Friday, July 20, 2007

MARCOS LOSNAK

MÚSICA DAS FOLHAS

Vento
é aquilo que retira a imobilidade das folhas

Dor
é o que recheia o corpo de vazios

Amor
é algo que não aparece quando estamos mortos

Brisa
é a sutil compreensão de que nada é imóvel

Wednesday, July 18, 2007

MICHEL SLEIMAN
















Michel Sleiman / Tiraz















Estou à espera de um livro de poesias de Michel Sleiman - poeta e professor de Literatura Árabe da USP. Editor da Revista Tiraz. Está no site do Icarabe a notícia sobre a edição do terceiro número da revista Tiraz e uma entrevista com Michel, que vez por outra me manda belos poemas como o que está aqui.
sobre a revista
= A revista Tiraz, revista acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe da USP, ganha sua terceira edição agora em julho. Apesar de ser editada por um departamento de Letras, ela aborda diversos temas. Isso porque, segundo seu diretor, Michel Sleiman, a revista espelha o que acontece no mundo. “Embora as pessoas queiram saber também sobre literatura, elas querem saber sobre a política, a religião, a língua, a filosofia, a história, a arte dos árabes”. fonte Icarabe www.icarabe.org



para ler a entrevista do Michel:



Roda roda moinho
traz-me voz dessalina

dias vencidos, ondas vagas

traz-me o guerreiro,
a amazona

traz-me e leva
o que venci na última lide

deixei meu cavalo
encilhado no vento

barcarola,
areias, sisal

quando avistei a longa embarcação
e narrou-me Odisseu a odisséia

e Medéia assaltei com olhos vastos

dor dorida dor
troco-te por um par de asas

[Ouvi-te, vim-te, tem-me, lume dos olhos meus.
Retém o fluxo de magma sangrenta.

- Sim, eu te escuto.

Flor tartamuda,
colibri de asas cegas, eras sonho? eras fera?]

Em primeiro sinal
aqui, na tela móvel,

não à sereia
não à cicuta.

Agora

faço corte à majestade
quem em mim é a cara metade.

E tu, desdobrada em sonhos,
em nome dos meus súditos,
crava com teus dentes

no meu peito

o punhal.

MICHEL SLEIMAN

Tuesday, July 10, 2007

DOUGLAS DIEGUES










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non adianta ter segundo grau completo
graduacion pós-graduación doctorado en la gaveta
um bom curriculum que garanta um buen emprego
quem nasceu pra ser una bestia sempre será una besta
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non adianta dominio de la lengua sem la gosma de la experiência
almoçar jantar cagar vomitar grandes assinaturas
que se estendem como grifes de la más alta cultura
quem nasceu pra una besta sempre será una bestia
..
non adianta saber ler y escrever correta
mente, colecionar diplomas que os otários veneram
conhecimento nunca foi sabiduria nem aqui na china nem lá nu Iran
quem nasceu pra ser una bestia sempre será una besta
.
muchos posam de sábio en la mais badalada de las fiestas
mas como diria titia Gertrude: una bestia es una bestia es una bestia
DOUGLAS DIEGUES
Uma flor na solapa da miséria
(em portuñol)
Eloisa Cartonera - 2.005

Sunday, July 08, 2007

MIA COUTO














Mozambique

MEUS JULHOS


1. Sou julho
estou explicado só pelo sol

Meu erro
é procurar um território
apto a nascer

A única geografia
que me aceita é a poesia

Como a chuva
que repousa entre nuvem e terra
me escrevo
na ausência de todas as línguas

2. Me esqueço-me
só me falto eu
para ficar todo só

3. Antes de nascer
já eu tinha envelhecido tudo
Por isso,
não me espanta
o casal de pedras
nem a árvore que engravidou

Minha doença,
felizmente,
é muito miracurável.
Julho 1.989
MIA COUTO
Raíz de Orvalho e outros poemas
Ed. Caminho

Saturday, July 07, 2007

'RAYMUNDO'














