá ao recital, quem sabe em uma próxima noite.
O Diwan (lugar onde a poesia se reúne, ou recital - em árabe), será uma noite de revelação da cultura árabe, de poetas e escritores contemporâneos. Evento possível graças à disposição de Michel Sleiman em acessorar de longe os preparativos, e à boa vontade do jornalista Omar Nasser, e dos membros da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná, ao sim que me foi dado pelos convidados, mesmo os que não puderam aceitar meu convite por conta de seus trabalhos, me apoiaram de outras formas. Dia quatro, o evento, com o apoio da Sociedade Muçulmana, da Igreja Cristã Ortodoxa São Jorge de Curitiba, e do Instituto da Cultura Árabe de São Paulo.


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.www.icarabe.org
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O inverno de Rita (fragmento)
...minha linguagem é feita de fragmentos
semelhante ao pensamento de uma louca, e dos cavalos que se suicidam
no final do hipódromo.

Rita bebe o chá matutino
e a primeira maçã com seus dez lírios
Me diz:
Não leia agora os jornais, os tambores são os tambores
e a guerra não é meu ofício. Eu sou eu. Tu és tu?
Eu sou
o que te vê qual gazela atirando suas perólas
o que vê seu desejo correndo atrás de ti qual torrente,
o que nos vê perdidos em unicidade sobre a cama
e em divergência, como a despedida dos desconhecidos no porto. O exilio nos leva
em seu vento, como folhas, e nos atira em hotéis de estrangeiros
como cartas lidas depressa.
Me levarás contigo?
Serei o anel de teu coração despido? Me levarás contigo?
Serei teu traje em países que te criaram para derrubar-te
serei um cofre de boa erva que levarás em tua morte
e tu serás meu, vivo ou morto.
O guia está perdido, Rita,
E o amor, como a morte, é uma promessa sem devolução ou prazo de validade.

Rita me prepara o dia
qual perdiz que ondula acima em seus sapatos de salto alto.
Bom dia, Rita,
e nuvens azuis para os jasmins de tuas axilas.
Bom dia, Rita.
e frutas para a luz da manhã. Rita, bom dia.
Rita, retorna a meu corpo para que as agulhas
dos pinhos descansem um pouco em meu sangue abandonado. Sempre que
abraço a torre de marfim, fogem de minhas mãos as pombas.
Ela diz: Regressarei quando os dias e os sonhos mudarem. Rita. É longo
este inverno e nós somos o que somos.
Não tome palavras para dizer
eu sou,
essa que vendo-te pendurado em uma cerca, abaixou-se junto a ti e vedou tuas feridas.
Com sua lágrima te lavou, antes de cobrir-te de açucenas,
e passastes entre as espadas de seus irmãos e a maldição de sua mãe. Eu sou eu e ela.
Porém tu és tu?
...
Mahmoud Darwich
(tradução para o espanhol - Maria Luisa Prieto - para o português - Bárbara Lia)

Sunday, August 27, 2006

um poema

verde água
lava & enxágua
a m’água
me faz leve – grua -
origami na tua pele nua
até Allah, do outro lado da rua,
dá uma trégua
dentro do verde água
nosso amor flutua
apaga lampiões, acende a lua
verde água
verde água
a cor da doçura tua.

