Wednesday, October 04, 2006

Sol no cio




SOL NO CIO
(p/minha mãe)

A mulher coloca a laranja-da-terra no orvalho.
Corta o mamão verde em talhos,
esquenta o tacho em ternura e açúcar.
Mexe até que torne
sol transparente no cio
ou verde-éden passeando no céu da boca.
Também ela, translúcida e doce.

Minha transparência retira véus e inaugura farpas...
Não sei tornar frutas verdes em delícias vítreas.
Não deito no fogo o espírito indócil.
Não aprendi com ela
a deixar as dores de molho no orvalho,
a calar as palavras que derrubo no mais amado,
como um branco leite de fogo sem juízo.

E isto é tudo o que sonho:
Ser bela morena ao redor do tacho,
mudando o duro amargo das frutas e das horas
em verde-éden passeando no céu da memória,
e sol no cio desnudando labaredas de açúcar.

BÁRBARA LIA
- do livro "A Última Chuva"

Monday, October 02, 2006

noir


NOIR

Pombas bebem fagulhas
do sempiterno encanto
nas pedras do Largo da Ordem.
O vidro do Memorial
reflete uma imagem
- Homem de negro
com violão nas costas –
Cristal líquido do meu gozo
impregnado em pedras.
Pássaras tontas
bicando o céu no chão.
O vento executa Bach
e eterniza a imagem

(Noir)
no vidro

transparente e alto
da armação.

BÁRBARA LIA


NOIR
edição do autor.
Ilustrações da artista plástica - Ane Fiúza - baiana radicada em Curitiba, que estuda na Faculdade de Artes do Paraná. Lançamento em data a ser definida na segunda quinzena de outubro, quem não mora aqui na fria cidade e desejar adquirir NOIR, enviar e-mail para a poeta - barbaralia @gmail.com

O sal das rosas










O SAL DAS ROSAS

Leito de um rio de sal.
Cresce em mim
o desnecessário.


Apodreço em rosas.
Rio sem foz.
Lua duplo espelho
no coração das águas.


Lembranças,
esperanças.
Naufragam abraçadas
no involuntário rio
onde acordo.


BÁRBARA LIA

http://www.lummeeditor.com/

O Sal das Rosas, livro de poesias que condensa a produção poética da Bárbara Lia entre 2.002 - 2.005. Em fase de produção. Lançamento previsto até o final do ano, segundo o editor Francisco dos Santos. Algumas poesias já foram publicadas em revistas literárias, outras são inéditas. Tenho três filhos lindos - literalmente falando - tenho três "filhos-livros" lindos, da mesma forma. Dia de apresentar a família. A poesia - Mãos de abrir nuvens, postei abaixo para a Rebecca que não tem como adquirir "O Sorriso de Leonardo", também para o Azuma, que ficou sem a edição do meu primeiro livro de bolso que esgotou. Agora é torcer que logo possa acontecer os lançamentos dos irmãos caçulas - quase - gêmeos - um filosófico, pleno de interrogações (O sal das rosas), o outro passional, pleno de amor (Noir).

Mãos de abrir nuvens - Bárbara Lia - O sorriso de Leonardo























Ter mãos de abrir nuvens
Romper o velcro de baunilha
E espiar
Dentro a catedral
Dos sonhos
Um rito de encanto
Crianças e lagos
E mapas emaranhados
A Sexta Avenida
Deságua no Eufrates
E as barcas cruzam
De Bagdad ao Mojave
As mãos se enlaçam
Negras brancas
Amarelas azuis.

Ter mãos de abrir nuvens
Descobrir a alma de neve
E perfume
Que se fazem
Pássaros
Camelos
Bailarinas.

Quem possui mãos de abrir nuvens?
Quem rega pedras
E pesca pássaros
Em tempestades
E ancora no alto
Da montanha mais alta
Suas caravelas.

Quiçá Penélope,
Sem manto, grilhões e espera.
A abrir nuvens
Além da torre de concreto
Em pleno azul
Entre a brancura espumada.
Mãos de mulher livre
A abrir o velcro
Da humanidade encantada.

BÁRBARA LIA


O sorriso de Leonardo 
Kafka edições baratas (2004)



Sunday, October 01, 2006

Olga





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Olga - Candido Portinari
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No site Germina tem mais informações sobre a Ópera Olga
(vou ver!). Vou estar em São Paulo. Valeu a dica do site
Germina.
Tem poesia minha lá no site, Germina é uma das páginas
que eu acho linda:
....
a ópera:
http://www.germinaliteratura.com.br/musica_olgaopera_set2006.htm
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Theatro Municipal de São Paulo
apresenta
OLGA
Ópera em três atos de Jorge Antunes
de 14 a 16 de outubro 2.006 - detalhes no site germina.

