Wednesday, October 14, 2009

Anos loucos



O relógio virou peça de decoração. O alívio neste tempo sem hora marcada, sem precisar bater o ponto. Pena que o cansaço daquela noite fez com que eu desmaiasse no sofá. O filme que começava era - Anos loucos - Kiefer Sutherland interpretando William Burroughs e a cena que vi antes de apagar - ele coloca o chapéu, despede-se da esposa (Courtney Love) e sai. A sala e a porta iguais as minhas. A imagem daquele homem de terno e chapéu e óculos. Ele diz tchau e sai pela porta. Acordo com a Tv desligada. Sempre tem algum filho que desliga o aparelho e eu fico ali, no meu sofá preferido, dormindo. Acordei com aquela sensação que o moço que saiu ia voltar. Lá estava eu acordando para a realidade misturada com a fantasia do cinema. Alguns segundos para perceber que aquele era um personagem. Que aquela porta da cena não era minha. Pena! Ia ser maravilhoso se ele retornasse, ali, na minha sala, na minha porta e sentasse alguns minutos para um café, bem brasileiro. Um café com William Burroughs. Esperar que o canal reprise, esperar para ver o filme. A crítica não é boa, é que nada consegue alcançar os mitos. Nada. O cinema tenta, mas, não é bom sentar para ver um filme dos beats, ou John Fante. Aquelas caras de Hollywood vestindo o imagem daquelas feras. Os caras. Eu pensei em uma estratégia que certamente os diretores não pensam - contratar atores novos, desconhecidos. Se eles soubessem como construímos no imaginário os nossos mitos, os escritores que admiramos, quiçá eles entendessem e não colocassem estes galãs na pele dos nossos caras. Quem sabe.

hoje em sampa

Saturday, October 10, 2009

Jardim do Caos I

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Primeira manhã do mundo

A mãe das Hespérides

Enlouquece do mal da espera

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Lembra sua imagem na árvore - cicatriz -

Entalhe do corpo extasiado em pleno rito

Uma obra de Claudel – in natura.

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Pés lascivos a entrelaçar-se

Tango na grama do bosque secreto

Corpos estremecidos no ato

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Platéia silenciosa do outono:

Folhas amarelas & Butterflies

Fugitivas de Alcatraz.

Bárbara Lia

TRÍADE DA ESTRELA TRISTE

(livro inédito)

Movimento em Falso





O Telecine Cult está apresentando em todas as sextas de outubro a sessão - Drive In - dedicada aos trabalhos menos conhecido do diretor Wim Wenders. Ontem vi Movimento em Falso, interrompido pela chegada de uma visita, algumas cenas perdidas. Você convida a visita para ver o filme - Vamos ver Win Wenders. O filme começa com a mãe que leva o filho a estação e diz para ele não se abalar com aquela estranha pergunta - O que você faz? É claro que todo mundo se surpreende quando você não diz, médico, contador, professor... Genial a velhinha dizer para ele se impor como escritor. On the road. Pela sinopse acreditei que o filme todo seria em um trem, os personagens deixaram o trem, pegaram um carro, atravessaram cidades alemãs. Nastassja Kinski uma menina. O filme traz uma atriz que não mais ouvi falar - Hanna Schygulla - e Rudiger Vogler no papel do escritor. Tem um senhor mais velho, um atleta olímpico que foi um dos torturadores nos campos nazistas e leva a garota Mignon - Nastassja - com ele na viagem, a atriz e um poeta que encontram no trem nesta travessia. Quando o filme é dele eu me sento e espero para ver poesia - e uma das falas do escritor - mais vale querer escrever que escrever, mais vale querer amar que amar. É o desejo que impulsiona o mundo. O querer. As asas. As asas do desejo.

Wednesday, October 07, 2009

Constelação de Ossos

(...)


No embalo lento da rede ele contou sobre sua nova missão –

Viajar para a Espanha e fazer uma matéria sobre as mulheres do Brasil que seguem para lá e acabam trabalhando em boates e viram escravas do sexo.

Uma catarata abrupta de água gelada despencou em mim.

Como se meu passado fosse um cão perdigueiro que nunca vai perder as minhas pegadas.

Minhas mãos crispam e ele me olha de uma forma estranha.

Sinto desejo de repetir a frase.

A primeira frase que quase disse a ele quando da sua chegada.

Então, eu sou a Lyn, garota de programa.

Sou puta.

Mas, eu não era mais, eu não queria ser.

Ele era diferente de tudo e de todos que encontrei.

Heleno era um amante que eu dividia com minha vida de favores pagos para comerem minha carne, e eu nunca pensava que queria ser só de Heleno, que queria beijar só Heleno e que doía muito pensar Heleno perdido em outros braços.

Não.

Heleno era um caso. Igor era outro eu.

Sentia-me parte dele e as nossas mãos fundidas davam aquela sensação de continuidade – meu corpo continuava no seu corpo.