BÁRBARA LIA

Friday, August 25, 2006

Frei Betto


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... fui jogado num cárcere, ainda em junho de 1.964. O que passa pela cabeça de um jovem de dezenove anos, leitor de Kafka e Erich Fromm, admirador de Franz Fannon, e que marcha diante do prédio do consulado americano, no Castelo, gritando "Yankes, go home!", e se dessenda no Teatro Opinião, em Copacabana, embebendo-se de arte?
Todas as prisões políticas são igualmente cruéis e ridículas. Sócrates foi prisioneiro político, acusado de corromper os jovens e desacreditar os deuses. Todos os prisioneiros políticos, desde então, receberam a mesma acusação, não há exceção. Mesmo Jesus andava seduzindo um grupo de jovens com quem partilhou sua última refeição e ao qual proferiu a mais radical confissão atéia: negou a divindade de César e o caráter sagrado do Templo, e proclamou que ele, o pobre de Nazaré, filho de carpinteiro, era o Messias.
Todos somos discípulos de Sócrates, nós, que antepomos os jovens ao velho mundo, à velha ordem, e negamos os deuses de conveniência do mercado.
Nem tudo, entretanto, era sombrio. Naqueles idos de nouvelle vague e Marilyn Monroe, de Oscarito e Grande Otelo, havia a festejar as derrotas do Império: Os vôos do Sputinik, o êxito da Revolução Cubana, os barbudos descendo sorridentes Sierrra Maestra, o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, a surra levada pelos americanos no Vietnã, a revolução musical dos Beatles, o maio de 1968, o corpo ostentando a sua carta de alforria, o velho mundo chegando a seus estertores. E eu era parte do futuro, artífice de uma história implacável, irreversível, o alvorecer de todas as esperanças. Che abandonou seu cargo de ministro, as loas do poder, e anônimo, meteu-se no Congo e, em seguida nas selvas da Bolívia. Pulsava célere o coração da América Latina: um, dois, três Vietnãs!... Em minhas mãos, modelava-se o feto de um novo mundo, o imperialismo agonizava a olhos visto, e em seu enterro eu estaria lá para jogar o meu punhado de terra...
A MOSCA AZUL - pg. 33, 34 - Ed Rocco - FREI BETTO
. A Mosca Azul é uma reflexão sobre o poder. Hoje é aniversário de Frei Betto, dominicano, ativista dos Direitos Humanos, escritor.

Thursday, August 24, 2006

nosso aniversário

Amor Bastante


quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Paulo Leminski


ALHAMBRA

Grata la voz del agua

a quien abrumaron negras arenas,
grato a la mano cóncava el mármol circular de la columna,
gratos los finos laberintos del agua
entre los limoneros,
grata la música del zéjel,
grato el amor y grata la plegaria
dirigida a un Dios que está solo,
grato el jazmín.

Vano el alfanje
ante las largas lanzas de los muchos,
vano ser el mejor.
Grato sentir
o presentir, rey doliente,
que tus dulzuras son adioses,
que te será negada la llave,
que la cruz del infiel borrará la luna,
que la tarde que miras es la última.
Jorge Luis Borges, Granada, 1976

*

Leminski e Borges nasceram em um dia 24 de Agosto,  como eu.
*

Meus presentes são presenças - uma rosa branca do Cairo e uma brisa mediterrânea (duas filhas dormindo no quarto ao lado). Este ombro do centauro que me guia. Pensar que o vigiei quarenta dias naquela UTI pediátrica e que um quilo de vida se transformaria em meu guardião-amigo-vida e fonte. O filho caçula. Pensar que me esqueço que hoje ele não vai à escola e o acordo tão cedo. Ele nada fala, ele diz sempre com aquela calma de amor...
-  Feliz aniversário, mãe! Deita um pouco aqui, descansa.
Deito em seu ombro direito, ele me beija a testa, assim, como me beijava meu pai. Saudades do beijo paterno, do homem que me nominou Bárbara, e me fez guerreira, e livre. Saudade de outro ombro, o esquerdo onde pousei ouvindo um outro coração, desritmado, o êxtase no olhar, meu presente adiantado. Dois ombros, uma saudade, a brisa e a rosa, dormindo ao lado.

Bárbara Lia,
 24.08.2006

Monday, August 21, 2006

Borges



















O LABIRINTO

Este é o labirinto de Creta. 
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. 
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. 
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. 
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.

JORGE LUIS BORGES
tradução de Miguel Angel Paladino

Friday, August 18, 2006

michel sleiman

Antimônio


Pego-me a colher o eco da onda quebrada já sem espuma
no instante sem tempo entre o escuro e o primeiro raio
pedra bêbada da água marinha
gasta mas ainda sedenta por cantoria
do ir-e-vir do grande ventre do mar, fêmea prenhe
ferida pelos dentes de Netuno.