Saturday, September 30, 2006

um sonho



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. Arte: Andy Warhol

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Todas as mulheres queriam ser Bárbara, foi o que me segredou a mais próxima de mim, caminhando ao meu lado pela areia. Eu disse a ela que estava muito difícil encontrar azeitonas na praia. Durante o percurso inteiro eu vi apenas uma encravada na areia suja. No mais, era uma sujeira que a onda atirava: restos de redes de pescadores e sargaços. Não havia sol e estávamos em algum lugar da Bahia. Todo mundo queria ser Bárbara e eu era Bárbara, tinha certeza disso. Na casa, o perfume de plantas e ervas tornava o ar quase sólido e as pessoas preparavam uma festa. Crianças corriam e se divertiam, menos o menino quieto, pequeno, de cabelos longos, vestido como um garoto do século XIX, de suspensórios e calça nos joelhos. Encantei-me com ele, e não deixaram que eu o tirasse do quarto. Havia uma cama antiga e um menino que queria brincar, proibido de brincar. Entre as cenas de ciúmes de um casal, deixo a casa, pensando em onde estaria Calabar? No caminho, vejo conchas violáceas, finas e transparentes espalhadas pela areia. Eu as coloco em uma pequena cesta de vime e sigo me encantando com a cor das conchas, suas formas estranhas.

(Sonho da noite passada, à moda de Jack Kerouac anotei o sonho. Calabar era de Pernambuco, não da Bahia. Bárbara era sua amada... Outro dia falei com a Lindsey Rocha sobre peças de Teatro e falamos desta peça. Das músicas da peça que cantam a Bárbara, a que me enjoa um pouco, por se tornar um refrão que todo mundo repetia quando me conhecia: "Bárbara, Bárbara, nunca é tarde; nunca é demais". E tem a outra, "Cala a boca, Bárbara!" que me significa.)

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Cala a Boca, Bárbara
Chico Buarque / Rui Guerra


Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer,
em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai
Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

Friday, September 29, 2006

Michel Sleiman





















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Céu apacentando estrelas



Leve a mão do olho à direita, veja
erguer a constelação:

Ouverture.
Madrigal
indo acabar
no bocal
da aurora.

E clarinete
a mover
no ar anil
o hemisfério sul:

Canto
menos luminoso,
mais a chão,
da fotografia:

Ângulo
hipernegro:

Hipertexto:

Leve a mão do olho
à esquerda
e olhe o giro de lençóis:

Via láctea
à espreita, piso néveo
crivado de boreal:

Flores roxas.
Algodão.
Pororocas.
Piracemas:

Marte em Vênus:

Líquens. Sêmens.
Filamentos. Filigranas.

O sexo,
um quarto.

A cama,
um céu.

MICHEL SLEIMAN
São Paulo-SP

Thursday, September 28, 2006

andréa motta

Revelação
ecos desta cidadã
sem nome e sobrenome
à sombra dum flamboiant.

Andréa Motta


Jayalakshmi Satyendra

Friday, September 22, 2006

Ho Chi Min



HO CHI MIN

O homem se inicia na pele nua
A pele nua cobre a máquina perfeita
E a alma perfeita em Ho

Amo a oriental certeza
De que a beleza mora dentro
Da pele tecida
Curtida de sol e neve

Foi assim — Ho Chi Min
Tecido rústico, túnica leve
Sandálias de borracha percorrendo trilhas
Doze tigres guardados 
No itinerário único
De seus passos altruístas.

Foi assim - simples como a rota de um pássaro -
Que Ho Chi Min, vestido de arrozais serenos
Descortinado de coragem, força, sabedoria
Reinventou a vitória do espírito forte
Contra frios fuzis e helicópteros ianques

BÁRBARA LIA


Ho Chi Min foi um importante líder nacionalista do Vietnã. Foi presidente da República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte), lutou pela independência do Vietnã e posteriormente pela unificação do país. Morreu antes da derrota norte-americana na guerra do Vietnã.

Friday, September 15, 2006

Os loucos que eu amo



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paul klee


OS LOUCOS QUE EU AMO


Os loucos que eu amo
Roubam segredos de estrelas
Soprando um vento anis
Até desfolhá-las inteiras
Revelando o papiro de sua alma.