Raymundo Gleyzer

Normalmente a tv aberta nada acrescenta, vez por outra, surpreende. Assistir "Raymundo" documentário realizado pelos cineastas argentinos Ernesto Ardito e Vilma Molina, em 2.002, nesta sexta-feira, foi surpreendente. Mostra a América Latina - sempre escamoteada, escondida, velada - que o documentário escancara. Trafega pelo mundo, e abre as portas de uma vida rara, de Raymundo Gleyzer, nasceu em 25 de setembro de 1.941 e durante toda a sua carreira de cineasta dedicou-se a registrar a realidade de seu povo e de outros povos, seu primeiro documentário foi no nordeste brasileiro - La terra quema - e o golpe militar o faz sair às pressas, em um presságio do que seriam seus dias, de coragem e aventura, mas, não a aventura parca, esta que deságua no nada, uma aventura sementeira, de grãos espalhados em México e sua pátria, e a América Latina, tantas horas vividas e filmadas, registradas, em sua vida que foi ceifada, como tantas. É necessário ver, e a incrível sacada dos realizadores do documentário, abrindo o filme com a palavra do colonizador espanhol, de como ainda é latente a dominação da América. É certo que o documentário foi exibido pelo Canal Futura. As grandes redes de TV jamais abririam ao povo um documentário que relatasse a visão de um homem que acreditava e lutava por um socialismo verdadeiro. Raymundo Glayzer foi sequestrado em 27 de maio de 1.976. O cinema argentino cumpre o papel da Arte. Que é extrair da realidade o belo, e tocar de forma humana, e por mais que isto seja difícil, é preciso admitir que qualquer filme argentino que narra os tristes dias dos que desapareceram nos anos obscuros é de uma verdade que arde e alcança dentro, traz sem enfeites os fatos, no Brasil, deixamos o cinema com uma certa impressão de ficção, e então, nunca viveremos em verdade a dor mais funda dos nossos desaparecidos, e Raymundo foi revivido, inteiro em um documentário forte.




"RAYMUNDO"

OBTUVO 15 PREMIOS INTERNACIONALES Y FUE SELECCIONADA OFICIALMENTE EN MAS DE 40 FESTIVALES DE TODO EL MUNDO.

Thursday, July 05, 2007

Drão





“Grão, o amor da gente é como um grão”
Gilberto Gil


grão
grão
grão
a cantar
as horas


gota
gota
gota
a cantar
a chuva


folha
folha
folha
a cantar
o outono

bem-te-vi
bem-te-vi
bem-te-vi
a cantar
novo dia


lâmina
lâmina
lâmina
a cantar
o amor.

(Amar é ferir-se
em
lâminas
sollasidoremifa)

Bárbara Lia
- A última chuva -
(ME - ed. alternativas, 2.007)
-Esta poesia foi publicada na edição de julho do site - Conexão Maringá.
(link ao lado)

Tuesday, July 03, 2007

Eugenio Montale - Non chiederci la parola

Não nos peças a palavra que acerte cada lado
de nosso ânimo informe, e com letras de fogo
o aclare e resplandeça como açaflor
perdido em meio de poeirento prado.

Ah o homem que lá se vai seguro,
dos outros e de si próprio amigo,
e sua sombra descura que a canícula
estampa num escalavrado muro!

Não nos peças a fórmula que te possa abrir mundos,
e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.
Hoje apenas podemos dizer-te
o que não somos, o que não queremos.

Tradução: Renato Xavier

CIAO, AMORE CIAO







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Luigi Tenco.

*

La solita strada
bianca come il sale,
il grano da crescere
i campi da arare.
Guardare ogni giorno
se piove o c'e' il sole,
per saper se domani
si vive o si muore.
E un bel giorno dire
basta ... e andare via.

Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.

Andare via, lontano
cercare un altro mondo,
dire addio al cortile
andarsene sognando.

E poi mille strade
grigie come il fumo,
in un mondo di luci
sentirsi nessuno.
Saltare cent'anni
in un giorno solo,
dai carri nei campi
agli aerei nel cielo.
E non capirci niente
e aver voglia di tornare da te.

Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.

Non saper fare niente
in un mondo che sa tutto,
e non avere un soldo
nemmeno per tornare.

Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Luigi Tenco



A sólita estrada
branca como o sal,
o grão para crescer
os campos para arar.
Olhar cada dia
se chove ou faz sol,
para saber se amanhã
se vive ou se morre.
E um belo dia dizer
basta ... e ir embora.

Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.

Ir embora, longe
buscar um outro mundo,
dizer adeus ao pátios
e ir sonhando.

E após mil estradas
cinzentas como a fumaça,
num mundo de luzes
sentir-se ninguém.
Saltar cem anos
num só dia,
dos carros nos campos
aos aviões no céu.
E não entender nada
e ter vontade de voltar para ti.

Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.

Não saber fazer nada
num mundo que sabe tudo,
e não ter um dinheiro
nem mesmo para voltar.

Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
***

"Esta bela musica, apresentada por Luigi Tenco ao Festival de Sanremo de 1967, foi a causa do seu trágico fim. De fato a musica classificou-se ao décimo segundo lugar e também na sucessiva repescagem lhe foi preferida a musica "Rivoluzione" de Gianni Pettenati. Tenco, arrasado, fechou-se no seu quarto do Hotel Savoy, onde foi encontrado morto com um furo de projétil na cabeça. Foi também encontrado um bilhete escrito de próprio punho que continha a seguinte mensagem: "Eu amei o publico italiano a quem dediquei inutilmente cinco anos da minha vida. Faço isto não por estar cansado de viver (pelo contrário) mas como gesto de protesto contra um publico que manda "Io tu e le rose" para a final e uma comissão julgadora que seleciona "La rivoluzione". Espero que sirva a esclarecer as idéias de alguém. Tchau. Luigi"."






* Quando Luigi Tenco morreu meus irmãos disseram que quem gravava a música Ciao amore, ciao também morria como ele morreu. Recentemente vasculhei sua biografia e descobri que, na verdade, a sua amante na época a cantora Dalida é que tinha um histórico um tanto tétrico - todos os homens que ele amou se mataram. Assim também, Luigi. O que eu não sabia quando era menina e ouvia suas canções é que ele era tão belo. A voz forte e potente era tudo o que sabia, a era do rádio me fazia associar Luigi a um homem velho, e no entanto, ele morreu com 28 anos, um rosto belo italiano e uma história muito estranha...
....
ah! e a letra da canção é pura poesia.

Sunday, July 01, 2007

BAILADO NOTURNO



Ninfetas nuas nas ruas
Trazendo grandes sonhos
de adolescência prematura
Ah, criatura
o que seria de mim sem teus acordes de piano?
Prossigo acreditando promessa
do teu retorno sem pressa, sem medo
Das catedrais do mundo
minhas juras profundas
redundam em devaneios anárquicos
Vira-latas se equilibram
no meio-fio da inconstância urbana
Luzes refletem nossas cabeças
de encantamentos por Alices e marcianos
Procuro teu amor nas drograrias
E até no resto do meu bom senso
que ficou naquela taça
durante a noite...

(everton bortotti & reinaldo henrique
– Fevereiro/1992)

Friday, June 29, 2007

GUIMARÃES ROSA NO ACT

























sábado, 30 de junho...
Leitura pública de Guimarães Rosa, com Luís Melo e direção de Márcio Abreu

Saturday, June 23, 2007

CONCHA ROSSA
















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Gosto dos sonhos feito filmes.
Peço aos anjos – Não me acordem!
Quero pisar algas, morangos, açucenas.

Leve flanar que só o sonho alcança.
Pensei haver sonhado aquele encontro
e raptei concha rossa naquela praia.