Meu silêncio fez com que ele me interrogasse com seus olhos lindos.

Sorri tentando apagar a lembrança de noites, corpos, gemidos.

Eu seguia tentando afogar os gemidos, cerrar as cortinas, fechar a porta de todos os quartos onde estive e cedi meu corpo e fui apenas carne porta-esperma perfume de juventude curvas boca de Afrodite cona de Lucrecia Bórgia dançarina do ventre gueixa.

Onde lavar-me para destruir cada digital na pele toda agonia de orgasmos que abriguei em troca de uma nota azul com uma garoupa estampada?

Igor tirou uma mecha de cabelo da minha testa.

– Só três semanas, Lyn.

(...)

Bárbara Lia

-fragmento de um romance inédito

Tuesday, October 06, 2009

Mar Partilhado - A poesia brasileira em duas publicações

Há alguns anos recebi um email do Luis Serguilha, ele enviou-me seus livros e eu tinha apenas o Noir. Enviei o livro que tinha naquele momento - Noir - ele escreveu um texto criativo sobre o Noir - um dos muitos diálogos que ele engendrou com a poesia contemporânea tupiniquim- este texto foi incluído no livro:

- Roberto Piva e Francisco dos Santos – Lumme Editor, 2008. diálogo crítico-criativo do poeta Luis Sergilha com mais de 40 autores brasileiros.

Guardo as palavras do autor - esta rota aberta pelo Serguilha - Mar de Partilha:
"TU FAZES PARTE DO LIVRO ( AS TUAS CONSTRUÇÕES POÉTICAS NAVEGAM ENTRE OUTRAS EMBARCAÇÕES)...

AS TUAS CORRENTEZAS POÉTICAS ...TAMBÉM FORAM RESPONSÁVEIS PELA ELABORAÇÃO DESTE LIVRO" - L. SERGUILHA

Agora o Edson Cruz me conta que aquela - pergunta inocente- O que é poesia? Vai render um livro, 43 opiniões dos poetas do Brasil. O que é poesia? O livro vai sair pela editora do Márcio -André - Confraria do Vento. Fico muito feliz em ser parte da constelação e do mar da poesia, sob o olhar do Edson Cruz, do Luiz Serguilha, dos amigos daqui e de amigos distantes, de leitores e pessoas que leram meus versos desde o primeiro publicado, as palavras tão iguais que ouço - As mesmas palavras que ouvi do Jornalista que vive mergulhado na Literatura e do senhor que que mora no quinto andar - Não deixe de escrever...

Sobre o livro - O que é poesia? - Confraria do Vento
no site do Edson Cruz:

http://sambaquis.blogspot.com/2009/09/poeta-radioativo.html

link para o livro do Luis Serguilha - Livraria Cultura
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?palavra=roberto+piva+e+francisco+dos+santos&tipo_pesq=titulo&sid=89321910911916847336704232&k5=1AC757E0&uid=&limpa=0&parceiro=OOXAIT&x=21&y=8

Gracias a la vida!



- Para lembrar Mercedes Sosa - Recebi ontem esta poesia do Michel Sleiman - infinita Mercedes. Fiquei pensando naquele verso - Tudo muda, graças à vida! Tudo muda. Lembra a poesia do Ferreira Gullar - Dentro da Noite Veloz - Tudo muda, ainda que lentamente. Gracias à la vida. Me ha dado tanto...
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A uma profetisa que tocou as nascentes

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Erga-se o hino,

exaltem os sinos

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a profetisa das massas encontra enfim seu destino entre os maiores.

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Estrado que seus pés tocarão nas margens sólidas dos rios do Paraíso,

receba os pés da profetisa que tocou as nascentes,

o brado longo nas cordas tangentes, ecoando o bordão da gente oprimida.

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Tudo muda, graças à vida que nos ensina, que nos dá e tira, e nos volta a dar em dobro.

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O tempo da espera tem nova dimensão.

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A fé é uma estrada a ser seguida com afinco. O tempo nos renderá benesses mais seguras.

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Tudo muda. O pássaro é o colibri. O pássaro é o falcão. Asas de toda sorte fazem mais alto o céu.

Hoje o céu dos mundos é maior com as asas de Mercedes Sosa.

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Eterna a rainha das alegrias e das dores. Tudo muda, graças à vida!


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Michel Sleiman nasceu em 1963 em Santa Rosa, RS. Participou de livros coletivos de poemas, Tem dois livros de crítica e tradução da poesia árabe-andalusina: A Poesia Árabe-Andaluza (Coleção Signos, da Perspectiva, 2000) e A Arte do Zajal (Coleção Estudos Árabes, da Ateliê, 2007). Dirige a Revista Tiraz de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio e preside o Instituto da Cultura Árabe, em São Paulo, onde é professor doutor de Língua e Literatura Árabe da USP. Seu primeiro livro de poesias está no prelo, estourando por aí - pela Atêlie Editorial.

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...