Os loucos que eu amo
Esperam - ouvido colado às colmeias -
Pelo cio das abelhas
E rezam para que haja mel
Daqui 5 milhões de anos

Os loucos que eu amo
Amam
Mais que o visível amor
E vestem a invisível pele
De pétalas desfibradas
Das rosas desprezadas

BÁRBARA LIA

Thursday, September 14, 2006

Dragonfly




onde vai você?

demoiselle bleu
asas de seda entre
árvores negras
abaixo a água pura e
folhas do bosque
raiadas de sol.

onde vai você?
demoiselle feu
estrelinhas azuis
em suas orelhas
a comandar o futuro:

- “voa! voa!
dragonfly!
não espere o dia
nem as mariposas
nem as raposas”

- “voa! voa!
dragonfly!
não há mais lendas
tendas
vestidos de rendas
apenas o voo
- dragonfly -
apenas o voo,
nada mais”

BÁRBARA LIA

p/minha aluna Jacqueline, apaixonada por libélulas.

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (III)



O SONO DE GOYA

"Que ninguém possa jamais esquecer esta noite.
Hoje, tocarei a flauta de minha própria coluna vertebral"

(Maiakóvski)

Sonhei com serpentes mortas
dentes cerrados, ventos distantes,
touros,
festins negros
e maré alta -

Quem soprou esses ventos
nas flautas das vértebras
e verteu febre nos dedos
para que compusésemos vendavais
e folheássemos o diário de ouro
que o Deus tocou
que só nos fez chorar?

Quem varreu os cílios
Com o zoom sorrateiro
Da visão do sem nome?

Quem disse:
- Quem beber dessa água lembrará -
essa é a fonte da memória

Quem disse que era Deus?
MÁRCIO DAVIE CLAUDINO DA CRUZ

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (II) Luciana Cañete

UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR! (II)

Será que é demasiado verde a fruta da tua alma?
Será que é demasiado doce a romã do meu ventre?
Descompasso cítrico que
soa como mentira
em minhas pupilas.

LUCIANA CAÑETE

UM LIVRO DE POESIA, POR FAVOR (I)















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Rodrigo Madeira





UM LIVRO DE POESIAS, POR FAVOR (I)


FOTOGRAFIA


onde viridiana, lisandra, babi?
e os filhos que sonhamos antes
da primeira menstruação?
onde elas todas?

o amigo que mudou de cidade?
a vira-lata prenhe no muro de casa acostada?
onde a casa?

onde as antífonas da capelinha?

onde o sol foz-iguaçuense?
que me escarnou a pele
e me tisnou o rosto:
pequeno caçador etíope.

onde as amoreiras?
que eram árvores sem nome
e davam amoras
(dói saber que as árvores têm nomes,
que as amoreiras dão amoras, dói saber).

onde tudo isso?

em mim é que não permanecem.
talvez o passado exista sem ser memória
na dispersão da aura,
na concentração das pedras.

mesmo a lembrança, existe?

talvez apenas borrifou-se-me
um perfume antigo nos olhos
e eles ardem um sol nascente
e eles choram o orvalho do capim.

talvez apenas
o menino se esqueceu de mim
RODRIGO MADEIRA


poesia do site po&teias:
http://br.geocities.com/poeteias/index.htm

Wednesday, September 13, 2006

O aleph azul de Borges

O poema/declaração de amor a Jorge Luis Borges, foi publicado no site cronópios. Os meus poemas mais longos rompem, foi assim com o meu poema mais longo - Uma lua em teu ventre - que escrevi em uma única manhã, e com este que escrevi no tempo exato em que ouvia - Milonga del Ángel - de Astor Piazzola, e no espaço/tempo da lágrima-música eu disse a Borges - Eu te amo!



O ALEPH AZUL DE BORGES


Deixastes aqui teu coração
- Aleph azul
povoado de tigres brancos
e miragens,
que pulsa como esta Milonga Del Angel,
nesta primavera desprotegida
- acordes de Piazzola –


Nuvens brancas a acenar certezas:
teu coração Aleph azul
permanece – no suave ritmo del sul.
Deixastes um Livro de Areia
- tu’alma -
nós todos virando páginas
deste deserto metafísico - noturno e trágico -
que leva à aurora nítida do reino da poesia.