Ó mar de esbelta figura
acossada pela loucura do sal excessivo...
queriam-te a concha do molusco
a escama do peixe
o couro da baleia
a areia a calçar o leito do monte invertido no fundo
queriam-te...

Manhã.
Foi levado à escola
- forçoso rito da civilização.
Levado no colo da menina guardiã.
Ali, no mar desencontrado das ondas
dos anfíbios sobre rodas...

deixou-se ir por tais ondas
a ouvir a sereia nas cordas dos anjos

o menino Tiago de 30 meses
confundiu o sangue na baba do mar

Ó mar queria-te a lágrima de Iemanjá riseira...
Por que Antígona ali assaltou a cidade

grito engolido pelo freiar no asfalto?
Michel Sleiman

Michel Sleiman leciona Literatura Árabe na USP.


Conheci Michel na UFPR em 2.004 em um curso universitário sobre Cultura Árabe, e o diálogo poético prosseguiu. Ontem quando recebi um e-mail contando sobre a morte de seu sobrinho Tiago, aqui em Curitiba, fiquei triste. Em julho estávamos um tanto preocupados, era o início da invasão do Libano, mas, havia sol na praça Santos Andrade, pude rever meu amigo que estava aqui visitando os familiares. Agora tem uma chuva em Curitiba, penso que é uma benção para a cidade esturricada, também é um rio de lágrimas pelo amigo poeta e por sua família enlutada.

Tuesday, August 15, 2006

no banheiro um espelho trincado




























DE NEUSA SUELI PRA VADO, CARINHOSAMENTE

Baseado na peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos


não me importa, Vado, que você ande com outras putas
enquanto cato pulga na cama
como quem tira bolinha do velho suéter
cheirando a veneno pra baratas
enquanto cato
pela manhã após a lida
migalhas de pão dormido
humanamente possível graças
a um gole de café preto requentado

migalhas que junto
minuciosamente
que nem uma carreira pra você
carinhosamente
sobre a mesa nua
rabiscada de desenhos obscenos e palavrões
feitos em dias felizes
com esmalte de unha e faca de espalhar manteiga

dias felizes em que você
de cueca camuflada e botas de vaqueiro
me dava pontapés nas canelas
me pegava pelos cabelos e...

Vado, serei sempre a sua puta
a mais velha delas
um exemplo

Sérgio Mello

(Ciência do Acidente, 2.004)


caim

Monday, August 14, 2006

Elegia tardia



O pai abrindo a cripta pequena
- Branca-
Apoiada em seus joelhos
No terceiro degrau da escada
Escura
- Venham dizer adeus ao irmão!
Pedro nunca entrou na nossa casa;
Pedro nunca saiu do meu coração

A mãe procurando a tosca cruz
O coveiro confirmando o despejo
Pedro virou pedra revirada
Despejados os seus ossos
Com mortalha de nuvens e tudo
A mãe sugada
- Olhar de pedra fria-
No redemoinho da certeza
Da iniquidade da pobreza

As estrelinha fraturadas
Que me espiam em noites
De êxtase ou de amargura
São ossinhos de Pedro
- O anjo despejado -


Bárbara Lia

Saturday, August 12, 2006

AS ROSAS MORTAS A ME CONTEMPLAR






Quando eu era menina
tinha medo da cortina
que lembrava
o quintal do mal.
Era adornada de pecado,
rosas em gritos menstruais
sangrando folhas descomunais.
Durante o dia, eram bizarras;
na noite me assombravam
formando rostos
na contra luz da lua azougue.
Eu farfalhava no colchão,
cerrava os olhos,
me encolhia em posição fetal.
Nunca disse à irmã ao lado,
nem à mãe
(que trocaria a cortina, para minha paz).
Eu nasci de frente para os fantasmas.
Contemplo.
Não expulso.
Não acendo a lâmpada.
Enfrento.
No quarto escuro
(agora da alma)
os mil rostos
de rosas mortas
a me contemplar.