Dorme no meu quarto, na orla
do meu leito. Não foi sonho,
foi céu real. E o céu é eterno.
BÁRBARA LIA
(poesia publicada em abril de 2.004
na Revista Etcetera - Travessa dos Editores)


Ilustração - Ana Luisa Kaminski:
www.luisakaminski.nafoto.net

Thursday, June 21, 2007

ANA C.










foto - Cecília Leal

P/Armando Freitas Filho

eu me tenha iludido! eu me tenha iludido! a repetição é fundamental, meu caro. a repetição é fundamental, mas eu me sinto um pouco assim assim, vamos embora, vamos dizer que tudo não passa, vamos dizer que medéia te espera: medéia tem um aspecto mais moderno do que se podia imaginar. ando tal como um hamster, corro pra lá e pra cá qual exatamente um hamster (e não um hamster ferido). chega um ponto. eu sinto falta. digamos que é hora de começar a escrever ''as memórias''. imaginárias memórias boreais. tudo tão antigamente sugestivo. imaginá-las auroras. munir-se de exemplos. contando-as criticamente. este projeto me atrai. o que é a metafísica? eu sinto que me desgarro, me des-garra rútila no portal.eu tenha me iludido!espero qualquer chegada com uma frase: eu tenha me iludido.acho que vou me suicidar.
ANA CRISTINA CESAR

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"Lendo Ferlinghetti não penso/em Nova York no verão/ mas nos cheiros de pessoas que não suspeitam que têm cheiros/e em mim de volta/tentando decifrar saudades/ficções do Humaitá/ lendo Ferlinghetti não penso nos amantes cobertos pela árvore/resistindo e rasgando-se/de novo/penso sim"
ANA CRISTINA CESAR
***

para Ana C.:

AUSÊNCIA.

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


*

Wednesday, June 20, 2007

AL- TUTILI









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Jean Auguste Dominique Ingres


Poética circular
Contam que muáchaha é um estilo de poema típico do Alandaluz, em que o poeta busca reproduzir sons circulares. É quase um canto tal é o efeito anelar da sonoridade do poema em árabe. O tema, em geral, é o da paixão não correspondida, o abandono, a indiferença: “A amada do poema árabe permanece inacessível mas no momento em que se tira o véu, é transformada em sol ou lua, é transfigurada e arrebatada cosmicamente” (Titus Burckhardt). Quem compôs o poema abaixo foi um poeta cego, conhecido como Al-Tutili, o cego de Tudela. Considerado um dos melhores autores de muáchahas, viveu na taifa de Sevilha no século XII, participava de concursos poéticos e seria, quem sabe, um dos animadores dos dîwâns sevilhanos:
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MUÁCHAHA DOS OLHOS LÂNGUIDOS


Por Al-Tutili


Será que será meu, esse cervo que tem

Rosa adornada entre curvas de serpente?
Mesmo se os seus olhos lânguidos me ferem
hei de encontrar no talhe do corpo galhardo
alegria, se a sorte estiver do meu lado.

Deixei a seus pés a minha face rendida
Mas ela cresceu em seu orgulho e malícia
E me disse, e em meu rosto lágrima corria:
“Me diz onde aprendeste este amor extremado?

E eu disse: “Os teus olhos são meu professorado”.

E ainda me disse, e me deixou sem ação:
- Chega de culpar meus olhos, muda a razão!”
E eu lhe disse: “Mha senhor não te ofendas não,
Se não queres, juro não falo mais de agravos
- virei muçulmano, não fala mais o mago.”

Tu bates os cervos com esses olhos lânguidos
E fulminas as virgens do Éden esplêndidas
E saturas a luz com teus olhares cândidos
Amar-te é ter secreto amor, e eu não o espalho,
Não o revelo ao mundo e o levo bem guardado.

Que ser mais belo Deus fez existir na terra!
Meu coração te segue e tu nem mesmo acenas.
Chora aturdido, ouve-o quando se lamenta:
“me diz quanto agüento a ausência não estando
ai da enamorada se não estás tu”.