Deixastes aqui teu coração,
Aleph onde trafegam signos vários,
e mesmo que tenhas imprimido sonhos
em grego, sânscrito ou aramaico,
deciframos – em alfa –
tuas mensagens de estrelas.
És um vaso vazio de segredos,
pleno de sóis & luas & signos da nobreza,
em uma azul sinfonia que teces
entre seus dedos, enquanto apontas:

A eterna água,
o ar eterno,
flanando em um vale de sombras
e a inscrição brilhante
em fios de ouro
- não existe tempo –
Guardiões do impossível
levamos ao pescoço a ampulheta
como homens-bombas
explodindo a vida,
sem seguir teus passos-acordes.


Cegos, não percebemos,
a inutilidade da areia que cai em conta-gota,
teu coração quer nos gritar isto -
Aleph azul que guarda segredos rojos.
Alguns o folheiam em prece, como anjos.
Eu o folheio, deslumbrada,
com a mesma cálida e reverente ternura
com que olhava abismada a estrela Vésper.


Azul como teu Aleph coração.
Seta e sinal em meu caminho:
A estrela Vésper
e o Aleph azul de Borges.


BÁRBARA LIA

Saturday, September 09, 2006

Truman Capote






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Truman Capote - 1947 -
foto: Henri Cartier-Bresson
Ver o filme - Capote - dirigido por Benett Miller, ressuscitou as leituras da infância, quando eu me atirava na cama e devorava a revista X-9. A revista era macabra, até hoje não compreendo como meu pai permitia que uma menina de nove ou dez anos embrenhasse por uma sucessão de assassinatos desvendados pelo FBI, que permeavam as páginas amarelas da revista. Era a minha parte preferida da revista, como uma detetive colada à pele dos legistas eu permitia que minha intuição, mente e anseio transmigrasse para cenas de crimes hediondos, arrepiantes e até mesmo fantasmagóricos. Na maioria, crimes cometidos nos anos cinquenta, quando não havia exame de DNA, mas, havia uma investigação capaz de se ater a detalhes preciosos que permitiam chegar ao assassino. Aquilo devia ser mesmo minha veia de escritora, escrutinadora, devassando a mente humana. Truman Capote ficou visivelmente abalado com o episódio mostrado no filme. Quem não ficaria? Não é uma revista, ou uma reportagem televisiva. Ele sentou ao lado do assassino, envolveu-se com ele. Ele viu os mortos e suas feridas, ele sentiu o respirar da absurda falta de sentido que norteia a alma humana. Até que ponto somos anjos ou demônios? Até que ponto este fio tênue pode se romper? O ator Philip Seymour Hoffman foi crucial para este filme, de alguma forma, foi a figura que eu recolheria dentre as páginas amarelas do passado. Ele e sua amiga escritora, entraram no túnel do tempo e se tornaram personagens perfeitos do drama. Aquela casa branca entre árvores de inverno, o rumo que ele deu à sua vida após aquela idéia. Escrever o romance que muda uma vida, e que faz parte da história tem um preço. Truman Capote pagou este preço, a sangue frio. Não me lembro quem escrevia aquelas narrativas da X-9, eram mais que filmes arrepiantes de suspense, era a grama fria e molhada ainda com as pegadas do assassino, o bafo da morte escorrendo das paredes, era mesmo dilacerante como faca de gelo nas artérias, e eu sempre busquei as emoções fortes na vida, no amor e em tudo. Afinal, existe um leque de caminhos, e ficar escondido no escuro é a parte mais chata de toda a história.

Friday, September 08, 2006

ask the dust





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ASK THE DUST (2.006)Colin Farrell (Arturo Bandini), Salma Hayek (Camilla)

"Para uma princesa maia, de um gringo imprestável", a primeira dedicatória de Bandini para Camilla, na revista "The American Mercury".
Confissões de Bandini, para alguém que não é Camilla:
"Ela é perfeita como o tempo, o ar, a neblina e o eucalipto... a empoeirada luz solar. O lugar perfeito para se viver"
"Por que eu me daria ao trabalho de machucar você? Eu nem a amo."