BÁRBARA LIA
O sal das rosas
Lumme editor

Monday, August 07, 2006

Stuart Angel






















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Stuart Angel


Quando Stuart Angel entrou para a luta armada eu vivia no paraíso - um quintal com árvores frondosas e balanço, o poço, o casarão negro da avó e poemas atirados dia e noite, lambendo paredes. Do amor, eu sei que ele é profundo, pois meu pai recitava Gonçalves Dias:

I.

Emfim te vejo! — emfim posso,
Curvado a teos pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pezar de quanto soffri.
Muito penei! Crúas ancias,
Dos teos olhos afastado,
Houverão-me acabrunhado,
A não lembrar-me de ti!



Havia a ira de Castro Alves em poemas épicos. Havia uma indígena calada que preferia as novelas do rádio aos recitais de sua sogra e de seu marido - minha mãe. Havia o irmão que me ensinou a ser goleira e a lama em que a gente se atirava, pois era vital salvar o gol, pular enquanto o sol nos cobria de vermelho morrendo, sem eu saber que morriam muitos sóis de esperança, na pele de meninos guerreiros, que acreditaram um dia, com toda fé que existe, que poderiam mudar o mundo... Havia uma varanda onde a cadeira de balanço rangia e acordava as estrelas. Havia uma biblioteca onde eu me escondia e lia, lia, lia, enquanto ia me embriagando com o cheiro de canela, esperando os bolinhos de chuva, a primavera da minha vida.
Meu pai comemorou o assassinato de Marighela - Um comunista a menos! Ele disse. Não havia razão para que eu gravasse tão nitidamente estas palavras quando ele ouvia a notícia naquele rádio Semp que ficava acima de nossas cabeças onde minha mãe ouvia a Ave-Maria, deixando sempre ao lado um copo de água e uma fé que até hoje não entendo. Meu pai dizia que eles eram terroristas. Eu não sabia que os "terroristas" seriam meus irmãos de sonhos, não sabia que um dia o Frei Vermelho, seria meu amigo.
Stuart Angel teve uma das mortes mais sórdidas de todas as mortes sórdidas do tempo da ditadura. Zuzu Angel foi a única que nunca desistiu de punir os assassinos. Nenhum regime de governo deve dar aos governantes o direito de passar por cima dos Direitos Humanos. Zuzu sabia disto. Por muito tempo acreditei em alguma tolice que li em um desses jornais ou revistas tipo Veja, que Stuart não era um militante e que foi preso por que sua mulher Sonia era do Partido Comunista. Via nele um mártir e não um guerreiro. Por muito tempo eu tive uma imagem distorcida de Tuti, como Zuzu o chamava. Por muito tempo eu não conseguia pensar na crueldade que foi a morte dele sem ter pena da raça humana.
Vi o filme, e fiquei com a canção do Chico uma noite um dia, ecoando, ecoando.

Zuzu Angel - dirigido por Sérgio Rezende, com Patrícia Pillar (Zuzu Angel); Daniel Oliveira (Stuart Angel); Leandra Leal (Sônia); Luana Piovani (Elke Maravilha); Paulo Betti (Carlos Lamarca); Nelson Dantas (Antônio Lamarca); Antônio Pitanga; Elke Maravilha. 

No filme, resgataram alguns atores do filme Lamarca. Eu confesso que não sabia que as torturas que aniquilaram Stuart era para que ele confessasse o paradeiro de Lamarca e a cena tocante de Zuzu visitando o pai de Lamarca traduz a impotência diante do poder. Nelson Dantas em uma interpretação sublime, os grandes também morrem. Mas, antes nos dão lições, Nelson Dantas era grande.
Descobri uma foto do Stuart, pois Daniel de Oliveira é apenas o ator, excelente, magnífico, no entanto, breve ele estará incorporando meu amigo Frei Betto em Batismo de Sangue. Antes, ele foi Cazuza... É preciso lembrar os rostos verdadeiros, o jeito calmo de Stuart. Foi assim que ele foi mostrado no filme, uma vida cortada na raiz, como tantas outras vidas.