(tradução do árabe de Michel Sleiman)
Al-Tutili foi poeta no século XII em Sevilha

Michel Sleiman, poeta, professor de Literatura Árabe - USP

-poema publicado no site do ICARABE - apresentado dia 18/06. no Diwân, em Sampa, no Teatro da Aliança Francesa. Coordenado por Lelia Maria Romero, o evento, um conjunto de poesia e dança, foi um retrato dos dramas de árabes no Líbano, Iraque e Palestina. Uma reflexão sobre povos que vivem seus cotidianos mas também lidam com opressão e violências militar e ideológica
www.icarabe.org

Tuesday, June 19, 2007

"MINHA NOITE É UM GRANDE CORAÇÃO BATENDO"
























"9 de novembro de 1951
Menino-amor. Ciência exata.
vontade de resistir vivendo
alegria saudável. gratidão infinita
Olhos nas mãos e
tato no olhar. Limpeza
e maciez de fruta. Enorme
coluna vertebral que é
base para toda a estrutura
humana. Um dia veremos, um dia
aprenderemos. Há sempre coisas
novas. Sempre ligadas à
antiga existência.
Alado - Meu Diego meu
amor de milhares de anos.
Sadga. Yrenáica
Frida.






























"Sozinha com a minha grande felicidade
e a lembrança viva
da menina. Passaram-se 34 anos
desde que vivi esta amizade
mágica e cada vez que a
recordo, mais ela se aviva e mais cresce
dentro do meu mundo.
PINZÓN 1950, Frida Kahlo"


























"Eu sou a desintegração"



"Minha noite me esgota. Ela sabe muito bem que você me faz falta e toda a escuridão não basta para esconder essa evidência. Essa evidência brilha com uma lâmina no escuro. Minha noite quer ter asas para voar até onde você está, envolvê-lo no seu sono e trazê-lo até onde estou. Em seu sono você me sentiria perto e seus braços me enlaçariam sem você despertar. Minha noite não traz conselhos. Minha noite se entristece e se desencaminha. Minha noite acentua a minha solidão, todas as minhas solidões. O silêncio ouve apenas minhas vozes interiores. Minha noite é longa, muito longa. Minha noite teme que o dia nunca mais apareça, porém ao mesmo tempo minha noite teme o seu aparecimento, porque o dia é um fio artificial em que cada hora conta em dobro e, sem você, já não é vivida de verdade." ( Frida Kahlo a Diego Rivera)
- ilustração - páginas do diário de Frida Kahlo.

TV CRONÓPIOS





O site Cronópios Literatura e Arte tem uma página nova - Tv Cronópios. A entrevista com Sérgio Sant'Anna - O ecologista da palavra - excelente! Escancarado, critica a crítica. Sobre o escritor registrar as paixões, mesmo as de fantasia e dos livros que capturam um pedaço da existência, foi muito poético ouvir, lembrou meu livro Noir. Os apadrinhamentos e as elevações de amigos, que é a contumácia no meio literário. Tanta ressonância encontrei nas coisas que ele está ali escancarando. A me dar um ar, perceber que ainda existe quem está colocando a Literatura no lugar que ela precisa estar. E coloca o dedo nas muitas questões que me incomodam... Então, eu vou em frente, com um novo ar, com uma certa pena de quem usa a Literatura, e constrói as castas, as igrejinhas, estas coisinhas assim, pequenininhas, pensando que ninguém percebe... Valeu, pai do André, o cara.