...
Pensei em não ver ao filme, não nublar a obra de arte, ia me tirar daquele cenário que eu compus e que sonhei muitas vezes, sendo um pouco Camilla, com uma sandália que atrai os olhos do amor... A minha era azul e de tanto que eu amava, eu a surrei por caminhos, até que ela esgarçou. Devo guardá-la, devo guardar qualquer objeto onde o amor tenha pousado o olhar, ou a voz, ou os lábios...
Realmente não delirei com o filme, mas, com as palavras de John Fante, de novo caindo como caiam naquele tempo que eu nem lembro se era inverno, verão, ou primavera, em que passei ao lado dele, por todos os lugares. Nem colocaram no filme a cena onde ela rasga os sonetos de amor que ele escrevia, dentro do café, e ele espiando, através do vidro, o escárnio dela. Não era o meu Bandini, nem a minha Camilla, mas, foi uma forma de recordar o livro e de ter desejos de ler outra vez...

Quando li o livro fixei cenas - as sandálias de Camilla, dormir nua abraçada com o amor, sem fazer amor, um olhar de desespero rastreando o Mojave, em busca de uma menina com seu cão. Do escritor que mostra a todo mundo o único conto publicado. Fixei um lugar, dois seres abandonados, ferindo-se até o final, tentando entender as mãos que moldam, as mãos que moldam o vidro, no fogo. Esta mão que nos tritura e gira e aquece, como vidro na fornalha ardente, e nos faz da forma que quer. A mão do amor.

Thursday, September 07, 2006

Maria de Lourdes Jaude

SOMOS NÓS
- Maria de Lourdes Jaude

Sabe aquele homem,
todo de negro, em pleno deserto...
Ao pressentir um avião
ameaçando o solo sagrado.
Mesmo sem saber se é cargueiro
ou de bombardeio.
Desembainha a espada!
Feito uma águia e enfrenta
pisando a terra.
E defende, mesmo sem chance,
seu solo seu chão.
Somos nós imigrantes de outras
terras, diversas paragens.
Que trazemos nosso solo como se
plantado em nossas canções.
Mostrando nossa luta, nossa garra.
Famintos de um mesmo amor...
Mesmo que não haja mais guerras
ou mesmo ensaios
nos fazemos guardiões de supostas quimeras.
Como leões sempre atinados
mesmo se já enraizados em outras paragens ou terras...
Mesmo assim, ainda, nosso coração

andarilho ficou fincado em bosques,
vales, desertos, neves alpes e furacões.
É como se fizéssemos qual aborigenes
que ao menor sinal de fumaça se reúnem
buscando força em pajelanças
buscando nuvens que nos tragam lembranças.

Maria de Lourdes Jaude, poeta, pintora e advogada urbanista.

Poema de Beirute




























Bárbara Lia - Diwan - 04.09.06


Fragmento de - Poema de Beirute - de Mahmoud Darwich, o poeta que escolhi para a leitura na noite de poesia e música árabe, bem como leitura de um pequeno fragmento de Relato de um certo oriente, de Milton Hatoun. 
Michel Sleiman esteve duas vezes no palco, depois da leitura do alcorão em árabe, pelo Prof. Milani, ele leu traduções poéticas suas do alcorão e encerrou com a poesia de Adonis, após a elegia lida pelo sheik.


...Beirute, leito de ruínas
primeiro beijo. Elogio de eucaliptos. Cobertor de mar e mortos
teto sobre estrelas e tendas
poema da pedra. Colisão de andorinhas no peito
céu viúvo pensativo sentado sobre um rochedo
sonora flor, Beirute. Voz de demarcação entre a vítima e a clava
criança que inverteu toda as tábuas das leis
todos os espelhos
e que depois, adormeceu.


Mahmoud Darwich

michel e eu




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Bárbara Lia e Michel Sleiman os poetas que fizeram a ponte Curitiba - São Paulo para a realização da - Noite de poesia e música árabe em solidariedade aos civís do Líbano.

Wednesday, September 06, 2006

Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.






























Michel Sleiman, lendo fragmento do poema longo "Um túmulo por Nova York", do poeta Adonis. 
Ao fundo uma sala árabe, com tapetes, almofadas, o narguilé.

Mínimo fragmento da poesia - Um túmulo por Nova York - do poeta sírio Adonis - traduzida por Michel Sleiman.



"Aqui
no lado musgoso do rochedo do mundo, o único a ver-me é um negro a ponto de ser morto ou um pássaro a ponto de morrer. Pensei:
planta em vaso vermelho em metamorfose enquanto me afasto do umbral, e li:
sobre ratos em Beirute e outras localidades pavoneando-se na seda da Casa Branca, a armar-se com folhas e a roer os humanos,
sobre porcos restantes no jardim do alfabeto a pisotear a poesia"


La nave va...

Meus livros

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