Friday, August 04, 2006

DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL - BÁRBARA LIA - O SAL DAS ROSAS



 

Testamento enterrado

À sombra do roseiral:


Deixo meu violão para a balconista da padaria

A erva benta para a velha do sobrado

A chaleira que chia Villa-Lobos

Para Frei Gustavo, que costura almas

Nas manhãs de quarta

O livro de poesia de Augusto dos Anjos

Para o cobrador do expresso 022


Assinado: A menina dos olhos tristes

Chico me chamava de Carolina

Mas era só um disfarce

Sou eu a menina

Que viu o tempo passar na janela

Sem ver


Bárbara Lia
O sal das rosas
Lumme Editor


Thursday, August 03, 2006

Orgasmos de íris - Bárbara Lia




Teus olhos enlaçavam os meus
Em orgasmos de íris
Inflorescência de estrelas

Sempre acordo antes do sol
Agora - que comecei a te amar -
Amanheço antes que o dia

Espanto as Bacantes gélidas
Que seguem o perfume da tua pele -
lírio do recomeço -

Pedras destilam a bílis
E a mágoa vai vazar em áridas notas
De um blues sem juízo

As sapatilhas – talismã – azuis
Seguem-te em paralela senda
A dez centímetros e um véu

O mar recua ante teu passo
Estátuas vertem suor ao teu lado
Dentro o sol não te permite sombra

...E teus olhos enlaçavam
Meus olhos
Em orgasmos de íris

BÁRBARA LIA
NOIR
Edição da autora 

Wednesday, August 02, 2006

ICARABE

Encontrei esta carta, publicada no site ICARABE. Senti uma ternura ao ter este pensamento - que os artistas são sempre os que libertam os pássaros brancos, como se os artistas traduzissem uma vontade acima, um degrau acima, uma esperança que ninguém vê:

CARTA AOS CINEASTAS PALESTINOS E LIBANESES


Na ocasião da abertura da Bienal do Cinema Árabe em Paris (22 de julho de 2006)
Nós, cineastas israelenses, saudamos todos os cineastas árabes reunidos em Paris para participar da BIENAL DO CINEMA ÁRABE. Por intermédio de vocês, queremos enviar uma mensagem de amizade e solidariedade aos nossos colegas Libaneses e Palestinos que estão atualmente acossados e sendo bombardeados pelo exército de nosso país.Nós somos categoricamente contra a brutalidade e a crueldade da política israelense, intensificadas ao máximo nas últimas semanas. Nada pode justificar a continuidade da ocupação militar, do cerco e da repressão na Palestina. Nada pode justicar o bombardeio de populações civis e a destruição das infraestruturas no Líbano e na Faixa de Gaza.Permitam-nos dizer a vocês que os seus filmes, aos quais fazemos tudo para assistir e circular entre nós, são muito importantes para os nossos olhos. Esses filmes nos ajudam a conhecer e a comprender vocês. Graças a esses filmes, os homens, as mulheres e as crianças - que sofrem em Gaza, em Beirute e em todos os lugares em que nosso exército exerce sua violência - , têm, para nós, nomes e rostos. Queremos agradecer-lhes por terem feito esses filmes. E também encorajá-los a continuar a filmar, apesar de todas as dificuldades.No que diz respeito ao nosso trabalho, mantemos o compromisso de expressar - por meio de filmes, de ações pessoais e de voz elevada - , nossa oposição categórica à ocupação militar israelense. E de expressar também nosso desejo de liberdade, justiça e igualdade para os povos da região.
Nurith Aviv / Ilil Alexander / Adi Arbel / Yael Bartana / Philippe Bellaiche / Simone Bitton / Michale Boganim / Amit Breuer / Shai Carmeli-Pollack / Sami S. Chetrit / Danae Elon / Anat Even / Jack Faber / Avner Fainguelernt / Ari Folman / Gali Gold / BZ Goldberg / Sharon Hamou / Amir Harel / Avraham Heffner / Rachel Leah Jones / Dalia Karpel / Avi Kleinberger / Elonor Kowarsky / Edna Kowarsky /Philippa Kowarsky / Ram Loevi / Avi Mograbi / Jud Neeman / David Ofek / Iris Rubin / Abraham Segal / Nurith Shareth / Julie Shlez / Eyal Sivan / Yael Shavit / Eran Torbiner / Osnat Trabelsi / Daniel Waxman / Keren Yedaya

Monday, July 31, 2006

Vinícius



















"A arte não ama os covardes"


"Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?"