Sunday, June 17, 2007

CLIFTON GIOVANINI

A inquietude de uma tarde monótona respira mais aliviada entre fumaças de cigarros e a pacata morbidez envolta nas agitações sem nome e sem desvio. Recolho-me para sofrer não sofrendo. Não existe tédio quando encontro a solidão perfeita. Tudo o que me resta de mais sombrio e remoto, rejuvenesce-me, pois sou feito de partes distantes que se entrelaçam para encontrar o sentido da menor ação e contemplamento. Sou lento demais para ouvir pegadas e prever seu futuro. Busco na pena o tempo que me sobra, o tempo que me falta. E quando parado vou mais rápido que pensando ou tentando pensar. A luz acompanha tudo o que vemos, até os sentimentos que não temos como classificar... não quero pensá-lo, sinto-me cansado. Mas as evidências logo darão razão ao que falo – meu orgulho é estúpido demais para perceber a mentira. Entrelaço-me entre o sono e os pensamentos que não tenho, e é por isso não me arrependo e insisto em desmentir. Seu único progresso – continuar enquanto alguém estiver dormindo - evitar sempre qualquer ruído, balançá-lo como um recém-nascido, daqueles tão frágeis que não se pode acender a forte luz. Contento-me com uma vela e um aquecedor. O que mais precisaria meu deus! Um papel quente para reclinar esta cabeça que insiste em ouvir o barulho das ondas. E não se apresse! Continue dizendo, continue mal-dizendo... mas continue. E meu lapso é brutal frente aos inimigos que não vejo. Duvido que me tragam algum dia a esperança da retomada. Um cálice! Por favor! Tragam-me o cálice e farei um brinde. A tudo que temos passado. A tudo que haveremos de sofrer. A tudo que viva em que haja poesia.. e uma noite um pouco menos solitária...
- Clifton Giovanini vive em Curitiba.

Saturday, June 16, 2007

MAHALO


MAHALO


 
Acordes de ukulele
Echarpé de meus braços 
Lânguidos
Em teu corpo másculo
Um colar!



Teu olhar
regenera
Minha alma fera
E a carne lacerada
De meus pés cansados
E seca a lágrima
Da infinita espera



Mahalo – sussurro
Em silêncio de prece
Mahalo à poesia
Que te trouxe 
À minha porta


BÁRBARA LIA

Tuesday, June 12, 2007

BATISMO DE SANGUE
















































Sair do cinema, depois de ver Batismo de Sangue, com a alma gelada, na cidade gelada, esperando um ônibus gelado, dentro de um tubo gelado, asséptico, diferente da vida acalorada dos anos sessenta, que engendrava morte - mas, era VIDA.
Eu esperava não ser surpreendida ao ver o filme. Eu sabia que ia cerrar os olhos nas cenas de tortura (foi o que fiz), que ia sangrar de novo a alma junto com Tito, que na França vê "fleurir" rosas do avesso, pétalas espinhosas a ressuscitar o carrasco. Para Tito, passear pela primavera na França era evocar Fleury, pois a palavra fleurir não trazia a magia do colorido que perfuma e atravessa cidades e jardins... Fleurir. Dura palavra. Eu pensava que estava ali para saber de que forma Helvécio Ratton havia construído os espisódios, depois daquela provocação de Frei Betto ao dizer - a vida supera a ficção - e o filme reproduziu fielmente cenas e até mesmo pessoas. Mesmo não sendo citados e mesmo como coadjuvantes, reconhece-se facilmente, José Dirceu e Wladimir Palmeira no episódio do congresso da UNE...
Os dois momentos que revelaram a força do filme. Reproduzir a solidão de Tito, a neve, a ausência dos seus e a saudade da Pátria, isto para mim elucidou um pouco mais a angústia do rapaz que antes de morrer disse a Frei Osvaldo - Já não creio em mais nada: nem em Cristo, nem em Marx, nem em Freud. A grande falha foi não deixar transparecer no filme que ele amava as canções de Milton Nascimento... E a grande hora, que sacudiu dentro em beleza, que fez a paz sentar-se ao meu lado na poltrona, que mostrou que sempre a arte surpreende. A hora de beleza estranha, quando os quatro freis pedem para rezar uma missa, e os carcereiros trazem uma caixa de papelão, dessas onde se colocam pizzas cheias de bolacha maria, e um pacote de Q-suco. E eles arrumam a mesa, e preparam o "vinho" e repartem o corpo de Cristo, com a trilha sonora que traduz mesmo uma certeza de paraíso, meio às grades e os presos, meio ao olhar de escárnio dos carcereiros, que pouco a pouco vai se tornando veneração, diante da fé dos quatro freis, a repartir o corpo de Deus, em profunda comunhão e certeza deste mistério... Foi sim, um reencontro com minha fé perdida, esquecida pelos caminhos, respingada pelo susto de não entender um Deus que não intervém... Assim como não interveio nos caminhos de Tito, nos caminhos de ninguém... Um Deus que se faz bolacha maria e ocupa a cela e espalha uma luz serena, uma paz amena ao redor, em um instante tão cru, se fazer verdade, na oração e na coragem dos frades... Eu pensava que ia segurar a onda, mas, eu estava lá, vivendo a missa verdadeira, aquela diferente das missas assépticas, aquela onde o sacrifício é verdadeiro, então eu chorei de reencontro e partilha e de encanto e de graças por que no mundo existem pessoas que ressuscitam, que acreditam, que não se abalam, nem mesmo na cela...

Não há propaganda do filme, não há muito desejo de que se faça alarde, não há mesmo desejo algum, de que os homens sejam feito eles, assim corajosos, arrebatados por um sonho que eleva e não nivela... Então, o grande deus mercado é mesmo quem recebe os cultos, e por todos os séculos dos séculos amém os homens louvarão as marcas e só amarão as loiras lindas e peitudas e só andarão em carros importados e serão infelizes para sempre sem uma lancha e um helicóptero e uma casa de um milhão de dólares, então a vida vai ser sempre esta busca insana, do gozo leve e lerdo que a vida dá, quando é vivida assim - à margem do belo, sem derramar-se na loucura maior que é o amor, e amor em toda e qualquer dimensão exige alguma coisa que não mais existe - entrega.
Batismo de Sangue - dirigido por Helvécio Ratton - Daniel de Oliveira interpreta Frei Betto. Caio Blat, interpreta Frei Tito, frade dominicano que suicidou-se na França, depois de banido e atormentado pelas torturas sofridas.

PETRARCA






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Botticelli








Canzoniere LXI

Benedetto sia 'l giorno, e l'mese, e l'anno,
e la stagione, e 'l tempo, e l'ora, e 'l punto,
e 'l paese, e l' loco ov'io fui giunto
da' duo begli occhi che legato m'ànno;


e benedetto il primo dolce affanno
ch'i' ebbi ad esser con amor congiunto,
e l'arco e le saette ond'i' fui punto,
e le piaghe che 'nfin al cor mi vanno.


Benedette le voci tante ch'io,
chiamando il nome de mia donna, ò sparte,
e i sospiri, e le lagrime. e 'l desio;


e benedette sian tutte le carte
ov'io fama l'acquisto, e 'l pensier mio,
ch'è sol di lei, si ch'altra non v'à parte.

FRANCESCO PETRARCA
(1.304 - 1.374)

Sunday, June 10, 2007

Céu Curitibano













Céu curitibano
Nicotizado
Pela triste fumaça
Do teu cigarro
Céu quase-negro
Céu de corvos rejeitados

É o eco da tua fúria
Que estilhaça
Na minha vidraça


Bárbara Lia





Dez anos, pequenina cidade de Peabiru
Quantas mentiras meus olhinhos beberam
No Cine Vera?
Amor passeando de lambreta
Rasgando ruas de Roma
A beleza exótica de Troy Donahue
A professorinha enamorada na garupa
O amor idealizado "Candelabro italiano"


Esfarrapado e imundo
Dei de cara com ele, enfim
Mendigo extraviado
Que implora pra ser notado.
Eis o amor:
Despejado
Humilhado
Não vive em estrelas
Nem no mar profundo
Nem no limite do mundo
Está sempre no meio do caminho
Pedra
Poema
Estirado
Cão sublime à espera
De um dono franciscano
Que o acolha
Com todas as chagas
E enganos

BÁRBARA LIA


La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia

Connor Storrie (Ilya Rozanov). Cenas da série canadense 'Heated Rivalry'. Baseada no livro de Rachel Reed. Direção e Adaptação do ge...