Vinícius - simples assim - Vinícius apenas, o corpo todo que ri a alma toda que voa o coração que não cessa de amar, infinito sempre, olhar que acende lá no fundo do poeta a luz-farol da busca, pescando musas pela vida, amando-as enquanto há amor para dar, procurando - a eterna primavera prá só depois morrer - foi feliz? como chico diz no documentário, a felicidade... se o fosse não buscaria em ânsia embebida em uisque o amor. O que se tem ao final do filme VINÍCIUS é um desejo de VIVER, de viver a poesia, mais que escrevê-la viver na noite na boêmia na indignação na partilha, quem disse que um boêmio não pode escrever em refinada dor uma Rosa de Hiroshima, um Orfeu Negro, um canto de beleza aos orixás, quem diz que um boêmio não sabe que o homem é acima de tudo quem olha e fica indignado, que se magoa, que chora de saudade do primeiro amor, que na velhice ainda diz de quantas vezes teve vontade de bater à porta daquela que foi entre todas as amadas a mais amada e pedir um colo - orgulho de dois lados pode destruir mesmo um paraíso - e o medo, ele teve medo, ele disse. Lindo Vinícius, me fez ter vontade de balançar na lua, aquela lua em formato de rede de luz, aquela lua que por vezes me acena como se valsar no universo infinito fosse possível, dormir ao som do bandolim das estrelas, lembrar o tempo em que tínhamos um violão uma saudade e uma garota de Ipanema, e um poeta, sem frescura, um poeta na carne, na alma, na ânsia de vida que vida sem ânsia não é nada.
*
Medo de amar

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor

Vinícius de Moraes

Direção: Miguel Faria Jr. Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos, com colaboração de Eucanaã Ferraz Produção: Miguel Faria Jr. e Susana Moraes
Elenco
Camila Morgado/Ricardo Blat/Renato Braz/Yamandú Costa/Adriana Calcanhoto/Olívia Byington/Mônica Salmaso/Mariana de Moraes/Zeca Pagodinho/Mart'NáliaMS/ BomNego JeffLerov/Antônio Cândido/Caetano Veloso/Carlos Lyra/Carlinhos Vergueiro/Chico Buarque/Ferreira Gullar/Edu Lobo/Francis Hime/Georgiana de Moraes/Gilberto Gil/Luciana de Moraes/Maria Bethânia/Maria de Moraes/Miúcha/Susana Moraes/Tônia Carrero/Toquinho
O elenco e Chico Buarque lindo e descontraído e recordar Vinícius, só isto já faria valer a pena, no entanto, todo o resto é mesmo um banho de desejo, de viver... VIVER! Saravá, Vinícius!



Friday, July 28, 2006

memórias de uma gueixa































Memórias de uma gueixa - baseado no livro de Artur Golden.
"uma gueixa é uma obra de arte em movimento"
O jardim oriental e as cerejeiras. Aléia de bambus. Os vapores do chá. O amor contido, guardado entre a seda do quimono por uma vida. A guerra que destrói a beleza. A sutileza inteligente provando que a beleza é papel de arroz e estraçalha e deve ser apenas o complemento daquela banhada na sabedoria adquirida, roubada da dor, rasgada por entre as frinchas dos sonhos. Uma poesia o cenário, os gestos e a música oriental, uma história que deve me ensinar a amar silenciosamente.
Memórias de uma gueixa ganhou 3 Oscars, nas categorias de Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Figurino. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Edição de Som. Ganhou Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado na categoria de Melhor Atriz - Drama (Zhang Ziyi)

La nave va...

Meus livros

  https://www.editoracloe.com/product-page/50-poemas-escolhidos-pela-autora https://editorakazua.net/ https://www.loja.prosanova.com.br/olho...